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Friday, July 8, 2011

MENINOS NÃO CHORAM

MENINOS NÃO CHORAM (Boys don't cry, 1999, Fox Searchlight Pictures, 118min) Direção: Kimberly Peirce. Roteiro: Kimberly Peirce, Andy Bienen. Fotografia: Jim Denault. Montagem: Tracy Granger, Lee Percy. Música: Nathan Larson. Figurino: Victoria Farrell. Direção de arte/cenários: MichaelShaw/Shawn Carroll. Produção executiva: Caroline Kaplan, Pamela Koffler, Jonathan Sehring, John Sloss. Produção: John Hart, Eva Kolodner, Jeffrey Sharp, Christine Vachon. Elenco: Hilary Swank, Chloe Sevigny, Peter Sarsgaard, Brendan Sexton III, Alicia Goranson, Jeanetta Arnette, Matt McGrath. Estreia: 22/10/99

2 indicações ao Oscar: Atriz (Hilary Swank), Atriz Coadjuvante (Chloe Sevigny)
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Hilary Swank)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Hilary Swank)

Às vezes histórias trágicas, brutais e inacreditáveis fazem com que as pessoas acordem de uma letargia, mesmo que seu despertar – oriundo de um baque – não tenha força de mudar coisa alguma. E às vezes essas mesmas histórias sangrentas e desesperançadas podem virar pérola em mãos de talento. É isso que acontece em “Meninos não choram”, uma história trágica, brutal e inacreditável... mas que infelizmente aconteceu de verdade.
 
A jovem Teena Brandon (vivida com uma visível determinação pela ótima Hilary Swank) sofre de transtornos sexuais. Incapaz de aceitar o fato de que é uma mulher, ela vive sob o pseudônimo de Brandon Teena, um rapaz tímido e sedutor constantemente envolvido em pequenas contravenções. Vivendo nesse seu universo paralelo ela chega a uma cidadezinha qualquer dos EUA e, depois de fazer amizade com uma dupla de ex-presidiários (os assustadores Peter Saarsgard e Brendon Sexton III) se apaixona perdidamente por Lana (Chloe Sevgny), uma jovem ambiciosa e perdida em seus sonhos de abandonar sua vida tediosa. O romance engrena mesmo com a mentira de Teena / Brandon entre as duas. No entanto, uma hora a verdade vem à tona e, sentindo-se enganados e traídos os violentos amigos de Lana partem para uma vingança cruel e estúpida.


“Meninos não choram” saiu do nada para a glória. Estréia da diretora Kimberly Peirce, feito com apenas 2 milhões de dólares e sem nenhum astro em seu elenco, o filme começou a chamar a atenção graças ao espetacular trabalho de Swank, que a despeito de sua participação em filmes constrangedores como “Karatê Kid IV”, mostrou que sabe como poucas agarrar com unhas e dentes uma chance promissora e de quebra levou o Globo de Ouro e o Oscar de melhor atriz – um prêmio merecido e devidamente louvado. Na pele de Teena Brandon, ela consegue despertar a simpatia até mesmo do público mais conservador e o leva com ela por seu calvário em busca da aceitação e da felicidade ao lado da mulher que ama, vivida com ar blasé por Chloe Sevigny, que faz o que pode com sua personagem igualmente complexa – uma mulher disposta a mentir para si mesma para fugir de uma vida infeliz. 

Contra elas, Peter Saarsgard constrói seu Paul de maneira visceral, quase psicótica em seu amor obsessivo. Seu olhar de ódio e desprezo diz mais sobre a maldade intrínseca no ser humano do que milhares de páginas de discursos políticos. Somada à quantidades industriais de cerveja – que parece exalar da tela tamanha a veracidade da seca fotografia, sua raiva e inveja da felicidade alheias causam desgraças como a que vitimou a protagonista do filme, que sim, é trágica, brutal e inacreditável. Mas também um alerta contra a intolerância, tão chocante e cru quanto necessário.

Em um tempo onde a intolerância e a ignorância ainda insistem em se insinuar apesar dos avanços, "Meninos não choram" é um filme obrigatório. É impossível não se impactar com tamanha tragédia, mesmo que, como dito no início do texto essa indignação despertada nunca ultrapasse a janela de nossas casas. Mas só por sacudir e fazer pensar a obra de Pierce já é de vital importância para a discussão dos direitos humanos e para a luta pela igualdade. E ajuda bastante o fato de ser um filme de grande qualidade.

Wednesday, February 23, 2011

OS ÚLTIMOS PASSOS DE UM HOMEM

OS ÚLTIMOS PASSOS DE UM HOMEM (Dead Man Walking, 1995, Polygram Filmed Entertainment/Working Title Films, 122min) Direção: Tim Robbins. Roteiro: Tim Robbins, livro de Helen Prejean. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Lisa Zeno Churgin. Música: David Robbins. Figurino: Renée Ehrlich Kaifus. Direção de arte/cenários: Richard Hoover. Produção executiva: Tim Bevan, Eric Fellner. Produção: Jon Kilik, Tim Robbins, Rudd Simmons. Elenco: Susan Sarandon, Sean Penn, Raymond J. Barry, Robert Prosky, R. Lee Ermey, Celia Weston, Lois Smith, Clancy Brown, Margo Martindale, Peter Sarsgaard, Jack Black, Jon Abrahams. Estreia: 29/12/95

4 indicações ao Oscar: Diretor (Tim Robbins), Ator (Sean Penn), Atriz (Susan Sarandon), Canção Original ("Dead Man Walking")
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Susan Sarandon)
Urso de Prata no Festival de Berlim: Melhor Ator (Sean Penn)

Militância política - não a partidária preconizada por Arnold Schwarzenegger, entenda-se - não é exatamente vista como uma qualidade pelos conservadores olhos de Hollywood, e que o digam Susan Sarandon e Tim Robbins: um dos casais mais politicamente ativos da indústria, eles despertaram a ira da Academia quando, no Oscar de 1993, fizeram um discurso criticando a maneira com que o governo do Haiti lidava com os imigrantes soropositivos. Banidos da cerimônia por dois anos consecutivos, eles, no entanto, voltaram por cima, com o poderoso "Os últimos passos de um homem", escrito, produzido e dirigido por Robbins e estrelado por Sarandon. Aclamado pela crítica e premiado no Festival de Berlim, a crítica nada velada à pena de morte saiu da festa de 1995 com a estatueta de melhor atriz para Susan, além de ter concorrido a outros três importantes prêmios. Quem ri por último ri melhor.

"Os últimos passos de um homem" é uma história real, adaptada de um livro escrito pela religiosa Helen Prejean, vivida no filme por uma Sarandon desprovida de qualquer elemento sexual ou romântico. Sua personagem é uma mulher que abandonou as regalias de uma classe social privilegiada para seguir sua vocação e trabalhar com crianças de comunidades carentes. Sua vida pacífica e sem sobressaltos sofre um abalo quando ela recebe a carta de um homem condenado à morte, acusado por estupro e duplo homicídio. Orientada por seu superior, Helen procura o presidiário, Matthew Poncelet (Sean Penn), que lhe pede ajuda para reverter sua sentença, alegando inocência. Racista, misógino, anti-semita e nem um pouco dado a sutilezas, Poncelet não é um exemplo de réu, e aos poucos a religiosa percebe que qualquer súplica às autoridades competentes será inútil para trasmutar a pena de morte em prisão perpétua. Oferencendo-se para ser sua conselheira espiritual em seus últimos dias, ela acaba despertando a revolta nos pais de suas vítimas, que não conseguem entender como ela é capaz de ficar ao lado de "um animal que merece a morte".


Apesar de ser abertamente contra a pena capital, Tim Robbins toma o cuidado muito bem-vindo de jamais deixar que seu filme assuma um tom de sermão ou discurso. Seu roteiro, equilibrado e inteligente, discute com propriedade todos os lados da questão levantada e o faz com parcimônia e bom gosto. Helen Prejean faz as vezes de espectador, sendo questionada frequentemente a respeito de sua escolha em colaborar com o homicida cruel vivido por Penn. Seus diálogos com os pais das vítimas são comoventes e jamais soam artificiais, em especial ao cuidado de Robbins na direção de atores: em especial R. Lee Ermey e Raymond J. Barry vão muito além do chamado do dever em suas cenas, o mesmo podendo ser dito de Roberta Maxwell, que não precisa falar muito para roubar a cena como a mãe de Poncelet. Coadjuvantes preciosos, eles pontuam o show inesquecível de seu par de atores centrais.

Se Susan Sarandon levou um Oscar que já lhe era devido no mínimo desde "Thelma & Louise", Sean Penn contruiu um Matthew Poncelet irretocável. Asqueroso em sua arrogância inicial, ele faz com que o público se compadeça aos poucos de sua personagem, sem jamais perder sua essência. A mudança que ocorre com Poncelet em seus últimos passos não parece forçada ou anti-natural e sim uma consequência do amor que finalmente recebeu. Por sua capacidade de transmitir os contraditórios sentimentos do condenado, Penn foi indicado ao Oscar e levou o prêmio de melhor ator no Festival de Berlim. Nada mais merecido!

Mas e quanto à ideologia contida em "Os últimos passos de um homem"? Talvez o filme de Robbins não mude a ideia de nenhum espectador, ainda que consiga no mínimo levantar uma discussão válida e sempre pertinente - é chocante ver, por exemplo, como a execução é tratada, com sanduíches sendo distribuídos à plateia e a frieza com que tudo é tratado. Essa frieza, no entanto, não consegue impedir que o clímax do filme seja poderoso a ponto de provocar lágrimas de emoção até mesmo no mais cínico espectador. E mesmo aqueles que acham que todo o arrependimento do protagonista não teria acontecido se ele não tivesse sido também vitimado por um homícidio (ainda que legalizado) não conseguirão tirar tão cedo da mente as belas interpretações de Sarandon e Penn, sonorizadas pela bela canção final de Bruce Springsteen.