Se o subestimado “Cassino", filme anterior do diretor Martin Scorsese, tinha ecos de sua obra-prima “Os bons companheiros” tanto em forma quanto em violência, este “Vivendo no limite”, baseado no romance de Joe Connelly emula diretamente um clássico do cineasta, o inesquecível “Taxi driver”, em que o taxista vivido por Robert de Niro se aventurava pelas perigosas e ameaçadoras ruas de Nova York durante as madrugadas. Sintomaticamente ambos os filmes foram escritos por Paul Schrader, colaborador habitual de Scorsese e tratam da solidão em níveis quase doentios.
O solitário em “Vivendo no limite” não é mais um taxista traumatizado pela guerra do Vietnã e sim Frank Pierce (Nicolas Cage), um paramédico que sofre de insônia e tem visões de uma jovem prostituta que morreu em seus braços. Corroído por uma culpa sem sentido, ele começa a buscar a redenção quando conhece (Patrícia Arquette), a jovem filha de um homem em coma, salvo por ele. Em seu caminho atrás de sua sanidade mental, Pierce testemunha um lado obscuro da humanidade e chega a envolver-se em situações de perigo e violência.

Similaridades com “Taxi driver” pipocam a cada cena, assim como gritantes diferenças. A fotografia úmida de Robert Richardson, a montagem quase paranóica de Thelma Schoonmaker e a edição de som colaboram com o clima de pesadelo proposto por Scorsese, bem como a trilha sonora nervosa, que mistura REM, Bob Dylan e Rolling Stones sem medo de errar. Os coadjuvantes também não prejudicam o conjunto, especialmente Tom Sizemore, como um paramédico histérico e revoltado que faz esporádicas parcerias com o protagonista, cuja personalidade atormentada também remete ao Travis Bickle de DeNiro.
Mas é justamente na figura de seu protagonista que “Vivendo no limite” perde dezenas de pontos, especialmente em comparação com a icônica imagem criada por De Niro e Scorsese em “Taxi driver”. Com sua cara de cachorro perdido, em nenhum momento Nicolas Cage deixa que o público se compadeça ou simpatize com sua situação, o que nas mãos de um ator mais talentoso e menos limitado (como Edward Norton, que era a primeira opção para o papel) poderia render uma atuação brilhante, especialmente nas mãos de um diretor energético e criativo como Martin Scorsese. Ao equivocar-se justamente em um ponto tão crucial (e escalar a fraca Patricia Arquette como atriz principal), o cineasta nova-iorquino perdeu a oportunidade de legar ao mundo uma nova obra-prima, entregando somente um filme forte e depressivo, ainda que otimista em seu final agridoce. É mais do que a maioria dos diretores faz, mas dele sempre espera-se mais.
