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Wednesday, April 20, 2011

GÊNIO INDOMÁVEL

GÊNIO INDOMÁVEL (Good Will Hunting, 1997, Miramax Films, 126min) Direção: Gus Van Sant. Roteiro: Matt Damon, Ben Affleck. Fotografia: Jean Yves Escoffier. Montagem: Pietro Scalia. Música: Danny Elfman. Figurino: Beatrix Aruna Pasztor. Direção de arte/cenários: Melissa Stewart/Jaro Dick. Produção executiva: Su Armstrong, Jonathan Gordon, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Lawrence Bender. Elenco: Matt Damon, Robin Williams, Minnie Driver, Stellan Skarsgard, Ben Affleck, Casey Affleck, Cole Hauser. Estreia: 05/12/97

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Gus Van Sant), Ator (Matt Damon), Ator Coadjuvante (Robin Williams), Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Canção ("Miss Misery")
Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Robin Williams), Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Roteiro
Vencedor do SAG Awards de Ator Coadjuvante (Robin Williams)

De vez em quando, Hollywood lembra que o público, tão prestimoso em correr às salas exibidoras para testemunhar cenas de ação e violência aos borbotões, também gosta de acompanhar histórias delicadas sobre gente normal cuja maior missão - ao invés de salvar o mundo de uma ameaça terrorista - é definir os rumos que sua vida pessoal irá tomar em relação ao futuro. E é sobre  pessoas normais, comuns, quase invisíveis que trata "Gênio indomável", uma das maiores surpresas da temporada 1997. Escrito por Matt Damon e Ben Affleck, dois atores até então desconhecidos e com pouco mais de 20 anos (que o escreveram como forma de fazer acontecer suas carreiras), o drama produzido pela Miramax Films - o maior fabricante de oscarizáveis da década - é um típico produto feito para encantar os eleitores da Academia e o público adulto fã de boas histórias. Não é inesquecível, mas cumpre muito bem o que promete.

Dando início a uma carreira bem-sucedida, Matt Damon - que concorreu ao Oscar contra veteranos do porte de Dustin Hoffman e Jack Nicholson em uma atuação contida mas muito convincente - vive o protagonista, Will Hunting, um jovem desajustado que, vítima de lares adotivos desfuncionais, expressa toda sua raiva em brigas de rua com seu grupo de amigos. Figurinha fácil nas ocorrências policiais, ele é salvo de ficar na cadeia por Gerald Lambeau (Stelan Skarsgaard), um professor de matemática premiado com medalhas de honra por seu talento. Impressionado com a inteligência extraordinária de Hunting - que trabalha como faxineiro na instituição mas é capaz de resolver os mais complexos problemas matemáticos -  Lambeau se compromete diante do juiz a ajudar o rapaz a encontrar um caminho mais saudável na vida. Para isso, ele conta com a ajuda de Sean Maguire (Robin Williams), um terapeuta que conhece desde a juventude. Viúvo e recluso, Sean tenta fazer com que Will aprenda a lidar com sua fúria inerente e a direcione para uma vida menos sofrida e mais realizada, deixando de lado seus traumas de infância.  Enquanto isso, Will começa a se envolver com a doce Skylar (Minnie Driver), uma jovem estudante de Medicina que tenta romper a barreira emocional que o rodeia.



O roteiro de Damon e Affleck - vencedor de um Oscar questionável, uma vez que o disputou com "Boogie Nights" e "Melhor é Impossível" - não tenta ser espetacular. É redondo, é simples e, acima de tudo, é humano. Mesmo que esbarre em soluções um tanto fáceis e exagere na genialidade de seu protagonista, é um filme que prescinde de elementos outros além de diálogos e atores. Os diálogos são fluentes, inocentes (nas relações entre Will e seus amigos) e por vezes bastante interessantes (como nas cenas entre o protagonista e Sean). Nunca chegam a ser brilhantes, mas são muito superiores à média. E além de tudo, a trama paralela, que envolve a rivalidade entre Lambeau e Maguire é tão poderosa quanto a história principal, graças principalmente às atuações de Stelan Skarsgaard e Robin Williams, o último mais uma vez emprestando um carisma gigantesco a uma personagem - e que lhe rendeu um carinhoso Oscar de ator coadjuvante.
A Academia, aliás, rendeu-se incondicionalmente a "Gênio indomável". Indicado a 9 Oscar - inclusive filme, direção e uma inexplicável lembrança para Minnie Driver como coadjuvante feminina - e premiado com 2 estatuetas (além de Williams o roteiro também foi contemplado), o filme deu ao até então outsider Gus Van Sant a legitimização da indústria. Logicamente, a ousadia presente em filmes como "Drugstore Cowboy" e "Garotos de programa" nem passa perto desse seu filme família, o que incomodou profundamente seus fãs - que ainda teriam que aguentar seu desnecessário remake de "Psicose" e o ultra-meloso "Procurando Forrester". A direção de "Gênio indomável" é quase burocrática, nada inventiva e muito menos corajosa (em sua defesa é preciso dizer que o roteiro também não ajuda nesse quesito...), mas é elegante e dotada de um belo ritmo, além de não atrapalhar no desenvolvimento da história. É um trabalho apenas correto, que não justifica sua indicação ao Oscar (principalmente se levarmos em conta que Paul Thomas Anderson, de "Boogie nights", ficou de fora na categoria).

Enfim, não é preciso ter um cérebro privilegiado para perceber, em "Gênio indomável", uma profusão de clichês. Porém, da forma como colocados pelos roteiristas e pelo experiente Van Sant, eles soam não como lugares-comuns que incomodam e constrangem. Muito pelo contrário, os clichês de certa forma dão unidade ao filme, são como uma espécie de abrigo contra criatividades exageradas. "Gênio indomável" é caloroso, terno e honesto. É um belo conto sobre pessoas corajosas que lutam pelo direito a transformar o seu destino. E por isso emociona tanta gente.

Thursday, March 10, 2011

SLEEPERS, A VINGANÇA ADORMECIDA

SLEEPERS, A VINGANÇA ADORMECIDA (Sleepers, 1996, Baltimore Pictures/Polygram Filmed Entertainment, 147min) Direção: Barry Levinson. Roteiro: Barry Levinson, livro de Lorenzo Carcaterra. Fotografia: Michael Balhaus. Montagem: Stu Linder. Música: John Williams. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Beth A. Rubino. Produção executiva: Peter Giuliano. Produção: Steve Golin, Barry Levinson. Elenco: Brad Pitt, Jason Patric, Kevin Bacon, Robert DeNiro, Dustin Hoffman, Minnie Driver, Billy Crudup, Ron Eldard, Brad Renfro, Vittorio Gassman, Terry Kinney, Bruno Kirby, Joseph Perrino, Geoffrey Vigdor, Jonathan Tucker. Estreia: 18/10/96

Indicado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora Original/Drama

Alguns filmes marcam pelo romantismo ingênuo e feliz que transmitem. Alguns filmes ficam na memória da audiência devido às mensagens positivas que passam através de suas tramas. Outros ainda encantam pela beleza estética ou pela força de seus roteiros. No entanto, alguns (bons) filmes também podem tornar-se inesquecíveis por sua melancolia intrínseca, pela tristeza poderosa que emana de suas histórias, normalmente focadas em personagens tão reais quanto a plateia. Um filme que se encaixa nessa última categoria é "Sleepers, a vingança adormecida", um petardo emocional dirigido por Barry Levinson e pretensamente inspirado em uma história verdadeira. Baseado em um livro de Lorenzo Carcaterra - que o escreveu em forma de memórias - o filme causou polêmica quando teve sua veracidade questionada por investigações posteriores. No entanto, verdadeira ou não, sua história é forte o bastante para suscitar discussões e pesar feito um tijolo na memória dos espectadores.

Ao falar de pedofilia, abuso sexual, perjúrio, violência doméstica e delinquência juvenil, o oscarizado Barry Levinson enfrentou ainda mais controvérsia do que em seu filme anterior, "Assédio sexual", que fez sucesso de público (mas não de crítica) e que serviu apenas como veículo para o sex-appeal de Demi Moore. Sensível e talentoso, Levinson conseguiu revestir de sutileza uma trama pesada e angustiante, e o que é mais surpreendente, fez com que o público questionasse verdades até então estabelecidas como imutáveis. Sim, em "Sleepers" a plateia torce para que um padre cometa perjúrio para inocentar dois réus que - todo mundo viu - mataram a tiros um homem enquanto este jantava em um restaurante. Por que? É aí que a polêmica começa.

"Sleepers" tem início em 1966, em Hell's Kitchen, um bairro nova-iorquino onde se misturavam descendentes de italianos, irlandeses e todo tipo de pequenos e grandes marginais. É lá que quatro amigos adolescentes vivem esperando a idade adulta: Michael Sullivan (Brad Renfro), Lorenzo Carcaterra (Joseph Perrino), John Reilly (Geoffrey Wigdor) e Tommy Marcano (Jonathan Tucker) são unidos e encontram em sua amizade um oásis em meio às crises domésticas que os rodeiam. Em uma tarde quente de verão, como forma de passar um dia tedioso, eles decidem passar a perna em um vendedor de cachorro-quente e a brincadeira acaba tragicamente. Condenados a passar um ano presos em um reformatório, eles encontram apoio apenas na amizade do Padre Robert Carillo (Robert DeNiro). Encarcerados na instituição penal, eles começam a sofrer maus-tratos, abusos sexuais e extrema violência por parte dos guardas, em especial do líder deles, Noakes (Kevin Bacon).

A história, então, dá um pulo até 1981, quando, entregues à marginalidade, John (Ron Eldard) e Tommy (Billy Crudup, estreando no cinema) dão de cara com Noakes em um restaurante e o executam com meia dúzia de tiros. Levados à julgamento, eles se surpreendem ao descobrir que o promotor do caso é seu amigo de infância Michael (Brad Pitt), que, na verdade, contando com a ajuda de Lorenzo (Jason Patric) - agora um jornalista - tem um plano detalhado de vingança contra seus agressores, que envolve um advogado de defesa contratado pela Máfia (Dustin Hoffman) e Carol (Minnie Driver), amiga de infância do grupo.


Barry Levinson conduz de maneira correta sua história de perda da inocência, mas não consegue evitar a queda de ritmo em sua segunda metade, quando o elenco jovem sai de cena para que o segundo ato - o da vingança propriamente dita - comece. Contando com atores juvenis extraordinariamente capazes de despertar a simpatia e a compaixão da audiência, ele estabelece o tom sombrio já antes dos créditos de abertura, com a narração em off de Jason Patric (o menos carismático de todo o elenco). Quando a segunda parte do filme começa há uma espécie de quebra que a edição tem certos problemas em resolver - ainda que ecoe o trabalho de Thelma Schoonmaker em "Os bons companheiros" e "Cassino" em sua hora inicial, a montagem carece de um ritmo mais ágil depois do assassinato de Nokes (diga-se de passagem, vivido com maestria por Kevin Bacon). Talvez o problema seja também a falta de entusiasmo do maior astro do filme: na pele de Michael, o até então infalível Brad Pitt demonstra um cansaço que, apesar de ajudar na construção da personagem, soa como desinteresse aos olhos do público. Para sua sorte, Dustin Hoffman está inspirado como sempre e Robert DeNiro não precisa falar muito para passar seu recado (um exemplo claro dessa afirmação é a cena em que ele ouve, estupefacto, a descrição dos horrores pelos quais seus meninos passaram na casa de correção). No mínimo por Hoffman e DeNiro já seria obrigatória uma sessão de "Sleepers". Mas a boa notícia é que os rapazes da primeira metade também são sensacionais.

Com exceção de Jonathan Tucker, que se mantém em atividade em filmes como "72 horas" e Brad Renfro - que prometia tornar-se astro mas morreu precocemente aos 25 anos, em 2008 - os jovens "sleepers" (gíria que designa rapazes que cumpriram pena em instituições correcionais) não foram muito felizes em suas escolhas profissionais: Geoffrey Wigdor, que vive o frágil John Reilly, faz participação em séries de TV, assim como Joseph Perrino, que interpreta o narrador da história, Lorenzo Carcaterra. Juntos, os quatro são o destaque absoluto no elenco de uma obra que não dá tréguas ao espectador em momento algum. Do início ao fim não há espaço para o humor ou o romantismo (que surge nas cenas de Minnie Driver com Brad Pitt, mas apenas como mais um elemento melancólico). Mas, apesar dos pesares, "Sleepers" é um filme que melhora a cada revisão.

Fotografado claustrofobicamente por Michael Ballhaus e pontuado por uma trilha sonora discreta de John Williams, "Sleepers" é um trabalho denso e um tanto depressivo, mas feito com honestidade e talento E alguns filmes marcam justamente pela coragem de tocar em assuntos difíceis de forma contundente e real.