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Wednesday, July 13, 2011

VIVENDO NO LIMITE

VIVENDO NO LIMITE (Bringing out the dead, 1999, Paramount Pictures/Touchstone Pictures, 121min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Paul Schrader, romance de Joe Connelly. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Thelma Schoonmaker. Música: Elmer Bernstein. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Dante Ferretti/William F. Reynolds. Produção executiva: Bruce S. Pustin, Adam Schroeder. Produção: Barbara De Fina, Scott Rudin. Elenco: Nicolas Cage, John Goodman, Tom Sizemore, Patricia Arquette, Marc Anthony, Ving Rhames, Mary Beth Hurt. Estreia: 22/10/99

Se o subestimado “Cassino", filme anterior do diretor Martin Scorsese, tinha ecos de sua obra-prima “Os bons companheiros” tanto em forma quanto em violência, este “Vivendo no limite”, baseado no romance de Joe Connelly emula diretamente um clássico do cineasta, o inesquecível “Taxi driver”, em que o taxista vivido por Robert de Niro se aventurava pelas perigosas e ameaçadoras ruas de Nova York durante as madrugadas. Sintomaticamente ambos os filmes foram escritos por Paul Schrader, colaborador habitual de Scorsese e tratam da solidão em níveis quase doentios.

O solitário em “Vivendo no limite” não é mais um taxista traumatizado pela guerra do Vietnã e sim Frank Pierce (Nicolas Cage), um paramédico que sofre de insônia e tem visões de uma jovem prostituta que morreu em seus braços. Corroído por uma culpa sem sentido, ele começa a buscar a redenção quando conhece (Patrícia Arquette), a jovem filha de um homem em coma, salvo por ele. Em seu caminho atrás de sua sanidade mental, Pierce testemunha um lado obscuro da humanidade e chega a envolver-se em situações de perigo e violência.


Similaridades com “Taxi driver” pipocam a cada cena, assim como gritantes diferenças. A fotografia úmida de Robert Richardson, a montagem quase paranóica de Thelma Schoonmaker e a edição de som colaboram com o clima de pesadelo proposto por Scorsese, bem como a trilha sonora nervosa, que mistura REM, Bob Dylan e Rolling Stones sem medo de errar. Os coadjuvantes também não prejudicam o conjunto, especialmente Tom Sizemore, como um paramédico histérico e revoltado que faz esporádicas parcerias com o protagonista, cuja personalidade atormentada também remete ao Travis Bickle de DeNiro.
        
Mas é justamente na figura de seu protagonista que “Vivendo no limite” perde dezenas de pontos, especialmente em comparação com a icônica imagem criada por De Niro e Scorsese em “Taxi driver”. Com sua cara de cachorro perdido, em nenhum momento Nicolas Cage deixa que o público se compadeça ou simpatize com sua situação, o que nas mãos de um ator mais talentoso e menos limitado (como Edward Norton, que era a primeira opção para o papel) poderia render uma atuação brilhante, especialmente nas mãos de um diretor energético e criativo como Martin Scorsese. Ao equivocar-se justamente em um ponto tão crucial (e escalar a fraca Patricia Arquette como atriz principal), o cineasta nova-iorquino perdeu a oportunidade de legar ao mundo uma nova obra-prima, entregando somente um filme forte e depressivo, ainda que otimista em seu final agridoce. É mais do que a maioria dos diretores faz, mas dele sempre espera-se mais.

Tuesday, October 5, 2010

ALÉM DA ETERNIDADE

ALÉM DA ETERNIDADE (Always, 1989, Amblin Entertainment/Universal Pictures/United Artists, 122min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Jerry Belson, roteiro original de Dalton Trumbo. Fotografia: Mikael Salomon. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: James Bissell/Jackie Carr. Casting: Lora Kennedy. Produção: Kathleen Kennedy, Frank Marshall, Steven Spielberg. Elenco: Richard Dreyfuss, Holly Hunter, John Goodman, Brad Johnson, Marg Helgenberger, Audrey Hepburn. Estreia: 22/12/89

Se “Além da eternidade” prova alguma coisa é que até mesmo os gênios cometem erros. Tido como um dos fracassos da vitoriosa carreira de Steven Spielberg (e relegado à galeria de equívocos do cineasta, ao lado de filmes como “1941, uma guerra muito louca” e “Hook, a volta do Capitão Gancho”), esta refilmagem de um obscuro drama romântico dos anos 40 chamado “A guy named Joe” ("Dois no céu" no Brasil) não foi bem de bilheteria e nunca chegou a receber críticas entusiasmadas, ainda que tenha alguns tímidos fãs. A pergunta crucial é: o filme é ruim?

"Além da eternidade" conta a história de Pete Sandich (Richard Dreyfuss), um competente piloto de avião responsável por apagar incêndios florestais que ama o que faz e ama a namorada, Dorinda (Holly Hunter), apesar de nunca ter revelado a ela toda a extensão de seus sentimentos. Um dia, ao salvar a vida do colega e amigo Al (John Goodman), Pete sofre um acidente e morre. A princípio revoltado com sua condição, ele logo recebe de um anjo (a última atuação da sempre delicada Audrey Hepburn) uma missão: ajudar um jovem piloto (Brad Johnson) a se acertar na carreira e conquistar o amor da mulher que ama. O problema é que a mulher que o jovem, corajoso e belo aspirante a piloto deseja é justamente a mesma Dorinda que Pete ainda ama, apesar de estar em outro plano espiritual. Ele terá, então, que superar os próprios sentimentos para vê-la feliz.

Para os românticos incuráveis, a história de amor e morte dos protagonistas do filme pode funcionar muito bem. Para aqueles mais exigentes, no entanto, as coisas podem ser mais difíceis. Spielberg utiliza em seu filme ingredientes que, um ano depois, faria a glória de um digamos assim, subproduto chamado “Ghost, do outro lado da vida”: romance entre pessoas de dimensões diferentes, ensinamentos espíritas e até uma canção dos anos 50 (nesse caso, a bela “Smoke gets in your eyes”, com The Platters). Mas, por incrível que pareça, as falhas em “Além da eternidade” estão nas decisões tomadas pelo próprio diretor. Richard Dreyfuss e Holly Hunter são atores infinitamente superiores a Patrick Swayze e Demi Moore (astros de “Ghost”), mas não têm o mesmo carisma e beleza que levaram multidões aos cinemas. “Ghost” tinha elementos de humor e uma trama policial, que, apesar de diminuir a intensidade da história central, caiu no gosto do público. “Além da eternidade” se leva a sério demais. Mas o cineasta que deu ao mundo obras-primas emocionantes como “A cor púrpura” e “A lista de Schindler” parece não ficar muito à vontade ao falar de amor. Não é à toa que este é, até agora, seu único drama romântico.

"Além da eternidade" oferece à plateia cenas belíssimas (os incêndios, por exemplo, são fotografados exemplarmente por Mikael Salomon) e atuações muito competentes de seus protagonistas (Richard Dreyfuss é um ator que se presta a todas às nuances pretendidas pelo diretor e Holly Hunter, mesmo anos-luz distante do visual Barbie, é uma atriz espetacular - o que o Oscar por "O piano", quatro anos depois, provaria.) Mas não tem o mesmo nível de paixão dos melhores trabalhos de Steven Spielberg. Ainda assim, um belo filme que merecia melhor sorte.

Tuesday, September 28, 2010

VÍTIMAS DE UMA PAIXÃO

VÍTIMAS DE UMA PAIXÃO (Sea of love, 1989, Universal Pictures, 112min) Direção: Harold Becker. Roteiro: Richard Price. Fotografia: Ronnie Taylor. Montagem: David Bretherton. Música: Trevor Jones. Figurino: Betsy Cox. Direção de arte/cenários: John Jay Moore/Gordon Sim. Casting: Mary Colquhoun. Produção: Martin Bregman, Louis A. Stroller. Elenco: Al Pacino, Ellen Barkin, John Goodman, Richard Jenkins, Michael Rooker, William Hickey, Samuel L. Jackson. Estreia: 15/9/89

Foi preciso 4 anos para que Al Pacino se recuperasse do trauma de "Revolução", lançado em 1985. Fracasso de crítica e de público, o filme  afastou Pacino das telas por um longo período, em que o ator que deu vida a personagens antológicas como Michael Corleone e Serpico, dedicou-se ao teatro, sua maior paixão. Seu retorno, em 1989, pode não ter sido em um filme com potencial de Oscar ou algo parecido, mas provou que seu carisma ainda tinha fãs o suficiente para lotar salas de cinema. "Vítimas de uma paixão", o veículo que o devolveu às telas, é um policial eficiente que adiciona ao gênero um elemento que viraria moeda corrente poucos anos depois: uma alta carga erótica.

Ainda que bem menos explícito do que "Instinto selvagem", por exemplo, "Vítimas de uma paixão" recorre a tórridas cenas entre seus protagonistas, mas, ao contrário do filme que elevou Sharon Stone ao status de musa sexy absoluta dos anos 90, aqui as cenas de sexo funcionam não para estabelecer um estado de dominação física, mas principalmente como um canal para deixar claro as carências de suas personagens centrais, ambos perdidos em um mar não de amor como diz a canção-título, mas de solidão e melancolia. Se não, vejamos.


Frank Keller (vivido por um Pacino menos agressivo e mais sutil) é um policial de Nova York que ainda não aceitou o fato de perder a esposa para um colega de trabalho (Richard Jenkins). Utilizando o álcool como válvula de escape para suas noites tediosas, ele acaba envolvido na investigação de uma série de crimes: homens que publicaram anúncios em jornal procurando mulheres estão sendo assassinados a tiros, enquanto um disco de 48rpm com a canção "Sea of love" jaz no toca-discos. Para pegar a assassina, Keller e seu parceiro tem a ideia de publicar anúncios, também, e assim, de posse das impressões digitais das suspeitas, chegar até a criminosa. No entanto, o policial, solitário e triste, se apaixona por Helen (Ellen Barkin), uma mãe solteira que trabalha como vendedora de sapatos e, no auge de seus sentimentos, passa a negar, inclusive pra si mesmo, que ela pode ser a responsável por todas as mortes.

O mais inteligente do roteiro do escritor Richard Price é a sua opção em não fixar-se única e exclusivamente na investigação policial nem tampouco na relação íntima entre Keller e Helen. Ao equilibrar esses dois polos da ação, ele consegue tanto agradar aos fãs de filmes policiais quanto àqueles que procuram algo mais no gênero - no caso, um estudo, ainda que não exatamente profunda, como convém, da solidão. Os dois protagonistas são pessoas comuns que tentam, cada um a sua maneira, sobreviver em um mundo individualista, com seus problemas pessoais ameaçando perigosamente sua felicidade. Enquanto a plateia acompanha a busca pela violenta assassina de homens solitários, o filme de Harold Becker aproveita para contar uma pungente história de amor e falta de esperança.

"Vítimas de uma paixão" não é - e nem se pretende - um filme para ficar marcado na mente da audiência como uma obra-prima do gênero. Mas ao fugir do feijão-com-arroz básico, atinge um patamar acima dos seus congêneres. E contar com Al Pacino como protagonista é sempre uma ajuda e tanto!