Tuesday, February 23, 2010

PAVOR NOS BASTIDORES


PAVOR NOS BASTIDORES (Stage fright, 1950, Warner Bros, 110min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Whitfield Cook, baseado no romance de Selwyn Jepson. Fotografia: Wilkie Cooper. Montagem: E. B. Jarvis. Música: Leighton Lucas. Elenco: Jane Wyman, Richard Todd, Marlene Dietrich, Michael Wilding, Alistair Sim, Patricia Hitchcock. Estreia: 15/4/50

No definitivo livro de entrevistas "Hitchcock Truffaut" (obra-prima indispensável lançada pela Cia das Letras), o mestre do suspense declara que o filme "Pavor nos bastidores", lançado em 1950, não estava entre seus preferidos, e listava uma série de defeitos que via no resultado final - e nesse rol constava a ausência de um vilão memorável, a falta de entrega da estrela Jane Wyman à sua personagem e a utilização de um artifício que ele desprezava: um flashback mentiroso.

Assistindo-se ao filme - que nem é dos mais conhecidos do cineasta inglês - é impossível negar que ele sabia o que estava falando. Todas as suas críticas em relação à obra procedem. Richard Todd é um vilão absolutamente fraco, Jane Wyman não entusiasma (e isso que vinha de um Oscar de melhor atriz, por "Belinda") e se o flashback mentiroso não chega a incomodar tanto, pelo menos poderia ter sido um pouco menos intrincado. Mas o que Hitch não disse e que fica patente em determinados momentos é a força indescritível de uma coadjuvante que faz toda a diferença. É de ficar de queixo caído sempre que a inesquecível Marlene Dietrich entra em cena. Seu carisma, sua beleza gélida, sua voz grave e suas belas pernas são de fazer com que qualquer pecado do filme atinja o tamanho de um mísero grão de areia.



A história de "Pavor nos bastidores" segue uma linha Agatha Christie de narração. A estudante de teatro Eve Gill (Jane Wyman) é apaixonada pelo misterioso Jonathan Cooper (Richard Todd), que tem um relacionamento clandestino com a famosa atriz Charlotte Inwood (Marlene Dietrich). Quando Jonathan a procura, pedindo ajuda para fugir da polícia, uma vez que ele é o principal suspeito da morte do marido de Charlotte, Eve resolve provar a todos sua inocência. Suspeitando da própria viúva, ela assume a falsa identidade da camareira substituta da atriz para assim desmascará-la. O único problema de seu plano surge quando ela se apaixona pelo detetive do caso, o sensível Wilfred Smith (Michael Wilding).

Hitchcock diz ainda, na entrevista a François Truffaut, que dois motivos o levaram a dirigir "Pavor nos bastidores": a influência de vários críticos literários que haviam lido o romance que deu origem ao roteiro e insistiam que era um material que serviria perfeitamente a seu estilo e a vontade de dirigir um filme que se passasse nos bastidores do teatro. O primeiro motivo ele mesmo reconheceu ter sido um equívoco. O segundo também não é exatamente forte - mesmo porque, no mesmo ano, "A malvada", de Joseph L. Manckiewicz falaria do assunto com muito mais propriedade. Mas "Stage fright", ainda que não seja uma obra-prima como vários dos trabalhos do pai de "Psicose" e "Os pássaros" tem momentos de quase genialidade - um exemplo claro é a armadilha em que a personagem de Marlene cai, já no terço final de projeção.

É inegável que a primeira parte de "Pavor nos bastidores" é bastante superior à sua segunda metade: a definição da trama é interessante e o suspense genuíno, em contrapartida ao final anêmico e anticlimático. Dietrich - mesmo não sendo propriamente uma grande atriz dramática - segura muito bem a audiência, mas o mesmo não pode ser dito de uma indiferente Wyman, um nada simpático Richard Todd e um apático Michael Wilding (que, casado com Elizabeth Taylor à época, logo morreria em um trágico acidente de avião). Ainda assim, assistir a um Alfred Hitchcock "menor" ainda é uma experiência a ser degustada com grande prazer.