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Friday, October 14, 2011

VIDA BANDIDA

VIDA BANDIDA (Bandits, 2001, MGM Pictures, 123min) Direção: Barry Levinson. Roteiro: Harley Peyton. Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Stu Linder. Música: Christopher Young. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Victor Kempster/Merideth Boswell. Produção executiva: Patrick McCormick, Harley Peyton, David Willis. Produção: Ashok Amritraj, Michele Berk, Michael Birnbaum, David Hoberman, Barry Levinson, Arnold Rifkin, Paula Weinstein. Elenco: Bruce Willis, Billy Bob Thornton, Cate Blanchett, Troy Garity, January Jones. Estreia: 12/10/01

Parece mentira que Barry Levinson, o sério diretor premiado com o Oscar pelo dramalhão "Rain Man" e indicado novamente ao prêmio pelo ambicioso "Bugsy" seja o diretor de "Vida bandida", uma divertida e despretensiosa comédia romântica de ação. Contando com um roteiro esperto e um elenco de sonhos, o filme remete a famosos títulos sobre golpes e assaltos que tanto sucesso fizeram nos anos 60 e 70, como "Butch Cassidy" e "Golpe de mestre", ambos estrelados por Robert Redford e Paul Newman. Aqui, Bruce Willis e Billy Bob Thornton (mais à vontade do que nunca) é que são os protagonistas, dois amigos e comparsas que se veem às voltas com o desejo e o amor atrapalhando (ou nem tanto assim) sua lealdade.

Foragidos de uma penitenciária, os amigos Joe Blake (Bruce Willis) e Terry Lee Collins (Billy Bob Thornton) passam a ser conhecidos como os "Criminosos que passam a noite", em referência à sua tática sui generis de assaltarem os bancos escolhidos: eles passam a noite na casa do gerente e só na manhã seguinte cometem os roubos. Seu trio, completo com Harvey (Troy Garity, filho de Jane Fonda na vida real), primo de Joe que sonha ser dublê em Hollywood vira quarteto quando entra em cena a dona-de-casa entediada Kate Wheeler (Cate Blanchett, linda), que, depois de atropelar Terry, se envolve romanticamente com os dois cúmplices. A harmonia do grupo ameça ruir quando Joe surge com a ideia de - clichê máximo do gênero - um último golpe, que os levará a seu tão sonhado hotel no México.



A edição ágil - com idas e vindas no tempo - o final abertamente contraventor (que pode possivelmente incomodar as feministas mais ferrenhas), o roteiro enxuto e principalmente a trilha sonora composta de clássicos contemporâneos como "Beautiful day", da banda U2, fazem de "Vida bandida" uma obra que nada contra a maré dos filmes de ação, ao privilegiar os diálogos em detrimento da adrenalina e dar mais valor às personagens do que a cenas de perseguição ou tiroteios ocos. Na verdade, é uma diversão compromissada, que tem em seu elenco o atrativo maior. Enquanto Bruce Willis desfila seu habitual charme cool, é Billy Bob Thornton (ainda casado com Angelina Jolie à época das filmagens) que mais chama a atenção da plateia, talvez em parte devido aos engraçados diálogos reservados à sua personagem hipocondríaca e um tanto quanto maníaco-obsessiva (manias essas que o aproximam da enloquecida personagem de Blanchett, fugindo dos papéis dramáticos a que estava confinada desde que tornou-se estrela, com o filme "Elizabeth").

Ainda que se estenda mais do que o necessário - uns bons quinze minutos a menos fariam muita diferença a favor - "Vida bandida" é uma delícia. Afinal de contas, não há como não simpatizar imediatamente com um filme que conta com dois hinos de Bonnie Tyler - "Total eclipse of the heart" e "Holding out for a hero" - sendo dublados por Cate Blanchett.

Sunday, April 24, 2011

MERA COINCIDÊNCIA

MERA COINCIDÊNCIA (Wag the dog, 1997, New Line Cinema, 97min) Direção: Barry Levinson. Roteiro: Hilary Henkin, David Mamet, livro "American hero", de Larry Beinhart. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Stu Linder. Música: Mark Knopfler. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Robert Greenfield. Produção executiva: Michael De Luca, Claire Rudnick Polstein, Ezra Swerdlow. Produção: Robert De Niro, Barry Levinson, Jane Rosenthal. Elenco: Dustin Hoffman, Robert De Niro, Anne Heche, Denis Leary, Willie Nelson, Kirsten Dunst, Woody Harrelson, William H. Macy, James Belushi. Estreia: 25/12/97

2 indicações ao Oscar: Ator (Dustin Hoffman), Roteiro Adaptado
Prêmio Especial do Júri no Festival de Berlim

A vida imita a arte, a arte imita a vida ou o mundo da política é tão previsível que nada mais surpreende o eleitor? Essa é a dúvida que fica no ar após uma sessão de "Mera coincidência", lançado pelo premiado Barry Levinson em dezembro de 1997, no auge do escândalo envolvendo o presidente Bill Clinton e a estagiária da Casa Branca Monica Lewinsky. Porém, apesar do timing perfeito - que beneficiou o filme, m termos de badalação midiática - e da extrema semelhança entre ficção e acontecimentos reais, tudo não passou exatamente de, com o perdão do trocadilho, mera coincidência. Quando Clinton chegou às manchetes, acusado de manter um caso extra-conjugal com Lewinsky, o trabalho de Levinson já estava em fase de pós-produção. Quer se acredite ou não, "Mera coincidência" (título mais apropriado à ironia da questão em si do que ao filme propriamente dito) não é inspirado no governo do marido de Hilary. E isso faz
dele ainda mais desconcertante.

Quando o filme começa, o presidente dos EUA está em uma acirrada campanha pela reeleição. Esta campanha - amparada na velha frase Pra que trocar de cavalos no meio da corrida?, oriunda de um discurso de Abraham Lincoln - sofre um abalo considerável quando uma estudante acusa o chefe máximo da nação de tê-la assediado sexualmente. Desesperados para diminuir o estrago, os assessores de marketing da Casa Branca apelam para Conrad (Robert De Niro), especializado em resolver problemas. Conrad, raposa velha dos meios políticos sabe que somente uma coisa rivaliza em interesse com escândalos sexuais uma guerra. Porém, como o país está passando por um período de paz, essa guerra terá que ser criada. Para isso, é chamado Stanley Motss (Dustin Hoffman), um produtor hollywoodiano. Talentoso e criativo, Motss praticamente inventa uma guerra - com direito a imagens falsas, heróis viris, vítimas inocentes e até mesmo uma cançã-tema. Em poucos dias, toda a atenção dos eleitores está nas notícias sobre o conflito entre EUA e Albânia (que não tem a menor ideia do que está acontecendo).



"Mera coincidência" é uma comédia de ironias. Desperta sorrisos, nunca gargalhadas. O cérebro ri mais do que a boca, uma vez que as piadas não são sideradas ou explícitas. Tudo é muito sutil no roteiro inteligente a cargo do dramaturgo David Mamet e de Hilary Henkin - adaptando um romance de Larry Beinhart. As situações criadas por Beinhart são muito mais engraçadas do que as (poucas) piadas, que fazem todo o sentido do mundo para uma audiência acostumada ao mais ridículos absurdos providos pela televisão. A trama, repleta de reviravoltas e surpresas inacredítáveis (mas muito verossímeis) leva as personagens - e o espectador - a situações engraçadíssimas (o herói de guerra escolhido, por exemplo, é um condenado por estuprar uma freira). Até mesmo a canção criada para "embalar" a guerra não deixa de ser hilária, por lembrar nitidamente eventos como os "We are the world" da vida.

Filmado durante um intervalo nas filmagens de "Esfera" - também dirigido por Levinson e estrelado por Hoffman - "Mera coincidência" tem um resultado bastante superior à chata ficção científica do cineasta. É um humor inteligente, adulto e politicamente incorreto. Um filme para ser descoberto.

Thursday, March 10, 2011

SLEEPERS, A VINGANÇA ADORMECIDA

SLEEPERS, A VINGANÇA ADORMECIDA (Sleepers, 1996, Baltimore Pictures/Polygram Filmed Entertainment, 147min) Direção: Barry Levinson. Roteiro: Barry Levinson, livro de Lorenzo Carcaterra. Fotografia: Michael Balhaus. Montagem: Stu Linder. Música: John Williams. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Beth A. Rubino. Produção executiva: Peter Giuliano. Produção: Steve Golin, Barry Levinson. Elenco: Brad Pitt, Jason Patric, Kevin Bacon, Robert DeNiro, Dustin Hoffman, Minnie Driver, Billy Crudup, Ron Eldard, Brad Renfro, Vittorio Gassman, Terry Kinney, Bruno Kirby, Joseph Perrino, Geoffrey Vigdor, Jonathan Tucker. Estreia: 18/10/96

Indicado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora Original/Drama

Alguns filmes marcam pelo romantismo ingênuo e feliz que transmitem. Alguns filmes ficam na memória da audiência devido às mensagens positivas que passam através de suas tramas. Outros ainda encantam pela beleza estética ou pela força de seus roteiros. No entanto, alguns (bons) filmes também podem tornar-se inesquecíveis por sua melancolia intrínseca, pela tristeza poderosa que emana de suas histórias, normalmente focadas em personagens tão reais quanto a plateia. Um filme que se encaixa nessa última categoria é "Sleepers, a vingança adormecida", um petardo emocional dirigido por Barry Levinson e pretensamente inspirado em uma história verdadeira. Baseado em um livro de Lorenzo Carcaterra - que o escreveu em forma de memórias - o filme causou polêmica quando teve sua veracidade questionada por investigações posteriores. No entanto, verdadeira ou não, sua história é forte o bastante para suscitar discussões e pesar feito um tijolo na memória dos espectadores.

Ao falar de pedofilia, abuso sexual, perjúrio, violência doméstica e delinquência juvenil, o oscarizado Barry Levinson enfrentou ainda mais controvérsia do que em seu filme anterior, "Assédio sexual", que fez sucesso de público (mas não de crítica) e que serviu apenas como veículo para o sex-appeal de Demi Moore. Sensível e talentoso, Levinson conseguiu revestir de sutileza uma trama pesada e angustiante, e o que é mais surpreendente, fez com que o público questionasse verdades até então estabelecidas como imutáveis. Sim, em "Sleepers" a plateia torce para que um padre cometa perjúrio para inocentar dois réus que - todo mundo viu - mataram a tiros um homem enquanto este jantava em um restaurante. Por que? É aí que a polêmica começa.

"Sleepers" tem início em 1966, em Hell's Kitchen, um bairro nova-iorquino onde se misturavam descendentes de italianos, irlandeses e todo tipo de pequenos e grandes marginais. É lá que quatro amigos adolescentes vivem esperando a idade adulta: Michael Sullivan (Brad Renfro), Lorenzo Carcaterra (Joseph Perrino), John Reilly (Geoffrey Wigdor) e Tommy Marcano (Jonathan Tucker) são unidos e encontram em sua amizade um oásis em meio às crises domésticas que os rodeiam. Em uma tarde quente de verão, como forma de passar um dia tedioso, eles decidem passar a perna em um vendedor de cachorro-quente e a brincadeira acaba tragicamente. Condenados a passar um ano presos em um reformatório, eles encontram apoio apenas na amizade do Padre Robert Carillo (Robert DeNiro). Encarcerados na instituição penal, eles começam a sofrer maus-tratos, abusos sexuais e extrema violência por parte dos guardas, em especial do líder deles, Noakes (Kevin Bacon).

A história, então, dá um pulo até 1981, quando, entregues à marginalidade, John (Ron Eldard) e Tommy (Billy Crudup, estreando no cinema) dão de cara com Noakes em um restaurante e o executam com meia dúzia de tiros. Levados à julgamento, eles se surpreendem ao descobrir que o promotor do caso é seu amigo de infância Michael (Brad Pitt), que, na verdade, contando com a ajuda de Lorenzo (Jason Patric) - agora um jornalista - tem um plano detalhado de vingança contra seus agressores, que envolve um advogado de defesa contratado pela Máfia (Dustin Hoffman) e Carol (Minnie Driver), amiga de infância do grupo.


Barry Levinson conduz de maneira correta sua história de perda da inocência, mas não consegue evitar a queda de ritmo em sua segunda metade, quando o elenco jovem sai de cena para que o segundo ato - o da vingança propriamente dita - comece. Contando com atores juvenis extraordinariamente capazes de despertar a simpatia e a compaixão da audiência, ele estabelece o tom sombrio já antes dos créditos de abertura, com a narração em off de Jason Patric (o menos carismático de todo o elenco). Quando a segunda parte do filme começa há uma espécie de quebra que a edição tem certos problemas em resolver - ainda que ecoe o trabalho de Thelma Schoonmaker em "Os bons companheiros" e "Cassino" em sua hora inicial, a montagem carece de um ritmo mais ágil depois do assassinato de Nokes (diga-se de passagem, vivido com maestria por Kevin Bacon). Talvez o problema seja também a falta de entusiasmo do maior astro do filme: na pele de Michael, o até então infalível Brad Pitt demonstra um cansaço que, apesar de ajudar na construção da personagem, soa como desinteresse aos olhos do público. Para sua sorte, Dustin Hoffman está inspirado como sempre e Robert DeNiro não precisa falar muito para passar seu recado (um exemplo claro dessa afirmação é a cena em que ele ouve, estupefacto, a descrição dos horrores pelos quais seus meninos passaram na casa de correção). No mínimo por Hoffman e DeNiro já seria obrigatória uma sessão de "Sleepers". Mas a boa notícia é que os rapazes da primeira metade também são sensacionais.

Com exceção de Jonathan Tucker, que se mantém em atividade em filmes como "72 horas" e Brad Renfro - que prometia tornar-se astro mas morreu precocemente aos 25 anos, em 2008 - os jovens "sleepers" (gíria que designa rapazes que cumpriram pena em instituições correcionais) não foram muito felizes em suas escolhas profissionais: Geoffrey Wigdor, que vive o frágil John Reilly, faz participação em séries de TV, assim como Joseph Perrino, que interpreta o narrador da história, Lorenzo Carcaterra. Juntos, os quatro são o destaque absoluto no elenco de uma obra que não dá tréguas ao espectador em momento algum. Do início ao fim não há espaço para o humor ou o romantismo (que surge nas cenas de Minnie Driver com Brad Pitt, mas apenas como mais um elemento melancólico). Mas, apesar dos pesares, "Sleepers" é um filme que melhora a cada revisão.

Fotografado claustrofobicamente por Michael Ballhaus e pontuado por uma trilha sonora discreta de John Williams, "Sleepers" é um trabalho denso e um tanto depressivo, mas feito com honestidade e talento E alguns filmes marcam justamente pela coragem de tocar em assuntos difíceis de forma contundente e real.

Monday, September 13, 2010

RAIN MAN


RAIN MAN (Rain Man, 1988, United Artists, 133min) Direção: Barry Levinson. Roteiro: Ronald Bass, Barry Morrow. Fotografia: John Seale. Montagem: Stu Linder. Música: Hans Zimmer. Figurino: Bernie Pollack. Direção de arte/cenários: Ida Random/Linda DeScenna. Casting: Louis DiGiaimo. Produção executiva: Peter Guber, Jon Peters. Produção: Mark Johnson. Elenco: Dustin Hoffman, Tom Cruise, Valeria Golino, Bonnie Hunt. Estreia: 16/12/88

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Barry Levinson), Ator (Dustin Hoffman), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Direção de arte/cenários

Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Barry Levinson), Ator (Dustin Hoffman), Roteiro Original

Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Ator/Drama (Dustin Hoffman)


Pródiga que é em lançar filmes sobre doenças fatais e/ou raras, Hollywood conta sempre com o apoio da Academia, que adora premiar com seus ambicionados Oscar histórias lacrimosas de superação e dor - se o filme em questão ainda tiver uma mensagem do tipo "DESCOBRI O VERDADEIRO SENTIDO DA VIDA E ME TORNEI UMA PESSOA MELHOR", então a festa está completa. É este o caso de "Rain Man", grande vencedor da cerimônia de 1988. Vitorioso em 4 categorias importantíssimas - filme, direção, ator e roteiro original - o filme de Barry Levinson tem todas as características que seduzem os eleitores da Academia... e por conseguinte a platéia cativa que obras do gênero possuem. A única coisa que difere "Rain Man" das dezenas de outros títulos que movimentam o mercado de lenços de papel é Dustin Hoffman. Na pele do protagonista Raymond Babbit, Hoffman entrega um dos momentos mais marcantes de sua brilhante carreira, merecidamente premiado com sua segunda estatueta dourada de Melhor Ator.

"Rain Man" começa quando o jovem empresário Charlie Babbitt (Tom Cruise em mais um passo rumo a ser levado a sério como ator) fica sabendo da morte de seu pai, um milionário aparentemente seco e desprovido de maiores afetos por ele. Endividado até a raiz dos cabelos, Charlie espera receber uma polpuda herança, que o aliviaria de seus problemas financeiros. No entanto, para seu choque, descobre que herdou apenas um automóvel raro e algumas roseiras. O restante do patrimônio de sua família, ele descobre estarrecido, ficou para um irmão mais velho que ele sequer sabia existir. Raymond, seu irmão mais velho, vive em um hospital psiquiátrico por ser autista - uma rara condição que faz com que viva em um mundo particular, com regras rígidas e imutáveis. Com a intenção de obrigar a justiça a lhe pagar o que deve, Charlie praticamente sequestra Raymond e no caminho, descobre que ele tem uma inteligência rara, capaz de fazer cálculos complicadíssimos de cabeça, ao mesmo tempo que desconhece por completo (e por pura ironia!) o valor do dinheiro.

Logicamente, no decorrer do filme (que torna-se uma espécie de road movie graças ao terror que Raymond tem de voar) Charlie torna-se uma pessoa melhor, mais humana e menos fria. O convívio com o irmão mais velho faz com que o rapaz redescubra a ternura e o carinho, aproximando-o inclusive da namorada, Susanna (a péssima Valeria Golino). Mesmo que tente fugir dos clichês e do sentimentalismo barato - acrescentando uma bem-vinda dose de bom humor aos diálogos - o roteiro de Ronald Bass e Barry Morrow nem sempre é bem-sucedido em sua empreitada. Em alguns momentos há a séria ameaça de tornar-se extremamente piegas, e é aí que o trabalho fenomenal de Hoffman emerge glorioso.

Em uma composição minuciosa de voz e corpo, Dustin consegue fazer de seu Raymond Babbit não um doente engraçadinho e cativante (como o primeiro esboço do roteiro, recusado por ele, o apresentava) mas como um homem enervante, quase insuportável na rigidez de sua rotina. Escalado para viver Charlie em um primeiro tratamento do projeto (em que os irmãos teriam uma diferença bem menos considerável de idade), Hoffman apaixonou-se pelo papel de Raymond e passou dois anos convivendo com autistas para compor sua personagem, sugerindo modificações no roteiro e realizando exaustivos ensaios com Cruise (que não se sai mal como escada para seu brilho). Para sua sorte, Steven Spielberg, que esteve para dirigir o filme em uma ocasião, o deixou de lado para realizar "Indiana Jones e a última cruzada", caso contrário, a dose de sacarina provavelmente seria bem maior e talvez nem mesmo ele salvasse "Rain Man" de ser mais um exemplar corriqueiro de drama médico/familiar.

Um dos filmes preferidos da Princesa Diana, "Rain Man" emociona, faz rir e ainda consegue ser um bom filme. Não era o melhor filme do ano, mas cumpre o que promete. E tem Dustin Hoffman.