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Thursday, March 18, 2010

SINDICATO DE LADRÕES


SINDICATO DE LADRÕES (On the waterfront, 1954, Columbia Pictures, 108min) Direção: Elia Kazan. Roteiro: Budd Schulberg, história de Malcolm Johnson. Fotografia: Boris Kaufman. Montagem: Gene Milford. Música: Leonard Bernstein. Produção: Sam Spiegel. Elenco: Marlon Brando, Karl Malden, Eva Marie Saint, Lee J. Cobb, Rod Steiger. Estreia: 28/7/54

12 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Elia Kazan), Ator (Marlon Brando), Atriz Coadjuvante (Eva Marie Saint), Ator Coadjuvante (Lee J. Cobb, Karl Malden, Rod Steiger), História e Roteiro Originais, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de Arte

Vencedor de 8 Oscar: Filme, Diretor (Elia Kazan), Ator (Marlon Brando), Atriz Coadjuvante (Eva Marie Saint), História e Roteiro Originais, Fotografia em preto-e-branco, Montagem, Direção de Arte


Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme Drama, Diretor (Elia Kazan), Ator/Drama (Marlon Brando), Fotografia em preto-e-branco

No início dos anos 50, o cineasta Elia Kazan estava em maus-lençóis. Rechaçado pelos colegas que o consideravam um delator por ter citado nomes nos malfadados depoimentos ao senador Joseph McCarthy na chamada "caça às bruxas" anti-comunista cuja paranóia atingia seu ápice nos anos 50, ele dirigiu "Sindicato de ladrões" quase como uma explicação para seus atos. Julgamentos éticos à parte, a única certeza que fica no final dos 108 minutos do filme é a seguinte: se todas as justificativas de atos moralmente dúbios fossem iguais a esta seria muito mais fácil perdoar os erros de quem quer que fosse. Mesmo visto hoje, mais de cinquenta anos depois de seu lançamento, "Sindicato de ladrões" ainda mantém o mesmo vigor estético, a mesma força dramática e continua tão relevante quanto antes.

A história se passa nas docas de Nova York, cujos trabalhadores - escolhidos diariamente, a dedo - são dominados pelo poderoso Johnny Friendly (Lee J. Cobb), que de amigável tem apenas o nome: corrupto, violento e amoral, ele não aceita ser desafiado ou questionado e quem tem a coragem de ir contra suas regras acaba invariavelmente mal. Quando o filme começa uma de suas vítimas acaba de ser jogado do alto de um prédio por ter ido à justiça testemunhar contra seus desmandos. Sentindo-se culpado pela tragédia - por ter virtualmente levado o rapaz ao encontro de seus algozes - o ex-lutador de boxe Terry Malloy (Marlon Brando) passa a questionar os métodos de Friendly, especialmente porque se apaixona por Edie (Eva Marie Saint), a irmã do rapaz assassinado. Incentivado pelo padre Barry (Karl Malden), que pretende ajudar os trabalhadores das docas, pelo amor que sente por Edie e pelo sentimento de culpa, Malloy acaba enfrentando seu irmão Charley (Rod Steiger), braço-direito do chefão, e é obrigado, por sua consciência, a ir ao banco das testemunhas, mesmo arriscando sua vida, suas amizades e suas possibilidades de trabalho.

O que mais impressiona em "Sindicato de ladrões" é a forma apaixonada com que Kazan conta sua história, dando o mesmo peso ao drama político-social que envolve os trabalhadores quanto ao romance entre as personagens de Brando e Marie-Saint (ambos premiados com o Oscar de 1954). Na verdade é o excelente roteiro que contrabalança as duas tramas com equilíbrio magistral, dando estofo a suas personagens, extremamente bem construídas e inteligentemente interpretadas. Nem mesmo as personagens secundárias são deixadas de lado, sendo sempre tratadas com cuidado e verossimilhança. O elenco de apoio escolhido por Kazan também merece louvores: não há um rosto dentre todos os que aparecem em cena que não sejam expressivos, fortes, reais, dando um tom quase documental àquele que é provavelmente seu trabalho mais maduro. As cenas em que os trabalhadores lutam pela possibilidade de um dia de salário são um retrato realista de uma época bastante dura para a economia americana do pós-guerra e são filmadas com uma sobriedade que foge do piegas. A bela fotografia em preto-e-branco de Boris Kaufman (também vencedora de um Oscar) acentua a atmosfera enovoada que circunda as personagens (e provavelmente suas consciências). E nem mesmo a mais dramática das cenas do filme (uma conversa emocionante entre Terry e Charley no banco traseiro de uma limousine onde Brando larga sua famosa "Eu poderia ter sido alguém!") apela para as lágrimas fáceis, comprovando o talento de Kazan de arrancar belas atuações sem cair nas armadilhas de atuações exageradas de seus atores.

A julgar pelos 8 Oscar conquistados por "Sindicato de ladrões" (filme, diretor, ator, atriz coadjuvante, roteiro, fotografia, montagem e direção de arte) a Academia de Hollywood entendeu e perdoou os atos considerados "de traição" do cineasta. No entanto, na cerimônia de entrega dos prêmios em 1999, Kazan foi homenageado pela Academia e arrancou tantos aplausos quanto silêncios de muitos espectadores, ainda ultrajados por suas ações. Se o que ele fez - dar o nome de alguns colegas investigados à comissão de McCarthy - foi certo ou não é uma discussão muito mais séria que merece muito mais espaço e considerações mais elaboradas. O que é inegável é que, tendo bom ou mau caráter, era, sem sombra de dúvida, um cineasta dos maiores de sua época, como bem o comprova a perenidade de boa parte de sua obra.

Saturday, March 13, 2010

A TORTURA DO SILÊNCIO


A TORTURA DO SILÊNCIO (I confess, 1953, Warner Bros., 95min) Direção e produção: Alfred Hithcock. Roteiro: George Tabori, William Archibald, baseado em uma peça teatral de Paul Anthelme. Fotografia: Robert Burks. Montagem: Rudi Fehr. Música: Dimitri Tiomkin. Elenco: Montgomery Clift, Anne Baxter, Karl Malden, O.E. Hasse, Dolly Haas. Estreia: 22/3/53

As primeiras imagens de "A tortura do silêncio" mostram placas sinalizadoras em Quebec. São todas setas indicando um caminho em linha reta. E retidão é a palavra mais correta para definir a personalidade do Padre Michael Logan (Montgomery Clift), protagonista do único filme de Alfred Hitchcock filmado no Canadá. Honesto e íntegro, Logan é mais um dos protagonistas do mestre do suspense que se vê envolvido em situações extremas sem que as tenha chamado para si. No caso do filme em questão, ele é acusado de um crime que não cometeu, correndo o risco de ser condenado à morte.

A primeira cena de "A tortura do silêncio" mostra o corpo de um homem, assassinado em casa, enquanto o culpado, vestido de padre, abandona o local do crime e é visto por duas adolescentes. O assassino é Otto Keller (O.E. Hasse), um refugiado alemão que trabalha como faz-tudo na casa paroquial onde vive Logan. Sentindo-se culpado pelo homicídio, Keller confessa o crime ao padre, que não pode trair um segredo de confissão. Estaria tudo relativamente bem se a vítima do assassinato não fosse, no entanto, um advogado mau-caráter que estava fazendo chantagem com Ruth Grandfort (Anne Baxter), antiga namorada de Logan antes de sua ordenação. Vilette, o chantagista, agora morto, ameaçava contar sobre o relacionamento do padre com uma mulher casada (uma relação que na verdade não mais existia) e quando o Inspetor Larrue (Karl Malden) fica sabendo do detalhe escabroso, junta a pista aos fatos do assassino estar vestindo uma batina e de Logan não ter um álibi concreto e o indicia pelo crime. Para salvar sua pele, Logan tem apenas a opção de revelar um segredo que não pode, por ética, ser revelado.

A bem da verdade é necessário que o público entenda o dilema de Logan, ou seja, é crucial que a audiência acredite que um homem, mesmo na situação extrema do protagonista, seja capaz de manter em segredo o que pode lhe salvar a vida. Talvez esse seja o motivo pelo qual "A tortura" não está entre os mais festejados filmes de Hitchcock. Baseado em uma peça de teatro francesa, de Paul Anthelme (que o próprio diretor considerava ruim), o filme é talvez a obra mais carregada de simbolismos católicos de sua filmografia (cruzes, imagens e principalmente a temática são explícitos sinais de uma religiosidade bastante forte no cineasta, que estudou em colégio jesuíta). Filmado nas montanhas do Canadá - e portanto fugindo de seus tradicionais locais de filmagens - "A tortura do silêncio" apresenta também uma grande atuação - mais uma - de Montgomery Clift, que novamente aproveita sua própria personalidade torturada para criar o angustiante retrato de um homem a caminho de seu calvário pessoal por manter intactos seus ideais religiosos e éticos.

"A tortura do silêncio" não é dos melhores Hitchcocks. Tem um final anti-climático, um par romântico que não tem uma química das melhores (Anne Baxter não era a primeira escolha do cineasta e, por melhor atriz que fosse, não estava em seus melhores dias) e um conflito central que exige do público bem mais do que o corriqueiro. Ainda assim, é dono de belas cenas, tem uma história interessante - apesar de forçar algumas coincidências - e conta com Montgomery Clift no papel principal, o que já lhe confere uma força acima da média.

Friday, March 5, 2010

UMA RUA CHAMADA PECADO


UMA RUA CHAMADA PECADO (A streetcar named desire, 1951, Warner Bros., 124min) Direção: Elia Kazan. Roteiro: Tennessee Williams, baseado em sua peça de teatro homônima. Fotografia: Harry Stradling. Música: Alex North. Produção: Charles K. Feldman. Elenco: Vivien Leigh, Marlon Brando, Kim Hunter, Karl Malden. Estreia: 18/9/51

12 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Elia Kazan), Ator (Marlon Brando), Atriz (Vivien Leigh), Ator Coadjuvante (Karl Malden), Atriz Coadjuvante (Kim Hunter), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte, Som

Vencedor de 4 Oscar: Atriz (Vivien Leigh), Ator Coadjuvante (Karl Malden), Atriz Coadjuvante (Kim Hunter), Direção de Arte


Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Kim Hunter)

Adaptações de peças de teatro para o cinema sempre correm o grande risco de tornarem-se aborrecidos exercícios de overactings. É preciso muito talento e/ou experiência para transformar uma bem-sucedida montagem teatral em um igualmente bem-sucedido produto cinematográfico. E talento e experiência são qualidades que não faltam a Elia Kazan e já não faltavam quando ele lançou "Uma rua chamada pecado", em 1951. Ao levar para as telas a obra-prima de Tennessee Williams que ele mesmo havia dirigido na Broadway, o polêmico cineasta não só conseguiu a proeza de criar um novo parâmetro para adaptações teatrais como ainda lançou oficialmente um ator que se tornaria um ícone absoluto do cinema: Marlon Brando. Tudo bem que "Uma rua" não é o primeiro filme de Brando (o título pertence a "Espíritos indômitos", do ano anterior) mas é inegável que foi a partir de sua interpretação vulcânica como Stanley Kowalski que Brando iniciou seu caminho rumo a tornar-se um dos mitos mais duradouros do planeta Hollywood.

"Uma rua chamada pecado" (título fantasioso menos interessante do que o original "Um bonde chamado desejo") se passa em uma espécie de cortiço em Nova Orleans, onde vive a dona de casa Stella (Kim Hunter) e seu marido, o truculento Stanley (Brando). Sua vida sem maiores emoções além de noitadas de pôquer e boliche - temperadas com algumas brigas bastante violentas - se transforma com a chegada de sua irmã mais velha, a misteriosa Blanche DuBois (Vivien Leigh, loura e aparentemente à beira de um ataque de nervos). Blanche chega para passar alguns dias com a irmã e o cunhado, mas esconde as verdadeiras razões pelas quais abandonou a propriedade da família e o emprego de professora. Seus modos delicados logo batem de frente com a falta de polidez de Kowalski, que de imediato não simpatiza com aquela mulher cheia de histórias mal-contadas e que parece ter prazer em jogar sua esposa contra ele. A tensão sexual entre os dois aumenta ainda mais quando Blanche conhece um amigo de Stanley, o tímido Mitch (Karl Malden), que ainda vive com a mãe e busca a companhia de uma mulher que divida com ele suas rígidas regras morais. O passado de Blanche, no entanto, acaba vindo à tona, abalando sua frágil estrutura mental e emocional.

É impossível ficar impassível a "Uma rua chamada pecado". Seja pela atmosfera sexual que envolve cada cena ou seja pela complexidade psicológica de suas personagens, o texto de Williams tem a inteligência de nunca deixar nada óbvio a sua audiência. Tudo é revelado nas entrelinhas - em sons do passado, em olhares assustados, em silêncios reveladores -, de maneira a proporcionar ao público o prazer extra de descobrir junto com as personagens todos os desdobramentos de sua história, por si só bastante intensa e adulta. O roteiro não tem medo de tocar em assuntos controversos - sedução de menores, estupro, violência doméstica - e é defendido por garra por um elenco espetacular.

Apesar de não ser a primeira opção para o papel de Blanche Dubois (foi escolhida apenas por ser mais popular do que Jessica Tandy, que defendeu a personagem nos palcos), Vivien Leigh toma posse de sua personalidade quase de forma espírita, deixando para trás a imagem mundialmente conhecida de Scarlett O'Hara. Seu olhar quase psicótico, seus trejeitos de mulher presa em um mundo particular, sua maneira de enganar a si mesma são brilhantes. Sua química com Brando é palpável: é impossível não reconhecer a tensão sexual entre os dois, que culmina em uma das cenas mais fortes do filme.
Kim Hunter e Karl Malden pontuam com sutileza o embate entre Leigh e Brando, repetindo na tela seus trabalhos na Broadway. Como Stella e Mitch, eles acabam sendo as vítimas inocentes do bonde chamado desejo, que, sem freio, atropela os quatro protagonistas e os arrasta em um caminho sem volta rumo à tragédia.

Curiosamente, dos quatro atores principais do filme apenas Marlon Brando não levou o Oscar (que ficou com Humphrey Bogart, por "Uma aventura na África"). Mas não há espectador que não concorde que é seu Stanley Kowalski, com sua sexualidade à flor da pele - reiterada em constantes imagens de seu musculoso corpo suado e em suas atitudes de macho primata - quem se apropria de todo o filme. Basta Brando entrar em cena para que tudo pareça gravitar à sua volta, tamanha a força de sua atuação. O ator até pode ter ganho dois Oscar em seu caminho posterior (nos espetaculares "Sindicato de ladrões" e "O poderoso chefão"), mas é aqui, nos primórdios de sua carreira que ele marca, a ferro e fogo, seu nome na história do cinema.