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Wednesday, May 18, 2011

CENTRAL DO BRASIL

CENTRAL DO BRASIL (1997, 120min) Direção: Walter Salles. Roteiro: Marcos Bernstein, João Emanuel Carneiro, história de Walter Salles. Fotografia: Walter Carvalho. Montagem: Felipe Lacerda, Isabelle  Rathery. Música: Antonio Pinto, Jacques Morelenbaum. Figurino: Cristina Camargo. Direção de arte/cenários: Cássio Amarante, Carla Caffé. Produção executiva: Lillian Birnbaum, Thomas Garvin, Donald Ranvaud, Elisa Tolomelli. Produção: Robert Redford, Walter Salles. Elenco: Fernanda Montenegro, Marília Pêra, Vinícius de Oliveira, Othon Bastos, Matheus Nachtergaele, Caio Junqueira, Sôia Lyra, Otávio Augusto, Stela Freitas. Estreia: 03/4/98

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Atriz (Fernanda Montenegro)
Vencedor do Urso de Ouro do Festival de Berlim: Melhor Filme, Melhor Atriz (Fernanda Montenegro)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro

Houve um tempo em que para se elogiar um filme nacional era preciso das duas uma: ou realmente gostar das tentativas pífias que os cineastas apresentavam como forma de crítica social ou ter vocação para polêmicas. Roteiros ruins, atuações forçadas, técnica sofrível e uma distribuição praticamente amadora fizeram com que o público corresse das produções brasileiras como o diabo da cruz (exceção feita aos filmes infantis da Xuxa e dos Trapalhões). A partir da década de 90, porém, o cinema brasileiro reconquistou, a duras penas e com muita paciência, o respeito da audiência e da crítica. "Carlota Joaquina" foi a ponta do iceberg, levando um surpreendente público às salas de exibição. "O quatrilho" e "O que é isso, companheiro?" arrebataram indicações ao Oscar de melhor produção estrangeira. Mas foi somente a partir de "Central do Brasil" que os ufanistas de plantão puderam respirar aliviados. Aplaudido unanimente do Oiapoque ao Chuí - passando pelo Festival de Berlim, de onde saiu multi-premiado - o filme de Walter Salles emocionou milhares de pessoas pelo mundo, e deu à extraordinária Fernanda Montenegro uma inédita (e ainda única) indicação ao Oscar de melhor atriz para uma artista sul-americana.

Vindo do ótimo "Terra estrangeira" - onde utilizou elementos de filmes noir para contar uma história de brasileiros desterrados - o diretor Walter Salles encontrou, em "Central do Brasil", o equilíbrio perfeito entre a técnica e a emoção, entre o clássico e o moderno, entre a linguagem e o ritmo europeus de fazer cinema com o sofrimento palpável e árido de um país onde as desigualdades sociais fomenta de forma impiedosa o desmoronamento sistemático de regras éticas e morais. Triste, engraçado e dotado de uma melancolia otimista, o filme é também o palco para o brilho intenso de uma das maiores atrizes vivas não só do país, mas do mundo. Na pele de Dora, a seca e desiludida protagonista de "Central do Brasil", Fernanda Montenegro mostra que é preciso muito mais do que um belo corpo e juventude para ser uma atriz de verdade. Em uma interpretação devastadora (premiada no Festival de Berlim), ela é o cerne de um filme capaz de comover o mais cínico dos espectadores sem que seja necessário apelar para nada mais do que a realidade de um país distante dos cartões-postais.

Dora é uma professora universitária aposentada que incrementa sua renda escrevendo cartas para analfabetos na estação de trens paulista que dá nome ao filme. Amargurada e solitária, ela tem como companhia para suas noites apenas a vizinha, Irene (Marília Pêra, também excelente), com quem divide a tarefa de escolher, ao chegar em casa, quais cartas vão para o lixo e quais vão para a gaveta da cômoda (uma espécie de limbo). Em um dia que parecia igual aos outros, porém, Dora escreve uma carta endereçada a um tal de Jeus. Sua mulher, Ana (Sôya Lira) quer que ele conheça seu filho caçula, Josué (o ótimo Vinícius de Oliveira), que nasceu em São Paulo. No dia seguinte, Ana morre atropelada e Dora, penalizada com a situação do menino, o leva para sua casa. Depois de salvá-lo de uma gangue de traficante de órgãos (a única situação meio capenga do roteiro), ela resolve acompanhá-lo em sua viagem para o Nordeste, para enfim, entregá-lo a seu pai e seus irmãos.



Inspirado na história real da presidiária Socorro Nobre (que foi tema de um documentário também dirigido por ele e que escrevia cartas para as outras detentas), Salles criou a primeira obra-prima do cinema brasileiro da retomada. Sensível ao extremo, seu filme conquista pela simplicidade de sua trama, pela honestidade de seus protagonistas e pelo carinho com que a fotografia realista de Walter Carvalho apresenta um Brasil árido externamente e caloroso por dentro. É impossível não se emocionar com a forma delicada do cineasta em aproximar público e personagens - e retratar sem maneirismos lados poucos mostrados do país (o sacro, o miserável, o solidário). Ao utilizar pessoas reais em suas primeiras cenas (pedindo cartas à Dora), o diretor imediatamente joga sua audiência dentro de uma viagem assustadora mas dona de uma ternura quase ingênua. A trilha sonora impecável de Antonio Pinto e Jaques Morelenbaum também colabora com o efeito emocional devastador provocado pelo roteiro de João Emanuel Carneiro (que depois seria autor de telenovelas) e Marcos Bernstein. A cena final, de uma pungência inegável, é a prova de que, herdeiro direto do neo-realismo italiano, "Central do Brasil" é a cara de seu país.

Antes que o cinema nacional se transformasse em sinônimo de "filmes violentos passados na favela" (onda que, sejamos justos, deu origem a excelentes produções), "Central do Brasil" mostrou às audiências acostumadas com a pasteurização global televisiva que há mais Brasil do que o Leblon, do que a Avenida Paulista, do que Fernando de Noronha. Mostrou que há aridez, há uma desigualdade social berrante e há amor onde menos se espera. Provou que gente é gente em qualquer parte do mundo (caso contrário, por que os alemães aplaudiriam tão entusiasticamente o trabalho puramente emocional de Montenegro?). E, acima de tudo, reiterou o talento de Walter Salles em envolver a plateia, em contar uma história simples de maneira eficiente. O road-movie de Salles não se preocupa tanto com o destino como o faz com a viagem e com as cicatrizes boas que deixa em Dora e Josué - em uma química mágica entre Fernanda Montenegro e o menino Vinícius de Oliveira. Por Josué, Dora volta a ser humana, volta a ser mulher (é belíssima a cena em que ela reencontra sua feminilidade em um banheiro de estrada). Por Dora, Josué abandona sua agressividade, seu medo e volta a ser uma criança esperançosa. Por eles, o Brasil pode voltar a se orgulhar de seu cinema.

PS - Como é que os eleitores da Academia puderam preferir a estética Renato Aragão de "A vida é bela" em detrimento da poesia de "Central do Brasil" será para sempre uma incógnita. Só mesmo a temática "holocausto" para justificar....

Tuesday, March 8, 2011

TERRA ESTRANGEIRA

TERRA ESTRANGEIRA (Terra estrangeira, 1996, Videofilmes, 100min) Direção: Walter Salles, Daniela Thomas. Roteiro: Marcos Bernstein, Millôr Fernandes, Walter Salles, Daniela Thomas. Fotografia: Walter Carvalho. Montagem: Felipe Lacerda, Walter Salles. Música: José Miguel Wisnik. Figurino: Cristina Camargo. Direção de arte: Daniela Thomas. Produção: Antonio da Cunha Telles, Flávio R. Tambellini. Elenco: Fernanda Torres, Fernando Alves Pinto, Alexandre Borges, Luis Mello, Laura Cardoso, Tcheky Karyo. Estreia: 05/9/96

Um bom par de anos antes de consagrar-se com o emocionante "Central do Brasil", o cineasta Walter Salles já havia mostrado aos fãs de bom cinema que não era um principiante sortudo. Apesar de seu filme de estreia, "A grande arte", baseado em um romance de Rubem Fonseca não ter sido tão bom quanto poderia, seu segundo trabalho superou toda e qualquer expectativa. "Terra estrangeira" é o primeiro filme da chamada "retomada do cinema nacional" que merece o adjetivo de filmaço! Forte, tocante e tecnicamente impecável, o filme co-dirigido por Daniela Thomas é um filme com cara de europeu, mas com uma preocupação temática absolutamente brasileira - ou, melhor ainda... universal.

Utilizando uma trama policial como pano de fundo para uma história de solidão e inadequação geográfica e cultural, "Terra estrangeira" se passa em 1990, quando o pacote econômico da então ministra Zélia Cardoso de Mello pegou milhares de brasileiros de surpresa ao confiscar suas cadernetas de poupança. Uma das vítimas fatais do plano é Maria Eizaguirre (Laura Cardoso) que morre de um enfarte logo após ouvir a notícia. Sua morte desespera seu filho único, o jovem Paco (Fernando Alves Pinto), um rapaz perdido que, com a morte da mãe, fica ainda mais desnorteado. Sem absolutamente rumo nenhum na vida, ele recebe uma proposta aparentemente irrecusável do misterioso Igor (Luis Mello), que lhe oferece dinheiro - e a possibilidade de conhecer a terra de sua mãe - para que ele passe com um violino para Lisboa. O que Paco nem sequer desconfia é que dentro do violino está uma pequena fortuna em diamantes. Quando chega em Portugal, Paco descobre que o receptador da mercadoria, Miguel (Alexandre Borges) foi assassinado e, com a ajuda hesitante da namorada dele, a também brasileira Alex (Fernanda Torres), tenta resolver a situação da melhor maneira, se envolvendo com um perigoso time de contrabandistas internacionais.

Fotografado por Walter Carvalho em um deslumbrante preto-e-branco, "Terra estrangeira" é uma obra-prima visual. Cada plano milimetricamente estudado pelos cineastas tem uma função específica dentro da história e enche os olhos com paisagens absurdas e enquadramentos geniais. Cada sequência parece uma pintura, mas ao contrário de muitos filmes que se dedicam ao visual e esquecem da história, aqui nada é por acaso, com a intenção única de seduzir o espectador pelo sentido da visão. A trama criada pelos roteiristas - cujo time inclui até mesmo o genial Millôr Fernandes - é digna dos melhores policiais americanos, ainda que seu ritmo e sua cadência lembrem bem mais o cinema europeu, por sua naturalidade e poesia mesmo nos momentos mais violentos. Não é um típico noir americano - ainda que muitas de suas cenas sejam envoltas em brumas - nem tampouco um chato exercício de estilo à la Wim Wenders. É um filme com identidade própia, que credenciou Salles como um dos mais promissores cineastas brasileiros da década de 90, uma promessa que se cumpriu com louvor. Além de ser um esteta acima de qualquer crítica, Salles é também um excelente e cuidadoso diretor de atores, como a indicação ao Oscar de Fernanda Montenegro por "Central do Brasil" comprovou.


Em "Terra estrangeira" é Fernandinha Torres quem lidera um elenco impecável. Na pele da desesperançada Alex, Fernanda tem uma atuação visceral, tensa e angustiada que desmente a teoria de que é uma atriz puramente cômica. Seu olhar triste encontra uma espécie de espelho às avessas em Fernando Alves Pinto - filho do escritor Ziraldo - que encarna um Paco juvenil e que, mesmo em uma passagem dramática de sua vida, ainda parece querer entender e conquistar o mundo. Atuando ao lado de veteranos como Laura Cardoso e Luis Mello - além de uma participação especial de Tcheky Karyo - o casal de protagonistas encanta pela naturalidade com que enfrenta os obstáculos que não param de surgir à sua frente. Mas nem a fotografia espetacular, nem a trilha delicada de José Miguel Wisnik e nem mesmo as atuações brilhantes fazem frente ao melhor que "Terra estrangeira" tem a oferecer: seu tema subjacente.

Realizado em uma época em que sair do Brasil parecia ser a solução mais eficaz para deixar para trás todos os problemas, "Terra estrangeira" retrata, em seu roteiro, uma faixa da população que até então não havia sido sequer percebida pela nossa filmografia. Alex e Miguel são brasileiros que vivem na Europa em busca de uma vida melhor, mesmo sentindo-se deslocados, sofrendo preconceitos e sendo totalmente infelizes. Paco sai de São Paulo em direção à San Sebastian de sua mãe tentando encontrar uma saída para sua vida apática. A Lisboa de "Terra estrangeira" pode ser lindamente fotografada, mas é um caldeirão de culturas díspares que, ao contrário de Nova York, não é exatamente hospitaleiro a forasteiros. Como diz auma de suas personagens, Lisboa é o lugar ideal para perder alguém ou perder-se de si mesmo.

É emblemática a mais famosa cena do filme, com Alex e Paco abraçados frente a um navio encalhado. Assim como o barco, eles estão presos a uma constante busca pelo lugar a que pertencem, sem jamais parecer pertencer a qualquer parte do mundo. Não é à toa que Alex, em determinado momento, diz nem ao mesmo saber onde é sua casa... Ao voltar seus olhos à essa geração perdida, desolada e sem destino, Salles criou uma pérola do cinema brazuca que merece ser conhecida ou reencontrada. E nem mesmo seu final em aberto consegue estragar a sensação de absoluto deleite que é assistir a "Terra estrangeira".