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Wednesday, June 23, 2010

NUM LAGO DOURADO


NUM LAGO DOURADO (On golden pond, 1981, Universal Pictures, 109min) Direção: Mark Rydell. Roteiro: Ernest Thompson, baseado em sua peça teatral homônima. Fotografia: Billy Williams. Montagem: Robert L. Wolfe. Música: Dave Grusin. Figurino: Dorothy Jeakins. Direção de arte/cenários: Stephen Grimes/Jane Bogart. Casting: Dianne Crittenden, Barry Primus. Produção: Bruce Gilbert. Elenco: Henry Fonda, Katharine Hepburn, Jane Fonda, Doug McKeon, Dabney Coleman. Estreia: 04/12/81

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Mark Rydell), Ator (Henry Fonda), Atriz (Katharine Hepburn), Atriz Coadjuvante (Jane Fonda), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Som

Vencedor de 3 Oscar: Ator (Henry Fonda), Atriz (Katharine Hepburn), Roteiro Adaptado

Vencedor de 3 Golden Globes: Filme/Drama, Ator/Drama (Henry Fonda), Roteiro


Existem no mínimo dois motivos para que o filme "Num lago dourado" tenha sido feito. Primeiro, para registrar em película o emocionante encontro entre duas gerações de uma nobre linhagem do cinema americano (que vivem na tela um interessante paralelo do que viviam na realidade) e para dar a Henry Fonda, aos 76 anos de idade, sua maior chance de levar um Oscar. O primeiro objetivo foi atingido plenamente: ao lado da filha Jane, de forma comovente, o veterano ator exorcisa uma difícil relação familiar em frente à plateia de forma comovente. E no resultado do segundo motivo saiu-se ainda melhor: não só Fonda levou a estatueta como sua companheira de cena, Katharine Hepburn arrebatou seu quarto Oscar, estabelecendo um recorde que não dá sinais de ser batido tão cedo.

Escrito pelo dramaturgo Ernest Thompson baseado em sua peça teatral homônima, o roteiro de "Num lago dourado" versa sobre assuntos normalmente considerados venenos de bilheteria, como velhice, medo da morte e relações familiares problemáticas. Totalmente escorado no trabalho de atores e em seus diálogos bem escritos, em detrimento de efeitos visuais e piadas infames (que já na época de seu lançamento faziam a alegria dos estúdios), o filme de Mark Rydell conquista justamente pela simplicidade de seu enredo e pela felicidade na escalação de seu elenco. Ao contrário de aborrecer o público com falas inflamadas e lugares-comuns, "Num lago dourado" oferece à plateia um espetáculo de delicadeza e bom gosto, que exige apenas um mínimo de sensibilidade para emocionar a audiência sem apelar para golpes baixos.

A trama do filme se passa no verão em que Norman Thayler Jr (vivido com sutileza por Henry Fonda em seu último papel) completa 80 anos. Irascível, rabugento e sem maiores admirações pelos seres humanos em geral, ele chega até sua casa de verão com a dedicada esposa Ethel (Katharine Hepburn) pra comemorar seu aniversário e afastar-se do turbilhão da cidade grande. Logo em seguida sua única filha, Chelsea (Jane Fonda) também chega ao local, acompanhada do novo namorado, Bill Ray (Dabney Coleman) e do filho deste (Doug McKeon), um menino de 13 anos de idade, rebelde e pouco amistoso. Fica patente para os visitantes que a relação entre pai e filha não é das mais saudáveis, mas mesmo assim tudo transcorre dentro da normalidade. As coisas mudam de figura quando Chelsea pede aos pais que fiquem cuidando de seu futuro enteado enquanto ela viaja com Bill Ray. O que poderia ser uma temeridade, no entanto, acaba ajudando tanto o menino, que torna-se mais afável, quanto o próprio Norman, que vê no rapaz o neto que nunca teve.

A maior beleza de "Num lago dourado", além de sua fotografia deslumbrante, é a maneira com que o roteiro de Thompson trata suas personagens. Abdicando de qualquer condescendência, ele criou personagens dolorosamente reais, repletos das qualidades e defeitos de qualquer ser humano. Norman é um homem amargurado, chato, de uma misantropia quase patológica, mas ao mesmo tempo se envolve em uma relação de amizade e amor com um pré-adolescente que busca aceitação e carinho. E sua filha, uma mulher fechada em suas mágoas de infância tenta desesperadamente conquistar a admiração de um pai do qual nunca teve mais do que críticas. No meio deles, uma mãe carinhosa e amorosa que luta para uní-los através dos laços de sangue.

É inegável que "Num lago dourado" ganha muito com os embates verbais entre os dois Fonda de seu elenco, ambos vibrantes e à flor da pele. Mas é injusto não aplaudir também a química entre o bom e velho Henry e o menino Doug McKeon (que, a despeito de seu bom trabalho não conseguiu uma carreira decente em Hollywood): as cenas entre os dois transmitem uma ternura quase palpável, que emociona sem ser piegas. E emocionante, aliás, é um eufemismo para o que acontece quando Fonda e Katharine Hepburn estão juntos.

O último ato do filme, em que o velho casal volta a ficar sozinho em casa depois da partida de seus convidados é de uma pungência ímpar. Sem recorrer a truques sujos para tentar a emoção do espectador, o texto de Thompson e a direção elegante de Mark Rydell atingem o máximo de beleza ao deixar que seus intérpretes brilhem ao máximo. E eles dão um show à parte, provando que talento definitivamente não tem idade.

Tuesday, June 22, 2010

CORPOS ARDENTES


CORPOS ARDENTES (Body heat, 1981, Warner Bros, 113min) Direção e roteiro: Lawrence Kasdan. Fotografia: Richard H. Kline. Montagem: Carol Littleton. Música: John Barry. Figurino: Renie Conley. Direção de arte/cenários: Bill Kenney/Rick T. Gentz. Casting: Wally Nicita. Produção: Fred T. Gallo. Elenco: William Hurt, Kathleen Turner, Richard Crenna, Mickey Rourke, Ted Danson, J.A. Preston, Kim Zimmer. Estreia: 28/8/81

No início da década de 80, antes mesmo que o termo "erotic thriller" fosse cunhado e se tornasse quase um subgênero dentro da indústria hollywoodiana, o roteirista Lawrence Kasdan (autor de, entre outros, "Os caçadores da Arca perdida") incendiou o cinema americano com "Corpos ardentes", uma releitura de um estilo caro na década de 40 mas que estava sumido das telas há um bom tempo: os filmes noir. Ao acrescentar tórridas cenas de sexo a uma trama repleta de reviravoltas, sombras, personagens amorais e uma sedutora mulher fatal, o cineasta conseguiu, em sua estreia como diretor, ressuscitar um gênero considerado morto e revelar ao mundo a então estonteante Kathleen Turner.

A trama de "Corpos ardentes" se passa em um escaldante verão na cidade litorânea de Miranda Beach, perto de Miami. É durante essa onda de calor intenso que o advogado mulherengo e pouco ético Ned Racine (William Hurt) conhece e fica fascinado pela bela Matty Walker (Kathleen Turner), uma mulher casada que o envolve facilmente com seu poder de sedução. Não demora muito e logo os dois estão vivendo um tórrido romance baseado em sexo e desejo desmedido. Quando resolvem se livrar do marido de Matty, planejam com cuidado seu assassinato. Logicamente, as coisas não saem como o esperado e Ned se vê no meio de uma perigosa trama que pode levá-lo à prisão.

"Corpos ardentes" é um filme que merece ser visto e revisto. O roteiro de Kasdan consegue equilibrar um texto com diálogos saborosos, personagens bastante interessantes (inclusive um advogado dançarino vivido pelo novato Ted Danson e um especialista em explosivos interpretado por um jovem Mickey Rourke) e viradas qye prendem o espectador na poltrona sem apelar para cartas tiradas da manga. A fotografia calorosa transmite a exata noção das altas temperaturas que empurram suas personagens ao crime e à paixão, emulando com perfeição as principais características do estilo de cinema que legou à história clássicos como "Pacto de sangue", do genial Billy Wilder.

A trilha sonora de John Barry, tonitruante e sempre presente nos momentos cruciais da trama também se destaca por nunca atrapalhar o desenvolvimento da história, por si só forte o suficiente para envolver a plateia. As personagens centrais, por sua vez, são sensacionais: Ned Racine é um advogado mau-caráter, blasé, cafajeste ao extremo e metido a don juan que acaba em uma teia que o joga em um pesadelo sem fim e Matty Walker é o sonho de qualquer atriz que saiba usar o corpo sem parecer vulgar e a voz de veludo sem soar clichê. Fria, calculista e extremamente envolvente, ela seduz não apenas Ned Racine, mas todo o público, que se deixa levar por seu belo sorriso. A cena em que William Hurt quebra uma janela apenas para beijá-la é o ápice de todo o tesão que Kasdan deseja transmitir em sua obra. À plateia resta apenas segurar a respiração.

"Corpos ardentes" é um exemplar muito digno dos chamados "erotic thrillers", lançado em uma época em que as histórias e os climas eram mais importantes do que o sexo pelo sexo. A química entre William Hurt e Kathleen Turner é das mais fascinantes e é utilizada com generosidade por Kasdan, confiante no talento e no carisma do casal. Um filme que precisa ser redescoberto.

Monday, June 21, 2010

OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA


OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA (Raiders of the lost ark, 1981, Paramount Pictures, 115min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Lawrence Kasdan, história de George Lucas e Philip Kaufman. Fotografia: Douglas Slocombe. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Deborah Nadoolman. Direção de arte/cenários: Norman Reynolds/Michael Ford. Casting: Jane Feinberg, Mike Fenton, Mary Selway. Produção executiva: Howard Kazanjian, George Lucas. Produção: Frank Marshall. Elenco: Harrison Ford, Karen Allen, Paul Freeman, Ronald Lacey, John Rhys-Davies, Denholm Elliot, Alfred Molina. Estreia: 12/6/81

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Steven Spielberg), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Direção de arte, Som, Efeitos Visuais


Vencedor de 4 Oscar: Montagem, Direção de arte, Som, Efeitos Visuais

Quando criança, Steven Spielberg adorava aqueles filmes de ação em capítulos que passavam nos cinemas e que tinha como mocinho um herói imbatível e corajoso que vivia se metendo em situações impossíveis de contornar, mas dos quais, como personagem de cinema escapista que era, conseguia sair-se são e salvo. Foi pensando nesses super-heróis humanos e quase verdadeiros que Spielberg criou Indiana Jones, o protagonista de “Os caçadores da Arca Perdida”, filme que pode ser descrito sem medo como o melhor filme de ação de todos os tempos.

Indiana Jones, vivido com propriedade e estilo por um Harrison Ford que ficou com o papel depois que Tom Selleck viu-se obrigado a declinar do mesmo por causa da série de TV “Magnum”, é um arqueólogo que complementa sua renda como professor universitário. Em 1936, conceituado em sua profissão, ele é procurado para encontrar a Arca da Aliança, que, segundo reza a lenda, abriga as Tábuas da Lei, ou seja, os Dez Mandamentos da lei de Deus. Tudo seria razoavelmente fácil se a Arca também não fosse cobiçada pelos nazistas, uma vez que o artefato religioso dá poderes totais a quem a possui. Contando com a ajuda de sua ex-namorada Marion (Karen Allen), que ainda nutre por ele um amor disfarçado de desprezo e raiva, Jones parte para o deserto da África em busca de sua missão. Na sua cola, seu maior rival, o ganancioso Belloq (Paul Freeman).

Alucinante desde sua primeira seqüência, onde Spielberg apresenta o personagem de Jones e com um ritmo impecável, “Os caçadores da Arca Perdida” é o exemplo perfeito de um filme de aventura para toda a família. Sem deixar de preocupar-se com a qualidade do roteiro e com a história que é contada, o diretor mal dá tempo para o público respirar entre uma correria e outra e ainda entrega diálogos engraçados e bem escritos, cortesia de Lawrence Kasdan (diretor do noir “Corpos ardentes”). Contando ainda com efeitos visuais eficientes e utilizados nos momentos certos, Spielberg dá uma aula de como fazer entretenimento de qualidade sem deixar de lado inteligência e personalidade.

É impressionante como Kasdan (que contou com uma pequena ajuda de George Lucas) e Spielberg conseguem captar a essência de um estilo próprio (os filmes seriados dos primórdios do cinema) e fazê-lo tornar-se de uma atemporalidade inquestionável. Dificilmente algum espectador de "Caçadores..." poderá reclamar de seu ritmo (uma vez que a ação não para em momento algum), de sua inteligência (a trama se sustentaria até mesmo como um filme de espionagem), de seu senso de humor (há piadas sutis realmente engraçadas e não forçadas) ou de seu visual (a produção é caprichada e de extremo bom-gosto). Até mesmo a violência da história é velada, o que o faz também indicado a um público bastante jovem (para o que o carisma de Ford, no papel mais marcante de sua carreira apenas colabora com uma felicidade ímpar).

Indicado para o Oscar de melhor filme, “Caçadores da Arca Perdida” perdeu a estatueta para o inglês “Carruagens de fogo”, mas saiu da cerimônia com cinco prêmios, todos amplamente merecidos: direção de arte, montagem, som, efeitos sonoros e efeitos visuais. Cinema escapista de primeira linha, a aventura de Indiana Jones merece o sucesso que fez. Pena que nem todos filmes de ação são assim