Thursday, September 9, 2010

CAMILLE CLAUDEL


CAMILLE CLAUDEL (Camille Claudel, 1988, 158min) Direção: Bruno Nuytten. Roteiro: Bruno Nuytten, Marilyn Goldin, livro de Reine-Marie Paris. Fotografia: Pierre Lhomme. Montagem: Joelle Hache, Jeanne Kef. Música: Gabriel Yared. Figurino: Dominique Borg. Direção de arte: Bernard Vézat. Casting: Shula Siegfried. Produção: Isabelle Adjani, Christian Fechner. Elenco: Isabelle Adjani, Gérard Depardieu, Laurent Grévill, Alain Cuny, Madeleine Robinson, Maxime Leroux. Estreia: 07/12/88

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Atriz (Isabelle Adjani)

Melhor Atriz no Festival de Berlim


"Camille Claudel" é um filme sobre paixão. A paixão desesperada de uma mulher por um homem. E a paixão de uma artista por seu trabalho, por seu dom. É um filme intenso, passional e feito com o amor necessário para se contar uma história de loucura, perda e talento. Uma história real, inacreditável e triste, como toda boa história de amor. E absolutamente verdadeira.

No início de 1885, a jovem aspirante a escultora Camille Claudel (Isabelle Adjani) é aceita como aprendiz pelo célebre Auguste Rodin (Gerard Depardieu). Famoso por seu temperamento forte e pela beleza de seu trabalho, Rodin também é conhecido como um notório sedutor e não demora muito para que sua nova aluna caia de amores por ele. Envolvidos em um escandaloso romance - o mestre é casado e mais velho do que ela - os dois passam a ser objeto de fofocas por toda Paris, principalmente porque Camille frequenta círculos ilustres - é irmã do escritor Paul Claudel e amiga do compositor Paul Debussy, por exemplo. Quando seu relacionamento com Rodin acaba, a bela escultora, ainda apaixonada por ele, começa a entrar em um perigoso declínio psicológico. Paranóica e agressiva, ela passa a acusar o ex-amante de querer acabar com sua carreira artística.

Como bom todo filme francês pré-Amélie Poulain, "Camille Claudel" tem um ritmo próprio - leia-se um tanto lento -, contando sua história sem pressa, aprofundando-se no contexto histórico da trama (é citada, por exemplo, a morte do escritor Victor Hugo) e fugindo da edição veloz típica do cinema americano. Se perde em agilidade, no entanto, o filme de Bruno Nuytten (na época casado com Adjani) ganha em coerência, em honestidade e no cuidado com os detalhes (a reconstituição de época é deslumbrante, assim como a obra de sua protagonista). Mas é no trabalho de Isabelle Adjani que "Camille Claudel" se sustenta.

Já acostumada a papéis fortes de mulheres enlouquecidas de amor (vide seu trabalho em "A história de Adele H.", de François Truffaut), Adjani apresenta aqui sua interpretação mais passional, entregue absolutamente à sua personagem. Os closes do rosto de porcelana da atriz sujos de barro, seus olhos azuis suplicando amor e o desespero que suas belas feições transmitem são a alma de "Camille Claudel". Merecidamente indicada ao Oscar por sua atuação, a atriz francesa mais destacada da década de 90 demonstra claramente porque amealhou milhares de fãs pelo mundo.

Wednesday, September 8, 2010

CORRA QUE A POLÍCIA VEM AÍ


CORRA QUE A POLÍCIA VEM AÍ (The naked gun, 1988, Paramount Pictures, 85min) Direção: David Zucker. Roteiro: Jerry Zucker, David Zucker, Jim Abrahams, Pat Proft. Fotografia: Robert Stevens. Montagem: Michael Jablow. Música: Ira Newborn. Figurino: Mary E. Vogt. Direção de arte/cenários: John J. Lloyd/Rick T. Gentz. Casting: Pamela Basker, Fern Champion. Produção executiva: Jerry Zucker, David Zucker, Jim Abrahams. Produção: Robert K. Weiss. Elenco: Leslie Nielsen, Priscilla Presley, Ricardo Montalban, George Kennedy, O.J. Simpson. Estreia: 02/12/88

Tudo bem que comédias inteligentes, com roteiros repletos de diálogos irônicos e humor sutil fazem a glória do gênero, como bem o sabem fãs de gente como Billy Wilder e Woody Allen. Mas nada como uma grandiosa bobagem para que o público esqueça por uma hora e meia o cérebro e gargalhe à vontade. E é exatamente esse o objetivo de “Corra que a polícia vem aí”, um dos filmes mais engraçados da história do cinema.

Tendo como base a série de TV “Esquadrão de Polícia”, que não vingou nos EUA, o trio ZAZ (responsável também pelos hilários “Apertem os cintos, o piloto sumiu” e “Top secret”) criou uma sucessão de piadas infames, normalmente visuais mas também verbais (o que a tradução por vezes acaba perdendo). O herói (se é que pode ser chamado assim) é o Tenente Frank Drebin (um impagável Leslie Nielsen, no papel de sua vida), que recebe a missão de proteger a Rainha Elizabeth da Inglaterra quando ela chega aos EUA. O que talvez parecesse razoavelmente fácil torna-se complicado quando Drebin descobre um plano para assassinar a monarca durante uma partida de beisebol. Para piorar o policial se apaixona por Jane (Priscilla Presley, a viúva de Elvis, rejuvenescida e igualmente hilária), namorada do mentor do plano (Ricardo Montalban, da “Ilha da Fantasia”).

Em menos de hora e meia de filme, o diretor David Zucker consegue destruir dezenas de clichês que povoam os filmes policiais americanos, mal dando tempo para o público se recuperar de uma gargalhada e logo partindo para outra piada. São tantas bobagens acontencendo, às vezes ao mesmo tempo, que fica difícil sacar todas, o que faz a experiência de rever o filme tão divertida quanto assistí-lo pela primeira vez. Engraçado como poucos, “Corra que a polícia vem aí” é imperdível para quem deseja relaxar e dar boas risadas. E, pro bem e pro mal, marcou indelevelmente a carreira de Leslie Nielsen.

Tuesday, September 7, 2010

A OUTRA


A OUTRA (Another woman, 1988, Orion Pictures, 81min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/George DeTitta Jr. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Gena Rowlands, Mia Farrow, Ian Holm, Gene Hackman, Blythe Danner Martha Plimpton, Frances Conroy, Sandy Dennis, Philip Bosco, Betty Buckley. Estreia: 18/11/88

Emulando mais uma vez Ingmar Bergman, um de seus ídolos máximos (de quem conseguiu inclusive o diretor de fotografia Sven Nykvist), Woody Allen entrega, em “A outra” um de seus mais interessantes trabalhos de sua fase “séria”. Deixando de lado seu humor paranóico-judeu, o cineasta nova-iorquino criou uma pequena obra-prima (e pequena também é sua duração – meros 81 minutos, pouco menos de duas sessões de tearapia).

É justamente sobre terapia seu filme. A protagonista é Marion Post (uma sensacional Gena Rowlands), uma especialista em filosofia, que vive um segundo casamento estável e leva uma vida tranqüila e sem maiores sobressaltos. Para escrever seu novo livro, ela aluga um pequeno apartamento em uma rua tranqüila de Nova York. Para sua surpresa, no entanto, pelo aparelho de ventilação do apartamento, ela consegue ouvir todas as consultas do psicanalista que trabalha ao lado. A princípio incomodada com o fato, ela logo muda de idéia quando começa a ouvir o trabalho do médico com uma jovem grávida (Mia Farrow, que não poderia faltar), cujos problemas refletem aqueles que ela mesma tem e deixa guardados em seu inconsciente. A partir daí, Marion começa a examinar sua vida atual e pregressa, tentando resolver sua relação com o irmão, com o ex-marido, o pai e principalmente revendo seu casamento e seu acabado caso de amor com o melhor amigo de seu marido (em participação pequena mas marcante de Gene Hackman).

Allen consegue, em menos de hora e meia, levar o espectador para dentro da mente da personagem de Rowlands (ajudado, é claro pela performance espetacular da atriz), utilizando de idéias criativas, como uma peça de teatro e idas e vindas no tempo, bem ao gosto de seu mentor Bergman. Pode parecer difícil e pesado. Certamente, leve e divertido como a maioria dos trabalhos do diretor não é. Mas “A outra” tem uma qualidade redentora, além de seu roteiro brilhante e de seu elenco perfeito – é inteligente, faz pensar e não sai da mente do espectador por um bom tempo, como uma boa consulta ao terapeuta.

Monday, September 6, 2010

CINEMA PARADISO


CINEMA PARADISO (Nuovo Cinema Paradiso, 1988, Miramax Films, 124min) Direção e roteiro: Giuseppe Tornatore. Fotografia: Blasco Giurato. Montagem: Mario Morra. Música: Ennio Morricone. Figurino: Beatrice Bordone. Direção de arte: Andrea Crisanti. Produção: Franco Cristaldi, Giovanna Romagnoli. Elenco: Phillipe Noiret, Salvatore Cascio, Marco Leonardi, Pupella Maggio, Agnese Nano, Jacques Perrin. Estreia: 17/11/88

Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro

Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro


Enquanto “A rosa púrpura do Cairo”, de Woody Allen, era uma homenagem ao poder do cinema de deixar a vida menos dolorosa, este “Cinema Paradiso”, do italiano Giuseppe Tornatore e merecido vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro, fala da sétima arte como o que ela realmente é: inspiração, arte e emoção.

E emoção é o que não falta na história contada por Tornatore, também autor do roteiro, belo, engraçado e comovente como poucos. O filme começa quando um bem-sucedido cineasta italiano (vivido por Jacques Perrin) recebe a notícia da morte de um velho amigo, do tempo em que morava em Giancaldo, um pequeno vilarejo siciliano. Sentindo-se triste e comprometido com seu passado, ele retorna a sua cidade e relembra momentos marcantes de sua vida ao lado deste amigo, Alfredo (o sempre ótimo Phillipe Noiret), que era o projecionista do único cinema de sua infância, o Cinema Paradiso.
Ainda chamado de Totó (e vivido pelo inesquecível Salvatore Cascio), quando criança o cineasta via no programa de ir ao cinema o único escape para sua vida de pobreza ao lado da mãe que esperava a volta do marido da segunda guerra. Capaz de usar o dinheiro das compras para assistir aos filmes, censurados rigidamente pelo pároco local, Totó logo faz amizade com Alfredo, que mesmo contra a vontade, o ensina os macetes da profissão. Quando um incêndio destrói o cinema, Alfredo fica cego e impossibilitado de praticar sua função. No momento em que um morador da cidade, ganhador da loteria, resolve inaugurar um novo Cinema Paradiso, sobra para o pequeno fã de filmes a responsabilidade de divertir seus conterrâneos e dessa vez sem os cortes impostos pela Igreja. Finalmente depois de anos, a população de Giancaldo vê um beijo nas telas e se apaixona por gente como Brigitte Bardot e Claudia Cardinale. Quando torna-se adolescente, Totó (na pele de Marco Leonardi) é apresentado ao primeiro amor, na figura da bela Elena.

A primeira metade de “Cinema Paradiso” é uma obra-prima, inspirada descaradamente no neo-realismo italiano, capaz de cenas enternecedoras e divertidíssimas. O ritmo cai um pouco na segunda parte, quando Totó, já um jovem adulto se apaixona e tenta conquistar sua amada, contando com a ajuda de um Alfredo cego e desiludido. Mesmo assim, Tornatore mantém a atenção, com diálogos inteligentes e sensíveis, além de contar uma história de interesse universal. A bela homenagem prestada pelo cineasta à sétima arte é de enternecer, fazendo com que "Cinema Paradiso" tenha um lugar cativo na lista dos fãs de cinema.

No entanto, nada supera os momentos finais de seu filme, quando um presente de Alfredo a seu antigo pupilo consegue emocionar qualquer pessoa com um coração. Não vale a pena contar para quem nunca assistiu (o que para fãs de cinema é imperdoável), mas ficar impassível durante os minutos derradeiros de “Cinema Paradiso”, ao som da inesquecível trilha sonora do mestre Enio Morricone é tarefa das mais difíceis.

Para quem gosta de cinema como diversão ou como obra de arte, “Cinema Paradiso” não é apenas recomendável. É obrigatório!

Saturday, September 4, 2010

ACUSADOS


ACUSADOS (The accused, 1988, Paramount Pictures, 111min) Direção: Jonathan Kaplan. Roteiro: Tom Topor. Fotografia: Ralf Bode. Montagem: O. Nicholas Brown, Jerry Greenberg. Música: Brad Fiedel. Figurino: Trish Keating. Direção de arte/cenários: Richard Kent Wilcox/Barry W. Brolly. Casting: Sally Dennison, Julie Selzer. Produção: Stanley R. Jaffe, Sherry Lansing. Elenco: Jodie Foster, Kelly McGillis, Bernie Coulson, Carmen Argenziano, Leo Rossi, Ann Hearn. Estreia: 14/10/88

Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Jodie Foster)

Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Jodie Foster)


Quando assistiu a "Acusados" pela primeira vez, Jodie Foster achou sua atuação tão ruim que considerou seriamente abandonar Hollywood e dedicar-se à carreira acadêmica. Quando, alguns meses depois, ela ganhou o Oscar de melhor atriz por seu trabalho, felizmente mudou de ideia. E até mesmo quem considerava que Glenn Close era imbatível na categoria, por "Ligações perigosas" é obrigado a admitir que Foster é a melhor coisa do filme. Sorte de Foster - que em pouco tempo estrearia como diretora e levaria uma segunda estatueta, por "O silêncio dos inocentes", sorte dos fãs de cinema e sorte principalmente do filme em si, um drama de tribunal formulaico e, não fosse por ela, esquecível. Sem maiores arroubos de criatividade no roteiro e uma direção anêmica, "Acusados" poderia facilmente ser classificado como um telefilme, tamanha é sua falta de energia. Mas Jodie, definitivamente, faz toda a diferença.

A personagem de Foster é Sarah Tobias, uma garçonete de boca suja, chegada em fumar um baseado de vez em quando e sem grandes pudores. Uma noite, ela vai parar em um bar onde trabalha uma amiga. Tencionando um flerte de leve para provocar o namorado, com quem acabou de brigar, ela acaba sendo violentamente estuprada por três homens, enquanto outros os incitavam e encorajavam com aplausos e gritos de incentivo. Humilhada e machucada, ela conta com a ajuda da advogada Kathryn Murphy (Kelly McGillis) para colocar seus agressores atrás das grades. As coisas não correm conforme o esperado e eles são absolvidos depois de um acordo judiciário. Sentindo-se traída, Sarah desconta a raiva na advogada, que, tocada em seus brios de mulher e profissional, tem a idéia de processar os homens que testemunharam o ato de violência.

E é só isso. O filme não faz muito além de contar sua história, sem desenvolver as suas personagens principais, tão frágeis quanto o roteiro, superficial a ponto de não se aprofundar em nenhuma das inúmeras questões que poderia suscitar. O relacionamento e a solidariedade entre as protagonistas principais, por exemplo, não é discutido a contento, nem muito menos o machismo que as leva a unirem-se mesmo quando seu futuro não aponta para algo muito feliz. Kelly McGillis se deixa levar pela apatia de sua personagem e nem está particularmente bela como em “Top Gun” e “A testemunha”, seus dois filmes mais conhecidos - e isso que ela mesma foi vítima de estupro, em 1982, o que a fez trocar, ao menos na tela, o papel de vítima pelo de advogada. Jonathan Kaplan, o diretor, em alguns anos trocaria o cinema pela TV, dirigindo vários episódios de "Plantão médico".

É somente Jodie Foster, com seu imenso talento que faz sua Sarah Tobias tornar-se maior que o roteiro e a direção e salvar “Acusados” da total mediocridade. E isso que foi apenas a quarta opção para o papel... Como diria Alanis Morissette, isn't ironic??

Friday, September 3, 2010

A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO


A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO (The last temptation of Christ, 1988, Universal Pictures, 164min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Paul Schrader, romance de Nikos Kazantzakis. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Thelma Schoonmaker. Música: Peter Gabriel. Figurino: Jean-Pierre Delifer. Direção de arte/cenários: John Beard/Giorgio Desideri. Casting: Cis Corman. Produção executiva: Harry Ufland. Produção: Barbara De Fina. Elenco: Willem Dafoe, Harvey Keitel, Barbara Hershey, Paul Greco, Verna Bloom, Harry Dean Stanton, David Bowie. Estreia: 12/8/88

Indicado ao Oscar de Diretor (Martin Scorsese)

O cineasta Martin Scorsese foi criado como católico e chegou a freqüentar um seminário, quando teve intenção de tornar-se padre. Talvez esse background inusitado para um diretor de cinema tão chegado a filmes tão violentos e pesados como “Taxi driver” e “Touro indomável” tenha sido o responsável pela gritaria em torno de “A última tentação de Cristo”, adaptação cinematográfica de Scorsese do polêmico livro escrito pelo grego Nikos Kazantzakis, que basicamente criou celeuma ao dar um enfoque humano ao filho de Deus. Anos antes de Mel Gibson encher os bolsos de dinheiro com sua violenta versão da história, em "A paixão de Cristo", Scorsese sofreu para levar às telas a visão filosófico/espiritual de Jesus, que ele compartilhava com o escritor. Tendo lido o livro em 1972 - presente da atriz Barbara Hershey - ele levou mais de quinze anos para finalmente fazê-lo chegar aos cinemas. E ser praticamente apedrejado por isso.

Piquetes em frente aos cinemas, ameaças da Igreja Católica e discussões ao redor do mundo fizeram no entanto que seu filme atingisse uma glória que provavelmente não era de seu interesse. O que o cineasta, um dos mais brilhantes de sua geração, diga-se de passagem, queria – e consegue, a despeito de toda a confusão que desviou do foco principal da produção – era fazer uma obra acima de religiões, teologias e divisões entre crenças. Scorsese queria fazer um filme para reafirmar sua fé e a de quem pudesse ser atingido por sua obra. E saiu-se vitorioso. Há muito que Hollywood devia um filme tão inflamado e apaixonado quanto “A última tentação de Cristo”.

Muito da extrema qualidade do filme vem da energia e da paixão de seus criadores. Indo muito além das belas palavras de Kazantzakis, o roteiro, de autoria do colaborador habitual do diretor, Paul Schrader apresenta, sem ordem cronológica linear, fatos importantes da vida de Jesus Cristo (em uma atuação corajosa de Willem Dafoe) até o momento de Sua crucificação, onde tem a visão do que seria Sua vida se tivesse uma vida de ser humano normal, em um relacionamento carnal com Maria Madalena (Barbara Hershey, bela e sexy),uma família convencional e, heresia das heresias, amantes - sim, no filme Cristo se divide entre duas irmãs, depois da morte da esposa. Justamente esse terço final do filme, o que vem a ser literalmente sua última tentação foi o que incomodou aqueles que têm as Escrituras ao pé da letra e que nem de longe percebeu que, no fim de tudo, ao optar pelo auto-sacríficio, Jesus provou seu amor de forma indelével e salvou a humanidade.

Apesar da beleza de seus momentos finais, onde até o mais renitente cínico pode se emocionar, “A última tentação” é, acima de tudo, cinema da mais alta qualidade. Desde a fotografia de Michael Ballhaus até a trilha sonora de Peter Gabriel, tudo funciona da maneira esperada, inclusive um surpreendente David Bowie como Pilatos - surpreendentemente quem não foi muito feliz em cena foi o veterano Harvey Keitel, que não encontrou o tom certo de seu Judas Iscariotes, dono de algumas das mais emocionais cenas do longa, inclusive o poderoso confronto entre "traidor e traído" na parte final do filme.

Ao contrário de seus detratores mal-informados, a obra de Scorsese devia figurar como obrigatória no ensino de Religião pelos quatro cantos do planeta. Suas discussões legítimas e pertinentes, aliadas ao talento de sua equipe artística - que trabalhou com um orçamento de apenas 7 milhões de dólares - faz de "A última tentação" um dos pontos altos da carreira de seu diretor, que em seguida lançaria um de seus trabalhos mais populares, o suspense "Cabo do medo", feito para agradar à Universal Pictures e que provaria, de forma indubitável que, não importa o gênero, Scorsese é um gênio.

Thursday, September 2, 2010

UM PEIXE CHAMADO WANDA


UM PEIXE CHAMADO WANDA (A fish called Wanda, 1988, MGM Pictures, 108min) Direção: Charles Crichton. Roteiro: John Cleese, história de John Cleese e Charles Crichton. Fotografia: Alan Hume. Montagem: John Jympson. Música: John Du Prez. Figurino: Hazel Pethig. Direção de arte/cenários: Roger Murray-Leach/Stephanie McMillan. Casting: Priscilla John. Produção executiva: Steve Abbott, John Cleese. Produção: Michael Shamberg. Elenco: John Cleese, Jamie Lee Curtis, Kevin Kline, Michael Palin, Maria Aitken. Estreia: 07/7/88

3 indicações ao Oscar: Diretor (Charles Crichton), Ator Coadjuvante (Kevin Kline), Roteiro Original

Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Kevin Kline)


Nada como um time de gênios ingleses para criar uma comédia inteligente e que não apela para palavrões, adolescentes tarados e mulheres nuas. Boa parte da equipe dos enlouquecidos membros do Monthy Phyton esté por trás de “Um peixe chamado Wanda”, uma das mais espetaculares comédias de todos os tempos. E não, não existe um único adolescente em todos os 108 minutos de projeção.

O filme começa com um aparentemente bem-sucedido roubo a uma joalheria. Aparentemente porque o mentor do crime, o inglês almofadinha George Thomason acaba preso, delatado por sua amante, a bela e sexy americana Wanda (Jamie Lee Curtis, deitando e rolando com sua personagem amoral). Wanda na verdade tem um tórrido caso amoroso com Otto (Kevin Kline), que ela mente ser seu irmão, e quer o produto do roubo, uma carga de diamantes só pra eles. O problema é que a única pessoa que pode saber onde estão as jóias é o advogado do mandante, o rígido e desajeitado Archie Leach (o hilariante John Cleese). Aproveitando-se do fascínio que desperta no advogado, Wanda resolve seduzi-lo, para desespero do ciumento Otto, que tem a missão de vigiar o outro integrante do grupo, o gago Kevin (Michael Palin).

O humor de "Um peixe chamado Wanda" é inteligente mas nunca hermético. É anarquista mas nunca político. É sexy, mas nunca vulgar. E é, acima de tudo, uma vitória do humor inglês, sempre sarcástico e irônico. Seja na relação complicada entre Wanda e Archie, com seus encontros desastrados, seja na conduta incoerente de Otto, que lê Nietzsche mas não entende o essencial, seja nas tentativas frustradas de Kevin de eliminar a principal testemunha ocular do roubo, todas as subtramas do roteiro de John Cleese (perfeito em seu constrangimento tipicamente britânico) confluem para uma coesão rara no gênero.

É difícil dizer o que funciona melhor nessa verdadeira obra-prima do humor. O roteiro, impecável, aproveita todas as brechas possíveis para fazer rir, seja nas gritantes diferenças culturais entre americanos e ingleses, seja nas inúmeras reviravoltas que a históra sofre, sempre levando a trama para um final pouco óbvio e absurdo. O elenco beira a perfeição: se os integrantes do Monthy Phyton há muito tempo não precisam provar que sabem fazer humor como poucos são os americanos Jamie Lee Curtis e Kevin Kline que surpreendem. Jamie usa e abusa dos recursos que sua personagem, distante anos-luz de sua baby-sitter de “Halloween”, lhe proporciona e Kline, um respeitado ator canadense de teatro brinca com a própria imagem de sedutor e acabou levando o merecido Oscar de ator coadjuvante, batendo nomes como Alec Guiness e Martin Landau.

O único problema de “Um peixe chamado Wanda” é que, quando ele acaba fica-se com a sensação de que todas as outras comédias que Hollywood insiste em produzir são extremamente sensaboronas.