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Monday, March 22, 2010

SABRINA


SABRINA (Sabrina, 1954, Paramount Pictures, 113min) Direção e produção: Billy Wilder. Roteiro: Billy Wilder, Samuel Taylor e Ernest Lehman, baseado na peça teatral "Sabrina fair", de Samuel Taylor. Fotografia: Charles Lang Jr. Montagem: Arthur Schmidt. Música: Friedericj Hollander. Figurino: Edith Head. Elenco: Humphrey Bogart, Audrey Hepburn, William Holden, John Williams, Walter Hampden. Estreia: Outubro de 1954

6 indicações ao Oscar: Diretor (Billy Wilder), Atriz (Audrey Hepburn), Roteiro Adaptado, Fotografia em preto-e-branco, Figurino e Direção de arte.

Vencedor do Oscar de Figurino


Vencedor do Golden Globe de Melhor Roteiro

Em 1973 o autor Lauro César Muniz lançou, no horário das 19h da Rede Globo, a novela "Carinhoso", estrelada pela dupla mais popular de então - Regina Duarte e Cláudio Marzo. Apesar do sucesso momentâneo, a novela não ficou na memória dos espectadores (chegou a ser encurtada devido à gravidez de Regina, que deu à luz em 1974 a hoje atriz Gabriela). O que pouca gente deve ter notado na época - e tampouco importa hoje, quando a novela nem mais é lembrada - é que sua trama principal era descaradamente inspirada em "Sabrina", filme de Billy Wilder por sua vez inspirado em uma peça de teatro de Samuel Taylor. Lançado em 1954, o filme foi o trabalho de Audrey Hepburn seguinte a seu Oscar por "A princesa e o plebeu" e comprova seu carisma, talento e classe. Unida a um texto ácido de Wilder (que, ao lado de Ernest Lehman e do próprio autor da peça nunca deixa que seu romantismo caia na vala do piegas ou do lugar-comum), Hepburn mais uma vez brilha em um papel feito sob medida - mas que quase foi parar nas mãos de Lauren Bacall, que era a primeira escolha do ator principal do filme, Humphrey Bogart (não por acaso, seu marido).

Na verdade, o próprio Bogart não foi o primeiro ator escolhido para viver o sério, sisudo e impenetrável Linus Larrabee, um homem que vive do trabalho burocrático nas milionárias empresas da família. Cary Grant foi o primeiro nome a ser cotado para o papel, mas acabou saindo do filme, sendo substituído por um Bogart que não suportava nem Hepburn (a quem considerava má atriz) nem seu colega de cena William Holden (que se apaixonou por Hepburn durante as filmagens, em um romance que terminou quando ela descobriu que ele não queria ter mais filhos).

A Sabrina do título é uma jovem doce, romântica e sonhadora apaixonada por David Larrabee (Holden), um playboy irresponsável, três vezes divorciado e mulherengo. O grande problema dessa paixão é que ele não faz a menor ideia da existência da moça, filha de seu motorista (vivido com delicadeza pelo ótimo John Williams). No início do filme, desiludida de amor, Sabrina pensa em suicídio, mas é impedida por Linus, o irmão mais velho de David, que, conforme dito acima, é sério, sisudo e impenetrável, vivendo em função de números e contratos. Sem esperanças de conquistar o amor de David, Sabrina viaja a Paris para fazer um curso de gastronomia. Dois anos depois, ela retorna ao quarto de empregada onde morava com o pai, mas, belíssima, elegante e cosmopolita, não passa mais incólume ao sedutor David, que se apaixona por ela, arriscando uma negociata de milhares de dólares vinculada a seu iminente casamento com uma socialite. Para impedir que o casal fique junto e estrague os planos milionários da empresa, Linus se aproveita de um pequeno acidente de David para separá-los. O que ele não contava, no entanto, era se apaixonar também por Sabrina.

É impossível negar que o maior mérito de "Sabrina" é o talento enorme de Billy Wilder em transformar até mesmo uma história de amor sem maiores novidades em um filme inesquecível. Apesar da trama do filme não ser das mais geniais ou surpreendentes, seu roteiro esperto e divertido conquista pela sutileza, pelo humor suave e pelo romantismo na medida certa. O timing cômico de Wilder é evidente em pequenos detalhes - em especial nas cenas com o hilário Walter Hampden, como o patriarca Larrabee - mas o cineasta, espertamente, nunca deixa que o romantismo da trama principal deixe de ser o centro do interesse do espectador. Seu uso exemplar do humor serve apenas como um alívio cômico para uma trama quase banal, ainda que contada com tanto zelo e cuidado que chega a arrebatar em seus momentos mais sentimentais.

Uma das críticas mais frequentes a "Sabrina" é o fato de Humphrey Bogart ser muito mais velho do que Hepburn, e realmente a química entre os dois não é das mais fascinantes. No entanto, é fácil acreditar no amor que nasce entre os dois, em parte devido ao talento dos dois atores, em parte devido ao clima proporcionado pela bela fotografia de Charles Lang Jr. (indicada ao Oscar). A trilha sonora (que inclui a própria atriz entoando uma versão de "La vie en rose") colabora com o ritmo suave que envolve o espectador sem exigir dele mais do que o desejo de ser entretido com categoria e inteligência.

Mas, sem sombra de dúvida, além do roteiro eficaz, do clima contagiante e do elenco de astros, o que sobressai de "Sabrina" é Audrey Hepburn. Pelo seu talento e pela sua postura elegante (apesar do Oscar de figurino ter ficado nas mãos de Edith Head as roupas usadas pela atriz são do estilista Givenchy - que confundiu-a primeiramente com Katharine Hepburn e depois tornou-se grande amigo e colaborador), Audrey é o rosto e a alma do filme. Tanto sua estampa tornou-se a imagem máxima do filme que, quando Sydney Pollack fez um desnecessário remake do filme, em 1995, colocou a sem-sal Julia Ormond no papel-título e amargou um merecido fracasso. "Sabrina" É Audrey Hepburn.

Tuesday, February 23, 2010

CREPÚSCULO DOS DEUSES


CREPÚSCULO DOS DEUSES (Sunset boulevard, 1950, Paramount Pictures, 110min) Direção: Billy Wilder. Roteiro: Charles Brackett, Billy Wilder, D. M. Marshman Jr. Fotografia: John F. Seitz. Montagem: Arthur P. Schmidt, Doane Harrison. Música: Franz Waxman. Figurino: Edith Head. Produção: Charles Brackett. Elenco: Gloria Swanson, William Holden, Erich Von Stroheim, Nancy Olson, Jack Webb. Estreia: 04/8/50

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Billy Wilder), Ator (William Holden), Atriz (Gloria Swanson), Ator Coadjuvante (Erich Von Stronheim), Atriz Coadjuvante (Nancy Olson), História e Roteiro Originais, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de Arte

Vencedor de 3 Oscar: História e Roteiro Originais, Trilha Sonora Original, Direção de Arte


Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme, Diretor (Billy Wilder), Atriz (Gloria Swanson), Trilha Sonora Original

Poucas vezes na história do cinema um título nacional conseguiu atingir tão precisamente a essência de um filme quanto "Crepúsculo dos deuses", a versão brasileira de "Sunset Blvd", uma das várias obras-primas legadas ao mundo pelo cineasta Billy Wilder. Poético, trágico e imponente, o título já dá uma ideia do alcance da obra, que utiliza a trágica história de uma atriz veterana em busca de uma nova chance como metáfora assustadora da inevitabilidade da decadência e da efemeridade da juventude, da beleza e, por que não?, da sanidade mental.

A protagonista de "Crepúsculo dos deuses" é Norma Desmond, uma diva do cinema mudo que não resistiu à transição para os filmes falados. Vivendo isolada em um mundo particular, dentro de uma mansão decadente na Sunset Boulevard (o tal título original) e refugiando-se nas glórias de seu passado, ela sonha em voltar às telas em uma adaptação de "Salomé", de Oscar Wilde, com ela no papel-título (o fato de ter muito mais idade que a personagem não lhe preocupa nem um pouco). Servida fielmente pelo mordomo Max Von Mayerling (Erich Von Stronheim), Desmond vive do passado enquanto sonha por um futuro pouco provável (ao menos para olhos mais racionais). Sua vida sofre uma reviravolta quando ela conhece o aspirante a roteirista Joe Gillis (William Holden), que, foragido dos credores, se esconde na garagem de sua mansão. Apaixonada por ele, a atriz o contrata para ajudá-la a escrever seu retorno ao cinema, que, acredita ela, é um evento esperado ansiosamente por seus fãs. No entanto, o rapaz, que submete-se a sua dominação por estar sem dinheiro e sem possibilidades de trabalho, apaixona-se pela doce namorada de um amigo (Nancy Olson) e, rejeitada, Norma Desmond embarca em um caminho sem volta de rancor e desilusão.

Quando um filme fala sobre cinema corre o sério risco de cair nas armadilhas de auto-referência, narcisismo e pior ainda, metalinguagem (o que, quando usado sem parcimônia pode transformar um filme em uma tortura). Não é qualquer cineasta que tem auto-crítica em quantidade suficiente para realizar um filme sobre os bastidores de sua profissão sem fazer dele um exercício de auto-adoração. Felizmente Billy Wilder não é "qualquer cineasta". Dono de uma visão toda particular da vida e principalmente da sétima arte, ele oferece ao espectador um ângulo poucas vezes visto do mundo do cinema, onde o talento muitas vezes é relevado a melancólicos segundos planos diante da beleza e do "novo". O roteiro - escrito por Wilder com seu habitual colaborador Charles Brackett - é repleto de um cinismo delicioso, mas seco, cruel e a um passo do pessimismo. As cenas entre Desmond e seu mordomo - que já foi seu marido e diretor de alguns filmes seus - são de partir o coração, tamanha a compaixão que a protagonista desperta na audiência. Sim, ela é louca. Sim, ela é arrogante e sim, ela é egocêntrica. Mas a atuação de Gloria Swanson é tão, mas tão perfeita, que fica difícil não ficar fascinado com seus gestos, seus olhares - em determinado momento ela diz, com certa razão: "Não preciso de falas, tenho meus olhos..." - sua grandeza intrínseca. Norma Desmond é, sem dúvida, uma das grandes personagens da história do cinema e Swanson apropriou-se dela de tal maneira que é difícil imaginar outra atriz em seu lugar - e isso que Mae West, Mary Pickford e Pola Negri foram convidadas antes dela, recusando o papel para sorte nossa. Como ela e Bette Davis (por "A malvada") foram preteridas na premiação do Oscar de melhor atriz em nome de Judy Holiday (por "Nascida ontem") ainda é um mistério inexplicável.
Em cena, Swanson é poderosa, frágil, romântica, enlouquecida, uma estrela ou apenas uma sombra da glória de sua personagem. Ao lado de William Holden (que ficou com o papel recusado por Montgomery Clift, por pouco não oferecido a Marlon Brando e que não pôde ficar com Gene Kelly por questões contratuais), ela é uma mulher apaixonada. Diante de seu mordomo, uma diva atemporal. Para os espectadores, uma mulher perdida entre o passado de sucesso e o presente sufocante.

Além da magnífica ambientação soturna do filme (que pode sem medo ser encaixado na categoria de filme noir, ainda que não corresponda a todas as suas regras), do roteiro extraordinário, da direção precisa e do elenco irretocável (Erich Von Strohneim também foi cineasta, assim como seu personagem), "Crepúsculo dos deuses" ainda encontra espaço para homenagear astros que, assim como Norma Desmond, viram seus melhores anos esquecidos pelo advento do som, como Buster Keaton, que faz seu próprio papel em uma breve cena de jogo de cartas. E o cineasta Cecil B. de Mille também dá o ar da graça, interpretando ele mesmo, em uma cena que demonstra como poucas a divisão claramente estabelecida entre a velha e a nova (da época) Hollywood.

"Crepúsculo dos deuses" é um dos melhores filmes da história, digo sem medo de errar. Tudo funciona, tudo está no lugar certo, tudo faz sentido. E quando acaba, mesmo sem querer ser saudosista não há como negar que Norma Desmond está certá quando diz que "os filmes é que ficaram pequenos".

PS - Havia um boato de que o musical da Broadway inspirado em "Sunset Blvd" seria adaptado para o cinema com Glenn Close como Norma Desmond e Ewan McGregor como Joe Gillis. Tem lugar na primeira fila???