4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Peter Weir), Ator (Robin Williams), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
É preciso dar a mão à palmatória: de vez em quando o público médio consegue surpreender até o mais cético dos especialistas em mercado. Foi isso que aconteceu com "Sociedade dos poetas mortos". Lançado no mesmo ano - e na mesma temporada competitiva - que "Indiana Jones e a última cruzada" e o marketing agressivo e espalhafatoso do primeiro "Batman" de Tim Burton, o belo filme dirigido pelo australiano Peter Weir não só conseguiu a proeza de concorrer a 4 importantes Oscar - filme, direção, ator e roteiro original - como ainda por cima arrecadou quase 100 milhões de dólares somente nos EUA. Mesmo contando com a protagonização de Robin Williams, então um astro considerável, o sucesso do filme foi uma grande surpresa principalmente devido a uma particularidade: ao contrário de explosões, humor escatológico e sexo selvagem, a trama de Tom Schulman versava sobre poesia, amizade, esperança e sonhos despedaçados. Ou seja, nada que chamasse a atenção do público, pelo menos aparentemente.
Passada em 1959 - portanto, antes de dois maiores traumas norte-americanos da época, o assassinato de Kennedy e a guerra do Vietnã - a história criada por Schulman é um primor de delicadeza e inteligência, nunca abusando desses ingredientes e equilibrando-os com o carisma radiante de Williams (merecidamente indicado ao Oscar de Melhor Ator). Na época ainda conhecido por seus papéis em comédias como "Popeye" (o fracassado projeto de Robert Altman), o ator dá um show de sutileza ao interpretar John Keating, um professor de Literatura que transforma a vida de um grupo de alunos em uma escola preparatória para rapazes, a tradicional Welton Academy. Substituindo um mestre aposentado, ele surpreende a todos com métodos heterodoxos de ensino. Logo em sua primeira aula, ele manda que todos arranquem as páginas iniciais de um livro de poesia, afirmando que medir a poesia através de gráficos não é a forma correta de se apreciá-la. A partir daí, declama Shakespeare imitando John Wayne e Marlon Brando, recita Thoreau e Walt Whitman sem empolação e, com isso incentiva os meninos a recriarem um projeto de seus tempos de estudante: a Sociedade dos Poetas Mortos. Inspirado por Keating, o tímido Todd Anderson (Ethan Hawke) tenta fugir de seu medo do mundo, o romântico Knox Overstreet (Josh Charles) vai em busca de conquistar o amor da mulher que ama e o ultraprotegido Neil Perry (Robert Sean Leonard) desafia os pais para lutar por seu sonho de ser ator de teatro.

O impacto emocional de "Sociedade dos poetas mortos" é imenso, graças a uma conjunção de fatores que faz dele um dos mais comoventes dramas "de professor" já realizados por Hollywood. O roteiro preciso, simples e catártico de Tom Schulman levou o Oscar da categoria por merecimento inegável. A belíssima fotografia de John Seale, que retrata as quatro estações do ano com singeleza ímpar é de encher os olhos. A trilha sonora de Maurice Jarre conquista pela mistura perfeita entre composições próprias e música clássica de primeira linha. A direção de arte é primorosa e a direção de Weir é provavelmente a melhor de sua carreira (e isso que falamos do homem por trás de "A testemunha" e o posterior "O show de Truman"). Mas é em seu elenco impecável que "Sociedade dos poetas mortos" marca o maior gol de todos.
Se como John Keating Robin Williams provou sem sombra de dúvida que é um grande ator, são seus coadjuvantes que ficam na memória dos espectadores. Williams é generoso ao abrir espaço para seus colegas de cena, responsáveis por alguns dos momentos mais arrepiantes do longa. Como Todd Anderson, Ethan Hawke demonstra uma maturidade surpreendente e como Neil Perry, o estreante Robert Sean Leonard conquista a audiência cena a cena, até chegar a seu dramático clímax - de deixar qualquer um com o rosto lavado de lágrimas.O que Keating ensina a seus alunos - e por conseguinte ao público - é viver com lealdade a seus ideais, com esperança e com ideias próprias. Incomodou seus superiores. Encantou as plateias.
