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Monday, April 26, 2010

CLAMOR DO SEXO


CLAMOR DO SEXO (Splendor in the grass, 1961, Warner Bros, 124min) Direção: Elia Kazan. Roteiro: William Inge. Fotografia: Boris Kaufman. Montagem: Gene Milford. Música: David Amram. Produção: Elia Kazan. Elenco: Natalie Wood, Warren Beatty, Pat Hingle, Audrey Christie, Barbara Loden, Zohra Lampert, Sandy Dennis. Estreia: 10/10/61

2 indicações ao Oscar: Atriz (Natalie Wood) e Roteiro Original

Vencedor do Oscar de Roteiro Original


Em uma cena da minissérie global "Anos dourados", apresentada em 1986, a jovem normalista Lurdinha (Malu Mader)sofria de um ataque histérico quando confrontada por sua mãe (a saudosa Yara Amaral) a respeito do grau de intimidade que ela desfrutava com o namorado, estudante do Colégio Militar. Em seguida, mãe e filha conversavam (ou pelo menos a garota tentava conversar) sobre a diferença dos desejos sexuais entre homens e mulheres, recebendo em troca apenas respostas evasivas. A cena é uma das mais marcantes da minissérie, mas não é exatamente original: é uma adaptação quase literal de uma cena de "Clamor do sexo", filme de Elia Kazan que levou o Oscar de roteiro original em 1961, uma homenagem sincera e merecida a um dos mais belos filmes americanos da época a retratar as tristes consequências da repressão sexual.

"Clamor do sexo" começa em 1928 e se passa em uma pequena cidade agrícola do Kansas. Lá, o casal de adolescentes Deanie (Natalie Wood) e Bud (Warren Beatty, em sua estreia no cinema) vivem um relacionamento apaixonado. Ele é pressionado pelo pai, um bem-sucedido empresário do ramo do petróleo, a fazer faculdade em Yale, o que o afastaria pelo período mínimo de 4 anos da namorada, uma jovem sensível que obedece cegamente aos rígidos princípios morais e religiosos de sua família e da sociedade. O exemplo que ela tem de uma mulher que não segue os padrões impostos é a irmã de Bud, a liberada Ginny (Barbara Loden), abertamente discriminada pela sociedade. Quando o desejo sexual do casal começa a tornar-se impossível de reprimir, eles acabam de afastando. Bud aceita os conselhos paternos e sai da cidade, enquanto Deanie sofre um colapso psicológico. A queda da Bolsa de Valores de NY, em 1929, no entanto, volta a mudar a vida dos dois.

"Clamor do sexo" marcou a estreia de Warren Beatty nas telas - e o começo de sua fama de conquistador. Graças a ele, o primeiro casamento de Natalie Wood com o ator Robert Wagner acabou, mas quem há de julgar Natalie? Jovem, bonito e demonstrando um talento que ainda lhe iria render um Oscar de diretor - por "Reds" (1981) - Beatty apresenta uma química perfeita com Wood, que, apesar de seus 23 anos, convencia plenamente como adolescente (bem mais aqui do que em "Juventude transviada", que ela fez com 17 anos). O amor entre Deanie e Bud parece crível, verdadeiro e honesto, impressão que se mantém principalmente na melancólica cena final, quando eles se reencontram depois de um afastamento de dois anos. É uma cena bem dirigida, delicada e extremamente realista, onde os dois jovens atores comprovam que pouca idade não necessariamente significa pouco talento.

Mas "Clamor do sexo", apesar do título em português, não trata única e exclusivamente de sexo. Sim, o desejo sexual reprimido entre Bud e Deanie é o que move o roteiro de William Inge, mas o filme de Elia Kazan vai muito mais além do que simplesmente contar a história de um amor assombrado pelo puritanismo. Ele investiga, com igual competência, como se comportava a sociedade americana do interior do país antes do crash de 1929, economicamente, politicamente e nas relações interpessoais. Sem deixar que o filme se tornasse um chatíssimo documentário sobre uma época, Kazan mostrou à sua audiência um retrato não exatamente simpático de um país que escondia seu desejo dentro das mais íntimas cavernas emocionais e deixava vislumbrar apenas a imagem que melhor lhe convinha. A excepcional cena da passagem de ano de 1928 para 1929, quando Ginny, bêbada, desmascara quase todos os homens casados da cidade com quem havia dormido, é um claro exemplo do que Inge e Kazan pretendiam mostrar.

Hoje em dia "Clamor do sexo" pode soar ingênuo, e talvez realmente o seja. Mas é um comovente drama romântico que emociona e envolve o espectador sem forçar nenhum tipo de empatia. Simplesmente é difícil não se apaixonar por Deanie e Bud e não sofrer junto com eles.

Wednesday, March 31, 2010

RASTROS DE ÓDIO


RASTROS DE ÓDIO (The searchers, 1956, 119min) Direção: John Ford. Roteiro: Frank S. Nugent, baseado no romance de Alan LeMay. Fotografia: Winton C. Hoch. Montagem: Jack Murray. Música: Max Steiner. Produção executiva: Merian C. Cooper. Elenco: John Wayne, Jeffrey Hunter, Natalie Wood, Vera Miles, Henry Brandon. Estreia: 13/3/56

Gênero americano por excelência, o western tinha no cineasta John Ford seu representante máximo e no ator John Wayne sua imagem absoluta. Apesar de terem trabalhado juntos por diversas vezes, é "Rastros de ódio", lançado em 1956, que mantém-se como a obra máxima de sua colaboração. Acusado de racista à época de seu lançamento, é hoje considerado a obra-prima de Ford, o diretor mais vezes premiado com o Oscar da categoria (quatro vitórias, nem todas por faroestes, mas todas por filmes unanimemente incensados por crítica e público).

"Rastros de ódio" já começa antológico. A porta de um rancho se abre, a silhueta de uma mulher é recortada contra um belo pôr-do-sol e Ethan Edwards (John Wayne) entra em cena. Estamos no Texas em 1868 e apesar da Guerra de Secessão já ter acabado uns bons anos antes recém o soldado da Confederação está regressando para a família. A família, no caso, é seu irmão, Aaron (Walter Coy), a cunhada Martha (Dorothy Jordan, esposa do produtor Merian C. Cooper), as duas sobrinhas Debbie e Lucy e Martin Pawley (Jeffrey Hunter), um mestiço cherokee que ele mesmo salvou depois do massacre de sua tribo. Logo depois de seu retorno, no entanto, uma tragédia acontece: a casa de seu irmão é incendiada, suas sobrinhas sequestradas e o casal violentamente morto. Ele tem certeza de que foram índios comanches que perpetraram tamanha desgraça e resolve partir em busca de vingança. A princípio junto com um grupo de soldados e depois contando apenas com Pawley, ele passa anos em busca da única sobrevivente da chacina, sua sobrinha Debbie. Seu objetivo, no entanto, não é resgatá-la e sim, matá-la, por considerar que ela já assumiu a personalidade de uma índia.

Levando em consideração as intenções de Ethan e seus pensamentos bastante preconceituosos, se vistos com os olhos de hoje, as acusações de racismo até fazem certo sentido. Mas quem há de negar que o ranço politicamente correto que hoje contamina a produção cinematográfica vem emburrecendo e deixando de tocar em assuntos pertinentes por medo de ser crucificada pelo povo médio? Em 1868, ano em que a história do filme começa (logo após a Guerra de Secessão que opôs o norte abolicionista e o sul escravagista) não havia melindres de nenhum tipo - negros eram negros, índios eram índios e os conceitos de masculinidade eram bem definidos (taí a imagem intocada de Wayne como exemplo de uma virilidade talvez anacrônica hoje em dia, mas extremamente valorizada em um Oeste selvagem e violento).

É inegável o cuidado de Ford com o visual de sua obra. A fotografia espetacular de Winton C. Hoch (ajudada pela beleza natural do famoso Monument Valley e pelas paisagens de Alberta, no Canadá) é quase uma personagem a mais da trama, acompanhando a odisséia de Ethan e Pawley em sua busca desenfreada por justiça (ou vingança, qualquer adjetivo aqui é acertado). O uso exemplar de tomadas à distância e da música grandiloquente de Max Steiner colaboram em criar o clima de épico que "Rastros" esbanja em cada fotograma. E o roteiro, adaptado de um romance de Alan LeMay, ainda encontra espaço para aliviar a tensão da caçada, com uma subtrama que envolve um namoro à distância entre o jovem Pawley e a bela Laurie (Vera Miles). Apesar de engraçado no início, esse desvio do rumo principal é o responsável pela única quebra de ritmo do filme (a briga entre Pawley e seu rival toma diversos e preciosos minutos, em uma desnecessariamente longa sequência).

"Rastros de ódio" é a quintessência do western, a fórmula do gênero em seu máximo grau de qualidade e forma. É também um perfeito exemplo de entretenimento sério e, a despeito das suas hoje equivocadas maneiras de ver os índios e as mulheres, o maior legado da dupla Ford/Wayne ao cinema.

Tuesday, March 30, 2010

JUVENTUDE TRANSVIADA


JUVENTUDE TRANSVIADA (Rebel without a cause, 1955, Warner Bros., 111min) Direção: Nicholas Ray. Roteiro: Stewart Stern, baseado em uma ideia de Nicholas Ray adaptada por Irving Schulman. Fotografia: Ernest Haller. Montagem: William Ziegler. Música: Leonard Rosenman. Figurino: Moss Mabry. Produção: David Weisbert. Elenco: James Dean, Natalie Wood, Sal Mineo, Jim Backus, Ann Doran, Edward Platt, Corey Allen, Frank Mazzolla, Dennis Hopper, Marietta Canty. Estreia: 27/10/55

3 indicações ao Oscar: Ator coadjuvante (Sal Mineo), Atriz Coadjuvante (Natalie Wood), História Original

No início de 1955, James Dean ainda não era James Dean, pelo menos na concepção de sua imagem que temos hoje em dia. "Vidas amargas", seu primeiro filme, ainda não havia estreado e tudo o que se sabia dele é que era mais um adepto do "método" do Actors Studio (ainda que o tenha abandonado depois de poucas aulas), que era um obcecado por Marlon Brando e que havia enervado seu diretor Elia Kazan e seu co-astro Raymond Massey durante as filmagens de "Vidas". No final de outubro do mesmo ano, quando seu filme seguinte, "Juventude transviada" estreou, James Dean já era James Dean. Louvado como ator e idolatrado como símbolo de uma juventude rebelde, ele tinha mais um filme pronto para estrear (ao lado de Rock Hudson e Elizabeth Taylor) e já tinha deixado sua marca na história do cinema. Tinha 24 anos. E estava morto.

James Dean morreu em um acidente de carro em 30 de setembro de 1955 e não pode aproveitar todo o sucesso que fez. Talvez nem mesmo quisesse. Dono de uma personalidade que, segundo aqueles que o conheceram, poderia ir da doçura à agressividade em questão de segundos, ele era a antítese do astro de cinema (talvez inspirado por Brando, talvez por escolha própria). Um tanto excêntrico, um bocado desregrado e pouco disposto a seguir os caminhos que os estúdios insistiam em lhe mostrar, Dean era a voz que os jovens queriam ouvir naquela época pré-nuclear, onde o rock ainda engatinhava e os adolescentes não tinham um espelho onde mirar-se. Nada mais natural que ele fosse o protagonista do filme que mudaria para sempre a maneira com que Hollywood via seus jovens. Influente até hoje, 55 anos depois de seu lançamento, "Juventude transviada" fixou a imagem de James Dean como símbolo máximo da rebeldia juvenil e, mesmo visto nos cínicos dias atuais, ainda mantém intacta sua aura de transgressor. Agradeça a seu diretor Nicholas Ray.

Incensado na década de 60 pela revista francesa "Cahiers du Cinèma" como um cineasta autoral, Ray mostrou, durante a feitura de "Juventude" que mereceu carregar esse título. Lutando incansavelmente contra a Warner para manter seus pontos de vista e batalhando contra o calendário (e o amadorismo de seu elenco de jovens), o cineasta é o maior responsável pelo resultado final do filme, cujas origens remontam a uma luta pessoal consigo mesmo. Segundo o livro "Live fast, die young: the wild ride of making Rebel without a cause", de Lawrence Frascella e Al Weisel (que dissecam cada aspecto da realização do filme), a primordial intenção de Ray ao iniciar a produção era tentar um contato com a geração imediatamente posterior à sua (que incluia principalmente seu filho mais velho, com quem ele cortou relações ao flagrá-lo dormindo com sua mulher...). Ao assistir-se ao filme percebe-se claramente que ele o conseguiu.

"Juventude transviada" começa quando o jovem Jim Stark (vivido com naturalidade e garra por Dean) vai preso por bebedeira, logo que chega a Los Angeles, para onde mudou-se com os pais disfuncionais (Jim Backus e Ann Doran). Na delegacia, ele tem seu primeiro contato com a problemática Judy (Natalie Wood), que vive uma relação de conflito com o pai (vivido pelo filho da colunista de fofocas Hedda Hopper) e com o carente Plato (Sal Mineo), praticamente criado pela empregada doméstica (Marietta Canty). Os três estudam na mesma escola, Dawson High (cujo nome inspirou Kevin Williamson a batizar seu seriado "Dawson's Creek"), mas são tão distantes quanto semelhantes. Logo que chega à escola, Jim arruma briga com o valentão Buzz (Corey Allen), líder de uma gangue de jovens delinquentes e, em consequência disso, acaba aceitando o desafio de participar de uma "chickie run". Em outras palavras, ele topa participar de uma espécie de racha, onde perde quem saltar por último de um carro em movimento, rumo a um precipício. Um trágico acidente mata Buzz e, temendo que Jim os denuncie à polícia, o grupo de rebeldes passa a perseguir o novato, que se esconde, junto a Judy e Plato, em uma mansão abandonada. Perseguidos pela gangue e pela polícia, os três descobrem uma nova forma de família enquanto tentam escapar de um destino trágico.

Aparentemente, em uma análise superficial, "Juventude transviada" pode parecer apenas mais um filme feito para adolescentes (ainda que seja muito superior em temática e resultado final aos seus congêneres da época). Mas basta uma olhada mais atenta para que certos aspectos sejam percebidos e admirados. Não deixa de ser absolutamente inovador (e corajoso) unir Jim, Judy e Plato como um novo núcleo familiar (hoje em dia todos sabem que os adolescentes tem seus amigos como uma nova família). Também é surpreendente como, em plenos repressores anos 50, um filme tenha tido a coragem de colocar, como um de seus protagonistas, um adolescente cuja sexualidade é evidentemente dúbia, em uma atuação marcante de Sal Mineo, que carregou o peso do papel pelo resto de sua carreira encerrada violentamente em 1976. E até mesmo a relação entre Judy e seu pai tem ecos freudianos, mais uma prova da tentativa de Ray em empurrar ao máximo os limites impostos pela mesmice dos produtos dirigidos ao público jovem da época. Nem mesmo aquelas consideradas suas falhas (a pretensa superficialidade das personagens mais velhas, por exemplo) chegam a incomodar, uma vez que o show aqui é da juventude, em um elenco escolhido a dedo pelo diretor.

Analisar todos os aspectos de "Juventude transviada" é tarefa inglória, especialmente depois da leitura do livro de Frascella e Weisel. Cada cena do filme tem tantas nuances, tantas camadas e tantas leituras que fica difícil escolher uma vertente para comentá-las. O jeito é assisti-lo e admirar-se com seu CinemaScope grandioso, com sua coragem em lidar com alguns temas espinhosos, com a química impressionante entre Dean, Natalie Wood e Sal Mineo e com seu final melancólico e por isso mesmo inesquecível. E suspirar pela grande perda ocorrida no dia 30 de setembro de 1955, quando Dean saiu da vida pra entrar na história.

PS - Assim como aconteceu com "Casablanca" também tive a oportunidade de assistir a "Juventude transviada" no cinema, em tela grande... Experiência inesquecível! Me senti, eu juro, como se estivesse em 1955...