Friday, December 31, 2010

VELOCIDADE MÁXIMA

VELOCIDADE MÁXIMA (Speed, 1994, 20th Century Fox, 120min) Direção: Jan De Bont. Roteiro: Graham Yost. Fotografia: Andrezj Bartkowiak. Montagem: John Wright. Música: Mark Mancina. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Jackson De Govia/K.C. Fox. Produção executiva: Ian Bryce. Produção: Mark Gordon. Elenco: Keanu Reeves, Dennis Hopper, Sandra Bullock, Jeff Daniels, Alan Ruck, Joe Morton. Estreia: 10/6/94

3 indicações ao Oscar: Montagem, Som, Efeitos Sonoros
Vencedor de 2 Oscar: Som, Efeitos Sonoros


Aqueles que acreditam que, para ser bom, um filme de ação precisa de um orçamento gigantesco e um astro de primeira grandeza devem ter ficado de queixo caído com o desempenho de "Velocidade máxima", lançado pela Fox em 1994. Ao custo de meros 25 milhões de dólares - menos que o salário de Arnold Schwarzenegger, por exemplo - e com um Keanu Reeves pré-Matrix como protagonista, o filme de estreia do diretor de fotografia Jan De Bont como cineasta rendeu pelo menos quatro vezes isso somente no mercado americano e transformou tanto Reeves como Sandra Bullock em ídolos, chegando inclusive a gerar uma tenebrosa continuação - que trocava Keanu por Jason Patric.

Escrito com um invejável senso de ritmo por Graham Yost, "Velocidade máxima" é um filme que funciona justamente por não querer inventar moda. Simples e direto, ele cumpre o que promete em suas duas horas de duração manter a plateia grudada na poltrona do eletrizante início em um elevador em vias de despencar de 40 andares ao climático final no metrô de Los Angeles. Contando ainda com um carismático herói, o policial Jack Traven - papel oferecido a nomes tão díspares quanto Alec Baldwin, Johnny Depp e Tom Hanks antes que Keanu Reeves o assumisse - o filme conquista também por sua despretensão. Apesar de parecer um filme caro (as sequências de ação são caprichadíssimas e em nenhum momento traem seu orçamento apertado), "Velocidade máxima" estreou sem maiores expectativas e talvez por isso mesmo tenha surpreendido tanta gente.


O início de "Velocidade máxima" já dá uma mostra do que vem pela frente quando dois policiais da SWAT, Jack Traven (Keanu Reeves) e Harry Temple (Jeff Daniels) se vêem obrigados a resgatar um grupo de pessoas de um elevador ameaçado de ir pelos ares por um psicopata que exige 3 milhões de dólares em troca de desarmar a bomba. Depois de ser bem-sucedido na missão, Traven é novamente desafiado pelo criminoso - na verdade um ex-policial de nome Howard Payne (Dennis Hopper) - quando fica sabendo que uma bomba está armada em um dos ônibus da cidade de Los Angeles. Uma vez que o ônibus não pode nunca andar a menos de 50 milhas por hora para que a bomba não exploda, ele conta com a ajuda da civil Annie (Sandra Bullock) - que perdeu a licença de motorista justamente por excesso de velocidade - para manter o veículo em movimento e salvar a vida dos passageiros.

A maior qualidade de "Velocidade máxima" é justamente a maneira com que o roteiro de Yost e a direção de Jan De Bont combinam de forma a jamais perder a atenção da audiência. Não há cenas desnecessárias e a edição enxuta de John Wright extrai o melhor de cada sequência, todas elas de perder o fôlego. Tecnicamente impecável - foi oscarizado em duas categorias sonoras - o filme não deixa espaço para questionamentos racionais, utilizando o escapismo com inteligência e parcimônia. O único escorregão talvez seja o romance pouco provável entre os protagonistas quem, em uma situação extrema como a mostrada no filme conseguiria cair de amores por quem quer que seja??

Aliás, é perceptível, já em "Velocidade máxima", o quanto Sandra Bullock é chata. Sua personagem é irritante, esganiçada e cansativa e Bullock - em vias de tornar-se uma espécie de namoradinha da América graças a filmes como "Enquanto você dormia" - não é muito diferente. A historinha de amor entre Annie e Traven é o único elo fraco de um filmaço de ação que nada deixa a dever a seus irmãos mais anabolizados. "Velocidade máxima" é um clássico dos anos 90!

Thursday, December 30, 2010

MAVERICK


MAVERICK (Maverick, 1994, Warner Bros/Icon Entertainment, 127min) Direção: Richard Donner. Roteiro: William Goldman, personagens criados por Roy Huggins. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Stuart Baird, Mike Kelly. Música: Thomas Newman. Figurino: April Ferry. Direção de arte/cenários: Tom Sanders/Lisa Dean. Produção: Bruce Davey, Richard Donner. Elenco: Mel Gibson, Jodie Foster, James Garner, Alfred Molina, James Coburn, Graham Greene, Dan Hedaya. Estreia: 20/5/94

Indicado ao Oscar de Figurino




"Maverick", dirigido pelo mesmo Richard Donner da série "Máquina mortífera" se beneficiou de duas tendências comerciais que estavam em voga no início dos anos 90: os faroestes e as adaptações de séries de TV para o cinema. Tanto "Os imperdoáveis" - western de Clint Eastwood - e "O fugitivo" - estrelado por Harrison Ford - haviam sido grandes sucessos de bilheteria e o primeiro chegou a faturar o Oscar de melhor filme. Aproveitando a onda, Donner juntou-se ao amigo Mel Gibson e correu pro abraço. Com uma renda de mais de 100 milhões de dólares somente no mercado americano, "Maverick"  fechou as contas com um belo saldo, e de quebra, apesar de não ter chegado nem perto das cerimônias de premiação, parece ter divertido tanto o elenco quanto a plateia.

Criado por Roy Huggins na década de 50 e interpretado na TV por James Garner, Bret Maverick chegou às telas na pele de Mel Gibson, em vias de tornar-se um diretor respeitado e oscarizado pelo épico "Coração valente". No roteiro de William Goldman - que ecoa, guardadas as devidas proporções, seu trabalho em "Golpe de mestre" - Maverick é um conceituado jogador de pôquer que precisa juntar dinheiro suficiente para participar de um torneio milionário que acontecerá em um barco. Disposto a arrecadar a grana necessária, ele vai em busca de alguns credores, encontrando em seu caminho o xerife Cooper (o próprio Garner em participação afetiva) e a trapaceira Annabelle Bransford (Jodie Foster pela primeira vez em um papel menos sério dos que costuma interpretar). Juntos, eles passarão por situações inacreditáveis - diligências desgovernadas, ataques indígenas (em uma participação hilária de Graham Greene), roubos e trapaças, além de um violento rival (Alfred Molina) que, a mando de alguém cuja identidade ninguém conhece, tenta impedí-lo de inscrever-se no torneio.



"Maverick" é quase um "Máquina mortífera" no velho-oeste. É impossível dissociar Bret Maverick de Martin Riggs, vivido por Gibson na série do mesmo Richard Donner - e a impagável participação especial de Danny Glover reitera a afirmação. O senso de humor familiar, o talento em dirigir cenas de ação e o controle do ritmo identificam claramente o estilo do cineasta, que iniciou uma brilhante carreira no final dos anos 70 com "Superman, o filme" e depois do quarto capítulo de "Máquina mortífera", em 1998, entrou em uma curva descendente que ainda se mantém. Em "Maverick", Donner brinca com os clichês do velho oeste com um carinho evidente - até mesmo a direção de arte soa um tanto fake, o que lhe dá um certo charme retrô que encontra no elenco escolhido acertadamente um complemento extremamente feliz.

Se Gibson já estava estabelecido como um ator de filmes de ação quando interpretou Bret Maverick o mesmo não pode ser dito de Jodie Foster. Atriz séria, respeitada e especializada em papéis fortes e densos, a vencedora de dois Oscar apresenta, como Annabelle Bransford, uma faceta até então desconhecida para seus inúmeros fãs. Com um perfeito timing cômico e uma feminilidade poucas vezes explorada em seus trabalhos, Foster rouba a cena, principalmente quando atua com Mel Gibson - a química do casal é hilariante e eles aproveitam os diálogos de Goldman com inteligência e frescor. Ver Jodie tão à vontade - na época em que estava em vias de estrear mais um de seus dramas pesados, "Nell", que lhe deu mais uma indicação ao Oscar - é mais um motivo forte para que se assista a Maverick.

Divertido do começo ao fim, "Maverick" é uma sessão da tarde com todas as qualidades que fazem dos filmes de Richard Donner tão agradáveis. Com um humor que não ofende ninguém, um grupo de atores em dias inspirados e um roteiro que nunca cai no marasmo, é uma pedida perfeita para momentos de tédio. Não muda a vida de ninguém, mas diverte.

Wednesday, December 29, 2010

A RAINHA MARGOT

A RAINHA MARGOT (La reine Margot, 1994, Renn Productions, 144min) Direção: Patrice Chereau. Roteiro: Patrice Chereau, Danielle Thompson, romance de Alexandre Dumas. Fotografia: Phillipe Rousselot. Montagem: François Gédigier, Hélène Viard. Música: Goran Bregovic. Figurno: Moidele Bickel. Direção de arte: Richard Peduzzi, Olivier Radot. Produção executiva: Pierre Grunstein. Produção: Claude Berri. Elenco: Isabelle Adjani, Daniel Auteil, Virna Lisi, Vincent Perez, Jean-Hugues Angladé, Pascal Greggory, Miguel Bosé, Thomas Kreschtmann. Estreia: 13/5/94

Indicado ao Oscar de Figurino
Palma de Ouro no Festival de Cannes: Melhor Atriz (Virna Lisi)
Vencedor do Prêmio do Júri - Festival de Cannes


Sempre que um filme francês foge de seu tradicional padrão - leia-se ritmo lento, verborragia excessiva e conteúdo existencial/dramático - a imprensa especializada apressa-se em encontrar nele ecos do cinema americano, depreciando suas qualidades próprias. Foi isso que aconteceu, por exemplo, com a adaptação do romance "A rainha Margot", do escritor Alexandre Dumas. Violento, ágil e principalmente muito caro, o filme de Patrice Chereau encontrou brava resistência junto à crítica, que o acusou de ser derivativo do cinema hollywoodiano. Isso não o impediu, porém, de encontrar seu público - fez enorme sucesso comercial - e de encantar o júri do Festival de Cannes - que deu a Virna Lisi o merecidíssimo prêmio de melhor atriz.

Ainda que seja coadjuvante - a protagonista é vivida por uma deslumbrante Isabelle Adjani - a Catarina de Médicis criada por Lisi é, sem sombra de dúvida, a personagem mais interessante do filme, uma presença maligna e ambiciosa que rouba todas as cenas em que aparece. Espectral como um fantasma e malévola como tal, Catarina manipula todos a seu redor, com o objetivo único de entregar o poder da França a seu filho preferido, o Conde D'Anjou (Pascal Greggory), mesmo que, para isso, tenha que ser a responsável por um dos episódios mais sangrentos da história de seu país.

A trama de Dumas - adaptada a contento por Chereau e Danielle Thompson - se passa na Paris de 1572, quando as brigas entre católicos e protestantes estão a um passo de transformarem-se em uma guerra civil. Para apaziguar ambos os lados, o Rei Charles (o ótimo Jean-Hugues Angladé) acata a ideia de sua mãe, Catarina de Médicis (Virna Lisi) de casar sua irmã católica, Margot (Isabelle Adjani) com Henrique de Navarre (Daniel Auteiuil), um rei protestante. O que era para ser uma ocasião festiva, no entanto, torna-se uma noite sangrenta quando, devido a articulações de Catarina, centenas de protestantes são assassinados violentamente. Refugiando-se da morte no quarto de Margot - casada contra a vontade e não exatamente um exemplo de puritanismo, uma vez que tem dezenas de amantes - o jovem La Môle (Vincent Perez) acaba se apaixonando por ela e sendo correspondido. Para ficarem juntos, eles precisam sobreviver às intrigas do palácio e à violência da ambição de Catarina e seu séquito, capazes de conspirações e assassinatos covardes.

Vendido ao mercado internacional como uma história de amor, na verdade "A rainha Margot" é um épico repleto de suspense, interpretado por alguns dos melhores atores franceses de sua época. Ao lado da impressionante Virna Lisi e da bela Isabelle Adjani estão nomes como Daniel Auteil e Jean-Hugues Angladé, que extraem o melhor possível de seus papéis, em especial o segundo, que, na pele do fraco rei Charles - que tem um filho bastardo mas não a coragem de assumí-lo perante a corte e sua dominadora mãe - dá um show particular. Principal vítima das articulações maldosas de sua progenitora, ele acaba sendo sacrificado por engano, culminando na tragédia do desfecho do filme - que não se deixa seduzir por um falso final feliz.

Fotografado com precisão por Phillipe Rousselot - que amplia a escuridão dos palácios e das ruas de Paris para reiterar as trevas que circundam as personagens - e com uma reconstituição de época caprichada (com ênfase no figurino indicado ao Oscar de Moidele Bickel), "A rainha Margot" conquista justamente pelos motivos que incomodaram os críticos sem abdicar dos elementos próprios de sua cinematografia (nudez frontal masculina ainda é tabu em Hollywood, por exemplo) e absorvendo o melhor do cinema americano, ele é um filme que serve tanto como entretenimento quanto como história (ainda que disfarçada de romance). Não é um típico produto francês, mas é bem mais nutritivo do que filmes de ação americanos.

Tuesday, December 28, 2010

BACKBEAT, OS CINCO RAPAZES DE LIVERPOOL

BACKBEAT, OS CINCO RAPAZES DE LIVERPOOL (Backbeat, 1994, Polygram Filmed Entertainment) Direção: Iain Softley. Roteiro: Iain Softley, Michael Thomas, Stephen Ward. Fotografia: Ian Wilson. Montagem: Martin Walsh. Música: Don Was. Figurino: Sheena Napier. Direção de arte/cenários: Joseph Bennett/Barbara Herman-Skelding. Produção executiva: Hanno Huth, Nik Powell. Produção: Finola Dwyer, Stephen Wooley. Elenco: Stephen Dorff, Sheryl Lee, Ian Hart, Gary Bakewell, Chris O'Neill, Scott Williams, Kai Wiesinger. Estreia: 01/4/94


Stuart Sutcliffe nasceu em Edimburgo (Escócia) em 23 de junho de 1940 e morreu de hemorragia cerebral em Hamburgo (Alemanha) em 10 de abril de 1962. Como artista plástico, foi extremamente elogiado, tendo sido influenciado por artistas abstratos expressionistas americanos e exposto em galerias do mundo todo. Apesar de seu inegável talento como pintor, no entanto, Stuart não ficou conhecido através de sua arte e sim por um fato de extrema importância no universo musical - Stuart Sutcliff, ou simplesmente Stu foi o quinto Beatle, antes que Lennon, McCartney & cia dominassem o mundo. E a história da amizade entre ele e John Lennon - e a espécie de triângulo amoroso formado por eles e a fotógrafa Astrid Kircherr - é contada em "Backbeat, os cinco rapazes de Liverpool".

Inspirado pela comoção pública em torno da morte de John Lennon em dezembro de 1980, o britânico Iain Softley demorou mais de uma década para passar da ideia à ação. É difícil dizer com certeza, mas provavelmente nesse caso o tempo foi um belo aliado. Distante do calor do momento e da imaturidade inerente à juventude, o cineasta realizou um filme sóbrio, elegante e sem os exageros de um fã. No roteiro co-escrito pelo diretor ao lado de Stephen Ward e Michael Thomas, as personagens não são astros do rock: são jovens ambiciosos e talentosos em busca do lugar ao sol e completamente entregues à sua vontade de viver.

A trama de "Backbeat" começa quando Lennon (Ian Hart) convence seu melhor amigo, Stu (Stephen Dorff) a utilizar o dinheiro da venda de um quadro na compra de um baixo. Mesmo sem muito talento para a música, o rapaz aceita acompanhar o amigo e os outros integrantes de sua banda a uma viagem a Hamburgo, na Alemanha. Lá, os dois, acompanhados de Paul McCartney (Gary Bakewell) e Pete Best (Chris O'Neill) fazem uma série de shows em bares um tanto decadentes. Tudo sofre uma reviravolta quando entram em cena o artista plástico Klaus (Kai Wiesinger) e a bela fotógrafa Astrid (Sheryl Lee, a Laura Palmer da série de TV "Twin Peaks"), que cria o visual da banda. Apaixonado pela bela alemã, Stu passa a dedicar-se mais à pintura do que à música, o que apressa seus conflitos com a banda e com o melhor amigo, enciumado com a relação entre os dois.


O roteiro de "Backbeat" concentra-se principalmente nas relações entre Lennon/Astrid/Stuart. Dividido entre uma promissora carreira plástica uma medíocre trajetória como músico, Stu não deseja magoar os sentimentos do melhor amigo, a quem a banda é o mais importante de tudo. Mesmo assim, ele sabe, sem dúvida alguma, que ama Astrid, e que não pretende abandoná-la para acompanhar o grupo musical dos amigos. Essa crise existencial de Sutcliffe é a alma do filme de Softley e encontra em Stephen Dorff um intérprete à altura: mesmo que não seja exatamente carismático, Dorff é o ator ideal para encarnar as dúvidas de sua personagem, sempre à beira de um colapso nervoso. Com uma química invejável com Sheryl Lee (linda e etérea), ele também consegue fazer com Ian Hart uma dupla verossímil e afinada. Mesmo que não seja fisicamente ideal para o papel de Lennon, Hart entrega uma atuação visceral e intensa, que conquista o público justamente por sua entrega.


Ao contar a história dos Beatles antes que eles se tornassem os Beatles que todo mundo conhece, "Backbeat" aproveita para apresentar ao público uma trilha sonora vibrante e contagiante. Músicas dos primórdios da banda mais famosa do mundo desfilam pela tela, comentando a ação em cenas que desafiam qualquer um a ficar parado. A musicalidade dos Beatles sempre esteve presente, parece querer dizer o roteiro e as cenas pré-Cavern Club, e as tragédias pessoais pelas quais passou o grupo apenas fomentaram uma das bandas mais sensacionais, criativas e mágicas da história.

"Backbeat" é um filme de fãs para fãs. Mas é também a história de uma amizade, de um amor e de uma tragédia. É simples e sofisticado, assim como as músicas dos Beatles. Delicioso!

Monday, December 27, 2010

TRÊS FORMAS DE AMAR

TRÊS FORMAS DE AMAR (Threesome, 1994, MCPA/TriStar Pictures, 93min) Direção e roteiro: Andrew Fleming. Fotografia: Alexander Gruszynski. Montagem: William C. Carruth. Música: Thomas Newman. Figurino: Deborah Everton. Direção de arte/cenários: Ivo Cristante/Tim Colohan. Produção executiva: Cary Woods. Produção: Brad Krevoy, Steven Stabler. Elenco: Lara Flynn Boyle, Josh Charles, Stephen Baldwin, Alexis Arquette. Estreia: 08/4/94


Stuart é um rapaz mulherengo, metido a conquistador e extrovertido. Eddy é tímido, sensível e estudioso. Completamente diferentes entre si, eles dividem um dormitório na universidade e acabam tornando-se amigos inseparáveis, cada um ajudando o outro em suas dificuldades. Seu equilíbrio sofre um abalo, porém, quando eles são obrigados a conviver com Alex, uma estudante de teatro bela e carente que, confundida com um homem por causa de seu nome, vai parar no mesmo quarto. Fissurado por Alex, Stuart não percebe que ela está apaixonada por Eddy, que, por sua vez, tem uma queda nada discreta pelo melhor amigo.

Com essa premissa simples e sem maiores pretensões artísticas, o diretor e roteirista Andrew Fleming criou "Três formas de amar", considerado pela crítica como um dos principais filmes a retratar a Geração X - aquela nascida entre os anos 60 e 70 e que rompeu com muitos dos padrões comportamentais de seus pais. Ao centrar seu foco nas angústias, dúvidas e medos relativos à sexualidade no início da juventude, o filme de Fleming encontrou eco em seu público-alvo - ainda que não tenha sido um imenso sucesso comercial, o bizarro triângulo amoroso formado por Stuart-Alex-Eddy conquistou fãs incondicionais, talvez principalmente pelo fato de o roteiro jamais julgar ou criticar quaisquer atos de suas personagens. Dono de um humor que não agride ninguém, no entanto, "Três formas de amar" acaba mirando na transgressão e acertando no quase politicamente correto, o que de certa forma enfraquece os ideais libertários de sua concepção.

Na pele de Alex, a bela Lara Flynn Boyle (musa de David Lynch na série "Twin Peaks") tem seu melhor momento nas telas. Com um ótimo timing cômico e uma sensualidade não-óbvia, ela convence plenamente tanto como interesse sexual de Stuart (um Stephen Baldwin que não vingou como galã como esperavam os produtores) quanto como mulher apaixonada (por um Josh Charles encarnando com perfeição um tipo "guy next door"). Flynn Boyle faz o que pode com um roteiro que, apesar de engraçado e aparentemente avançado, não aprofunda a contento nenhuma de suas personagens, preferindo tornar leve uma trama que - a julgar por François Truffaut e seu "Jules & Jim" (citado no filme em uma breve cena) - poderia descambar para a tragédia. No entanto, nouvelle vague não é Hollywood e a ordem em "Três formas de amar" é divertir a plateia. E nesse ponto Andrew Fleming não deixa a desejar.

"Três formas de amar" é, antes de tudo, um típico produto de sua época: antenado, descolado, bem-humorado e com uma trilha sonora das mais adequadas - U2, New Order, Teenage FanClub. Esteticamente agradável e com alguns insights bastante interessantes sobre a juventude anos 90 - eternamente em busca do amor e do prazer em doses proporcionais - o filme de Fleming jamais decepciona seu público-alvo, apesar de esbarrar em um final um tanto moralista e melancólico e não se permitir chegar aos extremos que a relação entre os protagonistas poderiam chegar.

Longe de ser trangressor como a trama pode sugerir, "Três formas de amar" é, no fundo, uma comédia romântica como qualquer outra - excetuando-se, é claro, o fato de não contar uma história de amor açucarada como normalmente acontece nos filmes do gênero. Logicamente não é um filme para todos os públicos - ainda que até mesmo as cenas de sexo sejam pouco explícitas e de bom-gosto, é pouco provável que agrade às fãs mais conservadoras de filmes como "Uma linda mulher" e "Sintonia de amor". Mas é uma das mais corajosas obras direcionadas ao público jovem da década - ainda que a ideia seja mais ousada do que seu desenvolvimento.

Sunday, December 26, 2010

FORREST GUMP, O CONTADOR DE HISTÓRIAS

FORREST GUMP, O CONTADOR DE HISTÓRIAS (Forrest Gump, 1994, Paramount Pictures, 142min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Eric Roth, romance de Winston Groom. Fotografia: Don Burgess. Montagem: Arthur Scmidt. Música: Alan Silvestri. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Rick Carter/Nancy Haigh. Produção: Wendy Finerman, Steve Starskey, Steve Tisch. Elenco: Tom Hanks, Sally Field, Robin Wright, Gary Sinise, Mykelty Williamson, Haley Joel Osment. Estreia: 06/7/94. Bilheteria nos EUA: U$ 329.691.196

13 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Zemeckis), Ator (Tom Hanks), Ator Coadjuvante (Gary Sinise), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários, Efeitos Visuais, Som, Efeitos Sonoros, Maquiagem
Vencedor de 6Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Zemeckis), Ator (Tom Hanks), Roteiro Adaptado, Montagem, Efeitos Visuais
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Robert Zemeckis), Ator/Drama (Tom Hanks)


É engraçado como alguns filmes conseguem um diálogo imediato com a plateia, mesmo que aparentemente nada tenham a ver com ela. Talvez seja culpa do cinismo que assolava o cinema americano dos anos 90, talvez seja porque o público estava precisando de uma espécie de super-herói humano, mas o fato é que "Forrest Gump, o contador de histórias", de Robert Zemeckis simplesmente superou toda e qualquer expectativa de seu estúdio (a Paramount Pictures) e, com uma renda superior a 300 milhões de dólares somente no mercado americano, tornou-se parte do inconsciente coletivo não apenas de uma nação, mas do mundo todo. Com sua mistura perfeita entre comédia, drama e efeitos visuais impecáveis, a adaptação do romance de Winston Groom foi o grande vencedor do Oscar de 1994 em seis categorias - incluindo as principais: filme, diretor e ator (o segundo consecutivo de Tom Hanks). O melhor de tudo é que mereceu o sucesso todo.

"Forrest Gump" é um filme difícil de resumir. O protagonista - vivido magistralmente por Hanks - é um rapaz de QI abaixo da média que, desde a infância traumática (abandonado pelo pai, com problemas nas pernas) contou com a superproteção da mãe (interpretada com gosto por Sally Field, apenas dez anos mais velha do que Hanks na vida real). Graças a ela, Gump estudou em uma escola para crianças normais, onde conheceu e se apaixonou à primeira vista pela doce Jenny (interpretada por Robin Wright na idade adulta). Sem dar importância a suas limitações, o rapaz entra na universidade devido a seu dom como esportista, volta da guerra do Vietnã condecorado (depois de salvar a vida de quase todo o seu pelotão), inicia um bem-sucedido negócio no ramo da pesca de camarão, torna-se ídolo do ping-pong e estampa capas de revistas depois que resolve correr país afora. Nesse ínterim, conhece três presidentes americanos, é testemunha do caso Watergate, trava conhecimento com Elvis Presley e John Lennon e em momento algum esquece ou desiste de proteger a mulher por quem é loucamente apaixonado.

Forrest Gump, o protagonista, é uma das mais carismáticas personagens da história do cinema americano. Ingênuo, simples e amoroso, Gump é uma espécie de alter-ego lúdico de qualquer pessoa da plateia. Homens ou mulheres, adultos ou crianças, todos se envolvem positivamente com sua trajetória: ele não deseja ser herói ou ídolo, ele simplesmente o é, por acaso puro e simples. Presente sempre no lugar certo e no momento exato, Forrest Gump é testemunha ocular da história americana e o fato de não ser nada além de um "caipira" do Alabama faz com que o público se identifique com ele de forma incondicional. Ao contrário do protagonista de "Rain Man", por exemplo, ele não é genial com números ou irritantemente metódico: ele é um homem com inteligência abaixo da média mas com um coração imenso e fiel.


Metódico somente o trabalho de Tom Hanks: em uma atuação consagradora, o único ator a conseguir o feito de arrebatar 2 Oscar consecutivos (o outro foi Spencer Tracy) construiu um Forrest Gump exemplar. Somente seu meticuloso trabalho vocal e corporal já lhe justificaria a estatueta, mas além disso, ele consegue humanizar sua personagem sem nunca escorregar na tentação de transformá-la em uma aberração simpática. Na interpretação de Hanks, Gump é um ser humano e não uma personagem inverossímil e, para isso, ele conta com um elenco coadjuvante de peso. Além de Field - já acostumada a conquistar o público sem muito esforço - a bela Robin Wright e o experiente Gary Sinise não ficam atrás em matéria de intensidade. Wright - na época mais conhecida por ser namorada de Sean Penn - alcança o equilíbrio perfeito entre as insanidades e a melancolia de sua Jenny, uma jovem marcada por uma infância violenta e uma vida adulta sofrida e inconstante. E Sinise - indicado ao Oscar de coadjuvante - vive um Tenente Dan Taylor excepcional (e para isso também conta a perfeição dos efeitos visuais que lhe arrancam as pernas na maior parte do filme).

Os efeitos visuais, aliás, merecem um capítulo à parte: ao misturar com extrema perfeição cenas do filme com imagens de arquivo, Robert Zemeckis atingiu um nível de excelência que é capaz de assombrar mesmo depois de quase 17 anos. Sem deixar que o aspecto técnico sobressaísse em relação ao nível emocional da trama - por si só empolgante o suficiente - o cineasta provou que, mais do que um diretor conectado aos avanços dos efeitos visuais, ele é acima de tudo um real artista, cuja principal preocupação é contar uma boa história. E uma boa história não é o que falta a "Forrest Gump".

O roteiro excepcional de Eric Roth - também vencedor do Oscar - é um primor de inteligência, bom-humor e ritmo. Em nenhum momento "Forrest Gump" é previsível ou carece de ritmo. Equilibra piadas irônicas com cenas de partir o coração. Alterna uma música original belíssima de Alan Silvestri com uma seleção de canções dos anos 60 de encantar os ouvidos. Mas, acima de tudo, jamais subestima a inteligência e a sensibilidade do espectador. Um clássico instantâneo e um dos filmes mais importantes da história do cinema!

Wednesday, December 22, 2010

A CASA DOS ESPÍRITOS


A CASA DOS ESPÍRITOS (The house of the spirits, 1993, Costa do Castelo Filmes, 140min) Direção: Bille August. Roteiro: Bille August, romance de Isabel Allende. Fotografia: Jorgen Persson. Montagem: Janus Billeskov Jansen. Música: Hans Zimmer. Figurino: Barbara Baum. Direção de arte/cenários: Anna Asp/Soren Gam. Produção executiva: Edwin Leicht, Dieter Meyer, Mark Rosenberg, Paula Weinstein. Produção: Bernd Eichinger. Elenco: Jeremy Irons, Meryl Streep, Glenn Close, Winona Ryder, Antonio Banderas, Vanessa Redgrave, Armin Mueller-Stahl, Teri Polo, Vincent Gallo, Maria Conchita Alonso. Estreia nos EUA: 01/4/94

Demorou anos até que o best-seller da escritora chilena Isabel Allende chegasse às telas. E eis que finalmente, chegou, nas mãos do cineasta Bille August, mas pasteurizado, simplificado e até mesmo decepcionante para quem leu sua obra-prima. Quem não passou os olhos pelo longo romance, no entanto, pode gostar do filme e até se emocionar, graças ao grande e competento elenco, que passa por cima dos defeitos da adaptação simplista feita pelo próprio diretor. "A casa dos espíritos", o filme, não chega aos pés do romance que lhe deu origem, mas não chega exatamente a destruí-lo.

Sobrinha do ex-presidente Salvador Allende, Isabel utilizou em seu romance elementos sobrenaturais que lembrava a prosa realista-fantástica de Gabriel García Marquez, mas que, em formato áudio-visual, são apenas detalhes quase insignificantes em meio à longa saga da família Trueba. Tudo bem que condensar décadas da vida de uma família em pouco mais de duas horas de duração não é tarefa das mais fáceis, principalmente levando-se em conta que a autora mistura mediunidade com política, amores proibidos e psicologismos freudianos e que dar profundidade a isso em um único longa-metragem é um esforço hercúleo e normalmente inglório. Mas August, diretor do belo "Pelle, o conquistador", vencedor do Oscar de filme estrangeiro em 1989 poderia ter sido menos acadêmico no que é seu trabalho mais ambicioso comercialmente.
A história começa quando o pobre mas ambicioso Esteban Trueba (Jeremy Irons, que convence de jovem a idoso) pede a mão da bela Rosa (Teri Polo) a seus cuidadosos pais (Armin Mueller-Stahl e Vanessa Redgrave, subaproveitados). Querendo enriquecer o mais rapidamente possível, ele vai trabalhar em uma mina de diamantes, mas quando retorna para a mulher que ama, a encontra morta, vítima de um atentado político contra seu pai. Desesperado de dor, ele se refugia no trabalho de construir a Fazenda Três Marias ao lado da irmã solteirona Ferula (Glenn Close), que passou a vida cuidando da mãe doente. Depois de vinte anos, Esteban pede em casamento a irmã de Rosa, Clara (Meryl Streep), uma médium que vive em seu próprio mundo e que adota Ferula como sua irmã de coração.

É a saga da família Trueba que é contada no romance e no filme. Décadas depois de seu casamento com Clara, Esteban vê Blanca (Winona Ryder) sua única filha dentro do casamento - a despeito de no mínimo um filho bastardo ressentido contra a própria pobreza - envolver-se romanticamente com Pedro (Antonio Banderas), líder sindicalista que prega melhores condições de trabalho na fazenda dos Trueba e que passa a ser perseguido depois do golpe militar do início dos anos 70 - que depôs, inclusive, o tio da escritora.

O roteiro de August concentra-se bem mais nos problemas políticos e sociais da história do que em seus elementos sobrenaturais - o que faz com que o título soe meio deslocado. Se acerta por um lado, deixa fãs inconsoláveis de outro. Acerta em deixar o rojão maior nas mãos competentes de Jeremy Irons, mas não aproveita como deveria a dupla Meryl Streep e Glenn Close, que, embora menos exploradas do que deveriam, nunca deixam de dar seu show particular: nas cenas em que qualquer uma delas está presente, o filme cresce emocionalmente - tome-se como exemplo a cena em que Clara beija Ferula no rosto, em um restaurante, e ela chora dizendo que nunca foi querida por ninguém. Também é comovente o encontro entre Blanca, à beira da morte depois das torturas impostas pelos militares, com o espírito de sua mãe, que a convence a permanecer viva.

Ainda que não consiga atingir todas as nuances do belo romance de Allende - passando muito superficialmente por temas espinhosos, como o amor que Ferula sente pela cunhada e a relação entre Trueba e as empregadas que ele violentava - a adaptação de "A casa dos espíritos" para o cinema consegue ser interessante o bastante para segurar a audiência na poltrona. Mas, perto da obra-prima que poderia ser, não deixa de ser decepcionante. Felizmente o elenco salva miraculosamente o resultado final.