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Monday, November 28, 2011

FALE COM ELA

FALE COM ELA (Hable con ella, 2002, Espanha, 112min) Direção e roteiro: Pedro Almodóvar. Fotografia: Javier Aguirresarobe. Montagem: José Salcedo. Música: Alfredo Iglesias. Figurino: Sonia Grande. Direção de arte/cenários: Antxon Gomez/Federico Garcia Cambero. Produção executiva: Agustin Almodóvar. Elenco: Javier Câmara, Dario Grandinetti, Leonor Watling, Rosario Flores, Geraldine Chaplin, Lola Dueñas. Estreia: 15/3/02

2 indicações ao Oscar: Diretor (Pedro Almodóvar), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro 

No universo do cineasta espanhol Pedro Almodovar - como bem sabem seus inúmeros fãs - nada é preto no branco. Não existem mocinhos e bandidos e nem atos corretos ou errados (ao menos dentro da concepção tradicional do termo). Na obra de Almodovar nada é exatamente o que parece à primeira vista e, dentro de seu mundo particular (onde circulam com desenvoltura personagens da mais alta complexidade) um enfermeiro com características aparentes de homossexualidade é capaz de um ato tresloucado e machista, ainda que revestido de um romantismo distorcido. Nos filmes de Almodovar nenhum amor é normal. Quando alguém se apaixona dentro de um roteiro seu ou rapta a mulher amada (como em "Atame!") ou a estupra, como acontece em "Fale com ela", uma de suas obras-primas, merecidamente premiada com o Oscar de roteiro original.

Surpreendentemente deixada de lado pela Academia em sua lista dos indicados a Melhor Filme Estrangeiro - apesar de ter levado o Golden Globe da categoria - "Fale com ela" de certa forma compensou a esnobada concorrendo em duas categorias nobres e levando a importante estatueta de roteiro (batendo nomes fortes como o belo "Longe do paraíso" e o favorito "Gangues de Nova York"). Na verdade, dar o prêmio a qualquer outro candidato seria impensável: se em seu filme anterior, o incensado "Tudo sobre minha mãe" (que por sua vez levou o Oscar de filme estrangeiro) Almodovar já brindava o espectador com seu estilo próprio de fazer cinema misturando imagens poderosas com tramas e personagens fortes, em "Fale com ela" ele chega a um nível de sofisticação narrativa ainda maior. Ao contrário de muitos filmes cuja trama pobre pode ser resumida em uma única frase, o 14º longa do diretor nascido em uma pequena cidade do interior da Espanha em 1949 é uma prova inconteste de que a imaginação e a poesia ainda são os maiores aliados de um roteirista.



"Fale com ela" conta, na verdade, duas histórias de amor que se transformam em uma bela história de amizade. Depois de ter criado, em "Tudo sobre minha mãe", meia dúzia de personagens femininas de se tirar o chapéu, agora Almodovar presenteia o público com duas personagens masculinas intensas, imprevisíveis e melhor ainda, críveis e humanas. Benigno Martin (o ótimo Javier Câmara) é um enfermeiro dedicado que passa seus dias cuidando de Alicia (Leonor Watling), que entrou em coma depois de ser atropelada em um dia de chuva. Apaixonado pela jovem desde os tempos em que a observava de sua janela enquanto ela fazia aulas de balé na academia em frente à sua casa, Benigno de certa forma aproveita a chance de manter-se perto dela mesmo sabendo da possibilidade de sua inconsciência ser permanente. Sua rotina - para ele doce, ainda que rotina - é alterada quando ele conhece Marco Zuluaga (Dario Grandinetti), um jornalista que chega ao hospital acompanhando a namorada, Lydia Gonzalez (Rosário Flores), uma famosa toureira atingida em plena arena. Solitário, logo Benigno torna-se o confidente de Marco, um homem fechado e profundo a quem ele tenta convencer a manter conversas com a namorada inconsciente.

Como normalmente acontece na obra de Pedro Almodovar, o início de "Fale com ela" - o pontapé inicial de seu roteiro, digamos assim - é apenas um esboço de tudo que virá pela frente. Não demora muito para que o cineasta embaralhe as cartas de seu jogo, emprestando a Benigno características viris e impulsivas que se poderia esperar de Marco e dando a este momentos de uma pureza e sensibilidade próprias de alguém como Benigno. Enquanto o enfermeiro afeminado é capaz de um ato a príncipio brutal (através do qual a vida retorna, de forma irônica), o jornalista viril é capaz de desmanchar-se em lágrimas diante de um número de dança (com a participação especial da alemã Pina Bausch) ou de uma bela canção de amor (interpretada por Caetano Veloso), além de sofrer sem medo da opinião alheia. É o amor dos dois pelas mulheres em coma - mas que mesmo mudas e inertes empurram a trama pra frente - que une Benigno e Marco, que os completam como yin e yang. Mas não são os dois que tem o mesmo equilíbrio e a mesma força de lidar com suas paixões, e é daí, dessa fragilidade passional, que nasce a trágica poesia do filme.

E poesia é o que não falta em "Fale com ela", seja visualmente, através da inspirada fotografia de Javier Aguirresarobe, que transforma a violência das touradas em um balé (que remete às danças de Alicia e aos números de abertura e encerramento da projeção) ou em alguns diálogos de cortar o coração (que citam inclusive Tom Jobim, cuja bela "Por toda a minha vida" na voz de Elis Regina, ilustra lindamente uma tourada de Lydia). Até mesmo a homenagem de Almodovar ao cinema mudo (em uma sequência aparentemente sem importância que dá grandes pistas sobre o que vem a seguir) é um exemplo de concisão e inteligência: a história do "amante minguante" que entra no corpo da mulher que ama é a metáfora perfeita para o desfecho de uma das histórias de amor contadas pelo diretor, que ainda faz o grande favor de não entregar tudo mastigadinho à audiência. O público, encantado, agradece!

Wednesday, July 20, 2011

TUDO SOBRE MINHA MÃE

TUDO SOBRE MINHA MÃE (Todo sobre mi madre, 1999, El Deseo SA, 101min) Direção e roteiro: Pedro Almodovar. Fotografia: Affonso Beatto. Montagem: José Salcedo. Música: Alfredo Iglesias. Figurino: Bina Daigeler, José Maria de Cossio. Direção de arte/cenários: Antxon Gomez/Federico Garcia Cambero. Produção executiva: Agustin Almodovar. Elenco: Cecilia Roth, Marisa Paredes, Penelope Cruz, Antonia San Juan, Candela Peña, Rosa Maria Sardá. Estreia: 16/4/99

Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Vencedor do Festival de Cannes - Melhor Diretor (Pedro Almodovar)

As atrizes hollywoodianas adoram reclamar – não sem certa razão - que é difícil encontrar bons e desafiadores papéis femininos. É de imaginar, portanto, seu choque quando assistiram a “Tudo sobre minha mãe”, filme que deu a Palma de Ouro de Melhor Diretor no Festival de Cannes ao espanhol Pedro Almodóvar. Em seu 13º longa-metragem, o cineasta atinge sua maturidade artística em um filme que apresenta ao público não apenas uma ou duas personagens femininas interessantes, mas simplesmente uma boa meia-dúzia delas (com espaço até mesmo para uma transexual). Deixando de lado os machistas protagonistas de seu filme anterior, o bem-sucedido “Carne trêmula”, Almodóvar criou personagens complexas, multidimensionais e fascinantes, donas dos próprios desejos e sofrimentos – e que carregam na pele e na alma as cicatrizes de suas vidas.

No centro dessa mulherada fascinante toda está Manuela (Cecília Roth em uma atuação madura e admirável), uma mulher assombrada pela trágica e precoce morte do filho adolescente, atropelado em plena noite de seu aniversário de 17 anos, quando tentava um autógrafo da atriz Huma Rojo (Marisa Paredes). Devastada pela dor, Manuela parte para Barcelona com o objetivo de encontrar o pai do rapaz e dar-lhe a triste notícia. Chegando lá, reencontra-se com uma amiga dos tempos de juventude, a prostituta transexual Agrado (a excelente Antonia San Juan, sempre a ponto de roubar as cenas). Através de Agrado, Manuela conhece Irmã Rosa (Penélope Cruz), uma jovem religiosa que dá assistência social nas ruas da cidade e que, para surpresa de todas, se descobre grávida justamente do ex-marido de Manuela, um conquistador que assumiu o nome de Lola ao passar a travestir-se. Fugindo do jugo da mãe burguesa (Rosa Maria Sardí), Rosa vai morar com Manuela justamente quando esta aceita o emprego como assistente pessoal de Huma Rojo, que chega à cidade acompanhada da amante Nina (Candela Pena), uma atriz viciada em drogas com quem vive uma relação tempestuosa.


A rede de relações criada por Almodóvar, nunca forçada e sim absolutamente orgânica graças ao elenco inspirado, empurra seu filme em uma ciranda de crescimento pessoal de todas as mulheres, que descobrem na amizade e na cumplicidade uma forma de seguir suas vidas, por mais complicadas que sejam ou estejam. Apoiado em uma fotografia belíssima do brasileiro Affonso Beato, que nunca trai as origens quentes do cineasta mas foge da cafonice proposital de seus primeiros filmes, o roteiro não tem medo de criar um mundo surreal, onde o conquistador machista é também um travesti e uma religiosa aparentemente virgem está grávida e morrendo de AIDS. A trilha sonora de Alfredo Iglesias colabora com o clima melancólico e ao mesmo tempo otimista do filme, que apela para as emoções mais nobres do ser humano sem em nenhum momento buscar a lágrima fácil ou momentos clichês. Pode-se medir a genialidade e inteligência de um cineasta por sua capacidade de contar histórias fora do comum e com personagens quase à margem da realidade e ainda assim fazer com que seu público não fique a todo momento lembrando que está assistindo a apenas uma obra de ficção. Em “Tudo sobre minha mãe”, o espanhol comprova – mais uma vez – seu imenso talento em mergulhar a plateia em um universo extremamente particular.

Repleto de um humor no limiar entre o irônico e o vulgar e citações cinematográficas - o título do filme é uma brincadeira com o nome original do clássico "A malvada (All about Eve)", que é assistido por Manuela e seu filho nas primeiras cenas, e em determinado momento a própria Manuela substitui Nina no palco, exatamente como acontece na obra de Joseph L. Mankiewicz - e teatrais, o filme ainda é dedicado às atrizes que já interpretaram atrizes, às atrizes que interpretaram mães e à própria mãe do diretor. Uma delicadeza a mais em uma obra impecável, merecidamente premiada com o Oscar de melhor filme estrangeiro. Até hoje o melhor trabalho de Pedro Almodovar!

Friday, May 13, 2011

CARNE TRÊMULA

CARNE TRÊMULA (Carne tremula, 1997, El Deseo SA, 103min) Direção: Pedro Almodovar. Roteiro: Pedro Almodovar, romance de Ruth Rendell. Fotografia: Affonso Beatto. Montagem: José Salcedo. Música: Alberto Iglesias. Figurino: José Maria Cossío. Direção de arte/cenários: Antxon Gomes/Felipe De Paco. Produção: Agustin Almodovar. Elenco: Liberto Rabal, Francesca Neri, Javier Bardem, Angela Molina, Penelope Cruz, Pilar Bardem. Estreia EUA: 16/01/98

O escritor francês Gustave Flaubert já declarou que "a medida de uma alma é a dimensão do seu desejo". Seguindo à risca essa afirmação, pode-se dizer com certeza que a alma de Victor é imensa, tamanho é o seu desejo/paixão/obsessão pela bela Elena Ayala. Desde uma transa inconsequente em um banheiro público (com a moça drogada e ele absolutamente inexperiente) que ele não tem outro pensamento senão conquistá-la, tê-la para si, amá-la e ser amado por ela. Nem mesmo anos de cadeia diminuiu o tal desejo, apenas misturou-o com um sentimento de vingança, e mesmo assim uma vingança regada a sexo, culpa e mais desejo. Victor é o protagonista de "Carne trêmula", inspirado no primeiro capítulo de um romance da americana Ruth Rendell e dirigido e adaptado pelo espanhol Pedro Almodovar. E se existe no mundo um cineasta que entende de desejo e de todas as suas consequências ele é Almodovar. Explorando ao máximo seu pendor para o melodrama e para as intenções carnais do ser humano, em "Carne trêmula" ele atinge um ápice de sofisticação que ainda renderia a um extasiado público as obras-primas "Tudo sobre minha mãe" e "Fale com ela". Em "Carne trêmula", o desejo é o catalisador de uma trama que se rende sem medo a reviravoltas novelescas e paixões desmedidas.

Nascido em um ônibus parado nas ruas desertas de uma Espanha recém entrada na ditadura de Franco,  Victor (Liberto Rabal) trabalha como entregador de pizza e, depois de uma tórrida noite (para ele), se apaixona pela bela Elena Ayala (Francesca Neri), que em seguida nem lembra de sua existência. Obcecado, ele volta a procurá-la em seu prédio e, devido a uma série de mal-entendidos, envolve-se em um tiroteio com dois policiais. Alguns anos mais tarde, ao sair da prisão, ele decide tentar seduzir Elena e vingar-se de sua condenação. Para isso, ele inicia um caso com Clara (Angela Molina), a esposa de Sancho (José Sancho), um dos policiais responsáveis por sua prisão. Sua intenção é tornar-se um amante excepcional para impressionar a mulher que ama, que abandonou as drogas e casou-se com David (Javier Bardem), o outro policial que o mandou à cadeia e que ficou paraplégico depois do tiroteio de anos antes.



Depois de três filmes consecutivos retratando o universo feminino – em “Kika”, “De salto alto” e “A flor do meu segredo” – o diretor Pedro Almodóvar muda o sexo do protagonista ao entregar o comando da ação de “Carne trêmula” a Victor, um jovem um tanto desajustado que lembra o Ricki, personagem de Antonio Banderas em “Ata-me” e que, como ele, volta à sociedade com desejo de conquistar a mulher amada. Ao narrar a tentativa de Victor, um tanto ingênua e romântica, de conquistar a felicidade e o amor, o cineasta espanhol mais uma vez trai sua simpatia por personagens à margem da sociedade mas ainda assim extremamente humanos e verossímeis. Victor, um jovem que, apesar do tempo preso permanece fiel a sua paixão por Elena, acaba se envolvendo em um quadrilátero amoroso movido à violência, sexo e vingança, sem nunca perder de vista seu objetivo central, é vivido pelo desconhecido Liberto Rabal, que faz o que pode frente a colegas de cena espetaculares. Enquanto Francesca Néri e Ângela Molina desfilam suas belas e classudas figuras pela tela, são os dois policiais vividos por José Sancho e principalmente Javier Bardem que roubam cada cena de que participam, provando que Pedro Almodóvar, ao contrário do que pode-se pensar, é um exímio diretor de atores assim como o é de atrizes.

Se há uma única coisa que falta em "Carne trêmula" - mas mesmo assim sem que isso atrapalhe o resultado final - é o humor debochado, quase vulgar e divertidíssimo de suas obras anteriores. Esse vazio, no entanto, é mais do que compensado pelo erotismo registrado com veracidade e uma estética que passa longe das fumacinhas e lentes que transformam seres humanos em semideuses - ainda que plasticamente seja sempre muito excitante ver o sexo pela visão do diretor. Tecnicamente muito avançado em relação a seus filmes anteriores, "Carne trêmula" é um passo largo na carreira de Almodovar como um diretor único e destacado no cenário mundial.

Sexy, inteligente e surpreendente, "Carne trêmula" é um dos melhores "almodovars" da história. E ver Liberto Rabal e Francesca Neri em cenas calientes não é nada mal....

Tuesday, December 14, 2010

KIKA

KIKA (Kika, 1993, El Deseo, 114min) Direção e roteiro: Pedro Almodovar. Fotografia: Alfredo Mayo. Montagem: José Salcedo. Figurino: José María Cossio, Gianni Versace. Direção de arte: Alain Bainée, Javier Fernandez. Produção: Agustin Almodovar. Elenco: Veronica Forqué, Peter Coyote, Victoria Abril, Àlex Casanovas, Rossy de Palma, Santiago Lajusticia. Elenco: 29/10/93

Dono de uma das mais criativas mentes do cinema europeu, o cineasta e roteirista Pedro Almodovar tem uma séria tendência ao melodrama. Reviravoltas mirabolantes, crimes misteriosos e passionais e amores obsessivos são moeda corrente em sua filmografia. Normalmente pródigo em equilibrar elementos dramáticos com as mais absurdas e surreais situações, o espanhol também é especialista em criar memoráveis personagens femininas. Por isso, não é nenhuma surpresa o fato de o maior destaque de "Kika" seja justamente uma bizarra jornalista chamada Andrea Caracortada. Sensacionalista e fria a ponto de filmar impassível um assassinato - para aumentar os índices de audiência de programa de TV chamado "O pior do dia" - ela é vestida por Jean-Paul Gautier, pilota uma motocicleta com um capacete munido de uma câmera e abusa de imagens do mundo-cão para sobressair em sua profissão - além, é claro, de ostentar uma cicatriz na face direita. A surpresa aqui é que Andrea Caracortada, apesar de roubar todas as cenas em que aparece, não é a protagonista do filme.

Vivida por Veronica Forqué, a personagem-título é uma maquiadora dotada de grande otimismo que, mesmo morando com o namorado fotógrafo, Ramon (Alex Casanova), mantém um tórrido romance com o padrasto dele, o escritor americano Nicholas (Peter Coyote). A volta de Nicholas à Espanha abala o relacionamento um tanto frio de Kika e Ramon, especialmente porque o rapaz desconfia que a morte de sua mãe não foi o suicídio oficial e sim um assassinato. O triângulo amoroso cruza o caminho de Andrea - novamente, já que ela foi amante de Ramon em outros tempos - quando o ator pornô Pablo (Santiago Lajusticia), irmão da empregada lésbica de Kika, Juana (Rossy de Palma), invade o apartamento da esteticista e a estupra repetidas vezes.

Apesar de brincar com temas sérios - violência sexual, adultério, homicídios - Almodovar não consegue, em "Kika" repetir o mesmo nível de sucesso de seu filme mais famoso até então, "Mulheres à beira de um ataque de nervos". Indeciso entre narrar uma história policial ou debochar dos excessos com que o gênero se mantém, ele não atinge aqui o delicado equilíbrio entre o drama e a comédia de seus trabalhos anteriores. Prejudicado pela falta de carisma de sua atriz principal - que substituiu Maria Barranco (a amante do terrorista de "Mulheres...") na última hora - o décimo longa-metragem de Almodovar esbarra na falta de interesse da história, não particularmente empolgante. No entanto, espertamente, seu maior trunfo acaba se tornando também a prova da fragilidade de sua protagonista.


Na pele de Andrea Caracortada - e se divertindo notadamente em cena - Victoria Abril tem os diálogos mais "almodovarianos" do filme, repletos de um humor surreal  (a entrevista que faz com a mãe de um acusado de homicídio, por exemplo, é uma pérola de humor negro). Ainda que sua personagem não tenha uma profundidade maior - uma deficiência que o diretor curou majestosamente em seus trabalhos posteriores - Abril deita e rola, em uma das atuações mais fascinantes de sua carreira. Sempre que ela sai de cena o filme enfraquece, mesmo contando com a participação da também hilária Rossy de Palma. De Palma, aliás, um dos rostos mais estranhos do cinema europeu da época, também não fica atrás em termos de aproveitamento: todas as suas cenas nunca são menos do que engraçadíssimas. E isso inclui a polêmica sequência do estupro de sua patroa.

Em uma longa cena - mais de dez minutos - Almodovar mostra Kika sendo estuprada pelo irmão de sua empregada, um ator pornô foragido da cadeia que tenciona bater o recorde de gozar quatro vezes sem tirar. Em uma prova inconteste do humor sui generis do cineasta, ao invés de chocar ou indignar, a cena é uma das mais hilárias do filme - e isso inclui a participação de dois policiais bastante incomuns e um misterioso voyeur, que assiste a tudo de sua janela. Enquanto é estuprada, Kika não chora nem dramatiza: conversa com seu agressor e até mesmo tenta ajudá-lo em sua missão, ao simular o orgasmo mais falso da história do cinema...

Talvez "Kika" seja o filme menos brilhante de Almodovar - uma espécie de transição entre seu lado marginal e seu status de autor que se firmaria em pouco tempo. Mas é divertido, diferente e jamais comum, o que, convenhamos, é bom o suficiente.

Friday, October 8, 2010

ATAME!

ATAME! (Atame!, 1990, El Deseo S/A, 111min) Direção e roteiro: Pedro Almodovar. Fotografia: José Luis Alcaine. Montagem: José Salcedo. Música: Ennio Morricone. Figurino: José Maria de Cossío. Direção de arte/cenários: Esther Garcia/Pepón Sigler. Produção executiva: Agustin Almodovar. Produção: Enrique Posner. Elenco: Victoria Abril, Antonio Banderas, Loles Leon, Francisco Rabal, Julieta Serrano. Estreia: 22/01/90

"Tenho 23 anos, 50 mil pesetas e serei um bom marido para ti e um bom pai para os teus filhos."  Assim se apresenta à atriz Marina Osório o jovem Ric, recém-saído de uma instituição psiquiátrica e que, para chamar-lhe a atenção, sequestrou-a em seu próprio apartamento e a amarrou e amordaçou. Ele é apaixonado por ela desde que, em uma de suas várias fugas do hospital onde morava, encontrou-a em uma boate e fez sexo com ela. Esse amor, obcecado, cego e até um tanto ingênuo é o cerne de "Atame!", uma bizarra e excitante história de amor dirigida pelo mais apropriado cineasta possível: o espanhol Pedro Almodovar.

Alçado à glória depois do espetacular sucesso internacional de seu "Mulheres à beira de um ataque de nervos", Almodovar conseguiu surpreender meio mundo com sua visão particular (doentia/debochada/sexy) de "O colecionador" , filme de suspense dirigido por William Wyler em 1965 e estrelado por Terence Stamp e Samantha Eggar. Ao acrescentar altas doses de erotismo à sua já idiossincrática visão de mundo - que inclui um amor exagerado ao kitsch, um humor politicamente incorreto e seu alto teor iconoclasta - Almodovar encantou os fãs de bom cinema, mas incomodou a ala mais conservadora do público. Os exibidores americanos, por exemplo, não gostaram nadinha da longa cena de sexo entre os protagonistas e liberou-o para as salas de exibição com um selo de filme pornográfico. A gritaria em torno desse absurdo, inclusive - assim como aconteceu com o belo "Henry & June", de Philip Kaufman - foi o estopim para que a famigerada classificação X desse lugar, junto à censura americana, ao menos assustador NR-17 (menores de 17 anos entram no cinema somente acompanhados dos pais...) Mas o fato é que "Atame!" é bem mais do que  um filme despudorado (no bom sentido) dirigido por um espanhol fora de controle (no melhor sentido) e rebelde às convenções morais (num sentido ainda melhor). "Atame!" é uma espécie de comédia romântica à base de anfetaminas. E é absurdamente delicioso!

Quando "Atame!" começa, o jovem Ric (vivido com gosto e uma alta dose de ingenuidade malandra por Antonio Banderas em seu melhor momento) está saindo de uma instituição onde passou a maior parte de sua vida - e onde aprendeu vários ofícios, além de ter dormido com todas as enfermeiras que lhe passaram pela frente. Seu maior objetivo, ao encarar novamente o mundo com liberdade, é conquistar a mulher que ama, Marina Osório (Victoria Abril), uma atriz pronô que está tentando abandonar o vício em drogas e começar uma carreira como intérprete séria ao fazer um filme com um veterano diretor (Francisco Rabal). Mas para convencer Marina que ele é o homem certo para ela, ele precisa apelar para seu plano B - raptá-la.

"Atame!" é Almodovar em seu melhor. A trilha sonora rasgada de Ennio Morricone casa com perfeição com as personalidades histéricas das personagens, com as corres berrantes da direção de arte característica da obra do cineasta - onde imagens de santos dividem espaço com vibradores em forma de mergulhadores - e com a história, por si só absurda e apaixonante. Assim como acontece com a maioria das criações de Almodovar, o amor de Ric não é um amor tradicional - ele não tenta conquistar Marina com poemas ou serenatas (até tenta com uma caixa de chocolate), mas sequestrando-a. Não é um beijo que ele lhe dá no primeiro encontro na casa dela - é uma cabeçada... Ric é a quintessência do amor na obra de Almodovar - erótico, compulsivo, passional, mas ainda assim absolutamente sincero.

E a tão falada cena de sexo de "Atame!" - elogiada até mesmo por Elia Kazan e que não acaba onde normalmente acontece quando um filme é pudicamente hollywoodiano - é, sem sombra de dúvida, uma das mais quentes, reais e excitantes da história do cinema. Almodóvar é mestre!

Wednesday, August 18, 2010

MULHERES À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS


MULHERES À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS (Mujeres al borde de un ataque de nervios, 1988, El Deseo SA, 90min) Direção e roteiro: Pedro Almodovar. Fotografia: José Luis Alcaine. Montagem: José Salcedo. Música: Bernardo Bonezzi. Figurino: José Maria de Cossío. Direção de arte: Emilio Cañuelo, Félix Murcia. Produção executiva: Agustin Almodovar. Produção: Pedro Almodovar. Elenco: Carmen Maura, Antonio Banderas, Julieta Serrano, Maria Barranco, Rossy de Palma, Kit Manver, Guillermo Montesinos, Chus Lampeavre. Estreia: 23/3/88

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro

Se em “A lei do desejo”, de 1986, o diretor espanhol Pedro Almodóvar não agradou a gregos e troianos, usando e abusando de suas obsessões por sexo, religião e personagens bizarros, com seu filme seguinte ele atingiu um novo patamar em sua carreira ainda jovem: sucesso de bilheteria e indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, "Mulheres à beira de um ataque de nervos" já apontava para uma maturidade precoce e um futuro que já parecia bastante promissor. Se ele abandonou duas de suas marcas (o sexo e a religião) não economizou em personagens bizarros. Poucas vezes se viu tantos personagens deliciosamente insanos reunidos em um mesmo roteiro, saídos da mente quase doentia de um diretor que utiliza o deboche como arma contra a hipocrisia.

A dubladora e atriz Pepa (Carmen Maura, soberba como sempre) entra em pânico quando descobre-se grávida do amante casado Ivan (Fernando Guillen), que, se não bastasse, acaba de abandoná-la para viajar com outra mulher. Tentando comunicar-se com o desaparecido colega de trabalho e cama, ela nem percebe a loucura que começa a desenhar-se a sua volta: sua amiga Candela (Maria Barranco) muda-se para seu apartamento, apavorada com a possibilidade de seu ex-namorado, um terrorista xiita, derrubar um avião de passageiros conforme um plano que ela acaba de descobrir; a enlouquecida esposa de seu amante, Lucía (a ótima Julieta Serrano), recém saída de um hospital psiquiátrico, tenciona matá-la; o filho de seu amante, Carlos (o ator habitual de Almodóvar, Antonio Banderas) e sua noiva Marisa (Rossy de Palma) querem alugar sua cobertura, sem sequer desconfiarem da ligação entre os dois e a advogada feminista que ela procura para ajudar Candela, Paulina Morales (Kiti Manver) está mais interessada em viajar com seu novo amor do que colaborar com as duas.

Somando dois policiais a essa turma de enlouquecidos personagens, Almodóvar criou sem dúvida uma das comédias mais inteligentes e sideradas que já cruzaram as telas. Transitando em cenários kitsch, repletos de cores berrantes e vestindo roupas inacreditavelmente bizarras, as mulheres imaginadas pelo cineasta recitam diálogos engraçadíssimos e surreais, em situações absurdas que, paradoxalmente, fazem todo o sentido do mundo dentro do universo insano de Pedro Almodóvar, que magistralmente citou a si mesmo e a seu filme em "Abraços partidos", em uma homenagem carinhosa e hilariante.

Não deixa de ser apavorante, no entanto, imaginar a refilmagem proposta por Jane Fonda - e que felizmente até hoje nunca se concretizou. Por mais perfeito que seja o roteiro do diretor espanhol, sem sua presença atrás das câmeras é pouco provável que as mulheres que ele imaginou à beira de um ataque de nervos sejam tão deliciosamente passionais.

Wednesday, August 4, 2010

A LEI DO DESEJO


A LEI DO DESEJO (La ley del deseo, 1987, El Deseo SA, 102min) Direção e roteiro: Pedro Almodovar. Fotografia: Angel L. Fernandez. Montagem: José Salcedo. Figurino: Cossio. Direção de arte/cenários: Javier Fernandez/Ramón Moya. Produção executiva: Miguel A. Perez Campos. Elenco: Eusebio Poncela, Carmen Maura, Antonio Banderas, Miguel Molina, Bibi Andersen. Estreia: 07/02/87

Vencedor do Teddy Bear do Festival de Berlim

Já em seus primeiros filmes, ainda longe da sofisticação de suas mais famosas obras, o espanhol Pedro Almodóvar apresentava suas obsessões. Religião, sexo e uma queda para o kitsch estão óbvios em “A lei do desejo”, um de seus filmes menos conhecidos e talvez um dos mais ousados. Sujo, visualmente pouco atraente e sem concessões ao comercial, “A lei do desejo” serve para apresentar o talento ainda em estado bruto do diretor.

Eusébio Poncela vive Pablo Quintero, um diretor de cinema famoso e consagrado, que tem uma relação complicada com seu jovem amante Juan (Miguel Molina), que esconde sua homossexualidade da família. Durante uma viagem do jovem, encontra e inicia um relacionamento doentio com um fã, Antonio (Antonio Banderas), que é obcecado por ele. Enquanto fica dividido entre seus dois amantes, o cineasta ainda tem que lidar com sua irmã Tina (Carmen Maura), que tem um segredo do passado escondido em meio a um trauma.

Em "A lei do desejo", Almodovar utiliza elementos do mais absoluto melodrama (segredos do passado, cartas trocadas, amores não correspondidos) a seu favor. Seu roteiro - que soaria um tanto absurdo em mãos menos capazes - alterna momentos de pura lascívia e sexo com discussões sobre família, arte e religião - ingredientes que se tornariam moeda corrente em sua filmografia. É um filme que não agrada a todos os públicos, mas que demonstra claramente o que o cineasta espanhol poderia fazer - e o fez - no futuro. E Antonio Banderas, um de seus mais frequentes colaboradores em seus primórdios cinematográficos mostra porque foi importado com tanta voracidade por Hollywood nos anos 90, entregando uma de suas atuações mais ousadas.

Não há dúvida que o universo de Pedro Almodóvar é muito particular e isso fica absolutamente claro em qualquer cena de “A lei do desejo”. Seja nas vidas sexuais dos personagens ou até mesmo em suas roupas e atos - e na trilha sonora propositadamente exagerada, em que cabe até uma canção da brasileira Maysa -, o mundo criado pelo diretor e roteirista tem sua marca registrada, pro bem ou pro mal. Para alguns, sinal de personalidade, para outros apenas exageros estilísticos, o fato é que seu filme não deixa ninguém indiferente. E de quantas obras se pode dizer isso em dias de filmes tão pasteurizados como a em que vivemos?