Dono de uma das mais criativas mentes do cinema europeu, o cineasta e roteirista Pedro Almodovar tem uma séria tendência ao melodrama. Reviravoltas mirabolantes, crimes misteriosos e passionais e amores obsessivos são moeda corrente em sua filmografia. Normalmente pródigo em equilibrar elementos dramáticos com as mais absurdas e surreais situações, o espanhol também é especialista em criar memoráveis personagens femininas. Por isso, não é nenhuma surpresa o fato de o maior destaque de "Kika" seja justamente uma bizarra jornalista chamada Andrea Caracortada. Sensacionalista e fria a ponto de filmar impassível um assassinato - para aumentar os índices de audiência de programa de TV chamado "O pior do dia" - ela é vestida por Jean-Paul Gautier, pilota uma motocicleta com um capacete munido de uma câmera e abusa de imagens do mundo-cão para sobressair em sua profissão - além, é claro, de ostentar uma cicatriz na face direita. A surpresa aqui é que Andrea Caracortada, apesar de roubar todas as cenas em que aparece, não é a protagonista do filme.
Vivida por Veronica Forqué, a personagem-título é uma maquiadora dotada de grande otimismo que, mesmo morando com o namorado fotógrafo, Ramon (Alex Casanova), mantém um tórrido romance com o padrasto dele, o escritor americano Nicholas (Peter Coyote). A volta de Nicholas à Espanha abala o relacionamento um tanto frio de Kika e Ramon, especialmente porque o rapaz desconfia que a morte de sua mãe não foi o suicídio oficial e sim um assassinato. O triângulo amoroso cruza o caminho de Andrea - novamente, já que ela foi amante de Ramon em outros tempos - quando o ator pornô Pablo (Santiago Lajusticia), irmão da empregada lésbica de Kika, Juana (Rossy de Palma), invade o apartamento da esteticista e a estupra repetidas vezes.
Apesar de brincar com temas sérios - violência sexual, adultério, homicídios - Almodovar não consegue, em "Kika" repetir o mesmo nível de sucesso de seu filme mais famoso até então, "Mulheres à beira de um ataque de nervos". Indeciso entre narrar uma história policial ou debochar dos excessos com que o gênero se mantém, ele não atinge aqui o delicado equilíbrio entre o drama e a comédia de seus trabalhos anteriores. Prejudicado pela falta de carisma de sua atriz principal - que substituiu Maria Barranco (a amante do terrorista de "Mulheres...") na última hora - o décimo longa-metragem de Almodovar esbarra na falta de interesse da história, não particularmente empolgante. No entanto, espertamente, seu maior trunfo acaba se tornando também a prova da fragilidade de sua protagonista.

Na pele de Andrea Caracortada - e se divertindo notadamente em cena - Victoria Abril tem os diálogos mais "almodovarianos" do filme, repletos de um humor surreal (a entrevista que faz com a mãe de um acusado de homicídio, por exemplo, é uma pérola de humor negro). Ainda que sua personagem não tenha uma profundidade maior - uma deficiência que o diretor curou majestosamente em seus trabalhos posteriores - Abril deita e rola, em uma das atuações mais fascinantes de sua carreira. Sempre que ela sai de cena o filme enfraquece, mesmo contando com a participação da também hilária Rossy de Palma. De Palma, aliás, um dos rostos mais estranhos do cinema europeu da época, também não fica atrás em termos de aproveitamento: todas as suas cenas nunca são menos do que engraçadíssimas. E isso inclui a polêmica sequência do estupro de sua patroa.
Em uma longa cena - mais de dez minutos - Almodovar mostra Kika sendo estuprada pelo irmão de sua empregada, um ator pornô foragido da cadeia que tenciona bater o recorde de gozar quatro vezes sem tirar. Em uma prova inconteste do humor sui generis do cineasta, ao invés de chocar ou indignar, a cena é uma das mais hilárias do filme - e isso inclui a participação de dois policiais bastante incomuns e um misterioso voyeur, que assiste a tudo de sua janela. Enquanto é estuprada, Kika não chora nem dramatiza: conversa com seu agressor e até mesmo tenta ajudá-lo em sua missão, ao simular o orgasmo mais falso da história do cinema...
Talvez "Kika" seja o filme menos brilhante de Almodovar - uma espécie de transição entre seu lado marginal e seu status de autor que se firmaria em pouco tempo. Mas é divertido, diferente e jamais comum, o que, convenhamos, é bom o suficiente.