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Wednesday, August 18, 2010

MULHERES À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS


MULHERES À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS (Mujeres al borde de un ataque de nervios, 1988, El Deseo SA, 90min) Direção e roteiro: Pedro Almodovar. Fotografia: José Luis Alcaine. Montagem: José Salcedo. Música: Bernardo Bonezzi. Figurino: José Maria de Cossío. Direção de arte: Emilio Cañuelo, Félix Murcia. Produção executiva: Agustin Almodovar. Produção: Pedro Almodovar. Elenco: Carmen Maura, Antonio Banderas, Julieta Serrano, Maria Barranco, Rossy de Palma, Kit Manver, Guillermo Montesinos, Chus Lampeavre. Estreia: 23/3/88

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro

Se em “A lei do desejo”, de 1986, o diretor espanhol Pedro Almodóvar não agradou a gregos e troianos, usando e abusando de suas obsessões por sexo, religião e personagens bizarros, com seu filme seguinte ele atingiu um novo patamar em sua carreira ainda jovem: sucesso de bilheteria e indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, "Mulheres à beira de um ataque de nervos" já apontava para uma maturidade precoce e um futuro que já parecia bastante promissor. Se ele abandonou duas de suas marcas (o sexo e a religião) não economizou em personagens bizarros. Poucas vezes se viu tantos personagens deliciosamente insanos reunidos em um mesmo roteiro, saídos da mente quase doentia de um diretor que utiliza o deboche como arma contra a hipocrisia.

A dubladora e atriz Pepa (Carmen Maura, soberba como sempre) entra em pânico quando descobre-se grávida do amante casado Ivan (Fernando Guillen), que, se não bastasse, acaba de abandoná-la para viajar com outra mulher. Tentando comunicar-se com o desaparecido colega de trabalho e cama, ela nem percebe a loucura que começa a desenhar-se a sua volta: sua amiga Candela (Maria Barranco) muda-se para seu apartamento, apavorada com a possibilidade de seu ex-namorado, um terrorista xiita, derrubar um avião de passageiros conforme um plano que ela acaba de descobrir; a enlouquecida esposa de seu amante, Lucía (a ótima Julieta Serrano), recém saída de um hospital psiquiátrico, tenciona matá-la; o filho de seu amante, Carlos (o ator habitual de Almodóvar, Antonio Banderas) e sua noiva Marisa (Rossy de Palma) querem alugar sua cobertura, sem sequer desconfiarem da ligação entre os dois e a advogada feminista que ela procura para ajudar Candela, Paulina Morales (Kiti Manver) está mais interessada em viajar com seu novo amor do que colaborar com as duas.

Somando dois policiais a essa turma de enlouquecidos personagens, Almodóvar criou sem dúvida uma das comédias mais inteligentes e sideradas que já cruzaram as telas. Transitando em cenários kitsch, repletos de cores berrantes e vestindo roupas inacreditavelmente bizarras, as mulheres imaginadas pelo cineasta recitam diálogos engraçadíssimos e surreais, em situações absurdas que, paradoxalmente, fazem todo o sentido do mundo dentro do universo insano de Pedro Almodóvar, que magistralmente citou a si mesmo e a seu filme em "Abraços partidos", em uma homenagem carinhosa e hilariante.

Não deixa de ser apavorante, no entanto, imaginar a refilmagem proposta por Jane Fonda - e que felizmente até hoje nunca se concretizou. Por mais perfeito que seja o roteiro do diretor espanhol, sem sua presença atrás das câmeras é pouco provável que as mulheres que ele imaginou à beira de um ataque de nervos sejam tão deliciosamente passionais.

Wednesday, August 4, 2010

A LEI DO DESEJO


A LEI DO DESEJO (La ley del deseo, 1987, El Deseo SA, 102min) Direção e roteiro: Pedro Almodovar. Fotografia: Angel L. Fernandez. Montagem: José Salcedo. Figurino: Cossio. Direção de arte/cenários: Javier Fernandez/Ramón Moya. Produção executiva: Miguel A. Perez Campos. Elenco: Eusebio Poncela, Carmen Maura, Antonio Banderas, Miguel Molina, Bibi Andersen. Estreia: 07/02/87

Vencedor do Teddy Bear do Festival de Berlim

Já em seus primeiros filmes, ainda longe da sofisticação de suas mais famosas obras, o espanhol Pedro Almodóvar apresentava suas obsessões. Religião, sexo e uma queda para o kitsch estão óbvios em “A lei do desejo”, um de seus filmes menos conhecidos e talvez um dos mais ousados. Sujo, visualmente pouco atraente e sem concessões ao comercial, “A lei do desejo” serve para apresentar o talento ainda em estado bruto do diretor.

Eusébio Poncela vive Pablo Quintero, um diretor de cinema famoso e consagrado, que tem uma relação complicada com seu jovem amante Juan (Miguel Molina), que esconde sua homossexualidade da família. Durante uma viagem do jovem, encontra e inicia um relacionamento doentio com um fã, Antonio (Antonio Banderas), que é obcecado por ele. Enquanto fica dividido entre seus dois amantes, o cineasta ainda tem que lidar com sua irmã Tina (Carmen Maura), que tem um segredo do passado escondido em meio a um trauma.

Em "A lei do desejo", Almodovar utiliza elementos do mais absoluto melodrama (segredos do passado, cartas trocadas, amores não correspondidos) a seu favor. Seu roteiro - que soaria um tanto absurdo em mãos menos capazes - alterna momentos de pura lascívia e sexo com discussões sobre família, arte e religião - ingredientes que se tornariam moeda corrente em sua filmografia. É um filme que não agrada a todos os públicos, mas que demonstra claramente o que o cineasta espanhol poderia fazer - e o fez - no futuro. E Antonio Banderas, um de seus mais frequentes colaboradores em seus primórdios cinematográficos mostra porque foi importado com tanta voracidade por Hollywood nos anos 90, entregando uma de suas atuações mais ousadas.

Não há dúvida que o universo de Pedro Almodóvar é muito particular e isso fica absolutamente claro em qualquer cena de “A lei do desejo”. Seja nas vidas sexuais dos personagens ou até mesmo em suas roupas e atos - e na trilha sonora propositadamente exagerada, em que cabe até uma canção da brasileira Maysa -, o mundo criado pelo diretor e roteirista tem sua marca registrada, pro bem ou pro mal. Para alguns, sinal de personalidade, para outros apenas exageros estilísticos, o fato é que seu filme não deixa ninguém indiferente. E de quantas obras se pode dizer isso em dias de filmes tão pasteurizados como a em que vivemos?