Saturday, October 23, 2010

TEMPO DE DESPERTAR

TEMPO DE DESPERTAR (Awakenings, 1990, Columbia Pictures, 121min) Direção: Penny Marshall. Roteiro: Steven Zaillian, livro de Oliver Sacks. Fotografia: Miroslav Ondricek. Montagem: Battle Davis, Jerry Greenberg. Música: Randy Newman. Figurino: Cynthia Flynt. Direção de arte/cenários: Anton Furst/George De Titta Jr. Casting: Bonnie Timmermann. Produção executiva: Eliott Abbott, Penny Marshall, Arne Schmidt. Produção: Lawrence Lasker, Walter F. Parkes. Elenco: Robert DeNiro, Robin Williams, Penelope Ann Miller, Julie Kavner, John Heard, Bradley Whitford, Max Von Sydow, Peter Stormare. Estreia: 20/12/90

3 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Robert DeNiro), Roteiro Adaptado

Emocionar sem apelar para o piegas - ou ao menos não exagerar demais no sentimentalismo - não é tarefa das mais fáceis. Conquistar a plateia pela emoção sem obrigá-la a catarses sufocantes não é pra qualquer um. Por isso talvez " Tempo de despertar" tenha arrebatado 3 importantes indicações ao Oscar que premiou os melhores de 1990 - melhor filme, ator e roteiro adaptado. Inspirado no livro do médico Oliver Sacks, o filme de Penny Marshall é conciso e sóbrio ao narrar uma história extraordinária - que, por incrível que pareça, aconteceu de verdade.

Em 1969, o doutor Malcolm Sayer (um Robin Williams discreto e na melhor fase de sua carreira) consegue um emprego em uma clínica neurológica do Bronx, a despeito de sua parca experiência com doentes. Logo em seus primeiros dias, ele toma contato com um mundo à parte, formado por pacientes crônicos e sem esperança de cura ou melhora, contando com o apoio da enfermeira Eleanor (Julie Kavner). Atento aos seres humanos com que lida, ele descobre que boa parte deles entrou em seu estado de isolamento em relação ao mundo que os cerca depois de uma epidemia de febre acontecida em NY nos anos 20. Depois de algumas pesquisas, Sayer resolve tentar uma nova forma de tratamento: com a autorização da mãe de um dos pacientes, Leonard Lowe (Robert DeNiro), ele utiliza nos doentes o mesmo remédio que ajuda aqueles acometidos com mal de Alzheimer. As pesquisas dão certo e Lowe, que ficou mais de 30 anos em estato catatônico, volta à vida. Aos poucos, seus colegas de hospital também começam a reagir à medicação.
"Tempo de despertar" pode ser dividido em duas partes distintas. No início, Robin Williams demonstra que a sutileza demonstrada em "Sociedade dos poetas mortos" não era mero acaso. Na pele de Malcolm Sayer - uma espécie de alter-ego de Oliver Sacks - ele é forte e decidido, mas sensível às necessidades das pessoas com as quais lida diariamente. Até mesmo seu romance hesitante com a enfermeira foge do óbvio graças a ele e à sempre competente Julie Kavner. Mas se Williams é dono da primeira metade do filme, sua segunda e última parte deve tudo ao mestre Robert De Niro.

Indicado ao Oscar por sua atuação, o veterano De Niro mostra porque é considerado um dos melhores atores de sua geração. Detalhista e perfeccionista, ele constrói com delicadeza e minúcia um Leonard Lowe que vai do silêncio catatônico à rebeldia contra o hospital; dos primeiros gestos titubeantes de sua volta à vida aos tiques angustiantes de seu retorno à doença. Quando o tratamento proposto por Sayer se prova paliativo e Lowe regride ao que era anteriormente, De Niro impressiona a audiência com uma interpretação arrebatadora. Apaixonado pela jovem Paula (Penelope Ann Miller) - filha de um paciente - ele sente a volta de seus sintomas com o terror e o desespero de quem prevê a própria morte, e leva o público junto em sua tristeza. Pode fazer chorar, mas não o faz de maneira apelativa e/ou fácil.

Juntos, Robert De Niro e Robin Williams fazem de "Tempo de despertar" um belo drama, sensível e delicado, que se distancia muito dos tradicionais "Doença da semana". Provavelmente com outros atores nos papéis centrais, seria de difícil digestão. Com eles, é um belo exemplo de como bons atores conseguem fazer de um filme uma experiência gratificante.