Tuesday, July 19, 2011

FIM DE CASO

FIM DE CASO (The end of the affair, 1999, Columbia Pictures, 102min) Direção: Neil Jordan. Roteiro: Neil Jordan, romance de Graham Greene. Fotografia: Roger Pratt. Montagem: Tony Lawson. Música: Michael Nyman. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Anthony Pratt/John Bush, Joanne Woolard. Produção: Neil Jordan, Stephen Wooley. Elenco: Ralph Fiennes, Julianne Moore, Stephen Rea, Ian Hart, Jason Isaacs. Estreia: 02/12/99

2 indicações ao Oscar: Atriz (Julianne Moore), Fotografia


Publicado em 1951 e adaptado por Hollywood em 1955 com Deborah Kerr e Van Johson com o nome de “Pelo amor de meu amor”, o romance “Fim de caso”, do inglês Graham Greene é conciso (tem pouco mais de 230 páginas), mas dotado de uma grande força dramática. Quem percebeu isso foi o cineasta irlandês Neil Jordan, que em 1999 lançou sua própria versão do livro. Elogiadíssimo pela crítica e indicado a dois Oscar, o filme não foi bem-sucedido comercialmente, como normalmente acontece com bons filmes direcionados ao público maduro – nem chegou a cobrir seu orçamento de 23 milhões no mercado americano – mas é um espetáculo imperdível. Adaptado pelo próprio Jordan, o filme não é apenas uma pungente e arrasadora história de amor. É também um estudo sobre o ciúme, a fé, a fidelidade e, pode-se dizer sem medo, Deus. Realizado com sensibilidade e inteligência, “Fim de caso” é o filme que qualquer cineasta de bom gosto gostaria de assinar.

A trama começa no final dos anos 40, quando o escritor Maurice Bendrix (Ralph Fiennes, em atuação mais do que inspirada) reencontra um amigo, o político Henry Miles (Stephen Rea) em uma noite de chuva. Miles está plenamente convencido de que sua esposa, a bela Sarah (Julianne Moore, indescritível) o está traindo e Bendrix, solícito, se oferece para contratar um detetive para seguí-la. Na verdade, o escritor tem seus próprios motivos para o interesse: descobrir o motivo que levou Sarah a abandonar, sem nenhuma razão aparente, o romance secreto que eles mantinham durante a guerra. Quando põe os olhos no diário da mulher que ainda ama, Bendrix descobre que o fim do caso entre eles tem uma razão aparentemente banal, mas extremamente forte em seu íntimo.


Elegante sem ser chato, romântico sem ser piegas, quente sem ser pornográfico e comovente ao extremo sem ser apelativo, “Fim de caso” é um filme feito para quem gosta de uma boa história, contada com categoria e talento. Tudo funciona às mil maravilhas no conjunto. A primorosa fotografia de Roger Pratt, a belíssima música de Michael Nyman, a reconstituição de época impecável e a montagem inteligente de Tony Lawson tecem um quadro tão coeso e admirável que não deixa de ser empolgante e até mesmo chocante. São vários detalhes deixados cuidadosamente por Jordan em cada cena que, em seu final, fazem um sentido avassalador. A bela sequência em que Bendrix finalmente descobre o porquê de ter sido abandonado, por exemplo, é de uma simplicidade tocante, com um diálogo belo porque simples e recitado por um casal de atores em seus melhores dias. Não à toa Julianne Moore foi indicada ao Oscar por sua magnífica performance. Quando o filme assume seu ponto de vista, na segunda metade, a audiência experimenta um dos mais dolorosos romances da década de 90.

A adaptação de Jordan não chega a ser extremamente fiel ao livro de Greene – e algumas diferenças até podem incomodar os fãs da obra literária, ainda que a versão cinematográfica suscite algumas discussões muito interessante sobre fé – mas é impossível ficar indiferente à química explosiva entre Ralph Fiennes e Julianne Moore, em atuações antológicas. O único problema de “Fim de caso” é que raramente produções tão boas chegam às telas e fica difícil assistir aos romances pasteurizados que desfilam pelas telas sem fazer comparações com sua força.