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Thursday, April 15, 2010

GATA EM TETO DE ZINCO QUENTE


GATA EM TETO DE ZINCO QUENTE (Cat on a hot tin roof, 1958, MGM, 108min) Direção: Richard Brooks. Roteiro: Richard Brooks, James Poe, baseado na peça teatral homônima de Tennessee Williams. Fotografia: William Daniels. Montagem: Ferris Webster. Produção: Lawrence Weingarten. Elenco: Elizabeth Taylor, Paul Newman, Burl Ives, Jack Carson, Judith Anderson, Madeleine Sherwood. Estreia: 18/9/58

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Richard Brooks), Ator (Paul Newman), Atriz (Elizabeth Taylor), Roteiro Adaptado, Fotografia em cores

Se existe uma característica marcante nos filmes adaptados das peças teatrais de Tenessee Williams ela talvez nem seja inteligência e densidade de seus diálogos, ainda que eles realmente sejam muito especiais. A julgar por "Uma rua chamada pecado", dirigido por Elia Kazan e por este "Gata em teto de zinco quente", comandado por Richard Brooks, o que se sobressai inequivocadamente em seus textos é o alto grau de um elemento que, em sua época - os rígidos anos 50 - era o pesadelo dos censores e do malfadado Código Hayes de Produção: uma sexualidade forte, impactante e que, mesmo reprimida com muito esforço, escapava corajosamente por entre os olhares dos grandes atores que interpretavam suas personagens.

Em "Gata em teto de zinco quente", o sexo é um elemento onipresente, ainda que jamais mostrado de outra forma que não através dos olhares lascivos de Maggie (Elizabeth Taylor), desesperada para retomar a vida sexual ao lado do marido, Brick (Paul Newman), o filho caçula - e preferido - do próspero fazendeiro Big Daddy (Burl Ives), cujo aniversário de 65 anos está sendo comemorado em grande estilo ao lado de toda a família. Maggie tem a seu lado o apoio do sogro, que a tem como filha - ainda que confesse ao filho vê-la também como uma mulher desejável - e espera um neto do casal. Acontece que um bebê é uma impossibilidade, já que, desde a trágica noite do suicídio do melhor amigo de Brick - uma morte intimamente relacionada a suas relações sexualmente próximas - as relações carnais entre o casal foram extintas radicalmente. Entregue à bebida e à auto-comiseração, Brick, que sonhava tornar-se um jogador de futebol, foge do contato físico com a mulher e passa incólume às maquinações de seu irmão mais velho Gooper (Jack Carson), que, contando com a ajuda da esposa Mae (Madeleine Sherwood), sonha ter o controle da herança do pai, que, mesmo sem saber, está com câncer terminal.

Montada na Broadway em 1955 com a direção de Elia Kazan e com Ben Gazarra e Barbara Bel Geddes nos papéis principais, "Gata em teto de zinco quente" transformou-se bastante em sua transição para as telas de cinema, a ponto de seu próprio autor renegar sua adaptação. A mudança radical certamente é a suavização do relacionamento entre Brick e seu melhor amigo: no texto teatral era quase explícito que eles eram, mais do que simples amigos, um casal de amantes que sofria com a aproximação de Maggie. A alteração feita no roteiro do filme enfraquece o conflito, certamente, o que levou até mesmo Paul Newman a ficar aborrecido (ele havia aceito o papel confiando na fidelidade que julgava que a adaptação teria em relação a seu texto original). No entanto, mesmo que o principal drama tenha empalidecido devido a pressões do estúdio e dos moralistas de plantão, não há como negar que o filme de Richard Brooks se sustenta muitíssimo bem com os elementos que apresenta.

Apesar de ser lembrado principalmente pela química impecável entre Paul Newman e Elizabeth Taylor como seu casal central, "Gata em teto..." conta com um elenco coadjuvante notável. Burl Ives (apenas 16 anos mais velho que Newman e um mero ano que Jack Carson, que vive seu filho mais velho) dá um show como o seco mas sentimental Big Daddy, um homem aparentemente centrado em seus negócios mas que, ao sentir a proximidade da morte passa a dar valor ao que realmente conta em sua vida (Ives levaria o Oscar de coadjuvante no mesmo ano deste filme, mas por outro trabalho, em "Da terra nascem os homens"). Judith Anderson (a eterna governanta sisuda de "Rebecca, a mulher inesquecível") brilha sempre que lhe é possível na pele da matriarca da família, uma mulher dedicada à família e leal a seu marido até mesmo nos momentos mais difíceis. E Jack Carson e Madeleine Sherwood roubam as cenas em que aparecem como o ambicioso casal Gooper e Mae, com um excelente timing de comédia.

Aliás, é admirável a forma como o roteiro, escrito pelo diretor e por James Poe, consegue equilibrar suas tramas. A briga pela herança de Big Daddy e o relacionamento em crise de Brick e Maggie se revezam de forma harmoniosa durante os 108 minutos de duração do filme, sem que uma história prejudique a outra ou tire seu brilho. O senso de humor de algumas cenas - em especial graças ao trabalho de Sherwood e Ives, ambos egressos da montagem teatral do texto - conquista pela sutileza e pelo absurdo, fazendo um engraçado contraste com o clima pesado que permeia a maior parte do filme. Brooks e Poe são, inclusive, responsáveis por alguns momentos cruciais da versão cinematográfica: a cena inicial, que mostra o acidente que faz com que Brick quebre o tornozelo e o longo diálogo entre o rapaz e seu pai no porão da velha fazenda - onde eles falam sobre amor, dinheiro e felicidade - são momentos de mais puro cinema de qualidade, onde sentimentos afloram sem censura e sem maniqueísmos.

E qualidade é o que não falta, nem aos diálogos nem aos atores de "Gata em teto de zinco quente". Como Maggie, Elizabeth Taylor está nos seus momentos de maior intensidade sexual - e pensar que ela começou a filmar no dia em que seu marido Michael Todd morreu em um acidente aéreo apenas valoriza seu trabalho. Como Brick, Paul Newman mostra porque sempre foi extremamente respeitado como ator mesmo sento tão bonito - seus olhos azuis fazem um par deslumbrante com os olhos violetas de Taylor e justificam a opção dos produtores em realizar o filme a cores e não no preto-e-branco a que estava destinado. Juntos, Newman e Taylor transmitem uma tensão erótica quase palpável, que transcende o texto: em cena eles são definitivamente um casal em crise e não apenas dois excelentes atores em franca ascensão. Não à toa, ambos foram indicados ao Oscar, e é impossível imaginar uma Maggie tão frágil, intensa e sensual quanto a criada por Liz Taylor, mesmo sabendo que Lana Turner e Grace Kelly foram pensadas para o papel.

"Gata em teto de zinco quente" não tem a força dramática trágica de "Uma rua chamada pecado" e tampouco Richard Brooks é tão talentoso quanto Elia Kazan. Mas é um entretenimento adulto como poucas vezes se vê nas telas. Imaginem se tivesse seguido à risca o forte texto de Tenessee Williams...

Sunday, April 4, 2010

ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE


ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE (Giant, 1956, Warner Bros., 201min) Direção: George Stevens. Roteiro: Fred Guiol, Ivan Moffat, baseado no romance de Edna Ferber. Fotografia: William C. Mellor. Montagem: William Hornbeck. Música: Dimitri Tiomkin. Produção: Henry Ginsberg, George Stevens. Elenco: Elizabeth Taylor, Rock Hudson, James Dean, Mercedes McCambridge, Dennis Hopper, Carroll Baker, Sal Mineo. Estreia: 24/11/56

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (George Stevens), Ator (James Dean e Rock Hudson), Atriz Coadjuvante (Mercedes McCambridge), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte

Vencedor do Oscar de Melhor Diretor (George Stevens)


Mais que um Estado americano, o Texas é um estado de espírito. Pelo menos é isso que depreende-se de "Assim caminha a humanidade", terceiro e derradeiro capítulo do que foi convencionado pela crítica chamar de "trilogia" e que dava seguimento a "Um lugar ao sol" e "Os brutos também amam". São necessárias muitas elocubrações intelectualóides e psicossociais para tentar entender a razão de alocá-los em um mesmo conjunto ideológico, mas não é preciso pensar muito para ter uma certeza absoluta: cada um, dentro de seu gênero e de suas ambições, é uma obra-prima indiscutível.

Seguindo um rumo oposto à quase instrospecção visual e psicológica de "Um lugar ao sol", "Assim caminha a humanidade" - baseado em um livro de Edna Ferber - é um épico grandioso, imponente e ambicioso, narrando a vida de uma família texana através de 25 anos, confrontando-a com problemas racias, a guerra e a mudança de mãos de poder e de dinheiro - graças, no caso, à exploração de petróleo. Contando com a vasta paisagem do Texas como uma personagem a mais em sua narrativa, Stevens criou uma saga fascinante, que, a despeito de sua longa duração (mais de três horas) em nenhum momento se torna cansativa, desnecessária e/ou anacrônica. Ao contrário de muitos dos filmes feitos em sua época, "Assim caminha..." ainda mantém intactas suas principais qualidades: o roteiro forte, a contundente crítica social e principalmente o notável elenco, em atuações impecáveis.

Último filme que James Dean fez antes de espatifar seu Porsche em uma estrada da Califórnia, "Assim caminha a humanidade" deu ao ator sua segunda indicação póstuma ao Oscar, que ele disputou com seu colega de elenco, Rock Hudson, então entrando no auge de sua carreira (no mesmo ano ele estaria em "Palavras ao vento" e começaria em breve uma bem-sucedida parceria com Doris Day em uma série de comédias românticas). E se Elizabeth Taylor já estava na estrada há tempos, uma vez que começou sua carreira ainda criança, aqui ela atinge a maturidade necessária para firmar-se como atriz adulta (e levaria seu primeiro Oscar em 4 anos, por "Disque Butterfield 8"). Juntos, eles dão a exata noção de porque ainda são considerados mitos absolutos da sétima arte. Lutando pelo amor da estonteante Liz Taylor através de mais de duas décadas, o gigantesco Hudson e o diminuto Dean se imortalizaram na retina e no coração de legião de fãs. É impossível desviar o olhar da tela quando qualquer um deles está em cena. E levando-se em consideração que os três são os protagonistas absolutos do longa-metragem, são 200 minutos de puro deleite, com o que de melhor Hollywood poderia oferecer em 1956, em termos de espetáculo e conteúdo.

A afirmação inicial deste texto, de que o Texas é um estado de espírito, é a primeira conclusão de Leslie Lynton (Taylor), uma quase dondoca sofisticada e de temperamento forte quando chega à casa do marido, o rústico Jordan Benedict II (Hudson). Dono de uma fazenda gigantesca, Reata, que dirige ao lado da irmã solteirona, Luz (Mercedes McCambridge, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante), Benedict tem ideias muito próprias a respeito de como tratar as mulheres, os amigos e principalmente os empregados, quase todos mexicanos e tratados com quase desprezo. Indignada com o que presencia, Leslie aos poucos passa a tentar mudar o pensamento do marido, buscando tratar os criados com delicadeza, respeito e dando-lhes o mínimo de assistência médica. Seus atos incomodam seu marido, mas a aproximam de Jett Rink (Dean), que trabalha na fazenda graças à proteção de Luz, que o tem como um filho. Quando Luz morre depois de um acidente e deixa um pedaço de terra a Jett a relação entre ele e Jordan (chamado carinhosamente de Bick pela esposa) fica ainda mais difícil, chegando a ficar insustentável depois que Jett descobre petróleo em sua propriedade. Muitos anos depois, novos problemas ameaçam a estabilidade da família Benedict. Enquanto Jett fica a cada dia mais rico, Bick é obrigado a lidar com os fatos de que seu único filho homem (Dennis Hopper) pretende cursar medicina e cuidar das famílias carentes da região - além de casar-se com uma mexicana - e que sua caçula, Luz II (Carroll Baker) está interessada romanticamente no seu maior inimigo.

É difícil acreditar que "Assim caminha a humanidade" tenha perdido o Oscar de Melhor Filme para "Volta ao mundo em 80 dias". Aliás, é difícil acreditar que, de suas dez indicações, apenas George Stevens tenha levado um prêmio pra casa. Ainda que absolutamente merecida, sua estatueta não reflete com exatidão a qualidade insuperável do filme (não que ganhar Oscar seja garantia de alguma coisa, com bem o sabem os fãs de bom cinema). Fotografada com precisão por William C. Mellor (que dá à vastidão quase desértica do Texas a importância de um quarto protagonista), a saga da família Benedict é pontuada ainda com uma belíssima trilha sonora de Dimitri Tiomkin e com uma edição enxuta (ainda que seja bastante extenso, o filme não desperdiça nenhuma cena, utilizando cada enquadramento para fortalecer suas ideias). Até mesmo seu posicionamento a favor da tolerância racial soa moderno nos politicamente corretos dias de hoje, sem que apele em momento algum para a emoção fácil ou force uma empatia com qualquer das personagens.

E o que dizer das personagens? Poucas vezes se viu um épico com as proporções de "Giant" com tanto cuidado no desenvolvimento de suas personagens. Leslie Lynton, Jett Rink e Bick Benedict são tão críveis em seu amadurecimento (ou não, no caso de Rink, que nunca consegue abandonar o sentimento de inferioridade, mesmo com todo o dinheiro que ganha) que é difícil não envolver-se com seus dilemas, suas dúvidas e até mesmo com suas certezas. Leslie é uma mulher criada no conforto que precisa adaptar-se a um mundo novo depois de casar-se - e se sai admiravelmente bem! Jett Rink precisa encarar as próprias limitações que sua origem social lhe impusera para subir na vida e sentir-se "digno" do amor da mulher por quem é apaixonado (mesmo que décadas depois isso tenha que vir com a filha dela). E Bick Benedict se vê forçado a engolir seu preconceito e racismos incutidos pela mentalidade arcaica de sua família quando percebe que não conseguirá deter o destino e que seus filhos aceitariam morrer por ele... mas não viver por ele!

Apesar do cuidado do roteiro e da direção com as personagens secundárias (e isso inclui principalmente a irmã de Bick, a solitária Luz), é em seu elenco principal que "Assim caminha a humanidade" se sustenta. Irradiando carisma, garra e sex-appeal, Rock Hudson, James Dean e Elizabeth Taylor provam sem espaço para dúvidas que para se fazer um épico é preciso mais do que ambição: é imprescindível que se tenha talento.

Thursday, March 4, 2010

UM LUGAR AO SOL


UM LUGAR AO SOL (A place in the sun, 1951, Paramount Pictures, 122min) Direção: George Stevens. Roteiro: Michael Wilson, Harry Brown, baseado no romance "An american tragedy", de Theodore Dreiser. Fotografia: William C. Mellor. Música: Franz Waxman. Figurino: Edith Head. Produção: George Stevens. Elenco: Montgomery Clift, Elizabeth Taylor, Shelley Winters, Keefe Brasselle, Raymond Burr. Estreia: 14/8/51

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (George Stevens), Ator (Montgomery Clift), Atriz (Shelley Winters), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino

Vencedor de 6 Oscar: Melhor Filme, Diretor (George Stevens), Roteiro Adaptado, Fotografia em preto-e-branco, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino


Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme/Drama

Este é o filme que o mestre Charles Chaplin descreveu como "o melhor filme já feito em toda a história!". Este é o filme que inspirou Janete Clair a escrever a novela "Selva de pedra", um de seus maiore sucessos. Este é o filme que apresentou Elizabeth Taylor a Montgomery Clift, que se tornaram grandes amigos até a morte do ator, em 1966. E este filme também é mais uma das inúmeras injustiças que a Academia de Hollywood cometeu em suas premiações. Tudo bem que levou 6 estatuetas pra casa (diretor, roteiro, fotografia, montagem, trilha sonora e figurino em preto-e-branco), mas perdeu a principal para o insosso "Sinfonia de Paris" (e isso em um ano que tinha entre seus concorrentes o igualmente fenomenal "Uma rua chamada pecado", de Elia Kazan).

"Um lugar ao sol" é uma brilhante adaptação do extenso romance "An american tragedy", de Theodore Dreiser, que originalmente se passa nos anos 20. Ao transferir a ação para os anos 50, Stevens criou não só um belo melodrama romântico mas também um retrato feroz e nada delicado de um mundo em constante desequilíbrio social, que empurra os indivíduos além de seus códigos de ética e conduta. Seu protagonista, o jovem e ambicioso George Eastman não é apenas um anti-herói que se torna vítima de seu desejo de ascensão social: ele é também e principalmente a imagem do americano médio, que, nos primeiros anos do pós-guerra se vê dividido entre o que é certo moralmente e o que é necessário para se atingir um nível decente de vida.

George Eastman (vivido magistralmente por Montgomery Clift em seu mais icônico papel) é um jovem pobre que, fugindo de uma vida sem recursos ao lado da mãe, uma mulher religiosa ao extremo, vai trabalhar na empresa de confecções de seu tio. Lá, ele conhece e começa a namorar uma colega de trabalho, a simplória Alice (Shelley Winters). A proximidade com a família milionária de seu tio, cercada de luxo e glamour, logo passa a despertar seu desejo de ascensão social, que fica ainda mais acentuado quando ele se apaixona pela bela Angela Vickers (Elizabeth Taylor). Milionária, ela representa,para o rapaz acostumado com a mediocridade de uma vida sem maiores recursos, o brilho de uma existência sem preocupações financeiras. As coisas se complicam quando Alice revela que está grávida e passa então, por sua cabeça, livrar-se dela e consequentemente de seus problemas.

Ao contrário do que faria cinco anos depois com seu grandiloquente "Assim caminha a humanidade", que fotografava a vasta amplidão do Texas quase como um personagem a mais, em "Um lugar ao sol" George Stevens usa e abusa dos closes, criando tanto uma atmosfera claustrofóbica quanto extremamente calorosa. É impressionante como a mesma técnica funciona de maneiras tão distintas no filme. Quando George está com Angela a proximidade da câmera sublinha de forma inequívoca um sentimento inebriante de paixão, de amor, de urgência (e ajuda muito a beleza impressionante de Taylor, aos 17 anos e em seu primeiro papel adulto). Quando as cenas do protagonista são com Alice a mesma distância quase inexistente da câmera dá a plena sensação de sufoco, de falta de ar, de escuridão, como se estivéssemos assistindo tudo através dos olhos torturados de Eastman. Não é à toa que a fotografia de William C. Mellor arrebanhou o Oscar, tal é a sua importância em transmitir em imagens os pensamentos de seu protagonista.

O protagonista, aliás, merece um parágrafo à parte. Que belo personagem é George Eastman! Dividido entre a responsabilidade de uma paternidade indesejada - e a consequente mediocridade de uma vida da qual deseja fugir desesperadamente - e a possibilidade de uma vida longe de seu passado miserável - ao lado da mulher que verdadeiramente ama - ele é sem dúvida um dos mais complexos protagonistas do cinema dos anos 50. A escolha de Montgomery Clift para interpretá-lo foi uma jogada de gênio. Com seu belo rosto a serviço de uma personalidade torturada, Clift (um dos atores mais subapreciados de Hollywood, sempre sendo relegado a segundo plano em comparações com Marlon Brando e James Dean) oferece ao público um trabalho primoroso, onde transmite com igual competência assombro, paixão, desespero e angústia, sem nunca deixar de ser, nas cenas finais, o mesmo homem simplório e deslumbrado das primeiras. Uma tour de force das mais inspiradas do cinema, fascinante e de partir o coração.

"Um lugar ao sol" merece seu status de um dos melhores filmes de todos os tempos. Além do roteiro preciso, da fotografia perfeita e da sublime direção de George Stevens, contar com duas atrizes como Elizabeth Taylor e Shelley Winters para coadjuvar Montgomery Clift não é pra qualquer um. Cada uma dentro do seu estilo, elas representam os diferentes mundos que disputam a alma do protagonista. Linda, etérea e fascinante, Taylor veste Edith Head (figurinista de quem tornou-se grande amiga) com uma naturalidade invejável. E como imagem da mediocridade, Winters é insuperável, chegando a justificar o desejo homicida de George.

Obrigatório em todos os sentidos, "Um lugar ao sol" é uma influência ainda nos dias de hoje, como bem o comprova Woody Allen que o emula com maestria em "Match point". Feito há quase 60 anos, a obra de George Stevens se mantém tão atual hoje em dia quanto na época de seu lançamento, tamanha a genialidade que grita em cada fotograma.