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Sunday, April 18, 2010

IMITAÇÃO DA VIDA


IMITAÇÃO DA VIDA (Imitation of life, 1959, Universal Pictures, 124min) Direção: Douglas Sirk. Roteiro: Eleanore Griffin e Allan Scott, baseado no romance de Fannie Hurst. Fotografia: Russell Metty. Montagem: Milton Carruth. Música: Frank Skinner. Produção: Ross Hunter. Elenco: Lana Turner, John Gavin, Juanita Moore, Sandra Dee, Susan Kohner, Troy Donahue, Robert Alda, Dan O'Herlihy. Estreia: 30/4/59

2 indicações ao Oscar: Melhor Atriz Coadjuvante (Susan Kohner, Juanita Moore)

Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Susan Kohner)

Antes de abandonar Hollywood e voltar para a sua Alemanha natal, o cineasta Douglas Sirk realizou o que talvez seja, ao lado de "Palavras ao vento", seu filme mais emocional e característico: baseado em um romance de Fannie Hurst, "Imitação da vida" tornou-se seu filme mais bem sucedido em termos de bilheteria, acrescentando um polêmico ingrediente à sua receita de melodramas familiares: o racismo.

Em 1959, Martin Luther King estava no auge de sua luta a favor dos direitos civis dos negros e o romance de Hurst serviu perfeitamente para que Sirk juntasse seu fascínio pelos problemas entre pais e filhos com a nascente preocupação de uma parcela do povo americano com o problema do preconceito racial. Dessa união surgiu um filme poderosamente tocante sobre duas mulheres aparentemente diferentes que se unem na busca pela felicidade das filhas.

A trama de "Imitação da vida" começa no verão de 1947 quando a aspirante a atriz Lora Meredith (Lana Turner), a mãe viúva de uma menina de seis anos de idade, conhece Annie Johnson (Juanita Moore), uma mulher negra que procura um lugar para trabalhar e morar com a filha pequena. As duas acabam se acertando e Annie vai trabalhar com Lora, aproveitando a amizade que surge entre as duas meninas. Aos poucos Lora começa a fazer carreira nos palcos - o que a leva a afastar-se do fotógrafo Steve Archer (John Gavin), apaixonado por ela - e melhorar de vida, deixando de lado a educação da própria filha, que passa a ver em Annie uma figura materna bem mais presente e dedicada - ainda que a filha verdadeira da criada, Sarah Jane, filha de um pai branco, a rejeite por ser negra.

Dez anos depois, quando as meninas estão entrando na juventude, as coisas estão bem diferentes. Lora está famosa e é uma atriz muito bem-sucedida, enquanto Annie é seu braço-direito e melhor amiga. Sarah Jane (Susan Kohner), ainda revoltada com sua origem, esconde de seus amigos e pretendentes que tem sangue negro correndo nas veias, envolvendo-se em situações sempre perigosas e degradantes. E a filha de Lora, Susie (Sandra Dee) se descobre apaixonada por Steve, que volta à vida de sua mãe depois de anos.

"Imitação da vida" é um dramalhão típico, repleto de situações dramáticas que hoje fazem a glória dos autores de telenovelas. Mas ainda assim tem uma aura clássica que o mantém acima de seus congêneres - nem que seja como exemplo de um estilo datado para as gerações posteriores. Lana Turner - recém-saída do escândalo da morte de seu amante Johnny Stompanato - brilha como uma mulher dividida entre uma vida familiar e um universo de glamour e sucesso (talvez como a própria atriz se sentisse na época), mas é a trama paralela que analisa a problemática relação entre Annie e Sarah Jane que mais chama a atenção no resultado final.

Sintomaticamente, foram justamente Juanita Moore e Susan Kohner que conquistaram as únicas indicações ao Oscar do filme. Moore comove sempre que tem a chance de mostrar seu rosto martirizado pela dor da rejeição da própria filha - uma rejeição que não sofre da parte de Susie, que vê nela um exemplo materno mais eficiente do que sua própria mãe biológica. E Kohner apresenta um trabalho eficiente em um papel ingrato mas rico em seus conflitos psicológicos e sentimentais (como curiosidade, Kohner é mãe dos cineastas Chris e Paul Weitz, da série "American pie").

Visualmente "Imitação da vida" usa e abusa do kitsch, mas de forma bem mais discreta do que em trabalhos anteriores de Sirk, o que demonstra sua maturidade em termos visuais. A fotografia de Russell Metty é esplendorosa e casa perfeitamente com o ideal "romântico de fotonovela" proposto pelo cineasta - especialmente na segunda metade do filme, quando a vida de Lora Meredith transforma-se em uma espécie de conto de fadas escondendo graves problemas de relacionamento por trás de seus sorrisos de mentira. Pode-se dizer que a marca registrada de Sirk era justamente desconstruir as fachadas de vidas aparentemente perfeitas. E aqui, mais uma vez, ele o faz com delicadeza e contundência.

"Imitação da vida", assim como toda a obra de Douglas Sirk, não é do agrado de todo mundo. É preciso deixar de lado o preconceito contra melodramas e embarcar na viagem proposta pelo cineasta. Uma vez aceito o convite para penetrar seu universo é relaxar e se emocionar.

Monday, April 12, 2010

A CALDEIRA DO DIABO


A CALDEIRA DO DIABO (Peyton Place, 1957, 20th Century Fox, 157min) Direção: Mark Robson. Roteiro: John Michael Hayes, baseado no romance de Grace Metalious. Fotografia: William Mellor. Montagem: David Bretherton. Música: Franz Waxman. Produção: Jerry Wald. Elenco: Lana Turner, Lee Philips, Arthur Kennedy, Lloyd Nolan, Russ Tamblyn, Hope Lange, Diane Varsi, David Nelson. Estreia: 13/12/57

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Mark Robson), Atriz (Lana Turner), Ator Coadjuvante (Russ Tamblyn, Arthur Kennedy), Atriz Coadjuvante (Hope Lange, Diane Varsi), Fotografia, Roteiro Adaptado

O destino pode realmente ser muito irônico. Uma prova disso? Em "A caldeira do diabo", adaptado do romance de Grace Metalious, a atriz Lana Turner interpreta Constance McKenzie, uma viúva correta que vive em uma pequena cidade do interior dos EUA no início dos anos 40. Dona de uma pequena loja de roupas, ela tem uma relação conflituosa com a filha única, Allison (Diane Varsi), com quem acaba rompendo depois de uma discussão mais séria, causada por revelações sobre seu passado. O reencontro das duas acontece quando a jovem volta à cidadezinha para acompanhar o julgamento de sua melhor amiga, que assassinou o padrasto que a havia violentado. O que há de irônico nisso? Acontece que, pouco depos da cerimônia do Oscar de 1958, Turner (que perdeu o Oscar de melhor atriz para Joanne Woodward) envolveu-se em um escândalo de grandes proporções, envolvendo sua filha, assédio sexual e um assassinato. A vida imita a arte?

Na década de 50, Turner vivia um tórrido caso amoroso com o gângster Johnny Stompanato, a quem sustentava. Na noite de 4 de abril de 1958, alegando estar protegendo sua mãe da violência do amante, sua filha de apenas 14 anos, Cheryl Crane, o assassinou com uma faca de cozinha. Julgada, ela foi inocentada, mas o caso ganhou as manchetes dos tabloides mundiais (sensacionalistas ou não) e dizem que iria virar filme nas mãos de Adrian Lyne (com Keanu Reeves e Catherine Zeta-Jones nos papéis principais). Mas o que é apenas uma história dos bastidores de Hollywood não deixa de ser uma espécie de eco da trama de "A caldeira do diabo".

Peyton Place - o nome do romance que deu origem ao filme - é também o nome da pacata cidade que é seu cenário. A trama começa no final do ano letivo de 1941, quando o confiante Michael Rossi (Lee Philips) assume o posto de diretor da escola secundarista, para desgosto de seus alunos, que esperavam que o trabalho fosse parar nas mãos de uma professora mais antiga e mais querida. Mesmo sendo persona non grata junto aos alunos, Rossi se encanta com Constance McKenzie (Turner), a mãe de uma das estudantes em vias de formar-se, a sensível Allison, cujo sonho é tornar-se escritora e não entende a forma rígida de sua mãe de ver o progresso e a liberdade sexual. Allison é a melhor amiga de Selena Cross (Hope Lange), a filha de sua empregada, uma moça tímida e romântica que tem sua vida transformada quando é estuprada pelo padrasto, Lucas (Arthur Kennedy), um homem bêbado e violento. Para defender-se de um novo ataque, ela o mata e vai parar no banco dos réus. Só quem pode salvá-la é o médico da cidade, Dr. Swain (Lloyd Nolan), que conhece a verdade sobre a saúde da garota.

"A caldeira do diabo" tem ressonâncias de filmes como "Juventude transviada" na sua tentativa bem intencionada de questionar as relações entre pais e filhos, bem como em sua busca de dar luz aos ares de uma liberalidade sexual que chegaria com força à América nos anos 60. Nesse ponto também tem semelhanças com "Clamor do sexo", que Elia Kazan lançaria em 1961, e com os filmes de Douglas Sirk, ao destruir com precisão cirúrgica a aparência de normalidade de uma sociedade baseada em aparências. É o sexo escondido, temido e malvisto que desencadeia todos os dramas no filme de Mark Robson, enredando suas personagens - na maioria jovens desorientados e frustrados em suas descobertas amorosas - em uma avalanche de tristeza, revolta e violência. Não é à toa que Allison deseja fugir de Peyton Place, de sua mãe e das obrigações de uma vida que exige regras que ela não tenciona cumprir. É Allison, em seu desejo por viver da maneira que anseia que, de certa forma, põe sentido na história criada por Grace Metalious - e age como a narradora do drama.

"A Caldeira do diabo" está longe de ser uma obra-prima. Visto hoje, é de um visual datado, com um roteiro por vezes esquemático (escrito surpreendentemente pelo parceiro habitual de Hitchcock, John Michael Hayes) e um elenco nada excepcional (ainda que 5 atores tenham recebido indicações ao Oscar, um recorde na época). Além do mais, tem uma tendência ao melodrama que pode incomodar aos mais exigentes (não é de admirar que alguns anos depois tenha dado origem a uma longeva série de TV com cara de telenovela). Mas suas intenções são admiráveis e ele tem a cara de sua época, com tudo que isso tem de bom e de mau.