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Tuesday, October 11, 2011

PERSEGUIÇÃO

PERSEGUIÇÃO (Joyride, 2001, 20th Century Fox, 97min) Direção: John Dahl. Roteiro: Clay Tarver, J. J. Abrams. Fotografia: Jeffrey Jur. Montagem: Eric L. Beason, Scott Chestnut, Todd E. Miller, Glen Scantlebury. Música: Marco Beltrami. Figurino: Terry Dresbach. Direção de arte/cenários: Rob Pearson, Beth DeSort. Produção executiva: Jeffrey Downer, Bridget Johnson, Patrick Markey, Arnon Milchan. Produção: J. J. Abrams, Chris Moore. Elenco: Paul Walker, Steve Zahn, Leelee Sobieski. Estreia: 05/10/01

Em "Encurralado", que Steven Spielberg dirigiu muito antes de ser o cineasta poderoso que é hoje, um homem comum passa a ser perseguido em uma rodovia por um caminhão conduzido por uma misteriosa personagem cuja identidade o roteiro não tem a menor pretensão de esclarecer. Dono de uma tensão quase insuportável, o filme fez enorme sucesso, transformou Spielberg em uma grande promessa (cumprida muito bem, como a história comprova) e gerou inúmeros filhotes. Um desses filhos temporões é "Perseguição", dirigido pelo conceituado John Dahl, autor de filmes cultuados como "O poder da sedução", com Linda Fiorentino e sérios como "Cartas na mesa", com Matt Damon e Edward Norton. A boa notícia? A premissa kafkiana ainda se mantém capaz de provocar tensão. A má notícia? Ao contrário da pequena obra-prima spielberguiana, o novo filme não resiste ao apelo de jogar suas personagens em um final com um clímax um tanto quanto forçado e quase cansativo.

Ao contrário de "Encurralado", que tinha uma única personagem atormentada pelo vilão, em "Perseguição" o número de vítimas aumenta para três. Se não, vejamos. O estudante boa-pinta Lewis (Paul Walker) compra um carro de segunda mão com o objetivo de impressionar a garota por quem está apaixonado, a amiga de infância Veena (Leelee Sobieski, mais sem graça do que macarrão sem molho), que estuda em uma universidade distante de sua casa. No caminho para buscá-la ele dá uma parada para dar uma carona a seu problemático irmão mais velho Fuller (o sempre carismático Steve Zahn), que acaba de sair mais uma vez da cadeia. Antes de chegar à universidade de Veena, os dois irmãos fazem um trote pelo rádio do carro com Rusty Nail, que dirige um caminhão. O trote acaba em tragédia quando um viajante inocente é atacado injustamente e, apavorados, os dois não revelam o acontecido à garota, que acaba sendo envolvida em uma apavorante viagem quando o misterioso caminhoneiro volta a perseguí-los.



"Perseguição" é um filme de suspense bastante envolvente e que não deixa de surpreender pela legítima vontade que tem de agradar aos fãs do gênero sem maiores pretensões do que divertir por hora e meia uma plateia acostumada a correrias e explosões. O nome de J.J. Abrahams - criador da série "Lost" - entre os roteiristas também é uma pista de que tudo não passa de uma homenagem sem grandes ambições ao clássico de Spielberg - homenagem que o próprio Abrahms potencializou no nostálgico "Super 8", de 2011.

Mesmo que tenha alguns furos homéricos no roteiro (a amiga de Veena, pega como refém, simplesmente é deixada de lado no final da história), "Perseguição" cumpre o que promete. Com um bom balde de pipoca e um refrigerante nas mãos, o filme menos ambicioso de John Dahl não permite nem mesmo que seu final quase apoteoticamente exagerado consiga atrapalhar a diversão ligeira a que se propõe.

Friday, June 17, 2011

MENSAGEM PARA VOCÊ

MENSAGEM PARA VOCÊ (You've got mail, 1998, Warner Bros,) Direção: Nora Ephron. Roteiro: Nora Ephron, Delia Ephron, peça teatral "Parfumerie", de Miklós László. Fotografia: John Lindley. Montagem: Richard Marks. Música: George Fenton. Figurino: Albert Wolsky.  Direção de arte/cenários: Dan Davis/Susan Bode, Ellen Christiansen. Produção executiva: G. Mac Brown, Julie Durk, Delia Ephron. Produção: Nora Ephron, Lauren Schuler Donner. Elenco: Tom Hanks, Meg Ryan, Greg Kinnear, Parker Posey, Steve Zahn, Dabney Coleman, Jean Stapleton. Estreia: 18/12/98

Levando-se em consideração o enorme sucesso de "Sintonia de amor", em que Tom Hanks e Meg Ryan foram dirigidos por Nora Ephron - e que rendeu mais de 220 milhões de dólares pelo mundo - até que demorou para que os três nomes voltassem a enfeitar o mesmo cartaz. Cinco anos separam "Sintonia" de "Mensagem para você", mais uma deliciosa comédia romântica comandada pela roteirista do já clássico "Harry & Sally, feitos um para o outro". Nesse meio-tempo, Hanks passou de comediante simpático a ator sério e respeitado - e dono de dois Oscar consecutivos - e Ryan tentou fugir da armadilha de tornar-se atriz de um papel único, chegando a ponto de encarar um filme de guerra - "Coragem sob fogo" - e um papel de alcóolatra - em "Quando um homem ama uma mulher". O que fica claro em "Mensagem para você" é que a química entre os dois não se alterou um mílimetro sequer: são eles, aliados ao texto sempre irônico e ágil de Ephron, que fazem do filme um programa sem contra-indicações.

Refilmagem livre e modernizada do clássico "A loja da esquina", que Ernst Lubitsch dirigiu em 1940 e onde James Stewart e Margaret Sullavan trocavam calorosas cartas amorosas enquanto se odiavam como colegas de trabalho, "Mensagem para você" mais uma vez usa o charme natural de Nova York como cenário de um romance capaz de afastar todo e qualquer cinismo e conquistar o público sem fazer esforço. Seguindo a receita vitoriosa de "Sintonia de amor", o filme de Ephron também se aproveita de uma deliciosa trilha sonora e da simpatia dos coadjuvantes: além de uma dupla central imbatível, desfilam pela tela Greg Kinnear, Parker Posey e Steve Zahn em atuações extremamente simpáticas e eficientes.


Kathleen Kelly (Meg Ryan adorável mas repetindo os trejeitos de sempre) é a brava dona de uma pequena livraria infantil localizada em uma zona valorizada de Nova York. Com um público fiel que conhecem o estabelecimento desde que era de sua mãe, a livraria chamada "A loja da esquina" começa a sofrer a concorrência desleal da filial de uma enorme cadeia de megastores de propriedade de Joe Fox (Tom Hanks). Furiosa com a possibilidade de ir à falência, Kathleen conta com o apoio do namorado, o jornalista Frank Navasky (Greg Kinnear) e dos funcionários, mas é somente pela Internet que ela realmente se sente à vontade para ser ela mesma. Assumindo o apelido de Shopgirl, ela se apaixona virtualmente por NY152, sem nem de longe desconfiar que ele é, na verdade, seu maior rival.

O roteiro de "Mensagem para você" se desenvolve sem maiores surpresas ao espectador, mas o faz de maneira tão honesta que fica difícil não compactuar com seu humor romântico e quase ingênuo. Juntos em cena, Meg Ryan e Tom Hanks são o perfeito exemplo de atores carismáticos e devidamente aproveitados. É principalmente devido a eles que a audiência acredita piamente que dois estranhos completos podem se apaixonar perdidamente através da Internet sem ao menos ver o rosto um do outro. E é lógico que, caminhar nas ruas arborizadas e coloridas de Manhattan e ao som de Cranberries, Sinnead O'Connor, Roy Orbison e Louis Armstrong não atrapalha em nada nessa missão.

Thursday, May 26, 2011

IRRESISTÍVEL PAIXÃO

IRRESISTÍVEL PAIXÃO (Out of sight, 1998, Universal Pictures, 123min) Direção: Steven Soderbergh. Roteiro: Scott Frank, romance de Elmore Leonard. Fotografia: Elliot Davis. Montagem: Anne V. Coates. Música: David Holmes. Figurino: Betsy Heinman. Direção de arte/cenários: Gary Frutkoff/Maggie Martin. Produção executiva: Barry Sonnenfeld, John Hardy. Produção: Danny DeVito, Michael Shamberg, Stacey Sher. Elenco: George Clooney, Jennifer Lopez, Ving Rhames, Don Cheadle, Catherine Keener, Steve Zahn, Dennis Farina, Albert Brooks, Luis Guzman, Viola Davis. Estreia: 26/6/98

Em 1998, o escritor norte-americano Elmore Leonard estava na crista da onda. Barry Levinson havia dirigido "O nome do jogo", elogiado pela crítica e premiado com um Golden Globe. O cultuado Quentin Tarantino tinha realizado "Jackie Brown" baseado em seu romance "Run Punch" e feito um trabalho excepcional. Para completar o quadro só faltava mesmo um diretor cult: Steven Soderbergh, premiado em Cannes com seu "sexo, mentiras e videotape" em 1988 deu às tramas de Leonard a sofisticação que faltava ao humor negro de Levinson e à violência de Tarantino. "Irresistível paixão" é um policial romântico com alto grau de sensualidade, tudo graças à química impecável entre Jennifer Lopez e George Clooney.

Jack Foley (vivido com o charme habitual de Clooney, exercitando seu lado Cary Grant anos 90) é um assaltante de bancos profissional. Durante uma fuga de uma de suas condenações, ao lado de seu parceiro de todas as horas, Buddy Bragg (Ving Rhames), ele acaba ficando preso no porta-malas de um carro junto com Karen Sisco (a belíssima Lopez, melhor atriz do que se poderia esperar), uma agente do FBI que estava na penitenciária por acaso. Surge uma atração irresistível entre eles, mas logicamente eles se afastam sem consumar o desejo nascido de maneira tão absurda. Sem conseguir esquecer um do outro, eles vêem seus caminhos novamente cruzados quando, no processo de dar um de seus grandes golpes, Foley esbarra novamente em Karen, que, fascinada, se divide entre os novos sentimentos e os deveres profissionais.


Não é preciso ser um expert em cinema para perceber que "Irresistível paixão" foge dos padrões habituais do cinema policial. Primeiro, não há um herói típico, de moral ilibada e incorruptível. Depois, o mocinho é um criminoso, apesar de esbanjar charme e não abusar da violência. E por fim, em muitos momentos a plateia se vê torcendo por ele e por seu romance complicado com a policial. Além disso, o filme de Soderbergh deita e rola em uma edição inteligente, que privilegia as idas e voltas do roteiro, deixando o público sempre à espera dos próximos acontecimentos (que além de tudo são bastante imprevisíveis). E além da trama divertida e envolvente, o cineasta mostra-se, mais uma vez, um exímio diretor de atores, todos eles fantásticos (com a exceção, novamente, de Michael Keaton, que repete sua atuação pifia de "Jackie Brown" na pele do mesmo policial Ray Nicolette).

O elenco coadjuvante de "Irresistível paixão" é um de seus maiores trunfos. Um irreconhecível Albert Brooks vive um milionário que, depois de passar uma temporada na prisão, torna-se uma vítima em potencial das armações de Foley; Don Cheadle brilha como o marginal Maurice Miller e Steve Zahn volta a divertir a audiência como o atrapalhado Glenn Michaels. Mas não há como falar do filme sem que venha imediatamente à mente o excelente trabalho de sua dupla central. Linda, sensual e convincente mesmo como uma policial, Jennifer Lopez tem aqui um dos maiores destaques de sua carreira. E Clooney aproveita a desenvoltura da parceira para construir um Jack Foley que ele mesmo considera uma de suas melhores atuações.

"Irresistível paixão" é um divertido entretenimento de classe e categoria. Inteligente, sarcasticamente engraçado e absolutamente sexy, é um filme que, apesar da bilheteria decepcionante, merece ser descoberto e aplaudido por sua criatividade e por seu elenco impecável.

Friday, May 20, 2011

A RAZÃO DO MEU AFETO

A RAZÃO DO MEU AFETO (The object of my affection, 1998, 20th Century Fox, 111min) Direção: Nicholas Hytner. Roteiro: Stephen McCauley, romance de Wendy Wasserstein. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Tariq Anwar. Música: George Fenton. Figurino: John A. Dunn. Direção de arte/cenários: Jane Musky/Susan Bode. Produção: Laurence Mark. Elenco: Jennifer Aniston, Paul Rudd, Nigel Hawthorne, Steve Zahn, Allison Janney, Alan Alda, Tim Daly, John Pankow, Amo Gulinello. Estreia: 17/4/98

De todo o elenco da bem-sucedida série de TV "Friends", quem tentou com mais afinco uma carreira cinematográfica foi Jennifer Aniston. Mesmo que seu trabalho na série ainda seja seu ponto mais alto, não se pode reclamar de "A razão do meu afeto", uma delicada comédia romântica, dirigida pelo prestigiado Nicholas Hytner de "As bruxas de Salem", que tem sua premissa central em uma relação sui-generis entre uma jovem heterossexual e seu melhor amigo gay.

Tentando - e em vários momentos até conseguindo - afastar-se dos maneirismos de Rachel Green,  sua personagem mais conhecida, Aniston vive Nina Borowski, uma assistente social que vive no Brooklyn, namora por inércia um advogado mais velho (John Pankow) e que tem que lidar com os ataques de esnobismo da irmã bem-sucedida, casada com um famoso editor (um casal vivido com propriedade e bom-humor por Allison Janney e Alan Alda). Em um dos jantares promovidos para uní-la com um dos amigos do casal, ele conhece George (Paul Rudd), um professor do primário cujo relacionamento com Joley(Tim Daly), um médico metido a sedutor, acaba de terminar. Sensibilizada com a situação do jovem, ela o convida para dividir seu apartamento. Os dois iniciam uma bela amizade e quando ela se descobre grávida, decide romper o namoro e chama o rapaz para ajudá-la na criação do bebê. A estranha família está formada, mas quando George se envolve com Paul (Amo Guilinello), um aspirante a ator, o delicado equilíbrio se desfaz e ela descobre que está apaixonada por ele.



Um dos maiores méritos de "A razão do meu afeto" é o retrato sem estereótipos da comunidade gay. Ainda que certos clichês ainda existam - o crítico de teatro, homossexual de terceira idade vivido com maestria por Nigel Hawthorne consegue escapar das armadilhas com admirável competência - eles são tratados com naturalidade, respeito e um bom humor contagiante. A própria relação entre os protagonistas - que caminha no fio da navalha em cada cena - é mostrada sem apelar para a vulgaridade e/ou complacência, encontrando em seus atores as encarnações perfeitas. Paul Rudd é encantador como o doce e romântico George, justificando a paixão que desperta em Nina, e o veterano Nigel Hawthorne por pouco não rouba o filme para si (além de ser o dono das falas mais consistentes do roteiro, baseado em um romance de Wendy Wasserstein). Ao lado deles, Jennifer Aniston demonstra uma segurança poucas vezes vista em seus trabalhos anteriores.

Ao fugir também do obrigatório final feliz - ao menos do clássico final feliz - o filme de Hytner demonstra uma maturidade que falta a dezenas de outros produtos que tentam ser modernos ao tratar de um assunto tão carente de bons filmes. No final das contas, "A razão do meu afeto" é um perfeito exemplo de comédia romântica, com um belo par central, diálogos inteligentes mas nunca intelectualizados e uma deliciosa trilha sonora, que inclui uma delicada regravação de Sting para a clássica "You were meant for me", conhecida graças à "Cantando na chiva". É um filme que merece ser descoberto por uma plateia maior do que os nichos GLBT e fãs de "Friends".

Wednesday, March 9, 2011

THE WONDERS, O SONHO NÃO ACABOU

THE WONDERS, O SONHO NÃO ACABOU (That thing you do!, 1996, 20th Century Fox, 108min) Direção e roteiro: Tom Hanks. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Richard Chew. Música: Howard Shore. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Victor Kempster/Merideth Boswell. Produção: Jonathan Demme, Gary Goetzman, Edward Saxon. Elenco: Tom Hanks, Jonathon Schaech, Tom Everett Scott, Liv Tyler, Steve Zahn, Ethan Embry, Giovanni Ribisi, Charlize Theron, Rita Wilson, Kevin Pollak, Chris Isaak. Estreia: 04/10/96

Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("That thing you do!")

Premiado com dois Oscar consecutivos de melhor ator e um dos astros mais populares de Hollywood, Tom Hanks acrescentou mais um sucesso à sua carreira, em 1996, dessa vez em uma missão tripla. Em "The Wonders, o sonho não acabou", ele não apenas faz um pequeno papel coadjuvante: ele é também o roteirista e o diretor, unindo-se ao time dos atores tornados cineastas. Porém, ao contrário de nomes que foram ambiciosos em suas incursões para trás das câmeras, como Mel Gibson e Kevin Costner - só para citar nomes mais recentes - Hanks não fez sua estreia com um projeto grandioso ou de olho em estatuetas douradas. "The Wonders" é a cara de seu criador: agradável, simples e bem-humorado.

Ligeiramente inspirado na trajetória dos Beatles, Hanks inventou a história dos Wonders, um grupo de rock que, no início dos anos 60, conhece o gostinho do sucesso mas vê toda a sua possibilidade de reconhecimento internacional ruir devido aos problemas entre seus integrantes. Apesar de parecer mais um dramalhão que analisa egos inflados e retrata violentas auto-destruições, o filme do eterno Forrest Gump opta pelo viés cômico e leve, com um revestimento romântico e delicado que a trilha sonora vibrante e dançante reitera lindamente. Sob os olhos otimistas e generosos de Hanks, a história dos Wonders não é nada mais do que uma deliciosa viagem musical para o início do rock'n'roll.

É 1964, e a pequena cidade de Erie, na Pensilvânia é o lar de um grupo de amigos que aproveitam seus tempos livres para brincar de músicos. Depois que seu baterista sofre um acidente e quebra o braço, o jovem Guy Patterson (Tom Everett Scott) é convidado por Jimmy Mattingly (Jonathon Schaech) a assumir seu lugar. Dando uma batida mais rápida à balada "That thing you do!", composta por Jimmy - e tocada à exaustão no decorrer do filme - Guy acaba empurrando o grupo às paradas de sucesso. Empresariados pelo competente White (Tom Hanks), do selo Play-Tone, eles logo começam a galgar posições nas paradas de sucesso. Seu êxito logo torna-se uma ameaça ao relacionamento entre Guy e sua bela namorada, a doce Faye (Liv Tyler).


Deixando de lado toda e qualquer preocupação melodramática ou existencialista, o roteiro de Hanks é um primor de leveza e simpatia. Não há nenhum drama insuperável nem intrigas de bastidores como normalmente ocorre em produções do tipo. O baixista acidentado (vivido por Giovanni Ribisi) não tenta sabotar seu substituto nem existe uso de drogas ou bebidas. O universo rock'n'roll criado por Hanks é um universo totalmente desprovido das mazelas do mundo da música e isso talvez seja a razão porque o filme seja tão irresistível, mesmo que não tenha feito o barulho esperado em termos de bilheteria. Para um público acostumado aos excessos de Jim Morrison, Sid Vicious e Janis Joplin, encarar um grupo tão certinho como os Wonders talvez soe como um retrocesso inadmissível. O que esse público não desconfia é que nem só de overdoses e orgias sexuais vive o mundo da música (ao menos dentro da mente Polyanna de Tom Hanks)

No fim das contas, "The Wonders" é um delicioso entretenimento, capaz de divertir por duas horas em exigir nada mais do que a vontade de se deixar acompanhar por personagens simpáticos, uma trilha sonora dançante e a reconstituição de uma época dourada (mesmo que já manchada pela morte de Kennedy e pela guerra do Vietnã). E além de tudo, o filme tem Liv Tyler, deslumbrante e meiga, no auge de sua beleza etérea. Quem precisa mais do que isso para se divertir?