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Monday, May 24, 2010

UM ESTRANHO NO NINHO


UM ESTRANHO NO NINHO (One flew over the cuckoo's nest, 1975, United Artists, 133min) Direção: Milos Forman. Roteiro: Lawrence Hauben, Bo Goldman, baseado no romance de Ken Kesey e na adaptação da peça por Dale Wasserman. Fotografia: Haskell Wexler. Montagem: Sheldon Kahn, Lynzee Klingman. Música: Jack Nitzsche. Casting: Jane Feinberg, Mike Fenton. Produção: Michael Douglas, Saul Zaentz. Elenco: Jack Nicholson, Louise Fletcher, Brad Dourif, Christopher Lloyd, Danny de Vito, Will Sampson. Estreia: 19/11/75

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Milos Forman), Ator (Jack Nicholson), Atriz (Louise Fletcher), Ator Coadjuvante (Brad Dourif), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original

Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Milos Forman), Ator (Jack Nicholson), Atriz (Louise Fletcher), Roteiro Adaptado

Vencedor de 6 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Milos Forman), Ator/Drama (Jack Nicholson), Atriz/Drama (Louise Fletcher), Roteiro, Melhor Estreia/Masculino (Brad Dourif)


Em um dos períodos mais prolíficos de Hollywood em apresentar anti-heróis como protagonistas de seus filmes, surgiu, em 1975, mais um louvável exemplo disposto a fazer parte de seu histórico. Protagonista de um dos mais festejados dramas da época, Randle P. McMurphy foi um dos responsáveis, assim como “O iluminado”, feito cinco anos depois, de forjar a persona outsider de Jack Nicholson, com a qual ele já flertava no mínimo desde “Easy Rider”, de 1969. Dirigido pelo tcheco Milos Forman, "Um estranho no ninho", a adaptação do romance de Ken Kesey conseguiu a proeza de ser um dos pouquíssimos filmes (três, até agora) a arrebatar os cinco principais Oscar - filme, diretor, ator, atriz e roteiro. Assim como das outras duas vezes - uma antes e uma depois - todos os prêmios foram amplamente merecidos.

Em "Um estranho no ninho", Nicholson tem uma das mais eficazes interpretações de sua carreira na pele de McMurphy, um malandro que, em 1963, condenado por estupro, consegue enrolar as autoridades e, fazendo-se passar por doente mental, vai parar em um hospital controlado com mão-de-ferro pela rígida enfermeira-chefe Ratched (Louise Fletcher). Sentindo-se aprisionado, ele passa a influenciar os demais pacientes do hospital, principalmente um jovem tímido e suicida Billy (Brad Dourif) e um índio calado e misterioso (Will Sampson). Suas atitudes, rebeldes e inconseqüentes, acabam por colocá-lo em rota de colisão com Ratched, o que os leva a uma guerra sem tréguas e com mais vítimas do que se poderia pressupor.

O romance de Ken Kesey já havia dado origem a uma peça de teatro estrelada por Kirk Douglas, que comprou os direitos de adaptação para o cinema. Achando-se velho demais para o papel principal, ele passou os direitos para seu filho Michael, que acabou ganhando um Oscar como produtor. O autor do livro detestou o resultado final da versão cinematográfica de sua obra - que, entre outras mudanças, era narrada através do ponto de vista do índio vivido por Will Sampson - e recusou-se a assistí-la até o fim. Sua recusa, apesar de compreensível tendo em vista seus sentimentos em relação à sua obra, apenas privou-o de assistir a um filme que não trai a essência de sua origem, expandindo-a de maneira delicada e nunca menos do que brilhante.

Dirigido com firmeza e uma certa ironia pelo sempre competente Milos Forman, “Um estranho no ninho” de certa forma, encaixa-se com perfeição, ao contrário de seu título, no período em que foi realizado. Herdeira da contra-cultura que dominava os EUA nos anos 70, a história retratada no filme contrapõe heróis (McMurphy, mesmo que não seja exatamente um exemplo de conduta e caráter) e vilões (Ratched, que, apesar de ter a seu lado a retitude moral, representa o poder estabelecido, por si só um vilão em uma época marcada, entre outras coisas, pela guerra do Vietnã) e embaralha suas personalidades, jogado longe o maniqueísmo que poderia facilmente surgir. A inteligência do roteiro e da direção em passar ao largo de situações fáceis encontra eco na atuação do elenco, impecável de um extremo a outro.
Se Jack Nicholson pontua o filme com brilhantismo, justificando seu primeiro Oscar de melhor ator, seus coadjuvantes também são exemplares. Brad Dourif e um jovem Christopher Lloyd fazem sua estreia com louvor – o primeiro chegou a ser indicado ao Oscar -, ao lado de atores mais experientes (e isso inclui um Danny de Vito ainda em início de carreira).

Mas quem consegue duelar com Nicholson sem que seja preciso utilizar-se de muitas palavras para isso é Louise Fletcher. Sua enfermeira Ratched, impassível, insensível e incapaz de sentimentos como compaixão é o contraponto ideal para a energia quase destruidora de McMurphy. Fletcher ficou com um dos papéis mais disputados da temporada e demonstra a cada cena que mereceu ser escolhida; seu olhar gélido e sua expressão inatingível são assustadores, motivos que a levaram a ganhar o Oscar de melhor atriz, mesmo que sua personagem apareça relativamente pouco, em comparação com a quase totalidade de cenas com Nicholson, o verdadeiro protagonista. Responsabilizar a fragilidade das interpretações femininas do ano de 1975 como a razão por sua vitória - como foi feito na época - é tirar dela os méritos inegáveis de uma atuação inesquecível e forte a ponto de não se intimidar frente a uma das mais marcantes performances do grande Jack.

Sunday, May 23, 2010

UM DIA DE CÃO


UM DIA DE CÃO (Dog day afternoon, 1975, Warner Bros, 125min) Direção: Sidney Lumet. Roteiro: Frank Pierson, inspirado em artigo de P.F.Kluge, Thomas Moore. Fotografia: Victor J. Kempster. Montagem: Dede Allen. Figurino: Anna Hill Johnstone. Direção de arte/cenário: Charles Bailey/Robert Drumheller. Casting: Michael Chinich, Don Phillips. Produção: Martin Bregman, Martin Elfand. Elenco: Al Pacino, John Cazale, Charles Durning, Chris Sarandon, Sully Boyar, Penelope Allen,Carol Kane, Lance Henriksen. Estreia: 21/9/75

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Sidney Lumet), Ator (Al Pacino), Ator Coadjuvante (Chris Sarandon), Roteiro Original, Montagem

Vencedor do Oscar de Roteiro Original


Ainda bem que não só de heróis bonzinhos e lindos vive o cinema americano e que, de vez em quando um diretor tem a coragem de fuçar nas feridas do mundo ocidental e expor suas mazelas e contradições. John Schlesinger fez isso em “Perdidos na noite” e, apesar das polêmicas, chegou a ganhar o Oscar de melhor filme. Em "Um dia de cão" quem resolveu dar a cara a tapa foi Sidney Lumet, diretor do ótimo “Doze homens e uma sentença”. E pra melhorar ainda mais a notícia, Lumet foi buscar inspiração em uma história real. Apesar de parecer inacreditável, a trama de “Um dia de cão” aconteceu de verdade. E isso faz da experiência de assisti-lo um prazer ainda maior.

A ação se passa em um único dia de verão de 1972, em um banco do Brooklyn. Com a intenção de assaltá-lo, os amigos Sonny (Al Pacino em uma interpretação consagradora) e Sal (John Cazale, excepcional) invadem o local e ao perceberem que escolheram o banco errado, uma vez que quase não há dinheiro para ser levado, descobrem que estão cercados pela polícia, representada pelo Capitão Moretti (Charles Durning). O que era para ser apenas mais um corriqueiro assalto a banco transforma-se aos poucos em um circo, transmitido inclusive pela televisão. Tudo se complica ainda mais quando se descobre que a principal razão de Sonny em roubar o dinheiro é financiar a operação de mudança de sexo de seu amante, o transexual Leon (Chris Sarandon, ex-marido de Susan e indicado ao Oscar de ator coadjuvante), o que ao mesmo tempo lhe transforma em alvo de chacota e ídolo do movimento gay. Aos poucos, Sonny passa de bandido a herói, sendo apoiado pelo público e até pelos funcionários mantidos como reféns.

Criando uma atmosfera claustrofóbica e ao mesmo tempo sem em nenhum momento perder as rédeas da narrativa, em parte devido ao surpreendente bom humor do roteiro premiado com o Oscar, o diretor Lumet mantém seus personagens sempre em uma constante tensão e desespero. A edição de Dede Allen também colabora para sustentar o ritmo sufocante da trama. Ao criticar a ação da mídia em transformar em entretenimento até mesmo o sofrimento alheio, o filme ainda dá um passo a frente de seus contemporâneos, com um senso de momento impressionante e surpreendente.

Mas nada adiantaria a inteligência do roteiro e a precisão da direção se na frente das câmeras não houvesse atores como os escolhidos por Lumet. Al Pacino e John Cazale, irmãos nos dois filmes “O poderoso chefão” sustentam uma química invejável e demonstram a segurança necessária para transmitir a insegurança e o desespero de seus personagens, tragicamente envolvidos em uma inesperada reviravolta do destino. São suas brilhantes atuações que transformam dois anti-heróis em seres humanos com falhas e qualidades como todo espectador. E talvez por isso em determinado momento do filme a plateia é surpreendida torcendo por dois assaltantes de banco a despeito de seu crime. Ainda bem que há filmes em que isso é possível, caso contrário o público de cinema ficaria seriamente tentado a crer que apenas homens loiros, altos e heróicos são capazes de protagonizar um filme de sucesso.

TUBARÃO


TUBARÃO (Jaws, 1975, Universal Pictures, 124min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Peter Benchley, Carl Gottlieb, baseado no romance de Peter Benchley. Fotografia: Bill Butler. Montagem: Verna Fields. Música: John Williams. Direção de arte/cenários: Joseph Alves Jr./John M. Dwyer. Produção: David Brown, Richard D. Zanuck. Elenco: Roy Scheider, Robert Shaw, Richard Dreyfuss, Lorraine Gary, Murray Hamilton. Estreia: 20/6/75

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Montagem, Trilha Sonora Original, Som

Vencedor de 3 Oscar: Montagem, Trilha Sonora Original, Som

Vencedor do Golden Globe de Melhor Trilha Sonora Original


Antes de 1975 não havia em Hollywood o que hoje se chama "filme de verão", ou seja, aquele sucesso acachapante de bilheteria, capaz de formar filas quilométricas e virar mania nacional - e em muitos casos, internacional. Foi preciso que um cineasta novato com apenas 28 anos de idade chamado Steven Spielberg lançasse um aterrorizante filme sobre um gigantesco tubarão branco atacando um pequeno balneário para que esse cenário mudasse inexoravelmente. Pro bem e pro mal, o lançamento de "Tubarão", em junho de 1975, transformou radicalmente a maneira com que os estúdios de Hollywood viam a indústria. Se por um lado essa mudança praticamente matou - ou ao menos diminiu sensivelmente - o cinema ousado e intelectualmente criativo que era feito desde o final dos anos 60, também foi responsável pelo aumento da popularidade da sétima arte junto ao público médio e sedento de diversão por diversão. Acusados de "idiotizar o cinema americano", Spielberg e George Lucas - diretor de "Star wars", que dois anos depois se tornaria ainda mais popular que "Tubarão" - deram, com seus filmes, um passo gigantesco para tornar Hollywood o que ela é hoje. No entanto, mesmo que seja muito triste perceber que a coragem de filmes como "Perdidos na noite" e "Amargo pesadelo" tenha ficado para trás a partir de então (sintomaticamente, o ator central dos dois filmes, Jon Voight, foi considerado para protagonista aqui...) há que se dar o devido crédito ao cineasta. "Tubarão" é um filme sensacional!

Baseado em um romance de Peter Benchley - que aparece frente às câmeras como um repórter, em uma ponta minúscula -, o filme de Spielberg se passa em Amity, uma cidade litorânea pequena e agradável, que vive de turismo. Às vésperas do feriado de 4 de julho - a ocasião mais financeiramente auspiciosa do ano - um gigantesco tubarão branco passa a atacar os banhistas. O xerife da cidade, Martin Brody (Roy Scheider), alerta o corrupto e ambicioso prefeito Larry Vaughn (Murray Hamilton, ótimo em todas as suas cenas) do perigo que os turistas correm, mas mesmo assim, não consegue convencê-lo a interditar a praia. Quando os ataques realmente começam a acontecer frente à população, no entanto, ele se vê obrigado a mudar de opinião. Ao lado do oceanógrafo Matt Hopper (Richard Dreyfuss) e do experiente pescador Sam Quint (Robert Shaw), Brody parte mar adentro com o objetivo de aniquilar o monstro assassino.

O que é mais notável em "Tubarão" é o senso de ritmo e suspense criado por Spielberg, que tinha no currículo apenas um longa para o cinema, o road movie "Louca escapada", estrelado por Goldie Hawn - apesar de ter alguma experiência em televisão, de onde saiu o elogiado "Encurralado". Durante toda a primeira metade do filme, a ameaça é invisível, sentida pelo espectador através de tomadas subaquáticas e pela excepcional trilha sonora de John Williams (merecidamente premiada com o Oscar da categoria). O cineasta constrói toda a tensão utilizando-se apenas de detalhes visuais - o olhar do xerife Brody, o desaparecimento de um cão - e sonoros. É uma primeira parte absolutamente centrada na exposição do conflito, sem muito espaço para construções psicológicas de suas personagens - Hitchcock teria orgulho. E aí chega a segunda metade do filme.

Apesar de maneirar um pouco na tensão logo que entra na metade final de seu filme, Spielberg não deixa que o público perca o interesse na sua narrativa. Ao juntar três homens de personalidades e temperamentos distintos em um único cenário, reunidos por trágicas circunstâncias, ele proporciona aos atores seus melhores momentos na obra. O longo monólogo em que Quint relembra sua experiência na guerra, onde teve seu primeiro contato com tubarões, é uma joia (e foi escrita pelo próprio Robert Shaw, cuja personagem lembra o protagonista obsessivo de "Moby Dick", de Melville) e sua disputa de cicatrizes com Hopper soa engraçada sem parecer boba (dizem as más línguas que havia uma rusga entre Shaw e Richard Dreyfuss nos bastidores, o que ajudou ainda mais na construção da dinâmica entre suas personagens). Ironicamente, é a personagem de Roy Scheider que menos tem a fazer dramaticamente nesse momento do filme, apesar de, em tese, ser o protagonista da trama de Peter Benchley, que sofreu algumas alterações substanciais em sua adaptação para as telas. No romance, por exemplo, a esposa de Brody tem um caso extra-conjugal com Hooper, o que causa um conflito entre os dois homens. No filme esse relacionamento inexiste, o que de certa forma fortalece a união forçada entre os três valentes (ou nem tão valentes assim) heróis brancaleones. Quando, depois de quase uma hora de projeção o verdadeiro protagonista do filme dá as caras para a plateia e o xerife (em uma cena genial por ser surpreendente e inesperada), só resta à audiência torcer abertamente para a derrota do monstro assassino. É maniqueísmo, sim, mas dos mais divertidos de que se tem história!

Ao final das contas, "Tubarão" até pode ser considerado o marco inicial de uma espécie de decadência do cinema de qualidade americano - pelo menos em termos de coragem e nível artístico. Mas jamais poderá ser considerado menos do que um genial e eficiente produto de entretenimento.