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Sunday, December 19, 2010

LUA DE FEL

LUA DE FEL (Lunes de fiel, 1992, Columbia Pictures/Canal +, 139min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Roman Polanski, Gerard Brach, John Brownjohn, romance de Pascal Bruckner. Fotografia: Tonino Delli Colli. Montagem: Herve de Luze. Música: Vangelis. Figurino: Jackie Burdin. Direção de arte/cenários: Willy Holt, Gerard Viard. Produção executiva: Robert Bernmussa. Produção: Roman Polanski. Elenco: Hugh Grant, Peter Coyote, Kristin Scott-Thomas, Emmanuelle Seigner. Estreia: 11/3/94

Talvez tenha a ver com o fato de ele ter passado por alguns horrores quase inacreditáveis - perdeu os pais em um campo de concentração e a esposa grávida de oito meses em um assassinato chocante - mas Roman Polanski não parece ser o mais feliz dos cineastas, nem tampouco acreditar muito na inerente bondade humana. Realizador de obras sufocantes e quase sempre desprovidas do mais simples otimismo, como "Repulsa ao sexo" e "O bebê de Rosemary", Polanski exercita mais uma vez sua peculiar visão de mundo em "Lua de fel", um de seus filmes mais polêmicos, no qual ele concentra sua ironia e seu ceticismo em uma história de amor. Ou quase isso.


Em vias de tornar-se o britânico queridinho de Hollywood, Hugh Grant vive Nigel, um inglês certinho e tenso que tenta salvar seu casamento em crise fazendo um romântico cruzeiro com a esposa, Fiona (Kristin Scott-Thomas). Durante a viagem - que não parece estar ajudando a relação do casal - ele conhece o excêntrico escritor americano Oscar (Peter Coyote), paraplégico, falastrão e sempre com muitas doses de álcool no organismo. Percebendo a atração de Nigel por sua esposa, a silenciosa Mimi (Emmanuele Seigner), Oscar lhe conta, em encontros regados a muito whisky, seu relacionamento com ela - movido principalmente por desejo e entrega absoluta. De seu primeiro encontro em Paris até a tragédia que os uniu inexoravelmente ao mesmo destino, a história de amor/sexo/obsessão entre Oscar e Mimi supreende Nigel, cada vez mais excitado com a possibilidade de consumar sua atração pela dançarina.

Um tanto vulgar e frequentemente à beira do mau-gosto, "Lua de fel" é uma investigação sem maiores rodeios de um relacionamento doentio e obsessivo. Presos a uma fatalidade, Oscar e Mimi são uma espécie de espelho ao contrário de Nigel e Fiona, que não conseguem romper o marasmo e o tédio de um casamento obviamente morno. Polanski não tem medo de ser desagradável e foge da estética convencional das cenas de sexo, aqui bastante cruas e filmadas sem melindres. Ao som de uma trilha sonora que mistura George Michael, o brasileiro Fausto Fawcett e uma música bastante brega composta por Vangelis para o filme, Peter Coyote e Emanuelle Seigner se lambuzam de leite, se vestem de animais e se entregam a um roteiro que, por sua crueza e cinismo, encanta alguns e repugna vários.

Basicamente, "Lua de fel" fala de sexo, pura e simplesmente - do desejo, da repulsa e da obsessão decorrentes dele. Lançado nos EUA dois anos depois de sua estreia mundial, é um filme que, apesar de suas qualidades - um roteiro interessante e um tema forte são as maiores - não alcançou nem perto da quase unanimidade dos trabalhos anteriores de Roman Polanski. E de certa forma não é muito difícil entender certa resistência, tanto da crítica quanto do público, acostumados a obras menos herméticas e corajosas. No entanto, qualquer crítica feita ao desempenho de Seigner (esposa do diretor na vida real) é plenamente compreensível não particularmente bela ou sexy, ela é uma atriz limitadíssima, sem capacidade de interpretar uma personagem tão complexa como Mimi. Por causa dela, muitas sequências perdem sua força, o que logicamente diminui o potencial do filme como um todo.

"Lua de fel" não é um filme para todo tipo de público. Fãs de romances ou filmes de suspense convencionais devem passar-lhe longe. Mas para quem gosta de ser surpreendido com uma história que foge dos padrões - visuais ou morais - é um prato cheio.

Friday, May 14, 2010

O BEBÊ DE ROSEMARY


O BEBÊ DE ROSEMARY (Rosemary's baby, 1968, Paramount Pictures, 136min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Roman Polanski, baseado no romance de Ira Levin. Fotografia: William Fraker. Montagem: Sam O'Steen, Bob Wyman. Música: Christopher Komeda. Produção: William Castle. Elenco: Mia Farrow, John Cassavetes, Ruth Gordon, Sidney Blackmer, Maurice Evans, Charles Grodin, Ralph Bellamy, Patsy Kelly. Estreia: 12/6/68

2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Ruth Gordon), Roteiro Adaptado

Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Ruth Gordon)

Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Ruth Gordon)


Em 1969, a atriz Sharon Tate, esposa do cineasta Roman Polanski, foi violentamente assassinada a mando de Charles Manson, um lunático que se auto-proclamava Jesus Cristo. Pode ter sido apenas uma trágica coincidência, mas não deixa de ser ainda mais apavorante e angustiante assistir a “O bebê de Rosemary” à luz desse bizarro acontecimento.

Um dos mais assustadores e marcantes filmes de suspense da história, essa adaptação do romance de Ira Levin é considerada até hoje como a obra-prima de Polanski e a encarnação cinematográfica mais cruel da maternidade, tendo como cenário o Edifício Dakota, em frente ao qual, anos depois, John Lennon seria assassinado por um fã - em mais uma bizarra coincidência, Manson alegava que os Beatles, através das letras de suas músicas, é que lhe mandava mensagens subliminares...

No filme de Polanski o Dakota tem outro nome, mas os acontecimentos sinistros que se passam em seus apartamentos não deixam nada a dever aos piores pesadelos da plateia. É para esse prédio que se muda o jovem casal Woodhouse. O marido, Guy (o cineasta independente John Cassavetes) é um ator em busca de seu lugar ao sol. A esposa é a doce e tímida Rosemary (Mia Farrow, frágil e delicada na melhor atuação de sua carreira), cujo maior sonho é aumentar a família. Esse sonho logo começa a tornar-se realidade depois de um sonho onde Rosemary sonha ser violentada por uma assustadora figura. Justo quando descobre que está grávida, ela comemora também o fato de seu marido ter sido escolhido para substituir um outro ator, que ficou inexplicavelmente cego.

Emagrecendo ao invés de engordar, comendo carne crua e sentindo dores excruciantes, logo a jovem gestante começa a desconfiar que há algo de errado em sua gravidez. Afastada dos amigos e do seu médico de confiança pelo marido e pelos misteriosos e solícitos vizinhos Roman e Minnie Castevet (Sidney Blackmer e a vencedora do Oscar Ruth Gordon), ela tem acesso a um livro sobre bruxaria e passa a ter a certeza absoluta de que o filho que espera é do demônio.

Poucas vezes o cinema de suspense foi tão inclemente quanto em “O bebê de Rosemary”. Sem poupar o que é considerada a melhor fase da vida de uma mulher, o roteiro claustrofóbico do diretor (bastante fiel às páginas do livro de Levin) joga com a angústia da protagonista, que praticamente definha em frente às câmeras nervosas do fotógrafo William Fraker. Mia Farrow, que ganhou o papel em uma época difícil de sua vida (estava se divorciando de Frank Sinatra), brilha como nunca, jamais se deixando seduzir pelas armadilhas do roteiro. Sua fragilidade física contribui muito para a evolução do suspense, por isso fica difícil imaginar Jane Fonda ou Julie Christie - ambas testadas para o papel, ambas boas atrizes, mas ambas com aparências mais robustas - sentindo-se encurraladas no terror proporcionado pela situação. O elenco secundário também ajuda a criar o clima denso e pesado do filme. Não foi à toa que Ruth Gordon levou o Oscar de coadjuvante: sua atuação como a misteriosa e bisbilhoteira vizinha é com certeza uma das mais marcantes de sua carreira, com uma personagem dúbia como o final, que, fugindo admiravelmente dos clichês que assolam o gênero, deixa no ar uma dúvida cruel e apavorante: não teria sido tudo um sonho paranóico de Rosemary?

O próprio Roman Polanski, em uma reveladora entrevista que consta no lançamento do filme em dvd, afirma que construiu todo o filme em cima dessa dubiedade que na maior parte das vezes nem é percebida pelo público. Ficou convencionado de que "O bebê de Rosemary" é um filme que fala sobre uma mulher grávida do diabo, mas pouquíssimas vezes houve o questionamento básico proposto pelo diretor: e se a influenciável Rosemary apenas se deixou levar por sua mente facilmente impressionável durante um período conhecidamente vulnerável na vida de uma mulher? Talvez essa pergunta seja ainda mais interessante do que o apavorante filme de Polanski, que comprova admiravelmente o poder da sugestão ao invés do grafismo explícito que assolaria o gênero terror alguns anos depois.

Não são sustos fáceis nem sangue aos borbotões que fazem de “O bebê de Rosemary” uma obra-prima. É sua inteligência, aliada à parte técnica impecável e a um elenco inspirado que fazem com que assisti-lo seja uma experiência tão angustiante hoje quanto foi em seu lançamento. Assista com as luzes apagadas e tente dormir depois!