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Friday, November 25, 2011

CIDADE DE DEUS

CIDADE DE DEUS (Brasil, 2002, 130min) Direção: Fernando Meireles. Roteiro: Braulio Mantovani, romance de Paulo Lins. Fotografia: Cesar Charlone. Montagem: Daniel Rezende. Música: Antonio Pinto, Ed Cortes. Figurino: Bia Salgado, Inês Salgado. Direção de arte/cenários: Tulé Peak. Produção executiva: Ronald K. Ranvaud, Walter Salles. Produção: Andrea Barata Ribeiro, Mauricio Andrade Ramos. Elenco: Alexandre Rodrigues, Leandro Firmino da Hora, Jonathan Haagensen, Alice Braga, Matheus Nachtergaele, Seu Jorge, Graziela Moretto, Phellipe Haagensen, Daniel Zetel, Roberta Rodrigues, Gero Camilo. Estreia: 30/8/02

4 indicações ao Oscar: Diretor (Fernando Meirelles), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem

Quatro indicações ao Oscar (incluindo Melhor Diretor e Roteiro Adaptado).BAFTA de melhor edição. Indicação ao Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro.Prêmio de Melhor Filme Estrangeiro para as Associações de Críticos de Toronto, Vancouver e Chicago. Eleito, em 2009 pelo site de cinema IMDB (um dos mais famosos e influentes) como um dos mais importantes da década (ficando em terceiro lugar, atrás apenas dos espetáculos hollywoodianos "Batman, o cavaleiro das trevas" e "O Senhor dos Anéis, o retorno do rei", ambos realizados com centenas de milhares de dólares). E uma influência absurda em todo e qualquer filme brasileiro com um mínimo de ação e crítica social que veio posteriormente. Tem alguém que ainda duvida das qualidades de "Cidade de Deus"?

Dirigido por Fernando Meirelles - oriundo da publicidade e que tinha apenas outro longa no currículo, o divertido "Domésticas, o filme" - "Cidade de Deus" mudou a cara e a auto-estima do cinema brasileiro, não apenas por sua vasta aceitação mundial mas principalmente porque mostrou à audiência nacional que um filme feito aqui, com atores daqui (e não necessariamente estrelas televisivas) e que mostrasse a realidade social triste e violenta que nos cerca não só pode ser importante mas também pode ser empolgante em todos os sentidos. "Cidade de Deus" pode ser visto como um estudo sociológico (sem as partes chatas) mas é, acima de qualquer obrigação de cunho social, cinema da mais alta qualidade, realizado com a melhor técnica que se pode esperar e, melhor ainda, com uma verdade que dificilmente passa batida.



Cru, violento, realista e por incrível que pareça com momentos de genuíno bom-humor, "Cidade de Deus" é o filme que todo cineasta que se preza sonha em assinar. Influenciada nitidamente por trabalhos antológicos como "Z", do grego Costa-Gavras e "JFK", de Oliver Stone (em especial graças à sua montagem ágil e inteligente), a versão para as telas do extenso livro de Paulo Lins passou de um aparente pesadelo logístico (desde condensar todas as várias histórias do livro em um roteiro coeso até filmar na própria favela onde se passa a trama) a uma obra-prima sem precendentes na história da sétima arte no Brasil. Tecnicamente impecável - deixando de lado o quase amadorismo que por muitos anos caracterizou a produção brazuca - "Cidade de Deus" deixou meio mundo de queixo caído com sua edição estonteante (no bom sentido), sua fotografia sutil (que se molda discretamente às cenas e divide com clareza as épocas distintas em que se passa a história) e sua trilha sonora inspirada (em que músicas originais se mesclam com clássicos como "Preciso me encontrar", de Candeia). Mas, à parte o capricho visual e técnico e o roteiro brilhante de Bráulio Mantovani, foi o elenco selecionado por Meirelles e sua co-diretora Katia Lund que fez ainda mais barilho.

Quando "Cidade de Deus" começou a ser filmado não havia, dentre seus atores, nenhum astro de potencial comercial. Matheus Nachtergaele - que vive o traficante Cenoura - ainda não havia estourado no Brasil com sua genial atuação em "O auto da Compadecida", de Guel Arraes e todo os demais atores foram escolhidos a dedo por Meirelles e Lund na própria favela. O resultado é estarrecedor: poucas vezes se viu, no cinema, algo tão fascinante quanto a força que os jovens atores não-profissionais imprimem a suas personagens, complexas e dolorosamente reais. Quando Leandro Firmino da Hora entra em cena com seu assustador Zé Pequeno o que a audiência testemunha não é apenas o surgimento de um grande ator, e sim o nascimento de uma personagem antológica, em uma sequência digna de figurar em qualquer lista de fãs de cinema. Quando Douglas Silva interpreta o pequeno - mas cruel - Dadinho, é a dura realidade maquiada pelos telejornais que vemos cara a cara. E assim por diante, em uma sucessão de belas cenas vividas com garra e dedicação por nomes tão díspares quanto o cantor Seu Jorge e os irmãos Jonathan e Phellipe Haagensen e conduzidas com uma segurança invejável por um cineasta que em seguida teria seu talento reconhecido da forma mais óbvia: uma carreira internacional com filmes de extrema qualidade, como "O jardineiro fiel" e "Ensaio sobre a cegueira".

"Cidade de Deus" é um marco no cinema internacional, tanto por sua coragem em tratar de temas espinhosos como a violência e a desigualdade social - discussão que culminou no mega-sucesso "Tropa de elite 2" - quanto por sua extraordinária qualidade técnica e artística. Sua câmera trepidante, sua veracidade, sua crueldade neutra e sua crítica social que jamais se torna panfletária - o roteiro quer apenas contar uma história e não mudar o mundo - viraram referência absoluta. E se até os acadêmicos e quadrados eleitores do Oscar chegaram perto de se curvar definitivamente a ele, como recusar a glória a Fernando Meirelles e seu vencedor time? Se "Central do Brasil" é o filme que nos faz chorar, "Cidade de Deus" é que nos choca. Finalmente podemos ter orgulho do nosso cinema.

Wednesday, September 21, 2011

AMORES POSSÍVEIS

AMORES POSSÍVEIS (Amores possíveis, 2001, Brasil, 98min) Direção: Sandra Werneck. Roteiro: Paulo Halm, estória de Maya Werneck Da-Rin. Fotografia: Walter Carvalho. Montagem: Isabelle Rathery. Música: João Nabuco. Figurino: Kika Lopes. Direção de arte/cenários: Claudio Amaral Peixoto. Produção: Sandra Werneck. Elenco: Murilo Benício, Carolina Ferraz, Emílio de Mello, Irene Ravache, Drica Moraes, Christine Fernandes, Beth Goulart. Estreia: 30/3/01

Em 1997 a cineasta Sandra Werneck lançou “Pequeno dicionário amoroso”, uma delicada comédia romântica que investigava as vicissitudes do amor e contava com a sorte de ter a excelente Andréa Beltrão como protagonista feminina. Quatro anos depois, ela volta a falar do fogo que arde sem se ver em “Amores possíveis”, novamente uma comédia romântica, mas dessa vez seguindo um roteiro que lembra, em alguns momentos, o drama “De caso com o acaso”, estrelado por Gwyneth Paltrow em 1998. Ao brincar com as possibilidades que o destino apresenta na vida das pessoas, a diretora apresenta a seu público um filme simpático e surpreendente, ainda que superficial em determinados momentos.

Quando o filme começa, o jovem Carlos Eduardo (Murilo Benício) está esperando, ansioso, em uma noite de chuva, pela chegada da namorada em um cinema do Rio de Janeiro. Quinze anos depois, três possibilidades de desfecho para esse encontro frustrado podem acontecer. Na primeira história, Carlos é um empresário que vive um casamento morno com Maria (Beth Goulart), reencontra Júlia (Carolina Ferraz), seu antigo amor, que formou-se em História da Arte e inicia com ela um romance extra-conjugal. Na segunda possível relação, Carlos abandonou Júlia e seu filho pequeno, Lucas, para viver com outro homem, Pedro (Emílio de Mello), seu amigo do futebol. E na terceira chance, o rapaz é um bon vivant que ainda mora com a mãe (Irene Ravache) e, ao recorrer a um serviço de “almas gêmeas” dá de cara com Júlia, uma tresloucada versão de sua antiga namorada.


Ao utilizar elementos em comum nas três histórias (além do casal central a personagem de Emílio de Mello aparece em todas elas, em graus variados de homossexualidade assumida), o roteiro versa sobre o dia-a-dia com bom humor, uma dose de veracidade e muito romantismo, sem apelar para o piegas ou o exagerado. Porém, enquanto Murilo Benício se mostra desenvolto nas três faces de sua personagem, sua parceira de cena deixa a desejar como atriz. Carolina Ferraz desfila sua beleza clássica pela tela, mas demonstra sem dúvida sua fragilidade como atriz, ainda que isso não seja catastrófico a ponto de destruir o filme, mesmo porque Irene Ravache brilha em cada cena em que aparece como a supermãe dedicada e escandalizada com a vida desregrada do filho. Sua participação é a mais engraçada (ainda que a pequena aparição de Drica Moraes também empolgue), contrabalançando a razoável polêmica da história de amor gay (cujos diálogos são bastante fortes, em especial quando declamados por Júlia) e da seriedade do romance adúltero do primeiro Carlos Eduardo.

“Amores possíveis” é um interessante produto do cinema nacional do início do século XX, quando ainda se procurava um caminho para as bilheterias. É feito com competência, seriedade, inteligência e talento. E ainda por cima começa com a bela “Dueto” – interpretada por Chico Buarque e Zizi Possi – ou seja, já ganha a audiência na abertura. Vale a pena conhecer!

Tuesday, March 8, 2011

TERRA ESTRANGEIRA

TERRA ESTRANGEIRA (Terra estrangeira, 1996, Videofilmes, 100min) Direção: Walter Salles, Daniela Thomas. Roteiro: Marcos Bernstein, Millôr Fernandes, Walter Salles, Daniela Thomas. Fotografia: Walter Carvalho. Montagem: Felipe Lacerda, Walter Salles. Música: José Miguel Wisnik. Figurino: Cristina Camargo. Direção de arte: Daniela Thomas. Produção: Antonio da Cunha Telles, Flávio R. Tambellini. Elenco: Fernanda Torres, Fernando Alves Pinto, Alexandre Borges, Luis Mello, Laura Cardoso, Tcheky Karyo. Estreia: 05/9/96

Um bom par de anos antes de consagrar-se com o emocionante "Central do Brasil", o cineasta Walter Salles já havia mostrado aos fãs de bom cinema que não era um principiante sortudo. Apesar de seu filme de estreia, "A grande arte", baseado em um romance de Rubem Fonseca não ter sido tão bom quanto poderia, seu segundo trabalho superou toda e qualquer expectativa. "Terra estrangeira" é o primeiro filme da chamada "retomada do cinema nacional" que merece o adjetivo de filmaço! Forte, tocante e tecnicamente impecável, o filme co-dirigido por Daniela Thomas é um filme com cara de europeu, mas com uma preocupação temática absolutamente brasileira - ou, melhor ainda... universal.

Utilizando uma trama policial como pano de fundo para uma história de solidão e inadequação geográfica e cultural, "Terra estrangeira" se passa em 1990, quando o pacote econômico da então ministra Zélia Cardoso de Mello pegou milhares de brasileiros de surpresa ao confiscar suas cadernetas de poupança. Uma das vítimas fatais do plano é Maria Eizaguirre (Laura Cardoso) que morre de um enfarte logo após ouvir a notícia. Sua morte desespera seu filho único, o jovem Paco (Fernando Alves Pinto), um rapaz perdido que, com a morte da mãe, fica ainda mais desnorteado. Sem absolutamente rumo nenhum na vida, ele recebe uma proposta aparentemente irrecusável do misterioso Igor (Luis Mello), que lhe oferece dinheiro - e a possibilidade de conhecer a terra de sua mãe - para que ele passe com um violino para Lisboa. O que Paco nem sequer desconfia é que dentro do violino está uma pequena fortuna em diamantes. Quando chega em Portugal, Paco descobre que o receptador da mercadoria, Miguel (Alexandre Borges) foi assassinado e, com a ajuda hesitante da namorada dele, a também brasileira Alex (Fernanda Torres), tenta resolver a situação da melhor maneira, se envolvendo com um perigoso time de contrabandistas internacionais.

Fotografado por Walter Carvalho em um deslumbrante preto-e-branco, "Terra estrangeira" é uma obra-prima visual. Cada plano milimetricamente estudado pelos cineastas tem uma função específica dentro da história e enche os olhos com paisagens absurdas e enquadramentos geniais. Cada sequência parece uma pintura, mas ao contrário de muitos filmes que se dedicam ao visual e esquecem da história, aqui nada é por acaso, com a intenção única de seduzir o espectador pelo sentido da visão. A trama criada pelos roteiristas - cujo time inclui até mesmo o genial Millôr Fernandes - é digna dos melhores policiais americanos, ainda que seu ritmo e sua cadência lembrem bem mais o cinema europeu, por sua naturalidade e poesia mesmo nos momentos mais violentos. Não é um típico noir americano - ainda que muitas de suas cenas sejam envoltas em brumas - nem tampouco um chato exercício de estilo à la Wim Wenders. É um filme com identidade própia, que credenciou Salles como um dos mais promissores cineastas brasileiros da década de 90, uma promessa que se cumpriu com louvor. Além de ser um esteta acima de qualquer crítica, Salles é também um excelente e cuidadoso diretor de atores, como a indicação ao Oscar de Fernanda Montenegro por "Central do Brasil" comprovou.


Em "Terra estrangeira" é Fernandinha Torres quem lidera um elenco impecável. Na pele da desesperançada Alex, Fernanda tem uma atuação visceral, tensa e angustiada que desmente a teoria de que é uma atriz puramente cômica. Seu olhar triste encontra uma espécie de espelho às avessas em Fernando Alves Pinto - filho do escritor Ziraldo - que encarna um Paco juvenil e que, mesmo em uma passagem dramática de sua vida, ainda parece querer entender e conquistar o mundo. Atuando ao lado de veteranos como Laura Cardoso e Luis Mello - além de uma participação especial de Tcheky Karyo - o casal de protagonistas encanta pela naturalidade com que enfrenta os obstáculos que não param de surgir à sua frente. Mas nem a fotografia espetacular, nem a trilha delicada de José Miguel Wisnik e nem mesmo as atuações brilhantes fazem frente ao melhor que "Terra estrangeira" tem a oferecer: seu tema subjacente.

Realizado em uma época em que sair do Brasil parecia ser a solução mais eficaz para deixar para trás todos os problemas, "Terra estrangeira" retrata, em seu roteiro, uma faixa da população que até então não havia sido sequer percebida pela nossa filmografia. Alex e Miguel são brasileiros que vivem na Europa em busca de uma vida melhor, mesmo sentindo-se deslocados, sofrendo preconceitos e sendo totalmente infelizes. Paco sai de São Paulo em direção à San Sebastian de sua mãe tentando encontrar uma saída para sua vida apática. A Lisboa de "Terra estrangeira" pode ser lindamente fotografada, mas é um caldeirão de culturas díspares que, ao contrário de Nova York, não é exatamente hospitaleiro a forasteiros. Como diz auma de suas personagens, Lisboa é o lugar ideal para perder alguém ou perder-se de si mesmo.

É emblemática a mais famosa cena do filme, com Alex e Paco abraçados frente a um navio encalhado. Assim como o barco, eles estão presos a uma constante busca pelo lugar a que pertencem, sem jamais parecer pertencer a qualquer parte do mundo. Não é à toa que Alex, em determinado momento, diz nem ao mesmo saber onde é sua casa... Ao voltar seus olhos à essa geração perdida, desolada e sem destino, Salles criou uma pérola do cinema brazuca que merece ser conhecida ou reencontrada. E nem mesmo seu final em aberto consegue estragar a sensação de absoluto deleite que é assistir a "Terra estrangeira".

Thursday, February 10, 2011

O QUATRILHO

O QUATRILHO (O quatrilho, 1995, Luiz Carlos Barreto Produções Cinematográficas, 92min) Direção: Fábio Barreto. Roteiro: Leopoldo Serran, adaptação de Antonio Calmon, romance de José Clemente Pozenato. Fotografia: Félix Monti. Montagem: Karen Harley, Mair Tavares. Música: Jaques Morelenbaum, Caetano Veloso. Figurino: Isabel Paranhos. Direção de arte: Paulo Flaksman, Sérgio Silveira. Produção executiva: Lucy Barreto, Luiz Carlos Barreto. Elenco: Glória Pires, Patrícia Pillar, Alexandre Paternost, Bruno Campos, Cecil Thiré, Gianfrancesco Guarnieri, José Lewgoy. Estreia: 20/10/95

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro

Em 1995, os fãs de cinema brasileiro, que ainda estavam em êxtase com o inesperado sucesso de "Carlota Joaquina, princesa do Brazil", de Carla Camuratti - o marco inicial da retomada de nossa filmografia - tiveram um motivo a mais para sentir orgulho. "O quatrilho", adaptado do romance do escritor gaúcho José Clemente Pozenato e produzido pelo mesmo Luiz Carlos Barreto do mega-sucesso "Dona Flor e seus dois maridos", foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, mais de trinta anos depois de "O pagador de promessas", de Anselmo Duarte, ter conseguido a mesma distinção. A euforia do momento era tanta que pouca gente percebeu que, a despeito de suas qualidades, o filme de Fábio Barreto não era exatamente um competidor muito forte. Dono de uma linguagem excessivamente televisiva, "O quatrilho" morreu na praia, perdendo a estatueta para o holandês "A excêntrica família de Antonia" - mesmo contando com uma espécie de apadrinhamento do poderoso Steven Spielberg.

Impressionado com o trabalho de Glória Pires - com quem manifestou interesse de trabalhar, dizem as más línguas - Spielberg até tentou fazer uma espécie de campanha a favor do filme brasileiro, mas esbarrou em um grave problema: apesar da história interessante e do brilho de suas atrizes centrais, a direção de Fábio Barreto é burocrática e sem inspiração, que o impede de ser grande cinema e o aproxima perigosamente de filmes feitos para a televisão. Nem mesmo a caprichada direção de arte e a fotografia conseguem fazer com que "O quatrilho" levante maiores voos. É um filme que promete muito mas jamais chega a encantar por completo sua audiência, sendo altamente prejudicado também pela absoluta apatia de seus dois atores principais.

A trama de "O quatrilho" se passa em Santa Corona, na serra gaúcha, e começa em 1910, com o casamento do pacato Angelo Gardone (Alexandre Paternost) com a bela Teresa (Patrícia Pillar). Devido a tradições culturais, logo após o matrimônio eles são obrigados a deixar a propriedade da família e, ambicioso, o rapaz resolve começar um negócio próprio, contando para isso com a ajuda de Mássimo (Bruno Campos), marido da prima de Teresa, a calada Pierina (Glória Pires). Enquanto as finanças prosperam, no entanto, o casamento de Angelo e Teresa não segue o rumo certo. Frustrada em suas aspirações românticas e sensuais, a bela jovem acaba encontrando no marido da prima um espelho de seus desejos e, em um rompante, foge com ele e a filha. A príncipio prostrados com a dupla traição, aos poucos Angelo e Pierina começam a reconstruir a vida e, mais por motivos práticos do que românticos, assumem uma relação, que irá chocar a conservadora sociedade católico/italiana em que vivem.



Não há dúvida de que a trama de Pozenato - que faz uma ponta no filme, como um fotógrafo - serve muito bem a um belo filme, a ponto de sua adaptação ser praticamente literal. Inspirada em um caso real, a troca de casais remete a um tradicional jogo de cartas dos italianos - em que a cada rodada é feita uma troca de parceiros - mas todas as inúmeras possibilidades da história acabam sendo desperdiçadas pelo roteiro preguiçoso e sem maiores aprofundamentos psicológicos ou dramáticos. Não fosse o talento superlativo de Glória Pires e Patrícia Pillar - capazes de transformar qualquer cena em um espetáculo à parte - "O quatrilho" correria o sério risco de tornar-se um poderoso soporífero.

Patrícia Pillar brilha intensamente na primeira parte do filme. Linda, carismática e provando-se uma excelente atriz, ela dá consistência a uma personagem que em outras mãos menos capazes poderia soar como leviana ou mau-caráter. Na interpretação de Patrícia, Teresa é uma Madame Bovary italiana, uma mulher presa em um casamento que oprime seus desejos e sonhos até o ponto de não suportar mais e, ao contrário da personagem de Flaubert, partir em busca da realização deles, mesmo sem ter exata consciência das consequências de seu ato. Quando ela sai de cena, boa parte dos encantos do filme vai com ela. Felizmente é aí que se abre espaço para Glória Pires mostrar porque é considerada uma das grandes atrizes do país.

Interpretando uma Pierina calada, taciturna, séria e ciente de seus deveres de esposa e mãe - apenas para explodir dramaticamente em uma cena inesquecível em que desafia um padre diante de uma paróquia lotada - Glória utiliza toda sua experiência para construir uma personagem que se comunica basicamente através de olhares baixos, de gestos comedidos e de um tom de voz sussurrante que escondem uma personalidade forte, prática e batalhadora. Se Patrícia é o corpo de "O quatrilho", Glória é sua alma. E consegue ser boa até mesmo contracenando com um tenebroso Bruno Campos, que, inexplicavelmente, fez relativo sucesso em uma carreira internacional. Com sua absoluta inexpressividade em cena - em um papel crucial - Campos atrapalha ainda mais as intenções do filme de ter qualidade de primeiro mundo.

Ufanismos à parte, "O quatrilho" é apenas um filme que, abdicando de palavrões e nudez gratuita - um avanço em relação ao que criou toda a aura de preconceito contra filmes brasileiros que somente anos depois seria parcialmente derrubado - conquistou um público considerável antes que isso se tornasse razoavelmente comum. Está a anos luz de distância de "Cidade de Deus", mas é infinitamente superior às obras cometidas por seu diretor pouco depois, como o sofrível "A paixão de Jacobina". E ouvir a doce voz de Caetano Veloso nos créditos iniciais e finais sempre será um deleite.