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Thursday, February 2, 2012

CHICAGO

CHICAGO (Chicago, 2002, Miramax Films, 113min) Direção: Rob Marshall. Roteiro: Bill Condon, peça teatral de Maurine Dallas Watkins, músicas de Bob Fosse, Fred Ebb. Fotografia: Dion Beebe. Montagem: Martin Walsh. Música: Danny Elfman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: John Myhre/Gord Sim. Produção executiva: Jennifer Berman, Sam Crothers, Julia Goldstein, Neil Meron, Meryl Poster, Bob Weinstein, Harvey Weinstein, Craig Zadan. Produção: Martin Richards. Elenco: Renée Zellweger, Richard Gere, Catherine Zeta-Jones, John C. Reilly, Queen Latifah, Colm Feore, Taye Diggs, Dominic West, Christine Baranski, Lucy Liu. Estreia: 27/12/02

13 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Rob Marshall), Atriz (Renée Zellweger), Ator Coadjuvante (John C. Reilly), Atriz Coadjuvante (Queen Latifah, Catherine Zeta-Jones), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Canção ("I move on"), Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor de 6 Oscar: Melhor Filme, Atriz Coadjuvante (Catherine Zeta-Jones), Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Ator Comédia/Musical (Richard Gere), Atriz Comédia/Musical (Renée Zellweger)
Vencedor de 3 Screen Actors Guild Awards: Atriz (Renée Zellweger), Atriz Coadjuvante (Catherine Zeta-Jones), Melhor Elenco

O "Chicago" que todo mundo conhece e admira, vencedor de 6 Oscar e o maior sucesso de bilheteria da história da Miramax poderia ter sido bem diferente. Alvo do interesse dos estúdios hollywoodianos desde sua estreia nos palcos da Broadway em 1975, o musical - que chegou aos cinemas dirigido com energia e criatividade por Rob Marshall, cujo currículo tinha de marcante somente uma versão para a TV do chatinho "Annie" - demorou quase três décadas para fazer a transição dos palcos para as telas, e entre as intenções e a realização muita coisa mudou. Entre Bob Fosse (que dirigiu e coreografou a versão teatral da trama em sua estreia) e Marshall (que efetivamente comandou o espetáculo de 2002) até mesmo Nicholas Hytner esteve interessado em dirigir e na lista de atores que estiveram envolvidos com o projeto, em um momento ou outro da produção, estão nomes como Madonna, Goldie Hawn, Kathy Bates, Nicole Kidman, Charlize Theron, Cameron Diaz, Whoopi Goldberg, Hugh Jackman, Frank Sinatra, Liza Minnelli, Toni Collette, Marisa Tomei, Gwyneth Paltrow, Winona Ryder e até (ufa!) Britney Spears. Como às vezes o tempo é uma bênção, é impossível não se deixar conquistar pelo elenco que finalmente assumiu os papéis criados por Maurine Dallas Watkins e adaptados pelo ótimo Bill Condon.

A trama de "Chicago" se passa nos anos 20, quando o teatro de vaudeville estava em seu auge. Ser uma estrela dos palcos é o sonho maior de Roxie Hart (Renee Zelwegger), que, no entanto, precisa levar uma vida sem sal de dona-de-casa ao lado do marido, o mecânico Amos (John C. Reilly). Quando ela conhece o sedutor Fred Casely (Dominic West) sua sorte parece estar começando a mudar: porém, ao contrário das promessas que o rapaz faz (de que vai apresentá-la às pessoas certas no show business) ele quer apenas levá-la pra cama. Quando ela descobre isso, não vê outra alternativa senão matá-lo. Na cadeia, ela conhece seu maior ídolo, a atriz Velma Kelly (Catherine Zeta-Jones), que aguarda julgamento pelo assassinato duplo de sua irmã e seu amante. Para escapar da condenação à forca, Roxie contrata (com o financiamento do pobre marido) o famoso e competente Billy Flynn (Richard Gere), que também defende Velma. As duas passam, então, a disputar a atenção do advogado e as manchetes dos jornais.



Talvez a maior qualidade de "Chicago" seja mesmo seu roteiro: Bill Condon (que dirigiu o sensacional "Deuses e monstros", de 1998) consegue o feito raro de manter o tom irônico de suas primeiras cenas até os créditos de encerramento, sempre entregando à plateia diálogos inteligentes e sarcásticos, seja em falas ou canções, todas elas absolutamente bem encaixadas na história, por si só interessante o bastante. A química entre as duas protagonistas (ambas indicadas ao Oscar, mas apenas Zeta-Jones premiada, de forma um tanto estranha, como coadjuvante) é extraordinária e é perceptível sua entrega ao trabalho. Todos os belos números musicais são dirigidos com extrema competência por Marshall e belissimamente fotografados por Dion Beebe, que dá uma atmosfera de sonho a todos eles. A ideia genial do cineasta - e que deu rumo à adaptação para o cinema - foi fazer com que todos os números sejam originários da imaginação fértil de Roxie, que, assim vê a carcereira Mamma Morton (Queen Latifah, ótima) como uma sofisticada crooner e a execução de uma companheira de prisão como uma apresentação de mágica. É particularmente feliz a ideia de Marshall conduzir a entrevista coletiva de Roxie e Billy como se ela fosse um títere (e a execução da cena é, no mínimo, antológica).

Beneficiando-se do sucesso de "Moulin Rouge" - cujos elogios e popularidade abriu as portas para que novos musicais pudessem ser produzidos pela terra do cinema - "Chicago" conquista principalmente por não ousar demais como o filme de Baz Luhrmann. É um filme claramente moderno, mas com uma linguagem tradicional, que peca apenas por não surpreender em termos estilísticos. Rob Marshall segue à risca a cartilha de Bob Fosse, com coreografias excepcionais e um apurado visual, brincando muito mais com as pequenas ironias que cercam suas personagens do que com o gênero em si, como fez o filme estrelado por Nicole Kidman e Ewan McGregor. Proporciona brilhantes momentos-solos a seus atores (John C. Reilly deita e rola com "Mr.Cellophane" mas Richard Gere mostra sua fragilidade artística com "Razzle Dazzle") e revela em Marshall um cineasta atento aos detalhes e às sutilezas de um projeto tão ambicioso. E além de tudo - e o que é ainda melhor - diverte sem tratar a audiência como débil mental.

Muita gente torceu o nariz para o generoso número de Oscar para "Chicago" - em especial os fãs de seus rivais na briga pela estatueta "As horas" e "Gangues de Nova York". Mas é inegável que é um trabalho de primeira grandeza, realizado com um talento incomum e que remete aos bons tempos de uma Hollywood glamourosa e que tinha no entretenimento sua principal preocupação.

Thursday, November 10, 2011

INFIDELIDADE

INFIDELIDADE (Unfaithful, 2002, Fox 2000 Pictures, 112min) Direção: Adrian Lyne. Roteiro: Alvin Sargent, William Broyles Jr., roteiro original de Claude Chabrol. Fotografia: Peter Biziou. Montagem: Anne V. Coates. Música: Jan A.P. Kaczmarek. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Brian Morris/Susan Tyson. Produção executiva: Lawrence Steven Meyers, Arnon Milchan, Pierre-Richard Muller. Produção: G. Mac Brown, Adrian Lyne. Elenco: Richard Gere, Diane Lane, Olivier Martinez, Chad Lowe, Erik Per Sullivan, Michelle Monaghan, Myra Lucretia Taylor. Estreia: 10/5/02

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Diane Lane)

Em 1986 o cineasta inglês Adrian Lyne inspirou centenas de casais mundo afora com as tórridas fantasias retratadas no cult "9 1/2 semanas de amor". No ano seguinte, apavorou homens casados e foi indicado ao Oscar por "Atração fatal" e em 1993 aproveitou o auge da beleza de Demi Moore para provocar polêmica com "Proposta indecente". Utilizando mais uma vez seus ingredientes "infalíveis" ele voltou à a baila com "Infidelidade", que mistura a sensualidade de "9 1/2" com a temática adulta de "Atração" e a controvérsia de "Proposta". O resultado é um filme que não se decide entre o drama, o erotismo e o suspense e que tem como maior trunfo a atuação irrepreensível de Diane Lane. 


Lane mereceu uma surpreendente indicação ao Oscar por seu trabalho como Connie Sumner, uma dona-de-casa que leva uma vida tranquila e sem maiores sobressaltos em um subúrbio de Nova York, ao lado do marido, Edward (Richard Gere no atípico papel de marido sem sex-appeal) e do filho pequeno. Em uma tarde como outra qualquer em Manhattan, durante uma ventania ela esbarra no sexy Paul Martel (o inexpressivo francês Olivier Martinez), um comerciante de livros usados e vai pra casa dele cuidar de um ferimento no joelho. Intrigada com o rapaz, logo ela passa a encontrar-se regularmente com ele, iniciando um quente e passional relacionamento extra-conjugal. Em breve a relação começa a atrapalhar a rotina de Connie e despertar a suspeita do marido, que, desconfiado, contrata um detetive para seguir a mulher. Quando a verdade vem à tona, uma tragédia transforma a vida de todos.


O problema maior de "Infidelidade" é justamente sua falta de foco. O que parecia um drama familiar - casal sendo obrigado a lidar com a falta de novidades e uma traição - logo transforma-se em um romance com um erotismo tórrido e de bom gosto - marca registrada do diretor - e, no terço final, vira um filme de suspense de pouco alcance, que ainda consegue decepcionar com mais uma conclusão decepcionante e ambígua, que enfraquece o conjunto (e isso vindo do homem que não teve medo de fazer Glenn Close cozinhar um coelhinho de estimação!) Se tivesse se concentrado em qualquer uma das vertentes que a história - baseada em um filme de Claude Chabrol - oferece, Lyne com certeza teria tido mais sucesso, principalmente porque daria a seu elenco personagens menos unidimensionais e um tanto inverossímeis.

Mas para não dizer que não falei das flores, nem tudo é fraco em "Infidelidade". Como já foi dito, as cenas de sexo entre Diane Lane e Olivier Martinez são fotografadas com maestria por Peter Biziou - vencedor de um Oscar por "Mississipi em chamas" - e o clima de tensão que permeia o filme são realmente competentes. Mas é a presença luminosa de Lane que definitivamente salva a obra de Adrian Lyne da vala dos dramas corriqueiros que infestam as sessões de sábado à noite na televisão. Madura e bonita como nunca, ele consegue transmitir toda a gama de emoções que o roteiro limitado lhe proporciona (um exemplo claro dessa afirmação é a cena em que, em um trem, ela relembra o primeiro encontro sexual com o amante, uma cena filmada em um único take e que é suficiente para deixar claros os sentimentos da personagem). Apesar de todos os problemas do filme, ela vale cada minuto de projeção, em uma interpretação que lhe colocou entre os grandes nomes de sua geração.

Monday, February 28, 2011

AS DUAS FACES DE UM CRIME

AS DUAS FACES DE UM CRIME (Primal fear, 1996, Paramount Pictures, 129min) Direção: Gregory Hoblit. Roteiro: Steve Shagan, Ann Biderman, romance de William Diehl. Fotografia: Michael Chapman. Montagem: David Rosenbloom. Música: James Newton Howard. Figurino: Betsy Cox. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Cindy Carr. Produção executiva: Howard W. Koch Jr.. Produção: Gary Lucchesi. Elenco: Richard Gere, Laura Linney, Edward Norton, John Mahoney, Alfre Woodard, Frances McDormand, Terry O'Quinn, Andre Braugher, Steven Bauer, Maura Tierney, Jon Seda. Estreia: 03/4/96

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Edward Norton)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Edward Norton)

Desde que teve sua carreira ressuscitada com os sucessos de "Justiça cega", de Mike Figgis e principalmente "Uma linda mulher", de Garry Marshall, o ator Richard Gere correu o sério risco de tê-la novamente perdido, devido a escolhas equivocadas como "Lancelot", com Sean Connery, "Mr. Jones", com Lena Olin e até mesmo o interessante mas fracassado comercialmente "Intersection", onde trabalhou ao lado de Sharon Stone. Para sua sorte, no entanto, um pouco ambicioso filme de tribunal devolveu a ele as boas graças da crítica e do público. Dirigido por um então desconhecido Gregory Hoblit, "As duas faces de um crime" é um policial que, a despeito de não fugir dos elementos tradicionais do gênero, o faz com respeito e sobriedade. Além disso, o filme, baseado no romance de William Diehl, tem para si a distinção de ter revelado um dos melhores jovens atores da década: Edward Norton.

Aos 26 anos, Norton é apenas o quinto nome a aparecer nos créditos de abertura de "As duas faces de um crime", mas quem assiste ao filme sabe que ele é seu maior trunfo. Desconhecido da audiência, ele ficou com um papel que foi oferecido a Leonardo DiCaprio e cobiçado por Matt Damon, e logo de cara recebeu uma merecida indicação ao Oscar de ator coadjuvante - que perdeu para a histérica atuação de Cuba Gooding Jr. em "Jerry Maguire". Sua interpretação, repleta de nuances, foge das armadilhas que o roteiro oferece e consegue fazer até com que o normalmente inexpressivo Gere saia de sua zona de conforto para entregar um trabalho bastante consistente.


Gere interpreta Martin Vail, um advogado narcisista e talentoso que não mede esforços para aparecer na mídia. Uma chance de ouro para aumentar sua popularidade surge quando um respeitado arcebispo é violentamente assassinado e um de seus coroinhas, o tímido Aron Stampler (Edward Norton) é preso e acusado pelo crime. Tentando inocentar seu cliente, Vail vai aos tribunais contra a promotora Janet Venable (Laura Linney), sua ex-amante. Conforme as investigações de Vail e seus assessores vão transcorrendo, novas revelações sobre a personalidade da vítima começam a aparecer, e ligações dele com poderosos homens de negócio - inclusive o procurador do Estado, John Shaugnessy (John Mahoney), o patrão de Janet - levam a outros e surpreendentes rumos.

A maior qualidade do roteiro de "As duas faces de um crime" é embaralhar as cartas de sua trama para jamais deixar o público matar a charada antes das cenas finais. Durante toda a projeção há sempre aquela virtual pulga atrás da orelha sobre quais os reais motivos que levaram o arcebispo a ser assassinado e Gregory Hoblit - demonstrando uma firmeza admirável na direção - conduz a audiência por vários caminhos até finalmente apresentar seu desfecho, coerente e um tanto chocante. Quem já assistiu não tem mais o elemento surpresa que lhe dá mais destaque ao lado de seus congêneres, mas mesmo quem o assiste mais de uma vez é obrigado a concordar que mesmo assim o filme é muito superior que a média. E novamente voltamos a Edward Norton.

A estreia alvissareira de Norton - que no mesmo ano seria dirigido por Milos Forman e Woody Allen - dá um charme especial a "As duas faces de um crime". Talentoso e inteligente, ele não confunde a fragilidade de sua personagem com fragilidade na atuação, apresentando uma atuação visceral e hipnotizante. Se Richard Gere e Laura Linney são os reais protagonistas do filme - e se saem bem, aliás - é Norton, com seu rosto capaz de expressar emoções díspares em questão de segundos que rouba o filme para si. Por ele, vale a pena ver e rever.

Thursday, December 2, 2010

SOMMERSBY, O RETORNO DE UM ESTRANHO

SOMMERSBY, O RETORNO DE UM ESTRANHO (Sommersby, 1993, Warner Bros, 114min) Direção: Jon Amiel. Roteiro: Nicholas Meyer, Sarah Kernochan, história de Nicholas Meyer, Anthony Shaffer, roteiro original "The return of Martin Guerre", de Jean-Claude Carrière, Daniel Vigne. Fotografia: Philippe Rousselot. Montagem: Peter Boyle. Música: Danny Elfman. Figurino: Marilyn Vance-Straker. Direção de arte/cenários: Bruno Rubeo/Michael Seirton. Casting: Billy Hopkins, Suzanne Smith. Produção executiva: Richard Gere, Maggie Wilde. Produção: Arnon Milchan, Steven Reuther. Elenco: Jodie Foster, Richard Gere, Bill Pullman, R. Lee Ermey, James Earl Jones. Estreia: 05/02/93

Jodie Foster em um filme romântico pode soar estranho, mas é justamente essa escalação ousada de elenco que faz com que "Sommersby, o retorno de um estranho" sobressaia em meio a tantas histórias de amor lançadas anualmente nas telas de cinema. Refilmagem do francês "O retorno de Martin Guerre", estrelado por Gérard Depardieu, o filme do diretor Jon Amiel tem na presença sempre magnética de Foster (em seu primeiro trabalho pós-Oscar por "O silêncio dos inocentes") seu principal trunfo e, para sorte do público, nem mesmo o normalmente apático Richard Gere (que aqui também é produtor executivo) consegue atrapalhar.


Nesta versão americana, Foster vive Laurel Sommersby, uma mulher forte (como todas as personagens da carreira da atriz) que, logo depois da Guerra de Secessão, luta para manter sua casa e seu filho pequeno. Cortejada por um vizinho (Bill Pullman antes de ser catapultado ao estrelato em "Independence Day"), ela é a pessoa que mais fica surpresa quando reencontra seu marido Jack (Richard Gere), que era dado como morto em uma batalha e reaparece, com desejo de retomar o que é seu. A maior surpresa de Laurel, no entanto, não é a volta do marido e sim sua radical transformação. De grosseiro, rude e mau-caráter, Jack tornou-se romântico, gentil e, mais do que tudo, um homem disposto a tirar a fazenda do vermelho e reconstruí-la. Não demora muito e Laurel cai de amores pelo marido que costumava espancá-la e concebeu seu filho praticamente em um estupro. Ao mesmo tempo, porém, ela tem a certeza quase absoluta de que há algo de errado com ele.


Suas dúvidas começam a ficar maiores quando Jack é acusado de assassinato e surge a possibilidade de que ele na verdade seja um impostor. Laurel fica então divida se quer que o homem por quem está apaixonada diga a verdade e vá preso por falsidade ideológica ou se prefere que ele mantenha sua palavra e possa ser condenado à morte. E é justamente essa dúvida que leva “Sommersby” pra frente. A partir do momento em que a identidade do homem que passa a dividir a cama e a vida com Laurel é posta em questionamento, o filme esquenta e dá espaço para o brilho da atuação de Jodie Foster. E que atuação! Provando – mais uma vez – que é uma das melhores atrizes de sua geração, ela rouba o filme todo pra si, mal deixando espaço para seus coadjuvantes – que incluem o sempre eficaz R. Lee Ermey.

"Sommersby" não é o melhor filme da carreira vitoriosa de Foster, mas é um de seus trabalhos mais maduros e, sem dúvida, o mais romântico e sensual. Seu talento é tão especial que ajuda até mesmo Richard Gere a não estar tão mal.  Somado ao fato de ter um final surpreendente e que foge aos clichês do gênero, é um fato que o recomenda sem maiores medos.

Thursday, October 7, 2010

UMA LINDA MULHER

UMA LINDA MULHER (Pretty woman, 1990, Touchstone Pictures, 125min) Direção: Garry Marshall. Roteiro: J.F. Lawton. Fotografia: Charles Minsky. Montagem: Priscilla Nedd. Música: James Newton Howard. Figurino: Marilyn Vance. Direção de arte/cenários: Albert Brenner/Garrett Lewis. Casting: Dianne Crittenden. Produção executiva: Laura Ziskin. Produção: Arnon Milchan, Steven Reuther. Elenco: Richard Gere, Julia Roberts, Jason Alexander, Laura San Giacomo, Hector Elizondo, Ralph Bellamy. Estreia: 23/3/90

Indicado ao Oscar de Atriz (Julia Roberts)


Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Comédia ou Musical (Julia Roberts)

Alguns filmes tem a sorte de ser feitos na hora certa, com o elenco certo e do jeito certo. "Uma linda mulher", uma das comédias românticas mais bem-sucedidas da história pode ser considerado como um deles. Escrito primeiramente como uma sombria comédia sobre o triste mundo da prostituição, o roteiro de J.F. Lawton transformou-se em uma história de amor que é, até hoje, um dos maiores sonhos de consumo do público feminino. Ao transportar a história de Cinderela para o Hollywood Boulevard, "Uma linda mulher" não apenas ganhou em bom humor, glamour e alto-astral, mas também revelou ao mundo aquela que se tornaria a atriz mais bem paga das décadas seguintes e uma das mais duradouras estrelas na voraz fogueira das vaidades que é o mundo do cinema: Julia Roberts.

Dando continuidade à mais bem-sucedida fase de sua carreira - que iniciou-se como símbolo sexual no final dos anos 70 e passou por um ostracismo duradouro que começou a ir embora com o sucesso comercial do policial "Justiça cega" - Richard Gere vive, em "Uma linda mulher", aquele que talvez seja sua personagem mais marcante, o empresário Edward Lewis, um multimilionário incapaz de demonstrar sentimentos, mas que é um expert na hora de comprar empresas em dificuldades financeiras e depois vendê-las em partes. Viajando a Los Angeles a negócios, Lewis acaba se perdendo nas ruas da cidade e, ao solicitar informações, conhece a bela prostituta Vivian Ward (Julia Roberts). Um tanto encantado com os modos vibrantes e autênticos da moçoila, ele faz a ela uma proposta irrecusável; ser sua acompanhante durante a semana em que ele será obrigado a permanecer na cidade, comparecendo com ele a eventos sociais - e o que é ainda melhor, com direito a ficar com todas as roupas compradas para isso, além de polpudos três mil dólares. Frequentando restaurantes sofisticados, indo à ópera e vivendo uma vida de princesa - em contraste com a violência e as necessidades financeiras com que estava acostumada - não demora para que Vivian se apaixone por Edward, mesmo tendo plena convicção da impossibilidade de seu romance.

Um sucesso tanto ensurdecedor quanto surpreendente à época de seu lançamento, "Uma linda mulher" acabou tornando-se cult por excelência. Adorado pela parcela de público que prefere diversão inofensiva à elocubrações filosóficas dentro de uma sala de cinema, o filme de Garry Marshall é um conjunto de qualidades certeiras para o êxito de um exemplar do gênero. A química entre o casal central é espetacular (ainda que sua reunião no apenas razoável "Noiva em fuga", dez anos depois, não tenha repetido o mesmo frisson), a trilha sonora é uma delícia - com resgate inclusive da ótima canção-título de Roy Orbison -, as piadas são engraçadas na medida certa, o romance - apesar de tudo - é verossímil e, por que negar?, até mesmo o tom um tanto fútil - precursor da série "Sex and the city" - funciona às mil maravilhas. Então por que tanta gente adora falar mal de Uma linda mulher?


Críticos pretensamente sérios não se permitem gostar de "Uma linda mulher". O acusam de ser vazio, de ser apenas mais uma comédia romântica igual a dezenas de outras e, quando não tem mais argumentos, até mesmo repudiam sua ideologia - sim, há quem acuse o final feliz de Vivian Ward de ser responsável por jogar meninas de família nas calçadas... É sério!!! Mas "Uma linda mulher" é uma divertida história de amor, capaz de alegrar qualquer tarde chuvosa, com um balde de pipocas e uma garrafa de Coca-cola em mãos - ou champagne e morangos, se você tiver sorte...