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Monday, March 29, 2010

LADRÃO DE CASACA


LADRÃO DE CASACA (To catch a thief, 1955, Paramount Pictures, 106min) Direção e produção: Alfred Hitchcock. Roteiro: John Michael Hayes, baseado em um romance de David Dodge. Fotografia: Robert Burks. Montagem: George Tomasini. Música: Lyn Murray. Figurino: Edith Head. Elenco: Cary Grant, Grace Kelly, Jessie Royce Landis, John Williams, Brigitte Aubert. Estreia: 03/8/55

3 indicações ao Oscar: Fotografia, Direção de Arte e Figurino

Vencedor do Oscar de Fotografia (Cores)


Em uma cena de "Ladrão de casaca", de Alfred Hitchcock, a atriz francesa Brigitte Aubert, na pele de sua personagem Danielle Foussard, em um ataque de ciúmes em relação ao homem por quem é apaixonada, faz piadas em relação ao fato de ser bem mais jovem do que sua rival (a estonteante Grace Kelly). A grande ironia da cena nem advém do fato de que seu objeto de desejo, Cary Grant, tinha 50 anos quando fez a personagem (que tinha 35) mas sim da verdadeira idade de Aubert durante as filmagens: apesar de sua aparência jovial, ela era mais velha que Kelly. Pouco mais velha, é verdade (pouco mais de um ano), mas o suficiente para que essa pequena anedota de bastidores ficasse registrada como mais uma das ironias que marcaram a última colaboração de Kelly com o cineasta inglês.

Baseado em um romance de David Dodge, "Ladrão de casaca" é talvez um dos filmes mais leves e inconsequentes de Hitchcock, deixando de lado implicações psicológicas e /ou religiosas que o cineasta vinha utilizando em seus trabalhos imediatamente anteriores. Provavelmente o fato de ter sido filmado nas belíssimas paisagens da Riviera Francesa (lindamente fotografadas pelo habitual colaborador do diretor Robert Burks, que levou o Oscar da categoria) tenha ajudado no objetivo de sair dos claustrofóbicos "Disque M para matar" e "Janela indiscreta" para algo mais arejado, divertido e quase fútil. "Ladrão de casaca", ao contrário do que normalmente se esperaria de uma obra de Hitchcock, é menos um filme de suspense e mais uma aventura romântica com toques de mistério. Não é por acaso que suas melhores cenas sejam justamente aquelas em que Cary Grant e Grace Kelly estão juntos, com uma química invejável, a despeito de sua considerável diferença de idade.

Quando fez "Ladrão de casaca", Grant estava voltando ao cinema, depois de um voluntário exílio (em parte por achar-se anacrônico em um panorama cinematográfico que estava maravilhado com o "método" de atores como Marlon Brando e em parte por sentir-se ultrajado pela maneira com que Hollywood havia tratado Charlie Chaplin - este havia sido praticamente expulso dos EUA por suspeitas de simpatia ao comunismo). No filme, ele vive John Robie, também conhecido pela alcunha de "O Gato", um ladrão de jóias aposentado que volta a sofrer pressão da polícia depois que vários outros roubos cometidos com seu "modus operandi" voltam a acontecer. Para provar sua inocência ele decide investigar por conta própria, antecipando-se ao criminoso e contando com a ajuda de H.H. Hughson (John Williams, sempre ótimo), que, no papel de investigador de uma companhia de seguros, tem uma lista dos mais prováveis alvos do gatuno. Em Cannes, Robie conhece uma dessas potenciais vítimas, a excêntrica americana Jessie Stevens (Jessie Royce Landis) e sua jovem filha Frances (Grace Kelly). Enquanto tenta descobrir a identidade do ladrão, ele é assediado tanto pela bela Frances quanto por Danielle Foussard (Brigitte Aubert), filha de um de seus antigos comparsas.

Assim como normalmente acontece na filmografia de Hitchcock, a história - ou a identidade verdadeira do criminoso - é o que menos conta. O que interessa é a maneira como se chega até o final da história. Aqui, o mestre opta por um tom bem menos sombrio e grave, possibilitando ao espectador deliciar-se com a beleza natural de Cannes e de Kelly, com os diálogos saborosos de John Michael Hayes, com o charme imbatível de Cary Grant e com 106 minutos de uma diversão despretensiosa e ligeira. Isso não o impede, no entanto, de proporcionar algumas cenas que beiram o genial. Um exemplo? Na cena em que as personagens de Kelly e Grant estão assistindo a uma explosão de fogos de artifício pela janela do hotel onde estão hospedados, só o que é iluminado na atriz é seu pescoço, ornado por um enorme colar de diamantes. Enquanto ela fala, fica impossível desviar os olhos da jóia, como se o público estivesse vendo através de John Robie. Golpe de mestre!

"Ladrão de casaca" pode não ser tão bom quanto "Janela indiscreta" - ou alguns de seus filmes posteriores - mas é difícil resistir ao apelo de tantos ingredientes sofisticados. É, sem dúvida, o mais chique dentre todos os Hitchcocks.

PS - Outra das ironias presentes no histórico de "Ladrão de casaca" não deixa de ser trágica: a estrada onde foi rodada a perseguição automobilística em que Robie e Frances escapam da polícia é a mesma estrada onde, em 1982, a atriz sofreu seu fatal acidente de carro. E foi durante as filmagens de "Ladrão" que ela conheceu o Príncipe Rainier de Mônaco, com quem se casaria em breve, abandonando o cinema.

Friday, March 19, 2010

JANELA INDISCRETA



JANELA INDISCRETA (Rear window, 1954, Paramount Pictures, 112min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: John Michael Hayes, baseado em um conto de Cornell Woolrich. Fotografia: Robert Burks. Montagem: George Tomasini. Música: Franz Waxman. Figurino: Edith Head. Elenco: James Stewart, Grace Kelly, Wendell Corey, Thelma Ritter, Raymond Burr. Estreia: 01/8/54

4 indicações ao Oscar: Diretor (Alfred Hitchcock), Roteiro Adaptado, Fotografia em cores, Som

Se o cinema é a arte do voyeurismo, então "Janela indiscreta" é cinema em sua mais pura essência. Baseado em um conto de Cornell Woolrich (recentemente republicado no Brasil pela Cia das Letras), um dos clássicos mais famosos de Alfred Hitchcock (e um dos poucos que o mestre do suspense não renega fervorosamente, como várias de suas criações) é também um dos filmes seminais do gênero, utilizando elegância, ironia e até mesmo um certo olhar carinhoso sobre as pessoas em geral para contar uma história de assassinato onde o crime, no final das contas, é o que menos interessa.

A primeira cena de "Janela indiscreta" já é um primor de concisão e uma prova do talento inconteste de Hitchcock em falar muito em pouco tempo: um único movimento de câmera e o espectador já percebe que a ação se passará em um verão bastante quente e que seu protagonista é um fotógrafo profissional que sofreu um acidente durante um trabalho e está com uma das pernas engessadas. O tal fotógrafo é L.B. Jefferies (James Stewart), que, entedidado com sua falta de opções de lazer passa os dias bisbilhotando as vidas dos vizinhos do prédio em frente ao seu. Munido de um binóculo e de uma luneta, ele acompanha as aventuras românticas de uma mulher solitária, a lua-de-mel de um jovem casal, as noites animadas de uma bela dançarina, etc. As únicas exceções a seu programa solitário são as visitas de sua tagarela massagista/enfermeira Stella (Thelma Ritter) e de sua namorada, a bela socialite Lisa Carol Fremont (Grace Kelly), que tenta convencê-lo, inutilmente, a abandonar a vida de solteiro para casar-se com ela. Sua pasmaceira é sacudida, no entanto, quando ele passa a desconfiar que um de seus vizinhos, Lars Thornwald (Raymond Burr), matou a esposa e esquartejou o corpo para escondê-lo da polícia. A princípio desacreditado inclusive por seu amigo policial (Wendell Corey), logo Jefferies passa a convencer a todos de sua certeza, uma vez que inúmeras evidências apontam para a culpa de Thornwald.

"Janela indiscreta" é uma aula de cinema. Conciso e direto, o roteiro de John Michael Hayes não perde tempo com cenas desnecessárias à estória que conta: tudo que é mostrado através da lente de Jefferies é extremamente importante para o desenrolar de alguma ramificação da trama - se não para levar adiante as desconfianças do protagonista em relação ao assassinato, ao menos para convidar o público a acompanhar os inúmeros dramas humanos mostrados pelo cineasta. O prédio observado pela personagem de James Stewart não deixa de ser um microcosmo da vida - pelo menos em seu lado mais humano, sentimental e sensível. Enquanto renega um envolvimento mais sério com a namorada, o fotógrafo tem à sua vista inúmeros exemplos de relações bem ou mal resolvidas - e logicamente a mais extrema (que resulta em homicídio) é a que mais lhe interessa.

No entanto, por mais que a trama principal seja justamente a que envolve sangue e violência, são as pequenas histórias cotidianas contadas praticamente sem diálogos por Hitchcock e sua equipe que conquistam pela simplicidade e delicadeza: o casal sem filhos que transmite todo o amor a um cachorro, a solteirona que é salva do suicídio pela música composta pelo vizinho compositor e a bela mulher que é casada com um soldado nada atraente são, entre outros, protagonistas de sua própria história, cada uma delas coadjuvante de uma trama maior, tecida com a ironia e a elegância do mestre inglês.

E por falar em elegância, seria injusto não citar a presença grandiosa de Grace Kelly. Vestida por Edith Head, a futura princesa de Mônaco brilha intensamente em cada cena em que está (sua primeira aparição - em um close quando se inclina para beijar seu namorado adormecido - merece figurar em qualquer antologia dos momentos mais sexies do cinema). E não deixa de ser irônico que ela desperte a paixão do protagonista justamente quando sai de sua vida "cor-de-rosa" das colunas sociais para enfrentar o monstro assassino, transformando-se, assim, de mocinha indefesa e fútil em mulher determinada e corajosa.

Uma das melhores obras da carreira de Alfred Hitchcock, "Janela indiscreta" é o tipo de filme que quanto mais vezes é assistido melhor fica. Graças ao número imenso de pequenos detalhes lançados pelo cineasta em cena (que aparece arrumando um relógio no apartamento do compositor) é praticamente impossível não descobrir mais qualidades a cada revisão. Uma obra-prima indiscutível!

Sunday, March 14, 2010

DISQUE M PARA MATAR


DISQUE M PARA MATAR (Dial M for murder, 1954, Warner Bros., 105min) Direção e produção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Frederick Knott, baseado em sua peça teatral homônima. Fotografia: Robert Burks. Montagem: Rudi Fehr. Música: Dimitri Tiomkin. Elenco: Ray Milland, Grace Kelly, Robert Cummings, John Williams. Estreia: 29/5/54

Quase sessenta anos antes de "Avatar" quebrar recordes de bilheteria e revolucionar o modo de fazer cinema (mas não de melhorá-lo qualitativamente), o mestre do suspense já brincava com a tecnologia de 3D. Em 1954 estreava "Disque M para matar", que, baseado em uma peça de teatro de Frederick Knott, utilizava - com bastante parcimônia - efeitos poucas vezes vistos nas telas de cinema na época. A crucial diferença entre sua ambição no momento e o que acontece atualmente nos multiplexes é que antes de focar-se em "revoluções visuais", Alfred Hitchcock concentrava-se na história de seus filmes, em trabalhar o suspense de suas cenas e dar verossimilhança a seus protagonistas, por mais ambíguos que eles fossem.

A personagem central de "Disque M" é Tony Wendice (Ray Milland), um ex-tenista profissional que abandonou a carreira em prol de um vantajoso casamento com a bela Margot (Grace Kelly na primeira de suas três colaborações com o cineasta). Sabendo-se traído por ela, que mantém um romance com o escritor de livros policiais Mark Halliday (Robert Cummings), ele tece um mirabolante plano para livrar-se dela e consequentemente ficar com sua herança. Para tal, ele contrata um antigo colega de escola com uma longa ficha de processos por estelionato. Na hora marcada para o crime, no entanto, as coisas não saem como o esperado e quando Grace passa de vítima a algoz seu marido aproveita para mudar seus planos, acusando-a de assassinato.

O mais interessante em "Disque M para matar" nem é a tentativa de Hitchcock em utilizar-se de recursos óticos "modernos" para contar sua história e sim a maneira com que ele conduz a trama, repleta de surpresas e reviravoltas. Por ser baseado em um texto teatral - uma origem que necessariamente prende a ação em poucos cenários - o filme não apresenta cenas de ação ou externas muito elaboradas (pelo contrário, sempre que aparece a rua é de maneira um tanto artificial). O diretor se contenta em mostrar à audiência apenas o que está acontecendo no momento, sem apelar para flashbacks ou outros recursos que desviariam a atenção. Essa opção em ser extremamente econômico em malabarismos de câmera propicia ao público um sentimento de voyeurismo que o mantém ligado na história mesmo quando ela descamba para um ato final um tanto forçado.

É inegável que "Disque M para matar" perde o pique no seu terceiro ato, quando Tony Wendice está prestes a ser desmascarado. Talvez por não contar com a presença luminosa de Grace Kelly ou por contar apenas com uma conclusão pouco satisfatória em termos de suspense, não se tem, em seus últimos vinte minutos, a concisão e o ritmo de seu princípio - em especial as cenas que antecedem o crime propriamente dito. Ainda assim, como sempre na obra do cineasta, é imperdível por ser de uma elegância rara, em que até mesmo um assassinato é filmado, segundo palavras do francês François Truffaut "como uma cena de amor".

PS - Em 1998, o diretor Andrew Davis (de "O fugitivo") realizou uma nova versão de "Disque M para matar", intitulada "Um crime perfeito", estrelada por Michael Douglas, Gwyneth Paltrow e Viggo Mortensen, mais fiel ao texto teatral e surpreendentemente interessante.