
O QUE TERÁ ACONTECIDO A BABY JANE? (What ever happened to Baby Jane?, 1962, United Artists, 134min). Direção: Robert Aldrich. Roteiro: Lukas Heller, baseado no romance de Henry Farrell. Fotografia: Ernest Haller. Montagem: Michael Luciano. Música: DeVol. Casting: Jack Murton. Produção executiva: Kenneth Hyman. Produção: Robert Aldrich. Elenco: Bette Davis, Joan Crawford, Victor Buono. Estreia: 31/10/62
5 indicações ao Oscar: Atriz (Bette Davis), Ator Coadjuvante (Victor Buono), Fotografia P&B, Figurino P&B, Som
Vencedor do Oscar de Melhor Som
Dizem que, durante uma entrevista, a nada diplomática Bette Davis teria declarado que o melhor momento que passara com a atriz Joan Crawford fora quando a empurrara escada abaixo em uma cena de "O que terá acontecido a Baby Jane?", de 1962. Por mais saborosa que seja a possibilidade da grandiosa Davis ter dito isso, é preciso encarar a verdade de frente: ela nunca empurrou Crawford escada abaixo em "Baby Jane". E, levando-se em conta tudo que ela aprontou com a colega de cena no filme de Robert Aldrich, pode-se dizer que empurrá-la escada abaixo foi a ÚNICA coisa que ela não fez.
Assim como "Crepúsculo dos deuses", "O que terá acontecido a Baby Jane?" é uma espécie de réquiem às grandes estrelas do show business, um retrato cruel e assustador dos efeitos que a rejeição e a passagem do tempo podem causar em pessoas que tem na juventude sua qualidade principal. No entanto, enquanto a obra-prima de Billy Wilder utilizava elementos trágicos para ilustrar o caminho da outrora estrela Norma Desmond em direção à loucura, o diretor de "Baby Jane", Robert Aldrich, flerta com o humor negro e o suspense, proporcionando a Bette Davis e Joan Crawford os últimos papéis realmente marcantes de suas gloriosas carreiras.
"O que terá acontecido a Baby Jane?" começa em 1917, quando Baby Jane encanta milhares de fãs como criança-prodígio. Idolatrada e mimada, ela utiliza sua proeminência para ter frequentes ataques de estrelismo. A ação pula alguns anos, e, em 1935, a estrela é a irmã de Jane, Blanche, uma bem-sucedida atriz de cinema que, comprovando seu bom caráter, ajuda a carreira decadente da irmã, famosa por seu alcoolismo e seus escândalos. Um mal-explicado acidente de carro acontece e, 28 anos depois, o sucesso é passado para as duas. Paralítica desde o acidente, Blanche é cuidada por Jane, que, entregue ao desleixo e à bebida, a trata com crueldade e desprezo. Ao saber que Blanche deseja vender a casa onde moram, Jane resolve fazer um retorno aos palcos, utilizando seu mesmo número musical da infância. Para isso, ela contrata o músico fracassado Edwin Flagg (Victor Buono), ao mesmo tempo em que começa a ficar cada vez mais violenta contra a irmã.

"O que terá acontecido a Baby Jane?" é uma delícia de exageros. Poucas vezes o cinema proporcionou a seu público a chance de assistir a um embate tão venenoso e divertido quanto o apresentado por Davis e Crawford, que realmente se odiavam nos bastidores. Davis, por exemplo, exigiu em seu contrato a manutenção de uma máquina de Coca-cola: não que fosse exatamente fã da bebida, mas como forma de provocar sua co-estrela, que fazia parte da diretoria da Pepsi. Crawford, por sua vez, encheu os bolsos de pedras para uma cena em que seria arrastada por Bette. E se é fascinante observar os dois monstros sagrados digladiando-se em cena, por trás das câmeras a coisa ainda era pior. Quando Davis foi indicada ao Oscar por seu desempenho (formidável, aliás), Crawford (a mesma que espancava a filha adotiva com cabides, segundo a biografia "Mamãezinha querida", escrita pela menina) fez uma campanha aberta contra ela, a ponto de receber a estatueta no lugar de Anne Bancroft, a vencedora - que estava fazendo teatro e não pode estar na cerimônia. Testemunhas juram que, ao ouvir o nome de Bancroft, Joan tocou no ombro de Bette e disse: "Com licença, eu tenho um Oscar para receber!"
Deixando de lado os bastidores do filme de Aldrich - ainda que eles sejam tão interessantes quanto o próprio - e concentrando-se em suas qualidades, "Baby Jane" é um filme absolutamente calcado em suas estrelas, ambas em franca decadência quando o filme foi lançado (não porque mereciam mas sim pelo tradicional descaso de Hollywood para com suas divas). A trama, baseada em um romance de Henry Farrell, não apresenta maiores novidades e nem tampouco sugere uma revolução no gênero. Mas é inegável que algumas sequências são soberbas do ponto de vista de direção: todas as vezes em que Blanche tenta sair de seu cativeiro, por exemplo, são minutos do mais perfeito suspense que o cinema é capaz de criar. Mas é Bette Davis, sem sombra de dúvida, a dona da festa.
Em um magistral trabalho de composição (figurino, cabelo e maquiagem casam com perfeição com a criação da voz e da expressão corporal da atriz), Davis, em cena, é um pastiche de si mesma e de dezenas de figuras ilustres do show business que não conseguiram superar a mágoa e o trauma de ser abandonadas. É trágico, é cômico e é extremamente triste assistir à fantasia de Baby Jane em voltar ao estrelato, assim como perceber como ela parou no tempo e não notou que as outras pessoas continuaram suas vidas (exatamente como Norma Desmond em "Crepúsculo dos deuses"). A sequência final, então, é de cortar o coração. Apesar de suas maldades, Baby Jane não desperta raiva no público. No máximo, pena. E sentir pena de Bette Davis é uma honra inenarrável!