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Friday, November 18, 2011

ALI

ALI (Ali, 2001, Columbia Pictures, 157min) Direção: Michael Mann. Roteiro: Stephen J. Rivele, Christopher Wilkinson, Eric Roth, Michael Mann, história de Gregory Allen Howard. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: William Goldenberg, Lynzee Klingman, Stephen Rivkin, Stuart Waks. Música: Pieter Bourke, Lisa Gerrard. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: John Myhre/Jim Erickson. Produção executiva: Howard Bingham, Lee Caplin, Graham King. Produção: Paul Ardaji, A. Hitman Ko, James Lassiter, Michael Mann, Jon Peters. Elenco: Will Smith, Jon Voight, Jamie Foxx, Mario Van Peebles, Ron Silver, Jeffrey Wright, Mykelty Williamson, Jada Pinkett-Smith, Bruce McGill, Giancarlo Esposito. Estreia: 25/12/01

2 indicações ao Oscar: Ator (Will Smith), Ator Coadjuvante (Jon Voight)

Em 2001 Will Smith já era um dos mais populares astros do cinemão comercial hollywoodiano, tendo participado de alguns dos maiores êxitos de bilheteria da década de 90, como "Independence Day" e "Homens de Preto". Mas como sempre acontece, sua ambição era outra: ser levado a sério como ator. O primeiro passo nessa direção foi o pouco visto "Lendas da vida", onde atuou ao lado de Matt Damon sob a direção de Robert Redford. Mas foi somente com "Ali", a cinebiografia do lutador Muhammad Ali, que Smith mostrou que, por trás de seu grande carisma e do sorriso fácil, havia um intérprete dramático de grande potencial. Mesmo que o filme tenha bombado nas bilheterias americanas (rendeu menos de 60 milhões contra os mais de cem do orçamento generoso), ninguém pode contestar a excelência do desempenho de seu protagonista.

Dirigido por Michael Mann logo após seu sucesso absoluto com "O informante" - que chegou a lhe dar uma indicação ao Oscar de direção - "Ali" não é uma cinebiografia no sentido tradicional. O roteiro inicial, que ultrapassava 200 páginas e mostrava toda a sua vida desde a infância foi amplamente reescrito por Mann e Eric Roth (os autores do script de "O informante") e passou a concentrar-se em um período específico da vida do lutador, justamente em seu auge e na fase mais polêmica de sua carreira, quando envolveu-se com o islamismo e perdeu o título de campeão mundial por recusar-se a ir para a guerra do Vietnã. Ao dedicar-se especificamente a esse ângulo da história o filme de Mann torna-se muito mais interessante, porque, através de seu protagonista e de suas lutas pessoais forma-se também um painel da história dos EUA, com seus problemas sociais e um racismo latente que fica óbvio através principalmente dos coadjuvantes da trama, como os conhecidos Malcolm X (em uma atuação acertada do cineasta Mario Van Peebles), Don King (Mykelty Williamson) e o repórter esportivo Howard Cosell (vivido por um irreconhecível Jon Voight).


Entre os acertos de "Ali" está também o tom sóbrio impresso por Mann, um cineasta elegante que não permite que a história resvale para o sentimentalismo nem mesmo quando todas as circunstâncias clamam por isso (e a interpretação do sempre ótimo Jamie Foxx como o empresário viciado em drogas de Ali é um perfeito exemplo dessa afirmação). E mesmo que as cenas de luta não sejam exatamente empolgantes (ainda que também não sejam más) o trabalho detalhista de Will Smith compensa qualquer falha. Merecidamente indicado ao Oscar, o jovem ator prova que seu desejo de ser considerado um ator de verdade não é apenas vaidade rasa. Encarar uma personagem tão maior que a vida quanto Muhammad Ali não é pra qualquer um, e Smith tira de letra o desafio auto-imposto (além de ter reduzido seu salário para que o filme pudesse ser feito).

Mesmo que tenha falhas em seu desenvolvimento (como a desnecessária duração excessiva e o superficialismo na relação de Ali com suas esposas), "Ali" tem mais qualidades do que defeitos. Seu relativo fracasso de bilheteria não condiz com o capricho de sua realização e a dedicação de seus colaboradores. Para as novas gerações Muhammad Ali tem o rosto de Will Smith. Não se pode dizer que seja injusto!

Friday, July 15, 2011

O INFORMANTE

O INFORMANTE (The insider, 1999, Spyglass Entertainment/Touchstone Pictures, 157min) Direção: Michael Mann. Roteiro: Michael Mann, Eric Roth, artigo "The man who knew too much", de Marie Brenner. Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: William Goldenberg, David Rosenbloom, Paul Rubell. Música: Pieter Bourke, Lisa Gerrard. Figurino: Anna Sheppard. Direção de arte/cenários: Brian Morris/Marjorie McShirley. Produção: Pieter Jan Brugge, Michael Mann. Elenco: Al Pacino, Russell Crowe, Christopher Plummer, Diane Venora, Philip Baker Hall, Lindsay Crouse, Debi Mazar, Stephen Tobolowsky, Colm Feore, Bruce McGill, Gina Gershon, Rip Torn. Estreia: 28/10/99

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Michael Mann), Ator (Russell Crowe), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Som

Sem medo de soar machista, pode-se dizer tranqüilamente que Michael Mann é um diretor de filmes de homem. Obras como “O último dos moicanos” (a versão anabolizada com Daniel Day-Lewis) e “Fogo contra fogo” (o primeiro encontro em cena dos monstros Al Pacino e Robert DeNiro) são pistas que levam sem medo à esta afirmação. “O informante” confirma a teoria. Baseado em um fato real, contado em um artigo da revista Vanity Fair, o filme tem uma força masculina que independe de músculos. Estrelado por Al Pacino e Russell Crowe - ambos em um grande momento - o filme de Mann é uma crítica feroz à mídia e a indústria tabagista e sua contundência arrancou elogios unânimes, a ponto de chegar à corrida do Oscar em sete categorias - incluindo as importantíssimas Melhor Filme, Diretor, Ator e Roteiro Adaptado.

"O informante" começa quando Jeffrey Wingand (Crowe, em uma atuação nervosa que lhe rendeu uma merecida indicação ao Oscar), executivo de primeiro escalão de uma indústria de cigarros é demitido e obrigado a assinar um contrato que o proíbe de revelar segredos da empresa. Por mero acaso ele é procurado por Lowell (Pacino, brilhando em cada cena em uma interpretação menos exagerada do que de costume), o produtor do popular programa de TV 60 Minutes, para ser o consultor de um outro programa. Com o seu faro de repórter, Lowell logo descobre que Wingand tem muito a falar e o convence a dar um entrevista exclusiva. A entrevista, que faz sérias revelações sobre mentiras contadas pela indústria do tabaco, acaba sendo gravada, mas impedida de ir ao ar pela alta cúpula da emissora do programa. Enquanto isso, a vida de Wingand se deteriora progressivamente: seu casamento entra em crise e ele passa a ser ameaçado de morte.



Narrando sua história em tom quase documental, para o qual colaboram a sóbria fotografia do veterano Dante Spinotti e a ágil edição de William Goldenberg e Paul Rubell, Mann utiliza sua experiência de forma a nunca julgar os atos nem as personalidades de suas personagens, ambas em seus limites, sejam eles pessoais ou profissionais. Sem a pressa que poderia atabalhoar o desenvolvimento a contento da trama, seu roteiro (escrito a quatro mãos com o oscarizado Eric Roth) é forte e contundente, sem nunca escorregar na denúncia vazia ou no sentimentalismo barato, ainda que essa opção em diminuir o ritmo deixe o filme um tanto quanto arrastado em alguns momentos. Pode-se até dizer que "O informante" é um filme dois em um primeiro conta a história de Lowell em busca de um furo e depois mostra os dramas na vida de Wingand. Felizmente ambos são da mais alta qualidade.

Afinal de contas, é no show de seus atores que reside a força de “O informante”, Russell Crowe à frente. É quase impossível lembrar da truculência de Crowe em “Los Angeles, cidade proibida” quando se assiste à sua espetacular atuação como Jeffrey Wingand, um homem frágil e impotente diante da ruína de tudo que construiu em vida. Seu trabalho é tão consistente que consegue ofuscar um dos melhores desempenhos de Al Pacino, absolutamente generoso em dividir o palco com o colega neo-zelandês. Um grande drama jornalístico sobre ética e verdade!