Monday, July 11, 2011

CLUBE DA LUTA

CLUBE DA LUTA (Fight club, 1999, Fox 2000 Pictures, 139min) Direção: David Fincher. Roteiro: Jim Uhls, romance de Chuck Palahniuk. Fotografia: Jeff Cronenweth. Montagem: James Haygood. Música: The Dust Brothers. Figurino: Michael Kaplan. Direção de arte/cenários: Alex McDowell/Jay R. Hart. Produção executiva: Arnon Milchan. Produção: Ross Grayson Bell, Cean Chaffin, Art Linson. Elenco: Edward Norton, Brad Pitt, Helena Bonham Carter, Jared Leto, Meat Loaf. Estreia: 15/10/99

Indicado ao Oscar de Efeitos Sonoros

Poucas vezes um filme consegue ser tão fiel à sua origem literária quanto “Clube da luta”, um petardo estilístico dirigido pelo genial David Fincher baseado no livro do ex-mecânico Chuck Palahniuk que deixou meio mundo de queixo caído com suas idéias radicais contra a propriedade, a sociedade e o governo e por essa mesma razão fracassou vergonhosamente nas bilheterias americanas, apesar do apelo do nome Brad Pitt nos cartazes. A vergonha, no caso, não é de Fincher, que forjou uma pequena obra-prima do inconformismo. A vergonha é do público, que mostrou-se medíocre a ponto de deixar passar um dos filmes mais inteligentes dos anos 90, tanto em conteúdo quanto em visual. O filme só não passou totalmente em branco porque acabou sendo acusado de incitar a violência – o que também foi dito de “Laranja mecânica”, no início dos anos 70, diga-se de passagem -, no que não foi ajudado com o fato de que várias pessoas foram assassinadas em um cinema que apresentava o filme. Coincidência ou não, a trágica notícia eclipsou as inúmeras qualidades da obra, de longe um dos melhores trabalhos tanto de Fincher quanto de Brad Pitt.

Na verdade a história é sobre um jovem executivo (vivido com a habitual competência por Edward Norton) que, em crises cada vez mais assustadoras de insônia encontra a solução frequentando sessões de ajuda para doentes (câncer, enfisema e afins). Na mesma época em que conhece outra fraude nas sessões a intrigante Marla Singer (dando um adeus vitorioso aos filmes de época pelos quais ficou conhecida) ele perde seu apartamento, repleto de objetos caros e vai morar com Tyler Durden (um Brad Pitt hilário, sexy e notadamente divertindo-se a cada cena), um misterioso vendedor de sabonetes caseiros que o ensina a não dar valor a coisas materiais. Sua amizade com Durden evolui a ponto de eles juntos criarem o “Clube da Luta”, onde um grupo de homens se reune para brigar entre si. No momento em que o clube toma proporções gigantescas, o rapaz começa a perceber que os planos de Tyler Durden não resumem-se à auto-destruição e podem levar a uma catástrofe econômica e social.



Nada é o que parece em “Clube da luta”. Não é apenas sobre um grupo de homens se espancando mutuamente – pelo menos não é somente sobre isso. Não é a respeito de um homem buscando sua própria identidade – isso é apenas o começo da história. E não fala do amor entre dois seres desajustados, ainda que seja o amor por Marla que balança as estruturas do protagonista. “Clube da luta” é um happening cinematográfico. É um ataque verbal, visual e estilístico contra o establishment – seja ele econômico, cultural ou social. O roteiro de Jim Ulhs, que traduz com precisão cirúrgica a prosa caótica de Palahniuk, não deixa pedra sobre pedra em seu discurso contra a mídia, o governo e Deus. A anarquia controlada de Fincher, que encontra estofo na fotografia de Jeff Cronenweth e na edição espirituosa e criativa de James Haygood, conta ainda com o trabalho mais inspirado da carreira de Brad Pitt, que constrói um Tyler Durden impecável em sua canalhice e falta de respeito com toda e qualquer instituição. Seus diálogos são tão cáusticos, cruéis e por isso mesmo realistas que fica difícil não acreditar neles.

Pode-se dizer, sim, que "Clube da luta" é um filme perigoso. É um filme que faz pensar, que questiona, que choca com sua violência verdadeira. Conectá-lo à crueldade humana é simplificá-lo de maneira burra. Mas um fato é inquestionável: quando as caixas de som começam a tocar Pixies, no final da exibição da história contada por Palanhiuk, Fincher & cia, o público não é o mesmo que era no início da sessão. Ele acaba de testemunhar o cinema em seu melhor.

Friday, July 8, 2011

MENINOS NÃO CHORAM

MENINOS NÃO CHORAM (Boys don't cry, 1999, Fox Searchlight Pictures, 118min) Direção: Kimberly Peirce. Roteiro: Kimberly Peirce, Andy Bienen. Fotografia: Jim Denault. Montagem: Tracy Granger, Lee Percy. Música: Nathan Larson. Figurino: Victoria Farrell. Direção de arte/cenários: MichaelShaw/Shawn Carroll. Produção executiva: Caroline Kaplan, Pamela Koffler, Jonathan Sehring, John Sloss. Produção: John Hart, Eva Kolodner, Jeffrey Sharp, Christine Vachon. Elenco: Hilary Swank, Chloe Sevigny, Peter Sarsgaard, Brendan Sexton III, Alicia Goranson, Jeanetta Arnette, Matt McGrath. Estreia: 22/10/99

2 indicações ao Oscar: Atriz (Hilary Swank), Atriz Coadjuvante (Chloe Sevigny)
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Hilary Swank)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Hilary Swank)

Às vezes histórias trágicas, brutais e inacreditáveis fazem com que as pessoas acordem de uma letargia, mesmo que seu despertar – oriundo de um baque – não tenha força de mudar coisa alguma. E às vezes essas mesmas histórias sangrentas e desesperançadas podem virar pérola em mãos de talento. É isso que acontece em “Meninos não choram”, uma história trágica, brutal e inacreditável... mas que infelizmente aconteceu de verdade.
 
A jovem Teena Brandon (vivida com uma visível determinação pela ótima Hilary Swank) sofre de transtornos sexuais. Incapaz de aceitar o fato de que é uma mulher, ela vive sob o pseudônimo de Brandon Teena, um rapaz tímido e sedutor constantemente envolvido em pequenas contravenções. Vivendo nesse seu universo paralelo ela chega a uma cidadezinha qualquer dos EUA e, depois de fazer amizade com uma dupla de ex-presidiários (os assustadores Peter Saarsgard e Brendon Sexton III) se apaixona perdidamente por Lana (Chloe Sevgny), uma jovem ambiciosa e perdida em seus sonhos de abandonar sua vida tediosa. O romance engrena mesmo com a mentira de Teena / Brandon entre as duas. No entanto, uma hora a verdade vem à tona e, sentindo-se enganados e traídos os violentos amigos de Lana partem para uma vingança cruel e estúpida.


“Meninos não choram” saiu do nada para a glória. Estréia da diretora Kimberly Peirce, feito com apenas 2 milhões de dólares e sem nenhum astro em seu elenco, o filme começou a chamar a atenção graças ao espetacular trabalho de Swank, que a despeito de sua participação em filmes constrangedores como “Karatê Kid IV”, mostrou que sabe como poucas agarrar com unhas e dentes uma chance promissora e de quebra levou o Globo de Ouro e o Oscar de melhor atriz – um prêmio merecido e devidamente louvado. Na pele de Teena Brandon, ela consegue despertar a simpatia até mesmo do público mais conservador e o leva com ela por seu calvário em busca da aceitação e da felicidade ao lado da mulher que ama, vivida com ar blasé por Chloe Sevigny, que faz o que pode com sua personagem igualmente complexa – uma mulher disposta a mentir para si mesma para fugir de uma vida infeliz. 

Contra elas, Peter Saarsgard constrói seu Paul de maneira visceral, quase psicótica em seu amor obsessivo. Seu olhar de ódio e desprezo diz mais sobre a maldade intrínseca no ser humano do que milhares de páginas de discursos políticos. Somada à quantidades industriais de cerveja – que parece exalar da tela tamanha a veracidade da seca fotografia, sua raiva e inveja da felicidade alheias causam desgraças como a que vitimou a protagonista do filme, que sim, é trágica, brutal e inacreditável. Mas também um alerta contra a intolerância, tão chocante e cru quanto necessário.

Em um tempo onde a intolerância e a ignorância ainda insistem em se insinuar apesar dos avanços, "Meninos não choram" é um filme obrigatório. É impossível não se impactar com tamanha tragédia, mesmo que, como dito no início do texto essa indignação despertada nunca ultrapasse a janela de nossas casas. Mas só por sacudir e fazer pensar a obra de Pierce já é de vital importância para a discussão dos direitos humanos e para a luta pela igualdade. E ajuda bastante o fato de ser um filme de grande qualidade.

Thursday, July 7, 2011

TRÊS REIS

TRÊS REIS (Three kings, 1999, Warner Bros., 114min) Direção: David O. Russell. Roteiro: David O. Russell, história de John Ridley. Fotografia: Newton Thomas Sigel. Montagem: Robert K. Lambert. Música: Carter Burwell. Figurino: Kym Barrett. Direção de arte/cenários: Catherine Hardwicke/Gene Serdena. Produção executiva: Bruce Berman, Gregory Goodman, Kelly Smith-Wait. Produção: Paul Junger Witt, Edward L. McDonnell, Charles Roven. Elenco: George Clooney, Mark Wahlberg, Ice Cube, Spike Jonze, Cliff Curtis, Nora Dunn, Jamie Kennedy, Mykelti Williamson, Judy Greer. Estreia: 01/10/99

Tudo que o povo americano conseguiu visualizar da Guerra do Golfo foram as imagens transmitidas pelas emissoras de televisão. Uma guerra totalmente midiática, sem heróis nem vítimas – pelo menos nos conceitos consagrados como tais – que, se deixou um gosto de vazio nas bocas ianques, mas que pelo menos legou “Três reis”, um dos filmes mais alucinados de 1999, que brinca no tênue limite entre o deboche inteligente e a seriedade que um tema como tal merece. Dirigido pelo desconhecido David O. Russell, que também assina o roteiro - e conseguiu a chance de ser indicado ao Oscar de diretor em 2011 por "O vencedor" - o filme consegue ser chocante, engraçado e dar uma visão completamente inusitada do conflito que jogou americanos em territórios árabes.

Na verdade, o filme começa quando a guerra termina. Às vésperas de embarcar de volta pra casa, o Coronel Archer (George Clooney, cada vez mais à vontade nas telas) junta-se a outros três soldados em uma cruzada pessoal. Ele, o pai de primeira viagem Troy (Mark Whalberg, escolhendo seus papéis com a firmeza de um veterano), o engajado (Ice Cube, hilário) e o atrapalhado (o video-clipeiro que brinca de cineasta Spike Jonze) descobrem um mapa – escondido em um lugar surreal – que dá a exata localização de todo o ouro roubado por Sadam Hussein do povo do Kwait. Dispostos a mudar de vida, eles resolvem buscar o tesouro, batendo de frente com a miséria do povo do Iraque, com a violência com a qual pouco contato tiveram durante as batalhas e com a verdade sobre a guerra criada pelo presidente do país mais poderoso do mundo.



"Três reis" destaca-se também por não pretender levantar nenhuma bandeira politicamente correta. Os protagonistas não são heróis imaculados (muito pelo contrário) e nem tampouco os normalmente vilões na visão norte-americana (os oponentes) são poços de crueldade, ainda que em determinados momentos quase o sejam. Felizmente o humor alucinado do roteiro não permite que a coisa toda seja levada demasiadamente a sério - e a presença de um sensacional George Clooney apenas reitera o tom de brincadeira do filme, cuja edição ágil impede o tédio e foge do tradicional esquema dos filmes de guerra, onde as batalhas são o centro da ação. Talvez incomode os fãs mais aguerridos do gênero, mas pode conquistar a plateia mais afeita a novidades estilísticas.

Longe de ser diversão fácil – ainda que contenha todos os ingredientes necessários a um sucesso de bilheteria (leia-se ação, tiros, humor e atores conhecidos) – “Três reis” destaca-se principalmente por sua coragem em lidar com um tema sério de maneira irreverente, sem nunca deixar-se cair na tentação de apelar para a piada fácil ou tiroteios desnecessários. A violência do filme é cuidadosamente encaixada em momentos-chave para que nunca resvale para o banal e a fotografia estourada de Newton Thomas Sigel colabora para a sensação de calor e sufocamento que o deserto iraquiano passa ao espectador. Mesmo o humor tem seu senso de ironia e amargura que pouco é encontrado em filmes americanos, especialmente nos de guerra. O relativo heroísmo dos soldados, no final, não soa como patriotada barata e sim como questão de humanidade. E a bela canção “In God’s country”, da banda irlandesa U2 fecha a obra com chave de ouro

Wednesday, July 6, 2011

BELEZA AMERICANA

BELEZA AMERICANA (American beauty, 1999, DreamWorks SKG, 122min) Direção: Sam Mendes. Roteiro: Alan Ball. Fotografia: Conrad L. Hall. Montagem: Tariq Anwar, Christopher Greenbury. Música: Thomas Newman. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Naomi Shohan/Jan K. Bergstrom. Produção: Bruce Cohen, Dan Jinks. Elenco: Kevin Spacey, Annette Bening, Thora Birch, Chris Cooper, Wes Bentley, Mena Suvari, Peter Gallagher, Allison Janney, Scott Bakula. Estreia: 01/10/99

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Sam Mendes), Ator (Kevin Spacey), Atriz (Annette Bening), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Sam Mendes), Ator (Kevin Spacey), Roteiro Original, Fotografia
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Sam Mendes), Roteiro

No final dos anos 90, desmascarar a aparente normalidade do “american way of life” estava sendo uma obsessão do cinema. Todd Solondz criou “Felicidade” e depois o inglês Sam Mendes deu a sua visão do distorcido núcleo familiar ianque em "Beleza americana", que logo que estreou caiu nas graças da crítica e surpreendentemente do público, que ficou extasiado com sua visão menos crua e mais lúdica, mas extremamente contundente e realista (ainda que revestida de uma plasticidade que a torna mais poética). Vencedor de cinco Oscar (filme, diretor, roteiro, ator e fotografia), “Beleza americana” mereceu todo o auê com que foi recebido. Investiga, através do olhar irônico e até carinhoso do roteirista Alan Ball, a transformação de uma típica família suburbana, à primeira vista perfeita, mas que, como manda a campanha publicitária, vista de perto não é assim tão normal. Caetano Veloso assinaria embaixo.

Kevin Spacey, em uma atuação irretocável que lhe rendeu um segundo e merecido Oscar, vive Lester Durnham, um homem cuja vida é dar pena. Executivo de uma empresa que não lhe dá a menor possibilidade de um futuro auspicioso, com uma vida sexual letárgica cujo único momento de prazer é a masturbação matinal debaixo do chuveiro e tendo como ideia de diversão um festival de filmes de James Bond na televisão, Lester tem o vislumbre de uma vida mais completa e feliz quando conhece Angela Hayes (Mena Suvari), a amiga gostosona da filha adolescente, a complicada e quase desleixada Jane (Thora Birch). Com os hormônios a mil, Lester resolve dar um jeito na vida: deixa o emprego, passa a fazer exercícios físicos e, em um último lampejo de regresso à juventude, volta a fumar maconha. Quem não gosta nada dessa nova vida do marido é Caroline (Annette Bening), sua obcecada esposa. Corretora imobiliária, Caroline tenta manter seu casamento de aparências, sua família como um porta-retrato feliz e seu visual impecável e caprichado. Sofrendo com a falta de ambição do marido, ela inicia um romance extra-conjugal com seu rival profissional (Peter Gallagher) e nem percebe o romance da filha com o jovem vizinho Ricky (Wes Bentley), que faz bicos como garçom e nas horas vagas ganha dinheiro traficando drogas às escondidas de seu pai, um rígido militar aposentado (vivido por um extraordinário Chris Cooper).


Uma das maiores qualidades do roteiro de Ball (que o produtor Steven Spielberg mandou filmar sem mexer em uma linha) é o fato de que suas personagens são absolutamente humanos, reais e palpáveis - uma característica dos textos de Ball, criador da magnífica série "A sete palmos". Surpreendentes em suas atitudes, elas nunca fazem o que se espera delas, o que leva o público a surpresas constantes no desenrolar criativo da trama, que leva a um desfecho inesquecível e clássico de nascença - afinal, como não se emocionar com um filme que acaba com os quatro rapazes de Liverpool entoando a bela "Because"??

Oriundo dos palcos ingleses - onde dirigiu Nicole Kidman, por exemplo - Sam Mendes nitidamente tem um senso estético apuradíssimo, capaz de, com a ajuda do veterano diretor de fotografia Conrad Hall, dirigir cenas de visual belíssimo, além de contar com a trilha sonora marcante de Thomas Newman e com diálogos cortantes, bem-humorados e melancólicos. Os diálogos, aliás, são a alma do filme, recitados por um elenco sem um elo fraco sequer. Se apenas Spacey - capaz de transmutar-se em questão de segundos de quarentão excitado a pai zeloso sem dizer uma única palavra - levou o Oscar foi porque o ano realmente estava muito forte (e Deus nos proteja de pensar que a primeira opção para o papel era Chevy Chase (??!!)). Annette Bening está sensacional como a patética e sem esperança de salvação Caroline, o até então subaproveitado Chris Cooper tem uma atuação assustadora e antológica - quem duvida que espere a reveladora cena na garagem de Lester - e os adolescentes Thora Birch, Wes Bentley e Mena Suvari dão aulas de como comportar-se à altura de seus experientes colegas de cena. Tudo isso, logicamente, envolto em uma acurada percepção da alma humana, com todos os seus deslizes e grandezas.

Irônico, perturbador e extremamente comovente, "Beleza americana" é um dos filmes obrigatórios do final do século XX e um dos essenciais da história do cinema.




Tuesday, July 5, 2011

STIGMATA


STIGMATA (Stigmata, 1999, MGM Pictures, 103min) Direção: Rupert Wainwright. Roteiro: Tom Lazarus, Rick Ramage, história de Tom Lazarus. Fotografia: Jeffrey L. Kimball. Montagem: Michael J. Duthie, Michael R. Miller. Música: Elia Cmiral, Billy Corgan. Figurino: Louise Frogley. Direção de arte/cenários: Waldemar Kalinowski/Florence Fellman, Marco Niro. Produção: Frank Mancuso Jr. Elenco: Patricia Arquette, Gabriel Byrne, Jonathan Pryce, Nia Long, Thomas Kopache, Portia De Rossi. Estreia: 10/9/99

É impressionante como, no mesmo ano em que um filme como "O sexto sentido" consegue tirar o gênero "terror" do limbo das produções requentadas e previsíveis, algo "Stigmata" tenha chegado aos cinemas. Repleto dos mais insuportáveis clichês, o filme do inglês Rupert Wainwright até fez relativo sucesso de bilheteria, mas sua pretensa modernidade (que chamou a atenção da plateia jovem) apenas disfarça mal seus inúmeros defeitos, que começam com a atuação pífia de sua protagonista Patricia Arquette.

Irmã caçula de Rosanna Arquette, Patricia estava em vias de se casar com Nicolas Cage (seu parceiro de cena em "Vivendo no limite") quando estrelou este terror que bebe na fonte de obras memoráveis como "O exorcista", mas que jamais atinge metade de suas pretensões. Fraca como atriz e não particularmente bela, Patricia vive Frankie Paige, uma cabeleireira "descolada" (leia-se com vestuário alternativo, anéis excêntricos e visual pseudo-moderno) que, de uma hora pra outra passa a sofrer violentos ataques que os médicos julgam tratar-se de epilepsia. Ferida fisicamente (o que os amigos acham que é consequência de uma tentativa de suicídio), ela chama a atenção de um padre de vanguarda, Andrew Kiernan (Gabriel Byrne), que passa a desconfiar que ela está sofrendo o que se chama, na religião católica, de "estigmas", idênticos aos sofridos por Cristo na cruz e por São Francisco de Assis. Enquanto espera o desenlace da investigação - que pode culminar com a morte da jovem - ele descobre uma conspiração que envolve os altos escalões do Vaticano, que tentam impedir que evangelhos proibidos venham à luz.



"Stigamata", além de tentar esconder seu roteiro sofrível através de uma fotografia esfumaçada e uma iluminação que se julga criativa, é um poço de preconceitos. Logicamente as origens do sofrimento de Frankie vem de um terço que ela recebe de presente da própria mãe, que o adquiriu em uma viagem ao... Brasil. Além dessa perpetuação da ideia de que somos fontes de tudo que é ruim em termos religiosos (pelo menos não incluiram o candomblé na receita), o filme ainda acha que é inteligente e esperto utilizar uma jovem sem fé e descrente como mensageira de um padre extremamente católico. Os diálogos entre Frankie e o Padre Kiernan chegam a ser constrangedores, em parte devido à ruindade do texto, em parte culpa da apatia de Arquette e de sua absoluta falta de química com Gabriel Byrne. E nunca é demais lembrar: para um filme ter uma edição ágil ele não precisa necessariamente deixar o espectador tonto ou enjoado...

No final da projeção de "Stigmata" - cujo final é tão deprimente quanto o filme como um todo - fica-se a certeza de que modernizar um gênero não significa virá-lo do avesso, acrescentar uma trilha sonora techno e filmá-lo como se fosse um drogado. É preciso uma inteligência e uma sensibilidade que nunca aparecem no filme de Wainwright. Desperdício de tempo!

Monday, July 4, 2011

O SEXTO SENTIDO

O SEXTO SENTIDO (The sixth sense, 1999, Hollywood Pictures/Spyglass Entertainment, 107min) Direção e roteiro: M.Night Shyamalan. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Andrew Mondshein. Música: James Newton Howard. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Larry Fulton/Douglas Mowatt. Produção executiva: Sam Mercer. Produção: Kathleen Kennedy, Frank Marshall, Barry Mendel. Elenco: Bruce Willis, Olivia Williams, Haley Joel Osment, Toni Colette. Estreia: 06/8/99

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (M.Night Shyamalan), Ator Coadjuvante (Haley Joel Osment), Atriz Coadjuvante (Toni Colette), Roteiro Original, Montagem

Esqueça ectoplasmas arrastando correntes e mansões vitorianas assombradas. Depois de "O sexto sentido", os filmes de fantasmas atingiram um novo patamar de qualidade, deixando de lado os vícios perpetuados pelos filmes clássicos do gênero. Tirando a poeira do estilo e o arejando com uma modernidade que nunca lhe tira a tensão e o medo característicos, o filme de M. Night Shyamalan conquistou o mundo sem fazer muito esforço. Estreando com pouco alarde, o filme estrelado por Bruce Willis arrecadou mais de 600 milhões de dólares pelo mundo, conquistou seis indicações ao Oscar (inclusive as cobiçadas de filme, diretor e roteiro original) e de quebra revelou o garotinho Haley Joel Osment, que depois de ter protagonizado o encontro entre Steven Spielberg e Stanley Kubrick em "Inteligência artificial", desapareceu como a maioria dos atores mirins. Mas mais do que qualquer outra coisa, "O sexto sentido" devolveu ao espectador o prazer inigualável de assistir a uma história bem contada, inteligente e, o mais importante, extremamente humana, a despeito de ter algumas almas penadas como personagens.

O filme já começa com a adrenalina em alta. Voltando para casa depois de ser homenageado pela prefeitura da Filadélfia, onde mora, o psicólogo infantil Malcolm Crowe (Bruce Willis, muito eficiente) descobre que ela foi invadida por um ex-cliente, agora um jovem desequilibrado (um irreconhecível e assustador Donnie Wahlberg) que, em desespero lhe dá um tiro e se suicida em seguida. Alguns meses depois, Crowe encontra sua chance de redimir-se do fracasso em lidar com o jovem ao ter a possibilidade de tratar do pequeno Cole Sears (Haley Joel Osmente, nunca aquém de espetacular), um menino de oito anos que enfrenta problemas na escola e em casa. Isolado e solitário, Cole é criado pela mãe Lynn (Toni Colette, de "O casamento de Muriel", bem mais magra, ótima atriz e indicada ao Oscar de coadjuvante) e apresenta hematomas e comportamento arredio. Depois de algumas conversas com o garotinho, Malcolm descobre que seu problema não é doméstico: ele tem o dom (ou a maldição, dependendo do ponto de vista) de ver e falar com fantasmas, que lhe utilizam para resolver situações pendentes. Enquanto tenta ajudar Cole, o médico precisa também recuperar a relação com a esposa (Olivia Williams), abalada desde o atentado.

        

A maior inteligência do roteiro redondinho de Shyamalan - descendente de indianos cujo primeiro filme, "Olhos abertos" foi solenemente ignorado por todo mundo - é a sua opção em sugerir bem mais do que mostrar. Durante toda a sua primeira metade, "O sexto sentido" é lento, discreto, quase contemplativo, contando com uma trilha sonora impactante mas sutil de James Newton Howard. Após a revelação do dom de Cole, a trama atinge níveis de suspense e tensão capazes de arrepiar até o mais cético dos espectadores. É a partir daí que fantasmas cruzam a tela em momentos inesperados (ainda que pistas de sua aparição surjam constantemente) e que, de drama familiar, o filme passe a um terror psicológico dos melhores. A escolha por não exagerar em maquiagem e efeitos visuais também colabora para que o filme não fique datado e esteja tão fresco hoje quando de sua estreia, já há doze anos. Tudo isso somado ao talento do cineasta/roteirista em criar diálogos simples mas profundos e dirigir seus atores com maestria faz com que, mais do que um filme de terror feito para apavorar plateias, "O sexto sentido" atinja um outro nível emocional e artístico. Mesmo quem não gosta de levar sustos é capaz de se perceber chorando ao final da projeção, graças à delicadeza com que tudo se desenrola - e à cena magistral em que Cole finalmente conta seu segredo à sua mãe.

Já em "O sexto sentido" M. Night Shyamalan utilizava-se de algumas de suas marcas registradas (a importância dada à cor vermelha, a trilha sonora de James Newton Howard, a inteligência da edição de som, o cuidado com o desenvolvimento da trama). Criador ainda de uma outra obra-prima ("Corpo fechado"), um filme excelente ("Sinais") e vários filmes que dividiram crítica e público (entre eles o sofrível "A vila" e o subapreciado "A dama da água"), Shyamalan pode ser acusado de qualquer coisa, menos de ter sido elogiado à toa. "O sexto sentido" mereceu todo o sucesso que fez, por ter devolvido ao público a fé no bom cinema de suspense sem ter que apelar para a violência explícita.

Friday, July 1, 2011

UM LUGAR CHAMADO NOTTING HILL

UM LUGAR CHAMADO NOTTING HILL (Notting Hill, 1999, Polygram Filmed Entertainment/Working Title Films, 124min) Direção: Roger Michell. Roteiro: Richard Curtis. Fotografia: Michael Coulter. Montagem: Nick Moore. Música: Trevor Jones. Figurino: Shuna Harwood. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Stephenie McMillan. Produção executiva: Tim Bevan, Richard Curtis, Eric Fellner. Produção: Duncan Kenworthy. Elenco: Julia Roberts, Hugh Grant, Rhys Ifans, Richard McCabe, Hugh Bonneville. Estreia: 13/5/99

Nada como uma equipe inglesa para que o público relembre como comédias românticas não precisam necessariamente caprichar na glicose para garantir bilheteria e sucesso de crítica. E nada como uma estrela do porte de Julia Roberts (novamente alçada à maior estrela da América graças ao sucesso de “O casamento do meu melhor amigo”) para conferir glamour a uma história tão fantasiosa e ao mesmo tempo tão real quanto “Um lugar chamado Notting Hill”.
        
Fantasiosa porque conta a história de amor entre um homem comum – no caso o proprietário de uma pequena livraria de guias de viagem em um bairro tranquilo de Londres – e uma das mulheres mais famosas do mundo – uma atriz hollywoodiana, o que mais poderia ser?. Real porque, ao invés de tratar a história como um romance água-com-açúcar, repleto de glamour e estereótipos, trata seus personagens com carinho e inteligência, entregando a eles diálogos espertos o bastante para trair sua origem britânica e personalidades fascinantes mas verossímeis.
        
Na pele de Will, o jovem inglês abandonado pela esposa – que o trocou por um homem com a cara de Harrison Ford, segundo suas próprias palavras – que vive cercado pelos amigos fiéis, está Hugh Grant, voltando às boas da crítica e do público que o elevou ao estrelato com “Quatro casamentos e um funeral” em 1994 – sintomaticamente outra comédia romântica escrita pelo mesmo Richard Curtis de “Notting Hill”. Sem carregar nas costas o peso de uma expectativa exagerada que o havia vitimado pós-escândalo com a prostituta Divine Brown, Grant mostra que ainda tem o mesmo talento e carisma de antes, acrescido de uma maturidade bem-vinda. Sua atuação como homem apaixonado por uma diva de cinema e sem certeza de ser correspondido é de uma delicadeza ímpar, que encontra um par perfeito no sorriso inconfundível de Julia Roberts, com a carreira novamente nos trilhos do sucesso.

Também mais madura do que em seus tempos de “Uma linda mulher” – o filme que a lançou como estrela e lhe deu uma indicação ao Oscar – Roberts brilha em uma personagem perigosamente parecida com ela mesma, mas da qual ela inteligentemente extrai detalhes que a transformam, por incrível que pareça, não na Anna Smith atriz bem-sucedida e milionária mas sim na Anna, uma mulher como as outras – e como ela mesma diz em uma frase brilhante, “sou apenas uma garota em frente a um homem, pedindo a ele que a ame.”

Contando ainda com um elenco de coadjuvantes afiadíssimos - em especial o celebrado Rhys Ifans como Spike, o melhor amigo de Will - e com diálogos engraçados e humanos, que brincam com a cultura pop e com suas idiossincrasias – a cena em que Grant participa das entrevistas de lançamento de um filme de Roberts é genial – o filme do desconhecido Roger Mitchell é também vitorioso por fazer crer, em suas duas horas de duração, que uma das mais belas e famosas mulheres do mundo pode tranquilamente se apaixonar por um homem comum. E não é de fantasias que supostamente o cinema é feito?