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Sunday, October 24, 2010

GREEN CARD, PASSAPORTE PARA O AMOR

GREEN CARD, PASSAPORTE PARA O AMOR (Green card, 1990, Touchstone Pictures, 107min) Direção e roteiro: Peter Weir. Fotografia: Geoffrey Simpson. Montagem: William Anderson. Música: Hans Zimmer. Direção de arte/cenários: Wendy Stites/John Anderson, Ted Glass. Casting: Dianne Crittenden. Elenco: Gerard Depardieu, Andie MacDowell, Bebe Neuwirth, Gregg Edelman, Robert Prosky, Lois Smith. Estreia: 23/12/90

Indicado ao Oscar de Roteiro Original
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Melhor Ator Comédia/Musical (Gerard Depardieu)

Apesar de contar em seu currículo com filmes densos como "O ano em que vivemos em perigo", "A testemunha" e "Sociedade dos poetas mortos" - todos eles merecidamente incensados pela crítica - o australiano Peter Weir sabe ser leve e divertido. Uma prova disso é "Green card, passaporte para o amor", uma saborosa comédia romântica que foge dos padrões do gênero ao acrescentar a eles uma inteligência rara. Não à toa, o filme de Weir recebeu uma merecida indicação ao Oscar de roteiro original - que perdeu para o blockbuster "Ghost, do outro lado da vida". Escrito pelo próprio diretor para ser a estreia em Hollywood de Gerard Depardieu, "Green Card "consegue ser doce, esperto e, mais do que qualquer outra coisa, consegue se desvencilhar das armadilhas que tramas como a sua normalmente possui. Pode não ser o filme dos sonhos para um público que gosta de romances tradicionais, mas entrega mais à audiência do que paisagens fotogênicas, piadas engraçadinhas e rostos bonitos dá a ela um roteiro consistente, coerência e um casal de atores acima da média interpretando personagens críveis e humanos.

Bronte Parrish (Andie MacDowell) é uma ambientalista que precisa de um marido para que consiga alugar um apartamento que tem uma estufa que é seu sonho de consumo. Georges Faure (Gerard Depardieu) é um francês que precisa de uma esposa americana para que possa conseguir seu visto definitivo de permanência nos EUA. Unidos por suas necessidades, eles se casam no papel e se afastam. No entanto, quando agentes da Imigração desconfiam que há algo de errado no relacionamento entre os dois, a vegetariana, politicamente ativa e discreta Bronte e o carnívoro, fumante e exuberante Georges são obrigados a passar um tempo juntos, descobrindo mais um sobre o outro. O que antes não passava de uma relação de interesse mútuo acaba se transformando em uma grande paixão.


É óbvio que a estrutura do roteiro de "Green card" - e os caminhos que ele segue rumo a seu final - não tem nada de novo e qualquer fã de cinema enxerga suas engrenagens. Mas o texto de Weir não deixa espaço para epifanias repentinas ou cenas dramática e forçadamente construídas para atingir seus objetivos de cativar a plateia. Ao invés de artifícios narrativos, ele apenas apresenta seus protagonistas como eles são, através de atos e não de palavras. Bronte não se diz ambientalista - ela o prova em diversas cenas. Georges não é apenas um estrangeiro em busca de seu espaço - ele é um homem um tanto perdido querendo provar seu valor como compositor. Separados eles são duas pessoas normais. Juntos, eles descobrem coisas a seu respeito que jamais poderiam descobrir sozinhos - ela, a tolerância; ele, a delicadeza. Transitando por uma Nova York fotografada longe dos cartões postais - e onde mais poderia se passar um filme que tanto valoriza o multiculturalismo? - eles são mais do que apenas personagens: soam reais, e isso faz toda a diferença.

Além do mais, Peter Weir não poderia ter escolhido melhor elenco para seu romance. Depardieu faz sua estreia hollywoodiana em grande estilo, demonstrando que por trás do ator sério consagrado na Europa esconde-se um ator versátil com bom timing para comédia - o que seu Golden Globe comprovou - e Andie MacDowell - uma escolha nada convencional - transmite a placidez e a sofisticação de sua personagem sem aparentar muito esforço. A química entre o casal é das melhores e não é preciso longas cenas de beijo ou sexo para comprovar isso. A torcida do público por seu final feliz é inevitável. E até nisso Weir consegue ser original.
Ao contrário do que se poderia esperar, o caminho de Bronte e Georges em direção à felicidade não acontece conforme a cartilha do cinema mainstream. Espertamente o cineasta não tenta subverter radicalmente as regras do jogo a que se propõe. Ele tenta - e consegue com louvor - escapar do previsível, do dèja-vu e do humor fácil, mas jamais nega ao espectador o prazer de assistir a uma história bem contada. No final das contas, é isso que "Green Card" é: uma história de amor que conquista pela simplicidade e pela inteligência.

Thursday, September 9, 2010

CAMILLE CLAUDEL


CAMILLE CLAUDEL (Camille Claudel, 1988, 158min) Direção: Bruno Nuytten. Roteiro: Bruno Nuytten, Marilyn Goldin, livro de Reine-Marie Paris. Fotografia: Pierre Lhomme. Montagem: Joelle Hache, Jeanne Kef. Música: Gabriel Yared. Figurino: Dominique Borg. Direção de arte: Bernard Vézat. Casting: Shula Siegfried. Produção: Isabelle Adjani, Christian Fechner. Elenco: Isabelle Adjani, Gérard Depardieu, Laurent Grévill, Alain Cuny, Madeleine Robinson, Maxime Leroux. Estreia: 07/12/88

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Atriz (Isabelle Adjani)

Melhor Atriz no Festival de Berlim


"Camille Claudel" é um filme sobre paixão. A paixão desesperada de uma mulher por um homem. E a paixão de uma artista por seu trabalho, por seu dom. É um filme intenso, passional e feito com o amor necessário para se contar uma história de loucura, perda e talento. Uma história real, inacreditável e triste, como toda boa história de amor. E absolutamente verdadeira.

No início de 1885, a jovem aspirante a escultora Camille Claudel (Isabelle Adjani) é aceita como aprendiz pelo célebre Auguste Rodin (Gerard Depardieu). Famoso por seu temperamento forte e pela beleza de seu trabalho, Rodin também é conhecido como um notório sedutor e não demora muito para que sua nova aluna caia de amores por ele. Envolvidos em um escandaloso romance - o mestre é casado e mais velho do que ela - os dois passam a ser objeto de fofocas por toda Paris, principalmente porque Camille frequenta círculos ilustres - é irmã do escritor Paul Claudel e amiga do compositor Paul Debussy, por exemplo. Quando seu relacionamento com Rodin acaba, a bela escultora, ainda apaixonada por ele, começa a entrar em um perigoso declínio psicológico. Paranóica e agressiva, ela passa a acusar o ex-amante de querer acabar com sua carreira artística.

Como bom todo filme francês pré-Amélie Poulain, "Camille Claudel" tem um ritmo próprio - leia-se um tanto lento -, contando sua história sem pressa, aprofundando-se no contexto histórico da trama (é citada, por exemplo, a morte do escritor Victor Hugo) e fugindo da edição veloz típica do cinema americano. Se perde em agilidade, no entanto, o filme de Bruno Nuytten (na época casado com Adjani) ganha em coerência, em honestidade e no cuidado com os detalhes (a reconstituição de época é deslumbrante, assim como a obra de sua protagonista). Mas é no trabalho de Isabelle Adjani que "Camille Claudel" se sustenta.

Já acostumada a papéis fortes de mulheres enlouquecidas de amor (vide seu trabalho em "A história de Adele H.", de François Truffaut), Adjani apresenta aqui sua interpretação mais passional, entregue absolutamente à sua personagem. Os closes do rosto de porcelana da atriz sujos de barro, seus olhos azuis suplicando amor e o desespero que suas belas feições transmitem são a alma de "Camille Claudel". Merecidamente indicada ao Oscar por sua atuação, a atriz francesa mais destacada da década de 90 demonstra claramente porque amealhou milhares de fãs pelo mundo.