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Wednesday, July 20, 2011

TUDO SOBRE MINHA MÃE

TUDO SOBRE MINHA MÃE (Todo sobre mi madre, 1999, El Deseo SA, 101min) Direção e roteiro: Pedro Almodovar. Fotografia: Affonso Beatto. Montagem: José Salcedo. Música: Alfredo Iglesias. Figurino: Bina Daigeler, José Maria de Cossio. Direção de arte/cenários: Antxon Gomez/Federico Garcia Cambero. Produção executiva: Agustin Almodovar. Elenco: Cecilia Roth, Marisa Paredes, Penelope Cruz, Antonia San Juan, Candela Peña, Rosa Maria Sardá. Estreia: 16/4/99

Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Vencedor do Festival de Cannes - Melhor Diretor (Pedro Almodovar)

As atrizes hollywoodianas adoram reclamar – não sem certa razão - que é difícil encontrar bons e desafiadores papéis femininos. É de imaginar, portanto, seu choque quando assistiram a “Tudo sobre minha mãe”, filme que deu a Palma de Ouro de Melhor Diretor no Festival de Cannes ao espanhol Pedro Almodóvar. Em seu 13º longa-metragem, o cineasta atinge sua maturidade artística em um filme que apresenta ao público não apenas uma ou duas personagens femininas interessantes, mas simplesmente uma boa meia-dúzia delas (com espaço até mesmo para uma transexual). Deixando de lado os machistas protagonistas de seu filme anterior, o bem-sucedido “Carne trêmula”, Almodóvar criou personagens complexas, multidimensionais e fascinantes, donas dos próprios desejos e sofrimentos – e que carregam na pele e na alma as cicatrizes de suas vidas.

No centro dessa mulherada fascinante toda está Manuela (Cecília Roth em uma atuação madura e admirável), uma mulher assombrada pela trágica e precoce morte do filho adolescente, atropelado em plena noite de seu aniversário de 17 anos, quando tentava um autógrafo da atriz Huma Rojo (Marisa Paredes). Devastada pela dor, Manuela parte para Barcelona com o objetivo de encontrar o pai do rapaz e dar-lhe a triste notícia. Chegando lá, reencontra-se com uma amiga dos tempos de juventude, a prostituta transexual Agrado (a excelente Antonia San Juan, sempre a ponto de roubar as cenas). Através de Agrado, Manuela conhece Irmã Rosa (Penélope Cruz), uma jovem religiosa que dá assistência social nas ruas da cidade e que, para surpresa de todas, se descobre grávida justamente do ex-marido de Manuela, um conquistador que assumiu o nome de Lola ao passar a travestir-se. Fugindo do jugo da mãe burguesa (Rosa Maria Sardí), Rosa vai morar com Manuela justamente quando esta aceita o emprego como assistente pessoal de Huma Rojo, que chega à cidade acompanhada da amante Nina (Candela Pena), uma atriz viciada em drogas com quem vive uma relação tempestuosa.


A rede de relações criada por Almodóvar, nunca forçada e sim absolutamente orgânica graças ao elenco inspirado, empurra seu filme em uma ciranda de crescimento pessoal de todas as mulheres, que descobrem na amizade e na cumplicidade uma forma de seguir suas vidas, por mais complicadas que sejam ou estejam. Apoiado em uma fotografia belíssima do brasileiro Affonso Beato, que nunca trai as origens quentes do cineasta mas foge da cafonice proposital de seus primeiros filmes, o roteiro não tem medo de criar um mundo surreal, onde o conquistador machista é também um travesti e uma religiosa aparentemente virgem está grávida e morrendo de AIDS. A trilha sonora de Alfredo Iglesias colabora com o clima melancólico e ao mesmo tempo otimista do filme, que apela para as emoções mais nobres do ser humano sem em nenhum momento buscar a lágrima fácil ou momentos clichês. Pode-se medir a genialidade e inteligência de um cineasta por sua capacidade de contar histórias fora do comum e com personagens quase à margem da realidade e ainda assim fazer com que seu público não fique a todo momento lembrando que está assistindo a apenas uma obra de ficção. Em “Tudo sobre minha mãe”, o espanhol comprova – mais uma vez – seu imenso talento em mergulhar a plateia em um universo extremamente particular.

Repleto de um humor no limiar entre o irônico e o vulgar e citações cinematográficas - o título do filme é uma brincadeira com o nome original do clássico "A malvada (All about Eve)", que é assistido por Manuela e seu filho nas primeiras cenas, e em determinado momento a própria Manuela substitui Nina no palco, exatamente como acontece na obra de Joseph L. Mankiewicz - e teatrais, o filme ainda é dedicado às atrizes que já interpretaram atrizes, às atrizes que interpretaram mães e à própria mãe do diretor. Uma delicadeza a mais em uma obra impecável, merecidamente premiada com o Oscar de melhor filme estrangeiro. Até hoje o melhor trabalho de Pedro Almodovar!

Friday, May 13, 2011

CARNE TRÊMULA

CARNE TRÊMULA (Carne tremula, 1997, El Deseo SA, 103min) Direção: Pedro Almodovar. Roteiro: Pedro Almodovar, romance de Ruth Rendell. Fotografia: Affonso Beatto. Montagem: José Salcedo. Música: Alberto Iglesias. Figurino: José Maria Cossío. Direção de arte/cenários: Antxon Gomes/Felipe De Paco. Produção: Agustin Almodovar. Elenco: Liberto Rabal, Francesca Neri, Javier Bardem, Angela Molina, Penelope Cruz, Pilar Bardem. Estreia EUA: 16/01/98

O escritor francês Gustave Flaubert já declarou que "a medida de uma alma é a dimensão do seu desejo". Seguindo à risca essa afirmação, pode-se dizer com certeza que a alma de Victor é imensa, tamanho é o seu desejo/paixão/obsessão pela bela Elena Ayala. Desde uma transa inconsequente em um banheiro público (com a moça drogada e ele absolutamente inexperiente) que ele não tem outro pensamento senão conquistá-la, tê-la para si, amá-la e ser amado por ela. Nem mesmo anos de cadeia diminuiu o tal desejo, apenas misturou-o com um sentimento de vingança, e mesmo assim uma vingança regada a sexo, culpa e mais desejo. Victor é o protagonista de "Carne trêmula", inspirado no primeiro capítulo de um romance da americana Ruth Rendell e dirigido e adaptado pelo espanhol Pedro Almodovar. E se existe no mundo um cineasta que entende de desejo e de todas as suas consequências ele é Almodovar. Explorando ao máximo seu pendor para o melodrama e para as intenções carnais do ser humano, em "Carne trêmula" ele atinge um ápice de sofisticação que ainda renderia a um extasiado público as obras-primas "Tudo sobre minha mãe" e "Fale com ela". Em "Carne trêmula", o desejo é o catalisador de uma trama que se rende sem medo a reviravoltas novelescas e paixões desmedidas.

Nascido em um ônibus parado nas ruas desertas de uma Espanha recém entrada na ditadura de Franco,  Victor (Liberto Rabal) trabalha como entregador de pizza e, depois de uma tórrida noite (para ele), se apaixona pela bela Elena Ayala (Francesca Neri), que em seguida nem lembra de sua existência. Obcecado, ele volta a procurá-la em seu prédio e, devido a uma série de mal-entendidos, envolve-se em um tiroteio com dois policiais. Alguns anos mais tarde, ao sair da prisão, ele decide tentar seduzir Elena e vingar-se de sua condenação. Para isso, ele inicia um caso com Clara (Angela Molina), a esposa de Sancho (José Sancho), um dos policiais responsáveis por sua prisão. Sua intenção é tornar-se um amante excepcional para impressionar a mulher que ama, que abandonou as drogas e casou-se com David (Javier Bardem), o outro policial que o mandou à cadeia e que ficou paraplégico depois do tiroteio de anos antes.



Depois de três filmes consecutivos retratando o universo feminino – em “Kika”, “De salto alto” e “A flor do meu segredo” – o diretor Pedro Almodóvar muda o sexo do protagonista ao entregar o comando da ação de “Carne trêmula” a Victor, um jovem um tanto desajustado que lembra o Ricki, personagem de Antonio Banderas em “Ata-me” e que, como ele, volta à sociedade com desejo de conquistar a mulher amada. Ao narrar a tentativa de Victor, um tanto ingênua e romântica, de conquistar a felicidade e o amor, o cineasta espanhol mais uma vez trai sua simpatia por personagens à margem da sociedade mas ainda assim extremamente humanos e verossímeis. Victor, um jovem que, apesar do tempo preso permanece fiel a sua paixão por Elena, acaba se envolvendo em um quadrilátero amoroso movido à violência, sexo e vingança, sem nunca perder de vista seu objetivo central, é vivido pelo desconhecido Liberto Rabal, que faz o que pode frente a colegas de cena espetaculares. Enquanto Francesca Néri e Ângela Molina desfilam suas belas e classudas figuras pela tela, são os dois policiais vividos por José Sancho e principalmente Javier Bardem que roubam cada cena de que participam, provando que Pedro Almodóvar, ao contrário do que pode-se pensar, é um exímio diretor de atores assim como o é de atrizes.

Se há uma única coisa que falta em "Carne trêmula" - mas mesmo assim sem que isso atrapalhe o resultado final - é o humor debochado, quase vulgar e divertidíssimo de suas obras anteriores. Esse vazio, no entanto, é mais do que compensado pelo erotismo registrado com veracidade e uma estética que passa longe das fumacinhas e lentes que transformam seres humanos em semideuses - ainda que plasticamente seja sempre muito excitante ver o sexo pela visão do diretor. Tecnicamente muito avançado em relação a seus filmes anteriores, "Carne trêmula" é um passo largo na carreira de Almodovar como um diretor único e destacado no cenário mundial.

Sexy, inteligente e surpreendente, "Carne trêmula" é um dos melhores "almodovars" da história. E ver Liberto Rabal e Francesca Neri em cenas calientes não é nada mal....