No final da década de 80, Cher era uma das atrizes mais poderosas da indústria, graças a seu Oscar por "Feitiço da lua", um prêmio que lhe deu um invejável respeito entre seus colegas. Uma das maiores provas de seu poder está em "Minha mãe é uma sereia" - além de ser a protagonista do filme, ela foi a responsável pela substituição do primeiro diretor escolhido - Frank Oz por Richard Benjamin - e pela escalação da então queridinha de Hollywood, Winona Ryder no lugar da promissora Emily Lloyd. A razão alegada por Cher até fazia sentido - ela achava que Winona, por ser morena, era mais verossímil como sua filha do que a loira Lloyd - mas o fato é que, graças a suas escolhas artísticas, "Minha mãe é uma sereia" acabou se transformando em uma deliciosa e simpática comédia dramática. Não muda a vida de ninguém, mas diverte na medida certa.
A trama de "Minha mãe é uma sereia" se passa em 1963, quando a excêntrica Sra. Flax (vivida com gosto por Cher) chega a uma pacata cidade do interior dos EUA acompanhada das duas filhas, a tímida Charlotte (Winona Ryder) e a pequena Kate (Christina Ricci). Solteira e independente, a jovem senhora muda de cidade toda vez que vê um relacionamento falir, o que atrapalha ainda mais a adolescência complexa de Charlotte, que, apesar da origem judaica, sonha em tornar-se freira. Sua fascinação por histórias de santos é deixada de lado, no entanto, quando ela conhece o jovem Joe (Michael Schoeffling), que trabalha na igreja da cidade e que se apaixona por ela. Seu titubeante romance acontece concomitantemente com a nascente relação entre sua mãe e Lou Landsky (Bob Hoskins), dono de uma loja de sapatos.

"Minha mãe é uma sereia" não tem uma história mirabolante ou grandes lances dramáticos. O roteiro de June Roberts se concentra em retratar o clima ainda ingênuo da América pré-assassinato de Kennedy através da relação entre uma mãe à frente de seu tempo e suas filhas tentando descobrir seu lugar no mundo - e nas relações interpessoais. É interessante notar o equilíbrio entre as personalidades de Charlotte (extremamente madura em alguns aspectos e pateticamente ingênua em outros, a ponto de achar-se grávida depois de um simples beijo) e sua mãe (que foge dos relacionamentos que julga fadados ao fracasso, mas tem uma relação de extremo carinho com a família). O contraponto entre a exuberante Cher e o simpático Bob Hoskins funciona à perfeição, assim como a química perfeita entre a atriz/cantora com Winona Ryder e uma adorável Christina Ricci.
Contando com uma trilha sonora cuidadosamente escolhida - na qual até mesmo uma divertida canção de Cher tem espaço - e um clima de sessão da tarde, "Minha mãe é uma sereia" consegue agradar sem fazer muito esforço, principalmente devido ao carisma de suas protagonistas.
