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Wednesday, October 19, 2011

PLATA QUEMADA

PLATA QUEMADA (Plata quemada, 2001, Argentina, 125min) Direção: Marcelo Piñeyro. Roteiro: Marcelo Figueras, Marcelo Piñeyro, livro de Ricardo Piglia. Fotografia: Alfredo Mayo. Montagem: Juan Carlos Macias. Música: Osvaldo Montes. Figurino: Magali Izaguirre. Direção de arte/cenários: Belén Bernuy, Margarita Gomez, Noemí Nemirovsky/Ugo Guzzo. Produção: Diana Frey, Óscar Kramer. Elenco: Leonardo Sbaraglia, Eduardo Noriega, Pablo Echarri, Leticia Bredice, Hector Alterio. Estreia: 11/5/00

Normalmente a crítica, independente de suas origens culturais, tende a comparar - para efeito de facilitar a vida do espectador - filmes com outros que contenham elementos similares, mesmo que isso muitas vezes soe forçado ou limitatório. Felizmente não é o caso de "Plata quemada", excelente drama policial argentino que, em sua estreia, foi taxado imediatamente de um "Bonnie & Clyde gay". Tudo bem, os protagonistas realmente formam um casal homossexual e o ato final lembra o violento desfecho do clássico estrelado por Warren Beatty e Faye Dunaway em 1967. Mas a obra de Marcelo Piñeyro, baseda em um livro de Ricardo Piglia vai muito além de tal definição, sendo um dos mais consistentes filmes argentinos de uma retomada em muitos pontos superior à do cinema brasileiro.

Baseado em uma história real ocorrida na Argentina em 1965, "Plata quemada" começa com o planejamento de um assalto a um carro forte em Buenos Aires. Dois dos contratados para o roubo são um casal que passa por problemas de relacionamento: Nene (o ótimo Leonardo Sbaraglia) e Angel (Eduardo Noriega), que tem se recusado a manter relações sexuais com o parceiro devido a vozes que ouve em sua cabeça. Junto a eles está o motorista do grupo, o falastrão Corvo (Pablo Echarri), que dedica sua vida a mulheres e diversão. Quando o plano dá errado e policiais são mortos em ação, o grupo se vê obrigado a fugir para o Uruguai e esconder-se em um apartamento, enquanto aguarda uma maneira de escapar para o Brasil. Entediado com a clausura e sofrendo com a instabilidade de seu romance, Nene acaba conhecendo e se envolvendo com Giselle (Letícia Brédice), um relacionamento fugaz que acaba precipitando uma tragedia entre os rapazes.



Apesar de suas tensas cenas de ação, "Plata quemada" passa longe de ser um filme policial no sentido mais convencional do termo, com perseguições e planos mirabolantes criados por mentes privilegiadas. Talvez por ser uma história real, suas personagens soam dolorosamente verossímeis, em suas inseguranças e complexos. Na verdade, o filme pode ser lido de duas maneiras: há quem o veja como um filme policial com um triângulo amoroso como subtrama - e visto assim, a obra de Piñeyro funciona às mil maravilhas. Mas há também quem afirme que na realidade é uma história de um amor bandido entre dois homens apaixonados e complicados com uma violenta trama policial como pano de fundo. Sob esse prisma, "Plata quemada" consegue ser ainda mais passional e forte, graças a seu elenco corajoso e viril, que foge dos estereótipos dos gays afetados que povoam o cinema.

Tecnicamente competente - a fotografia e a edição são primorosas, assim como sua trilha sonora - e com um roteiro inteligente e sensível que em nenhum momento apela para cenas de sexo desnecessárias (ainda que conte com algumas quentes sequências eróticas), "Plata quemada" só não agrada àqueles que não conseguem separar seus preconceitos sexuais de um grande filme vindo de um país cuja filmografia não fica nada a dever ao melhor de Hollywood.

Wednesday, October 5, 2011

ASSUNTO DE MENINAS


ASSUNTO DE MENINAS (Lost and delirious, 2001, Lions Gate Films, 103min) Direção: Léa Pool. Roteiro: Judith Thompson, romance de Susan Swan. Fotografia: Pierre Gil. Montagem: Gaetan Huot. Música: Yves Chamberlain. Figurino: Aline Gilmore. Direção de arte/cenários: Serge Bureau/Josée Arsenault. Produção executiva: Louis Laverdière. Produção: Greg Dummett, Lorraine Richard, Louis-Philippe Rochon. Elenco: Piper Perabo, Jessica Paré, Mischa Barton, Jackie Burroughs, Graham Greene, Emily Vancamp. Estreia: 20/7/01

Apesar do título nacional forçar uma identificação com o público GLS, esse consistente drama canadense foge com louvor do rótulo “filme gay” para tornar-se (mais) um delicado conto sobre a perda da inocência. Narrado em primeira pessoa por Mary, também conhecida por “Mouse” ou “Brave B” (vivida pela ótima Mischa Barton), o conto de amor, rejeição e amadurecimento apresentado tem a seu favor inúmeras qualidades. O roteiro, baseado no romance de Susan Swan, é sutil, desbragadamente romântico e surpreendente, além de ter traços de um realismo de cortar o coração. A bela trilha sonora exprime com competência os sentimentos das personagens e até mesmo o enfoque dado ao romance homossexual das personagens foge do convencional. A diretora não quer ser sexy e sim falar de amor (e o fato de ser uma diretora e não um diretor faz toda a diferença nesse caso).

Graças à influência de sua madrasta, a pré-adolescente Mary Bedford (Mischa Barton) é transferida para um colégio interno feminino. Sensível e solitária, a menina logo se torna grande amiga de suas duas colegas de quarto, a delicada Victoria (Jéssica Paré) e a extrovertida e rebelde Pauline (Piper Perabo), que extravasa seu sentimento de rejeição por ter sido abandonada quando bebê sendo a mais conhecida e complicada aluna da escola. Em pouco tempo de colégio, Mary descobre que a amizade entre Pauline e Victoria ultrapassa os limites de uma amizade convencional e torna-se confidente das duas. No entanto, quando Victoria resolve terminar o relacionamento com a namorada, devido à pressão familiar, Pauline não aceita o rompimento e, usando como exemplo textos de Shakespeare e a maneira de viver de um gavião do qual tornou-se protetora, arma um plano para uma reconciliação. Seus planos, no entanto, podem acabar em tragédia, e só a amizade de Mary tem a possibilidade de impedí-la.



O elenco também não decepciona. A participação especial de Graham Greene (indicado ao Oscar por “Dança com lobos”) como um jardineiro que serve de ponte entre Mary e sua vida pregressa é simpática e agradável. As diretoras da escola, elas próprias envolvidas em segredos amorosos, são vividas com franqueza por Mimi Kuzyk e Jackie Burroughs. A bela Jessica Pare justifica todo o amor que desperta, além de emocionar com sua falta de determinação para viver sua história. E Piper Perabo, que começou a carreira em filmes como “Showbar” prova que, com um bom papel em mãos é capaz de transformar-se em uma atriz promissora e forte.

"Assunto de meninas" não é apenas mais um filme sobre meninas que se apaixonam. É, antes de tudo, uma história de amadurecimento, de amizade e de como o amor pode ser destrutivo.