Talvez tenha a ver com o fato de ele ter passado por alguns horrores quase inacreditáveis - perdeu os pais em um campo de concentração e a esposa grávida de oito meses em um assassinato chocante - mas Roman Polanski não parece ser o mais feliz dos cineastas, nem tampouco acreditar muito na inerente bondade humana. Realizador de obras sufocantes e quase sempre desprovidas do mais simples otimismo, como "Repulsa ao sexo" e "O bebê de Rosemary", Polanski exercita mais uma vez sua peculiar visão de mundo em "Lua de fel", um de seus filmes mais polêmicos, no qual ele concentra sua ironia e seu ceticismo em uma história de amor. Ou quase isso.
Em vias de tornar-se o britânico queridinho de Hollywood, Hugh Grant vive Nigel, um inglês certinho e tenso que tenta salvar seu casamento em crise fazendo um romântico cruzeiro com a esposa, Fiona (Kristin Scott-Thomas). Durante a viagem - que não parece estar ajudando a relação do casal - ele conhece o excêntrico escritor americano Oscar (Peter Coyote), paraplégico, falastrão e sempre com muitas doses de álcool no organismo. Percebendo a atração de Nigel por sua esposa, a silenciosa Mimi (Emmanuele Seigner), Oscar lhe conta, em encontros regados a muito whisky, seu relacionamento com ela - movido principalmente por desejo e entrega absoluta. De seu primeiro encontro em Paris até a tragédia que os uniu inexoravelmente ao mesmo destino, a história de amor/sexo/obsessão entre Oscar e Mimi supreende Nigel, cada vez mais excitado com a possibilidade de consumar sua atração pela dançarina.

Um tanto vulgar e frequentemente à beira do mau-gosto, "Lua de fel" é uma investigação sem maiores rodeios de um relacionamento doentio e obsessivo. Presos a uma fatalidade, Oscar e Mimi são uma espécie de espelho ao contrário de Nigel e Fiona, que não conseguem romper o marasmo e o tédio de um casamento obviamente morno. Polanski não tem medo de ser desagradável e foge da estética convencional das cenas de sexo, aqui bastante cruas e filmadas sem melindres. Ao som de uma trilha sonora que mistura George Michael, o brasileiro Fausto Fawcett e uma música bastante brega composta por Vangelis para o filme, Peter Coyote e Emanuelle Seigner se lambuzam de leite, se vestem de animais e se entregam a um roteiro que, por sua crueza e cinismo, encanta alguns e repugna vários.
Basicamente, "Lua de fel" fala de sexo, pura e simplesmente - do desejo, da repulsa e da obsessão decorrentes dele. Lançado nos EUA dois anos depois de sua estreia mundial, é um filme que, apesar de suas qualidades - um roteiro interessante e um tema forte são as maiores - não alcançou nem perto da quase unanimidade dos trabalhos anteriores de Roman Polanski. E de certa forma não é muito difícil entender certa resistência, tanto da crítica quanto do público, acostumados a obras menos herméticas e corajosas. No entanto, qualquer crítica feita ao desempenho de Seigner (esposa do diretor na vida real) é plenamente compreensível não particularmente bela ou sexy, ela é uma atriz limitadíssima, sem capacidade de interpretar uma personagem tão complexa como Mimi. Por causa dela, muitas sequências perdem sua força, o que logicamente diminui o potencial do filme como um todo.
"Lua de fel" não é um filme para todo tipo de público. Fãs de romances ou filmes de suspense convencionais devem passar-lhe longe. Mas para quem gosta de ser surpreendido com uma história que foge dos padrões - visuais ou morais - é um prato cheio.
