Wednesday, July 7, 2010

RUAS DE FOGO


RUAS DE FOGO (Streets of fire, 1984, Universal Pictures, 93min) Direção: Walter Hill. Roteiro: Larry Gross, Walter Hill. Fotografia: Andrew Laszlo. Montagem: Jim Coblentz, Freeman A. Davies, Michael Ripps. Música: Ry Cooder. Figurino: Marilyn Vance. Direção de arte/cenários: John Vallone/Richard C. Goddard. Casting: Judith Holstra, Marcia Ross. Produção executiva: Gene Levy. Produção: Lawrence Gordon, Joel Silver. Elenco: Michael Paré, Diane Lane, Willem Dafoe, Rick Moranis, Amy Madigan, Rick Rossovich, Bill Paxton, Mykelty Williamson, Ed Begley Jr. Estreia: 01/6/84

Algumas ideias dos estúdios hollywoodianos acabam se espatifando no caminho de tornarem-se mais do que ideias. Um desses insights que nunca passaram de projetos era o de uma trilogia de ação noir protagonizado por Michael Paré na pele do mercenário cool Tom Cody, o herói de "Ruas de fogo". O fracasso retumbante do filme inicial da trilogia, dirigido por Walter Hill, jogou a possibilidade em uma gaveta dos engravatados do estúdio, onde permanece até hoje, mesmo depois do filme ter-se tornado, com o tempo, uma espécie de cult-movie.

Passado em um lugar e uma época não identificados pelo roteiro, "Ruas de fogo" - título tirado de um verso de Bruce Springsteen - começa com o sequestro da estrela do rock Ellen Aim (uma jovem Diane Lane dublada vergonhosamente nas cenas musicais) por um grupo de motoqueiros vândalos e violentos, liderados por Raven Shaddock (Willem Dafoe). Para resgatá-la, seu empresário e atual namorado, Billy Fish (Rick Moranis) contrata o atraente e cínico Tom Cody (Michael Paré), sem saber que ele e a cantora tiveram um apaixonado caso romântico que acabou quando o rapaz foi pra guerra. Acompanhado da durona McCoy (Amy Madigan), Cody invade a vizinhança barra-pesada de Raven, dando início a uma guerra sem tréguas.

Batizado com o subtítulo de "Uma fábula do rock'n'roll", "Ruas de fogo" não agradou o público à época de seu lançamento, apesar de ter várias semelhanças temáticas e visuais com um sucesso anterior do diretor Walter Hill, "Warriors, os selvagens da noite". Deixando de lado o humor que foi o diferencial em sua maior bilheteria, "48 horas", estrelado pelo então ascendente Eddie Murphy, Hill ficou em um constrangedor meio do caminho. O roteiro de "Ruas" não se aprofunda em desenvolvimento de personagens, não tem senso de humor e nem ao menos apresenta cenas de ação antológicas. Por que então ainda permanece firme e forte no imaginário de uma boa parte da geração que assistia a filmes nos anos 80?

Basicamente, o charme maior de "Ruas de fogo" reside em sua vibrante trilha sonora, composta por Ry Cooder depois que três versões de James Horner foram descartadas pelo diretor. Não apenas pontuando a ação - em um roteiro fraquinho e sem grandes qualidades -, a música é parte integrante e fundamental na história de amor entre Cody e Ellen Aim. Canções como "Tonight is what means to be young" e "Nowhere fast" tornaram-se clássicas e são o maior destaque do filme, sobrevivendo na memória da audiência mais do que os diálogos clichê e as personagens mal delineadas do roteiro, co-escrito por Walter Hill e Larry Gross. Não é à toa que sempre que as músicas são o centro da atenção no filme, ele cresce e torna-se mais orgânico.

"Ruas de fogo" faz parte daquele rol de filmes que eram reprisados volta e meia nas tardes globais na segunda metade da década de 80 e como tal se mantém como uma espécie de relíquia quase sentimental, ainda que seja bastante fraco em termos artísticos. Tom Cody não vingou, assim como a carreira de Michael Paré. Mas ele sempre será lembrado por quem tem trinta e poucos anos..