A história de “Segundas intenções” já frequentou as telas de cinema algumas vezes, sendo a mais notável a adaptação de Stephen Frears de 1988 chamada adequadamente de “Ligações perigosas” e vencedora de 3 Oscar. No entanto, como é bem pouco provável que o público mais jovem – diga-se recém saído da adolescência – tenha sido atraído por uma trama passada na França pré-revolução, não deixa de ser interessante e oportunista – no bom sentido – que o roteirista e diretor Roger Kumble tenha tido a ideia de transferir a história de sexo, intrigas e vingança do escritor Choderlos de Laclos para a Los Angeles do final do século XX, com pequenas alterações e poucas ambições.
Sarah Michelle Gelar (da série de TV “Buffy, a caça-vampiros”) vive Catherine, uma jovem milionária, viciada em cocaína e sexo, e hipócrita em todos os sentidos que não se conforma de ter sido abandonada pelo namorado, que agora está apaixonado por Cecile (Selma Blair, bela mas um tanto exagerada em sua caracterização), uma moça de família recém-saída de uma escola de freiras. Com a intenção de desmoralizá-la, Catherine conta com a ajuda de Sebastian (Ryan Phillipe, nitidamente se divertindo com o papel), filho de seu padastro e com quem mantém uma relação quase incestuosa. Famoso por sua agitada e promíscua vida romântica, Sebastian acaba aceitando o desafio de seduzir Cecile, mas dedica mais atenção a uma missão que considera muito mais importante: convencer a virginal Anette (Reese Witherspoon) a entregar sua pureza a ele.

Utilizando de maneira exemplar uma trilha sonora moderna (Blur, Fatboy Slim, The Verve, Counting Crows, Placebo) e um elenco com nomes promissores e carismáticos, Kumble faz de seu “Segundas intenções” um filme ideal para seu público, ainda que corra o risco de desagradar os mais puristas, principalmente ao alterar o final da história, ainda que mantenha o tom de crítica à uma parcela da sociedade como acontece no livro e no filme de Frears. Enquanto no original a nobreza da França era o alvo da pena de Choderlos de Laclos, em sua versão século XXI a juventude elitista, vazia e fútil da geração de grifes e marcas famosas é que é posta na berlinda, ainda que dificilmente seja reconhecida por sua plateia, ansiosa por uma história sem maior profundidade.
Profundidade, aliás, é algo que o roteiro nem tenta atingir. Roger Kumble fez de seu filme uma história de desejo e vingança com doses de sexo (nada muito ousado, mas suficientemente atrativo) e bom humor, apesar do desfecho trágico e da seriedade com que Reese Witherspoon encara um papel difícil, em contraponto às atuações de Ryan Philippe (em seu melhor trabalho) e Sarah Michelle Gelar, que não precisam muito para deixarem claro sua satisfação em viver personagens tão cruéis. Eles ainda precisam comer muito feijão com arroz para chegarem aos pés de John Malkovich e Glenn Close - de quem herdaram seus papéis - mas colaboram bastante para o sucesso com que "Segundas intenções" atinge seus objetivos.
