Saturday, December 18, 2010

EM NOME DO PAI

EM NOME DO PAI (In the name of the father, 1993, Universal Pictures, 133min) Direção: Jim Sheridan. Roteiro: Jim Sheridan, Terry George, livro "Proved innocent", de Gerry Conlon. Fotografia: Peter Biziou. Montagem: Gerry Hambling. Música: Trevor Jones. Figurino: Joan Bergin. Direção de arte/cenários: Caroline Amies/Rick Butler. Produção executiva: Gabriel Byrne. Produção: Jim Sheridan. Elenco: Daniel Day-Lewis, Pete Postletwhaite, Emma Thompson, Anthony Brophy, Corin Redgrave. Orçamento: U$ 13 milhões. Bilheteria doméstica: U$ 25.096.862. Estreia: 29/12/93

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Jim Sheridan), Ator (Daniel Day-Lewis), Ator Coadjuvante (Pete Postletwhaite), Atriz Coadjuvante (Emma Thompson), Roteiro Adaptado, Montagem
Vencedor do Urso de Ouro do Festival de Berlim: Melhor Diretor (Jim Sheridan)

Para fins dramáticos, muitas vezes histórias reais são vítimas de alterações das mais variadas em sua transposição para o cinema. Provavelmente "Em nome do pai", filmaço do diretor irlandês Jim Sheridan poderia servir como um dos exemplos máximos disso que é carinhosamente chamado de "licença poética". As diferenças entre os fatos verídicos e os mostrados no filme são tão radicais que nem mesmo seu produtor executivo, o ator Gabriel Byrne, concordou com a visão de Sheridan e afastou-se do projeto. A despeito das discrepâncias entre o real e o filmado, porém, "Em nome do pai" é o melhor trabalho do cineasta e a atuação mais arrasadora de Day-Lewis.

O filme já começa mostrando a que veio quando um pub londrino vai pelos ares e a bela canção-tema (cantada por Bono, do U2) invade os créditos iniciais. Quando os créditos acabam o público fica sabendo  - através de uma fita gravada à advogada Gareth Pierce (Emma Thompson)  - a triste e quase inacreditável história de Gerry Conlon (Day-Lewis), um jovem irlandês condenado à prisão perpétua, acusado de ter planejado o atentado à bomba mostrado na cena inicial. Além de ser inocente - na noite da tragédia ele estava dormindo em um parque ao lado do melhor amigo - Gerry vê uma injustiça ainda maior ser cometida: não só ele e seus amigos são presos, mas também sua tia (acusada de fabricar bombas), seus primos pequenos e seu próprio pai, Giuseppe (Pete Postletwhaite), um homem religioso e correto com quem ele não tem uma relação das mais carinhosas. Forçados a dividir uma cela, pai e filho finalmente começam a criar sentimentos de admiração e amor. Quando Gareth entra em suas vidas - a pedido de um Giuseppe velho e doente - as irregularidades do julgamento começam a aparecer e eles passam a ter esperanças de ver sua sentença anulada.


A maior gritaria a respeito de "Em nome do pai" diz respeito à invenção do roteiro de Sheridan e Terry George - que seria o cineasta de "Hotel Ruanda", de 2004 - de fazer com que Gerry e Giuseppe dividam a mesma cela, fato que jamais ocorreu na história verdadeira. Realmente não é admirar a ira (desculpem o trocadilho infame) dos puristas, mas é impossível negar que, do ponto de vista dramatúrgico, a sacada do roteiro foi de mestre: além de contar uma história forte e revoltante de injustiça jurídica e social (e aí inclui-se preconceito contra hippies e irlandeses em geral), Sheridan também brinda o público com uma trama de alcance emocional de âmbito mais pessoal, que ressoa junto a qualquer espectador mais sensível. Para isso, o cineasta teve a sorte de contar com um elenco de sonhos.


Todos os três atores centrais do filme foram indicados ao Oscar e se premiados tivessem sido, não teria havido injustiça. Então praticamente desconhecido do grande público, Pete Postletwhaite teve aqui o papel mais marcante de sua carreira, criando um Giuseppe estóico e dono de uma fé inabalável. Emma Thompson, ainda que só entre de verdade no filme nos últimos trinta minutos, mostra porque é uma das atrizes britânicas mais competentes de sua geração (e que merece uma ressurreição artística urgente). Mas é Daniel Day-Lewis o corpo e a alma de "Em nome do pai".

Mesmo os detratores do ator são obrigados a tirar o chapéu para seu desempenho impecável. Day-Lewis vive (literalmente) Gerry Conlon, desde sua juventude irresponsável até seus dias de maturidade emocional e racional - passando por uma cena de interrogatório das mais tensas da história. Sem tentar apelar para a compaixão do público, uma vez que a história já é suficientemente revoltante, ele conquista pela inteligência de sua atuação, uma das mais consistentes da década de 90. Day-Lewis pega o público pela mão e o leva a testemunhar seu vasto leque de nuances: debochado, rebelde, revoltado, triste, corajoso. E o faz com a segurança de um grande ator.

Ficar indignado com a história contada em "Em nome do pai" é fácil - e a fotografia de Peter Biziou, a montagem de Gerry Hambling e a música de Trevor Jones apenas colaboram para isso. Difícil é esquecer a monstruosa interpretação de Day-Lewis e a força de sua história.