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Thursday, June 9, 2011

O APRENDIZ

O APRENDIZ (Apt pupil, 1998, Phoenix Pictures, 111min) Direção: Bryan Singer. Roteiro: Brandon Boyce, conto de Stephen King. Roteiro: Newton Thomas Siegel. Montagem e Música: John Ottman. Figurino: Louise Mingenbach. Direção de arte/cenários: Richard Hoover/Jennifer Herwitt. Produção executiva: Tim Harpert. Produção: Bryan Synger, Jane Hamsher, Don Murphy. Elenco: Ian McKellen, Brad Renfro, Elias Koteas, Bruce Davison, David Schwimmer, Joshua Jackson. Estreia: 23/10/98

O cartaz de "O aprendiz" já diz muito a respeito do que é falado em seus 111 minutos de duração: "Se você não acredita na existência do mal, você tem muito o que aprender." Baseado em uma novela de Stephen King - publicada no livro "As quatro estações", que também contém as histórias que deram origem aos filmes "Conta comigo" e "Um sonho de liberdade" - o filme de Bryan Singer provou mais uma vez que as tramas de King que fogem do sobrenatural são muito mais fortes e interessantes do que suas obras que versam sobre alienígenas, mortos-vivos e poderes sobrenaturais. Ao ter como protagonistas pessoas de carne e osso, suas histórias mais realistas comovem (e assustam, em alguns casos) muito mais do que tiros n'água como "O apanhador de sonhos". E "O aprendiz" é uma pequena pérola do suspense, ainda que em nenhum momento apele para o grotesco.

Aluno exemplar e filho dedicado, o adolescente Todd Bowden (Brad Renfro) descobre, quase sem querer, que seu idoso vizinho Arthur Denker (Ian McKellen), que vive isolado em uma casa afastada, é, na verdade Kurt Dussander, um criminoso de guerra procurado pelo governo de Israel para ser julgado por seus abomináveis crimes contra os judeus. Fascinado pela II Guerra Mundial, o jovem procura o nazista e, sob ameaça de denunciá-lo, o obriga a relembrar e descrever-lhe seus atos de violência durante o conflito. Em um misto de repugnância e fascinação, Bowden começa a sentir os efeitos da amizade com o velho quando a crueldade passa a se revelar em seu dia-a-dia. Consequentemente, o pacato Arthur Denker volta a sentir o prazer perverso de tirar vidas e torturar seres vivos.


Quando assumiu a cadeira de direção de "O aprendiz", o jovem cineasta Bryan Singer estava vindo do inesperado (e merecido) sucesso de "Os suspeitos", cultuado e elogiado pela crítica e pelo público. Contando com a aprovação do próprio Stephen King - que vendeu os direitos da história por apenas um dólar em sinal de confiança - Singer cercou-se de profissionais de sua confiança (o editor e músico John Ottman e o diretor de fotografia Newton Thomas Siegel entre eles) para construir um drama de suspense que abre mão de truques sujos que tanto infestam o gênero para abraçar um clima de tensão crescente e imprevisibilidade (até mesmo quem leu o texto do escritor pode se surpreender, uma vez que o final foi ligeiramente alterado pelo roteirista Brandon Boyce). Sem pressa, Singer vai inserindo os dados da trama aos poucos, dando tempo ao espectador de envolver-se delicadamente na doentia relação entre Todd e seu idoso vizinho.

Provando que seu talento não era fogo de palha, o cineasta demonstrou uma segurança invejável e um grande domínio sobre a arte da narrativa, apresentando um thriller sufocante, adulto e poderoso, sem espaço para gracinhas desnecessárias e julgamentos morais. Não há heróis em "O aprendiz" e, ao contrário do que se poderia esperar, eles não fazem a mínima falta. Tanto Arthur Denker com sua alma viciada em crueldade quanto Todd Bowden com seu fascínio pela maldade são personagens de grande complexidade, defendidos por atores de imenso talento. O veterano Ian McKellen (aos 57 anos vivendo um homem de 75) presenteou o público com uma atuação exemplar no mesmo ano em que concorreu ao Oscar por sua interpretação como cineasta gay James Whale em "Deuses e monstros". Com uma competência assustadora, ele mostrou todas as nuances de sua quase imperdoável personagem, manipulando com maestria os sentimentos da plateia. E o jovem Brad Renfro - elogiado por sua performance em "O cliente" e "Sleepers, a vingança adormecida" - confirmou que era uma das maiores promessas de sua geração (promessa essa que encerrou-se com sua morte prematura aos 25 anos, em 2008). Assumindo o difícil e complicado papel de um protagonista tão longe dos ideais comerciais, Renfro atuou como gente grande, não se deixando intimidar pelo gigantismo do talento de McKellen.

Mesmo sem ser um filme de terror, "O aprendiz" é um dos filmes mais arrepiantes do final da década de 90. Inteligente, claustrofóbico e perigosamente realista, é também um dos mais sensacionais trabalhos do grande Ian McKellen.

Thursday, March 17, 2011

AS BRUXAS DE SALEM

AS BRUXAS DE SALEM (The crucible, 1996, 20th Century Fox, 124min) Direção: Nicholas Hytner. Roteiro: Arthur Miller, peça teatral homônima de Arthur Miller. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Tariq Anwar. Música: George Fenton. Figurino: Bob Crowley. Direção de arte/cenários: Lily Kilvert/Gretchen Rau. Produção: Robert A. Miller, David V. Picker. Elenco: Daniel Day-Lewis, Winona Ryder, Joan Allen, Paul Scofield, Bruce Davison, Rob Campbell, Jeffrey Jones, Frances Conroy. Estreia: 27/11/96

2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Joan Allen), Roteiro Adaptado

Em 1953 os EUA estavam passando por um de seus períodos mais negros: fomentadas pelo famigerado senador Joseph McCarthy, denúncias a respeito de supostos atos comunistas cometidos pelos membros da indústria do cinema pipocavam por todo lado, destruindo carreiras importantes e minando amizades até então tidas como eternas. Qualquer mero ato considerado suspeito era o bastante para que artistas de talento inquestionável perdessem as oportunidades de trabalho - Elia Kazan, por exemplo, colaborou com o governo delatando inúmeros colegas, o que lhe custou o respeito que havia adquirido como cineasta (e ele tentou limpar a barra com o espetacular "Sindicato de ladrões"). Com uma dose admirável de oportunismo (no bom sentido), o dramaturgo Arthur Miller escreveu "As bruxas de Salem", uma de suas obras-primas. Ao contar a história da vingança de uma mulher abandonada, Miller usou-a como um disfarce para uma trama que, nem tão por debaixo dos panos assim, é na verdade uma história sobre a paranoia que tomou conta da capital do cinema.

Adaptada para o cinema em 1957 - em uma versão estrelada por Simone Signoret e falada em francês para fugir da censura norte-americana - a peça de Miller ganhou uma nova versão para as telas em 1996, adaptada por seu próprio autor e dirigida por Nicholas Hytner - que tinha em seu currículo o prestigiado "As loucuras do Rei George". Ao ter sua ação estendida para fora dos limites impostos por um palco, o texto teve a sorte de manter sua força original, contrariando a regra que faz com que adaptações teatrais mantenham seu ranço verborrágico e estático. Em sua vigorosa adaptação para as telas, "As bruxas de Salem" é um avassalador conto sobre o poder destruidor da mentira, e conta com atuações impressionantes de seus atores centrais.

Tudo começa quando o Reverendo Parris (Bruce Davison), pároco da pequena cidade de Salem, Massachussets, flagra sua sobrinha Abigail Williams (Winona Ryder) e outras adolescentes do lugar, dançando em volta de uma fogueira durante a noite. Para fugir de um castigo, Abigail inventa que estava possuída por um espírito demoníaco invocado por sua empregada oriunda de Barbados, Tituba (Charlayne Woodard). Aproveitando a onda de histeria que toma conta do lugar - quando atos inocentes são julgados como provas de bruxaria - ela convence até mesmo o rígido Juiz Thomas Danforth (Paul Scofield, sensacional em cada cena) de que a esposa de Proctor, Elizabeth (a impecável Joan Allen, indicada ao Oscar de coadjuvante) também está envolvida em atos anti-cristãos. Aos poucos, a cidade divide-se entre quem está do seu lado e aqueles que não acreditam em suas mentiras, mas fingir acaba sendo sua última alternativa para evitar a forca.


"As bruxas de Salem" lembra, em sua estrutura, a comédia "O alienista", escrita por Machado de Assis em 1882, onde um médico que chega a uma pequena cidade do interior acaba internando praticamente a população inteira, diagnosticados como loucos. Aqui, Miller dá ênfase à histeria que toma conta de pessoas até então pacatas no momento em que precisam lutar por suas vidas ou integridade física. Abigail Williams ilustra com perfeição a máxima de Nietzsche que diz que "o mundo não conhece fúria maior do que a de uma mulher abandonada". Interpretada visceralmente por Winona Ryder - certamente no melhor papel de sua carreira - Abby é uma jovem que toma consciência tardiamente das consequências de suas mentiras mas mesmo assim não desiste de mantê-las. Na peça original de Miller, a personagem tinha meros 12 anos de idade enquanto John Proctor era quase sexagenário - mudança providencial no roteiro cinematográfico para evitar menções à pedofilia. No filme de Hytner, Proctor é menos vil, quase heróico em sua tentativa de manter-se íntegro e ético mesmo quando vê sua vida desmoronar. E Elizabeth é uma vítima inocente do furacão provocado pela ex-amante do marido, em uma interpretação quase silenciosa de Joan Allen, demonstrando seu imenso talento.

"As bruxas de Salem" é uma metáfora poderosa sobre um dos momentos mais vergonhosos da história do cinema americano. Mas é, acima disso, um filme dotado de uma força própria e de uma inteligência ímpar. Um dos melhores filmes da safra 1996 de Hollywood, infelizmente esquecida pelo Oscar e ignorada pelo público. Merece ser descoberto!