Friday, September 24, 2010

ATRAÇÃO MORTAL


ATRAÇÃO MORTAL (Heathers, 1989, New World Pictures, 103min) Direção: Michael Lehmann Roteiro: Daniel Waters. Fotografia: Francis Kenny. Montagem: Norman Hollyn. Música: David Newman. Figurino: Rudy Dillon. Direção de arte: Jon Hutman. Casting: Sally Dennison. Produção executiva: Christopher Webster. Produção: Denise Di Novi. Elenco: Winona Ryder, Christian Slater, Shannen Doherty, Lisanne Falk, Kim Walker. Estreia: 31/3/89

Houve uma época em que Winona Ryder e Christian Slater eram promessas em Hollywood. Ryder até que não foi mal, chegando a ser indicada a dois Oscar e sendo dirigida por nomes como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese e Woody Allen, antes de começar a figurar mais nas páginas policiais do que no caderno de cultura. Mas Slater nunca chegou a tornar-se um astro de primeira grandeza, apesar de chegar quase lá com filmes como "Entrevista com o vampiro" (em que ficou com o papel de River Phoenix após sua inesperada morte). Quando se assiste a "Atração mortal" fica claro o motivo pelo qual as coisas não correram como o esperado para ele. A comédia adolescente de humor negro dirigida por Michael Lehmann (hoje diretor de vários episódios da bem-sucedida série de TV "True blood") recebeu elogios rasgados em sua estreia, levou um Independent Spirit Award de "Melhor Primeiro Filme" e tornou-se cult. Mas visto com a distância dos anos, é um filme que só vale mesmo pelas intenções e pela presença de Winona.

O filme, escrito por Daniel Waters - que nunca escreveu coisa que prestasse, a julgar pelo roteiro de "Hudson Hawk", com Bruce Willis - se passa em uma escola secundária americana, cenário típico dos filmes de John Hughes. No entanto, ao contrário de "A garota de rosa shocking", por exemplo, a protagonista, Veronica Sawyer (Ryder) não é uma adolescente que sonha passivamente em ser notada e amada. Veronica faz parte da turma das Heathers, três jovens belas, populares e invejadas de sua escola. Sentindo-se mal em aprontar com os colegas considerados inferiores pelas amigas, ela conhece e se apaixona por JD (Slater), um rapaz rebelde e metido a conquistador. Durante uma brincadeira que eles resolvem fazer com a líder do grupo, eles acidentalmente acabam matando-a e para despistar, forjam uma cena de suicídio. A partir daí, JD tenta convencer Veronica a matar todos os seus desafetos escolares, sempre deixando indícios que eles mesmos atentaram contra a própria vida.


Na verdade, a ideia de "Atração mortal" é bastante interessante e inteligente. A trama brinca com o vazio de uma geração regada a Coca-cola e shopping-centers e usa e abusa da ironia para provar seu ponto de vista. O problema é que muitas vezes tudo soa como uma piada extendida demais, com um ritmo prejudicado por uma edição que se pretende modernosa mas que incomoda devido a sua falta de timing. O final também sofre de uma espécie de esquizofrenia, com um tom substancialmente diferente do empregado em seus primeiros dois terços. Se era pra ser irônico, não funcionou.

Mas é Christian Slater quem, definitivamente, incomoda mais. Copiando descaradamente os trejeitos de Jack Nicholson, ele parece esquecer que, além de ter um estilo próprio, Nicholson tem talento e inteligência. Atuando com as sobrancelhas mais do que com o cérebro, Slater criou uma personagem irritantemente cool, que em nenhum momento seduz a plateia ou a convence de seus ideiais. Sua interpretação risível parece até contaminar a deliciosa Winona, que tenta o possível e o impossível para destacar-se em meio a tanto sarcasmo mal direcionado.

"Atração mortal" pode parecer atraente em um primeiro momento e talvez o seja, para quem não se importar com o "charme" trash que carrega em todas as cenas. Tem uma ideia bastante apropriada e uma estrela começando sua ascensão. Mas não merece toda a aura cult que o rodeia.