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Monday, September 19, 2011

UM AMOR QUASE PERFEITO

UM AMOR QUASE PERFEITO (Le fate ignoranti, 2001, Medusa Distribuzione, 106min) Direção: Ferzan Ozpetek. Roteiro: Ferzan Ozpetek, Gianni Romoli. Fotografia: Pasquale Mari. Montagem: Patrizio Marone. Música: Andrea Guerra. Figurino: Catia Dottori. Direção de arte/cenários: Bruno Cesari. Produção: Tilde Corsi, Gianni Romoli. Elenco: Margherita Buy, Stefano Accorsi, Serra Yilmaz, Gabriel Garko, Erika Blanc, Andrea Renzi. Estreia: 08/02/01 (Festival de Berlim)

A médica infectologista Antonia (Margherita Buy) leva um casamento de sonhos com seu marido, Mássimo, apesar de ter deixado para trás desejos como o de ter filhos e de ter se afastado dos amigos para dedicar-se à relação. Quando Mássimo morre repentinamente, vítima de um atropelamento, ela descobre abismada que ele tinha um caso extra-conjugal há sete anos. A busca por sua rival a leva até o jovem Michele (Stefano Accorsi) e, ainda mais atônita, a médica percebe que seu marido mantinha um relacionamento com o próprio rapaz. A princípio arrasada com a notívia, Antonia acaba se tornando responsável por Ernesto (Gabriel Garko), um jovem soropositivo amigo de Michele e, aos poucos, começa a notar que, ao lado dele Massimo era outra pessoa e que vivia com os amigos do amante como se fizessem todos parte de uma grande família. Ela e Michele passam, então, a conviver como amigos, vendo um no outro a lembrança do seu amor perdido.

Grande sucesso de bilheteria na Itália, seu país natal, “Um amor quase perfeito”, belo drama de Ferzan Ozpetek tem como principal qualidade a forma de apresentar e tratar de um assunto tabu: a bissexualidade. Ao introduzir a Antonia o mundo escondido de seu marido, o cineasta também mostra ao público uma nova maneira de ver um universo normalmente relegado ao estereótipo e ao humor exagerado. A família de amigos de Michele (uma uma interpretação excelente do galã Stefano Accorsi), por exemplo, é um núcleo familiar que foge ao padrão pré-estabelecido, mas é amorosa, leal e solidária. Há a mãezona (vivida pela ótima Serra Yilmaz), o casal bem-sucedido, o transexual fugido da verdadeira família, etc. Todos, no entanto, são personagens bem escritos, sem o ranço politicamente correto e preconceituoso que povoa o cinema comercial de modo geral.


Sem apelar para emoções fáceis ou sentimentos pasteurizados, Ozpetek criou um universo repleto de calor humano e personagens dicotômicos: ninguém é totalmente bom e ingênuo, todos tem seu passado e esperam seu futuro com maior ou menor esperança. Para isso é essencial o talento de seus dois protagonistas, Margherita Buy e Stefano Accorsi, que vive um gay longe das afetações comuns. Com um texto forte, uma trama atual (que encontra um espacinho para uma crítica de leve ao governo turco) e um elenco homogêneo e absolutamente à vontade em suas personagens únicas em suas personalidades e ordinárias em suas grandezas, “Um amor quase perfeito” (um título nacional mais uma vez totalmente sem sentido) é um legítimo representante do ótimo cinema italiano do começo do século.

Em tempo: as “fadas ignorantes” do título original são as pessoas que, mesmo sem o saber, transformam a vida de outras. E é o nome do quadro que Michele manda para Mássimo e que acaba sendo a pista que o revela à Antonia. Uma sutileza a mais em um filme simpático e realista.

Wednesday, September 14, 2011

O ÚLTIMO BEIJO

O ÚLTIMO BEIJO (L'ultimo bacio, 2001, Fandango, 115min) Direção e roteiro: Gabriele Mucino. Fotografia: Marcello Montarsi. Montagem: Claudio Di Mauro. Música: Paolo Buonvino. Figurino: Nicoletta Ercole. Direção de arte: Eugenia F. Di Napoli. Produção: Domenico Procacci. Elenco: Stefano Accorsi, Giovanna Mezzogiorno, Stefania Sandrelli, Claudio Santamaria, Giorgio Pasotti, Marco Cocci. Estreia: 02/02/01

Quando Hollywood resolve falar sobre crises geracionais sempre acaba esbarrando em generalizações rasas, talvez por querer agradar a todos os tipos de público. Foi preciso que um cineasta italiano chamado Gabriele Muccino mostrasse aos produtores americanos o caminho das pedras. Seu filme “O último beijo” agradou tanto aos executivos ianques que mereceu um remake, lançado em 2006, dirigido por Tony Goldwin e estrelado por Zach Braff. Não é preciso dizer, no entanto, que o original, como sempre acontece nesses casos, é muito melhor, principalmente porque conta, no papel central, um dos atores italianos mais requisitados de sua época, o ótimo Stefano Accorsi.

Tendo atuado, no mesmo ano, no belo “Um amor quase perfeito”, Accorsi tem, em “O último beijo”, um trabalho bastante diferente e maduro. Na pele de Carlo, o protagonista, ele representa todas as dúvidas de uma geração inteira de homens que, tendo passado a vida inteira sem maiores responsabilidades, se veem repentinamente obrigados a tomar atitudes adultas, apesar de sua mentalidade ainda adolescente. Com um roteiro bem escrito e equilibrado entre as histórias que conta, além de atuações bastante convincentes (ainda que um tanto exageradas, às vezes, culpa talvez do sangue italiano que corre nas veias do filme), a obra de Muccino é engraçado, comovente e realista, além de ter também um lado bastante romântico.


Às vésperas de completar 30 anos, o publicitário Carlo (Stefano Accorsi) descobre que vai ser pai, depois de três anos de relacionamento com a bela Giulia (Giovanna Mezzogiorno). Sentindo-se pressionado, ele passa a imaginar como será a sua vida sem o acréscimo de responsabilidade que uma paternidade fatalmente trará. Seus amigos também não são exemplos a ser seguidos. Seu colega de trabalho, Adriano (Giorgio Pasotti) tem um filho de seis meses, o que destruiu a paixão de sua relação com a esposa, Lívia (Sabrina Impaciatore). Paolo (Cláudio Santamaría) foi abandonado pela namorada, e, além de não conseguir recuperar-se do fato, tenta fugir de um futuro opaco na loja de sua família fazendo planos de viajar pelo mundo em um trailer. Alberto (Marco Cocci) foge de qualquer tipo de responsabilidade ficando com uma mulher diferente por dia. E Marco (Pierfrancesco Favino) é sua única fonte de calma e felicidade, uma vez que recém casou-se. E até mesmo a sogra de Carlo, Anna (Stefania Sandrelli) entra em crise com a ideia de ser avó e resolve separar-se do marido. Com tantas informações desencontradas à sua volta, Carlo acaba tentado a ceder à atração que sente pela adolescente Francesca (Martina Stella).

“O último beijo” é tudo que um filme sobre uma geração precisa ser sem parecer superficial ou genérico. Suas personagens não parecem personagens e sim pessoas reais, com problemas reais e atos nem sempre heróicos ou louváveis. Difícil é não identificar-se com pelo menos uma das histórias contadas pelo belo roteiro, escrito pelo próprio diretor e com um toque de sentimentalismo agridoce que deve agradar principalmente aos homens carentes de um filme leve e que os retrate com tanta precisão – e o que é ainda melhor, sem julgamentos.