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Sunday, May 15, 2011

GRANDES ESPERANÇAS

GRANDES ESPERANÇAS (Great expectations, 1998, 20th Century Fox, 111min) Direção: Alfonso Cuarón. Roteiro: Mitch Glazer, romance de Charles Dickens. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Steven Weisberg. Música: Patrick Doyle. Figurino: Judianna Makowsky. Direção de arte/cenários: Tony Burrough/Susan Bode. Produção executiva: Deborah Lee. Produção: Art Linson. Elenco: Ethan Hawke, Gwyneth Paltrow, Anne Bancroft, Robert De Niro, Hank Azaria, Chris Cooper, Kim Dickens. Estreia: 30/01/98

"Não vou contar a história como aconteceu. Vou contar a história como me lembro dela." Com essa informação essencial, o jovem Finnegan Bell (Ethan Hawke) começa a narrar seu romance com a bela e inacessível Estella (Gwyneth Paltrow) na versão anos 90 do clássico "Grandes esperanças", de Charles Dickens. Ao deixar o espectador ciente de que é sob seu ponto de vista que a trama se desenrolará, Finn promete, subliminarmente, que lhe dará um visual exuberante, digno do artista plástico que ele é. Com uma fotografia inacreditável do mexicano Emmanuel Lubezki - que valoriza o verde e muitas silhuetas - o filme de Alfonso Cuarón conquista primeiramente pela visão. Aos poucos, pela audição (graças à belíssima trilha sonora de Patrick Doyle). E quando o público percebe, está envolto também pelo coração. Mesmo que tenha muito pouco a ver com o original de Dickens - filmado em 1946 pelo inglês David Lean - "Grandes esperanças" é um lindo espetáculo romântico, valorizado pelo extremo cuidado visual.

Trazendo o original para a época atual - quando na verdade se passa no século XIX - a adaptação de Mitch Glazer (incompleta quando as filmagens começaram, para desgosto de Cuarón) difere e muito do original de Dickens, que se concentra na ascensão social de seu protagonista (que se chama Pip e não Finn), que não é um artista plástico. Modificando também os nomes das demais personagens, Glazer distancia-se do livro de Dickens quase a ponto de torná-lo irreconhecível. Os puristas, logicamente, detestaram. Quem nunca teve contato com o romance, porém, se encantou com uma história de amor que, se vendida sem nenhum vínculo literário poderia ter sido ainda mais bem-sucedida. A versão de Alfonso Cuarón - que foi revelado ao mundo com o excelente "Como água para chocolate" - reveste o erotismo pulsante do filme com uma sofisticação e uma elegância de encher os olhos. E ninguém melhor para encarnar essa sofisticação e essa elegância toda do que a deslumbrante Gwyneth Paltrow.


Ainda conhecida apenas como a noiva de Brad Pitt, apesar de seu ótimo trabalho em "Emma", Paltrow estava em vias de tornar-se uma atriz respeitada, dona de um controverso Oscar por "Shakespeare apaixonado" quando encarnou a bela, loira, chique e fria Estella. Sua beleza glacial e distante não apenas seduz Finn, mas a audiência masculina em peso (ao menos aqueles que consideram mais sexy uma beleza delicada do que a vulgaridade de mulheres-frutas). Estonteante, Gwyneth representa um mundo de glamour e luxo para o protagonista, um mundo de promessas fascinantes e possibilidades infinitas. Não é à toa que Finn se deixa levar pela ambição para conquistá-la.
 
Quando o filme começa, Finn é apenas um menino, criado pela irmã (Kim Dickens) e Joe (Chris Cooper), o namorado dela, que trabalha como pescador. Durante um passeio de barco para desenhar, Finn conhece Arthur Lustig (Robert DeNiro), um foragido da cadeia que exige que ele lhe ajude em sua fuga. Logo em seguida, o garoto vai com Joe para a famosa Mansão Paradiso Perduto, refúgio de uma enclausurada milionária que adentrou no mundo da loucura depois de ser abandonada no altar. É através da Sra. Dinsmoor (Anne Bancroft) que Finn conhece sua sobrinha, a bela Estella, por quem se apaixona à primeira vista. Os anos passam com o rapaz sempre fascinado com a beleza e a frieza da jovem, que viaja para morar em Nova York depois de acenar-lhe com uma possibilidade de amor. Sentindo-se inferiorizado por ser pobre e mal-nascido, Finn tem a chance de sua vida quando recebe a ajuda de um misterioso benfeitor, que lhe proporciona uma exposição em Manhattan e dinheiro suficiente para que ele se torne um bem-sucedido artista plástico. Famoso, reconhecido e rico, Finn tem, então, a possibilidade de conquistar o amor de sua vida.
 
Tudo bem que o roteiro de "Grandes esperanças" não é exatamente um primor e que seus protagonistas soem um tanto rasos. Tudo bem que quase nada sobre do romance que lhe deu origem. E tudo bem que a obsessão de Finn por sua amada Estella chegue às raias do exagero. Mas sobram, no filme de Cuarón, o que falta em muitas histórias de amor que chegam às telas: uma emoção transbordante e uma sensualidade à flor da pele. Juntos em cena, Gwyneth Paltrow e Ethan Hawke tem uma química sexual que se revela em pequenos olhares e pequenos toques. A cena em que Finn pinta retratos de uma Estella completamente nua ao som da bela "Like a friend", da banda Pulp, é digna de figurar em qualquer antologia de momentos eróticos do cinema. E eles nem precisam se tocar para isso...
 
E se Hawke e Paltrow se seguram muito bem como o casal central, é preciso também aplaudir o elenco coadjuvante, composto por veteranos que mostram em cada cena os motivos pelos quais são respeitados pela crítica e pelo público. Robert DeNiro equilibra bem os elementos repulsivos e generosos de seu Arthur Lustig, uma personagem crucial para a história. Chris Cooper quase rouba o show como o humilde Joe, em especial em seu reencontro com Finn, na vernissage do rapaz. E Anne Bancroft tem uma corajosa atuação, despindo-se de qualquer vaidade na pele da devastada Sra. Dinsmoor, em algumas das cenas mais comoventes do filme. Unidos à trilha sonora espetacular de Patrick Doyle e à beleza pictória de sua deslumbrante fotografia, eles fazem de "Grandes esperanças" uma bela história de amor, apesar do final um tanto abrupto.
 
Pode não ser uma unanimidade entre a crítica - e até mesmo entre os fãs de cinema - mas "Grandes esperanças" é um filme para ver e rever, sempre se deixando levar pelos sonhos românticos de Finnegan Bell.

Saturday, January 29, 2011

ANTES DO AMANHECER



ANTES DO AMANHECER (Before sunrise, 1995, Castle Rock Entertainment, 105min) Direção: Richard Linklater. Roteiro: Richard Linklater, Kim Krizan. Fotografia: Lee Daniel. Montagem: Sandra Adair. Música: Fred Frith. Figurino: Florentina Welley. Direção de arte: Florian Reichmann. Produção executiva: John Sloss. Produção: Anne Walker-McBay. Elenco: Ethan Hawke, Julie Delpy. Estreia: 27/01/95

Vencedor do Urso de Prata no Festival de Berlim - Melhor Diretor (Richard Linklater)


Filmes românticos made in Hollywood seguem, via de regra, a mesma estrutura desde tempos imemoriais: rapaz encontra moça, os dois se apaixonam, sofrem as agruras de um amor quase sempre proibido e no final encontram (ou não, se o roteirista tiver instintos sádicos) a felicidade. Normalmente o público sabe o que o espera e nem exige muito mais do que isso. Em compensação, esquece o que viu assim que sai da sala de cinema. Por isso, quando surge um filme como "Antes do amanhecer" há que se soltar fogos de artifício. E por um motivo bastante simples: o roteiro do também diretor Richard Linklater não busca o tentacular, o diferente, o criativo. Mas toca o coração por falar de gente de verdade, com sentimentos reais e não plastificados. E além do mais que atire a primeira pedra quem nunca sonhou em viver um romance como o de Jesse e Celine.

Jesse (vivido por um Ethan Hawke pré-Uma Thurman)é um americano que acabou de ser deixado pela namorada e está voltando aos EUA depois de uma viagem sem destino pela Europa. Celine (a bela e delicada Julie Delpy) é uma jovem francesa que está indo visitar a avó. Os dois se encontram em um trem, conversam, trocam algumas ideias e isso basta para que Celine aceite o convite de Jesse para que desça em Viena e fique conversando com ele até a hora de seu trem de volta pra casa. Na capital austríaca, os dois passam a noite se conhecendo melhor, falando de seus sonhos e objetivos, rindo de seu passado, revelando seus medos e fantasmas... e se apaixonando.



O impressionante no filme de Linklater é a sua opção em não forçar nenhuma situação. Não existe vilões - com exceção do cruel tempo cronológico -, não existem revelações surpreendentes, nem ao menos um final trágico. Jesse e Celine não se apaixonam porque são lindos, maravilhosos, sexies e desejáveis (ainda que o sejam, não fazem caras e bocas para o parecerem). Eles se apaixonam porque se olham nos olhos, porque são verdadeiros um com o outro - o que só é permitido, por assim dizer, porque tem a consciência de provavelmente nunca mais se verão - porque são de países diferentes, com histórias diferentes, com personalidades diferentes. Eles se apaixonam principalmente porque não tem a necessidade de usar máscaras frente um ao outro. É um amor fantasioso? Talvez, porque quantas pessoas você conhece que se conheceram em um trem na Europa? Mas e se não fosse em um trem? E se fosse em um bar, em uma festa, em uma entrevista de emprego? O que importa em "Antes do amanhecer" não é a geografia - ainda que Viena nunca tenha sido tão belamente fotografada - e sim os sentimentos, a paixão, a sensação de que a vida é bela.

Em "Antes do amanhecer" vivenciamos, através de seus protagonistas, aquele desejo que temos de sermos desejados pelo que somos, sem a necessidade de fingir, de criar um personagem, de seduzir deliberadamente. Se como plateia nos é impossível não nos apaixonarmos por Jesse e Celine, como eles não se apaixonariam um pelo outro? E como românticos que somos - ainda que incubados - como não cairmos de amores por sua bela história de amor?

Publicado primeiramente no blog "Lennys' mind" em 01 de fevereiro de 2010.

Sunday, September 26, 2010

SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS

SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS (Dead Poets Society, 1989, Touchstone Pictures, 128min) Direção: Peter Weir. Roteiro: Tom Schulman. Fotografia: John Seale. Montagem: William Anderson. Música: Maurice Jarre. Direção de arte/cenários: Wendy Stites/John Anderson. Casting: Howard Feuer. Produção: Steven Haft, Paul Junger Witt, Tony Thomas. Elenco: Robin Williams, Ethan Hawke, Robert Sean Leonard, Josh Charles, Kurtwood Smith, Melora Walters. Estreia: 09/6/89

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Peter Weir), Ator (Robin Williams), Roteiro Original

Vencedor do Oscar de Roteiro Original

É preciso dar a mão à palmatória: de vez em quando o público médio consegue surpreender até o mais cético dos especialistas em mercado. Foi isso que aconteceu com "Sociedade dos poetas mortos". Lançado no mesmo ano - e na mesma temporada competitiva - que "Indiana Jones e a última cruzada" e o marketing agressivo e espalhafatoso do primeiro "Batman" de Tim Burton, o belo filme dirigido pelo australiano Peter Weir não só conseguiu a proeza de concorrer a 4 importantes Oscar - filme, direção, ator e roteiro original - como ainda por cima arrecadou quase 100 milhões de dólares somente nos EUA. Mesmo contando com a protagonização de Robin Williams, então um astro considerável, o sucesso do filme foi uma grande surpresa principalmente devido a uma particularidade: ao contrário de explosões, humor escatológico e sexo selvagem, a trama de Tom Schulman versava sobre poesia, amizade, esperança e sonhos despedaçados. Ou seja, nada que chamasse a atenção do público, pelo menos aparentemente.

Passada em 1959 - portanto, antes de dois maiores traumas norte-americanos da época, o assassinato de Kennedy e a guerra do Vietnã - a história criada por Schulman é um primor de delicadeza e inteligência, nunca abusando desses ingredientes e equilibrando-os com o carisma radiante de Williams (merecidamente indicado ao Oscar de Melhor Ator). Na época ainda conhecido por seus papéis em comédias como "Popeye" (o fracassado projeto de Robert Altman), o ator dá um show de sutileza ao interpretar John Keating, um professor de Literatura que transforma a vida de um grupo de alunos em uma escola preparatória para rapazes, a tradicional Welton Academy. Substituindo um mestre aposentado, ele surpreende a todos com métodos heterodoxos de ensino. Logo em sua primeira aula, ele manda que todos arranquem as páginas iniciais de um livro de poesia, afirmando que medir a poesia através de gráficos não é a forma correta de se apreciá-la. A partir daí, declama Shakespeare imitando John Wayne e Marlon Brando, recita Thoreau e Walt Whitman sem empolação e, com isso incentiva os meninos a recriarem um projeto de seus tempos de estudante: a Sociedade dos Poetas Mortos. Inspirado por Keating, o tímido Todd Anderson (Ethan Hawke) tenta fugir de seu medo do mundo, o romântico Knox Overstreet (Josh Charles) vai em busca de conquistar o amor da mulher que ama e o ultraprotegido Neil Perry (Robert Sean Leonard) desafia os pais para lutar por seu sonho de ser ator de teatro.


O impacto emocional de "Sociedade dos poetas mortos" é imenso, graças a uma conjunção de fatores que faz dele um dos mais comoventes dramas "de professor" já realizados por Hollywood. O roteiro preciso, simples e catártico de Tom Schulman levou o Oscar da categoria por merecimento inegável. A belíssima fotografia de John Seale, que retrata as quatro estações do ano com singeleza ímpar é de encher os olhos. A trilha sonora de Maurice Jarre conquista pela mistura perfeita entre composições próprias e música clássica de primeira linha. A direção de arte é primorosa e a direção de Weir é provavelmente a melhor de sua carreira (e isso que falamos do homem por trás de "A testemunha" e o posterior "O show de Truman"). Mas é em seu elenco impecável que "Sociedade dos poetas mortos" marca o maior gol de todos.

Se como John Keating Robin Williams provou sem sombra de dúvida que é um grande ator, são seus coadjuvantes que ficam na memória dos espectadores. Williams é generoso ao abrir espaço para seus colegas de cena, responsáveis por alguns dos momentos mais arrepiantes do longa. Como Todd Anderson, Ethan Hawke demonstra uma maturidade surpreendente e como Neil Perry, o estreante Robert Sean Leonard conquista a audiência cena a cena, até chegar a seu dramático clímax - de deixar qualquer um com o rosto lavado de lágrimas.O que Keating ensina a seus alunos - e por conseguinte ao público - é viver com lealdade a seus ideais, com esperança e com ideias próprias. Incomodou seus superiores. Encantou as plateias.