Thursday, June 9, 2011

O APRENDIZ

O APRENDIZ (Apt pupil, 1998, Phoenix Pictures, 111min) Direção: Bryan Singer. Roteiro: Brandon Boyce, conto de Stephen King. Roteiro: Newton Thomas Siegel. Montagem e Música: John Ottman. Figurino: Louise Mingenbach. Direção de arte/cenários: Richard Hoover/Jennifer Herwitt. Produção executiva: Tim Harpert. Produção: Bryan Synger, Jane Hamsher, Don Murphy. Elenco: Ian McKellen, Brad Renfro, Elias Koteas, Bruce Davison, David Schwimmer, Joshua Jackson. Estreia: 23/10/98

O cartaz de "O aprendiz" já diz muito a respeito do que é falado em seus 111 minutos de duração: "Se você não acredita na existência do mal, você tem muito o que aprender." Baseado em uma novela de Stephen King - publicada no livro "As quatro estações", que também contém as histórias que deram origem aos filmes "Conta comigo" e "Um sonho de liberdade" - o filme de Bryan Singer provou mais uma vez que as tramas de King que fogem do sobrenatural são muito mais fortes e interessantes do que suas obras que versam sobre alienígenas, mortos-vivos e poderes sobrenaturais. Ao ter como protagonistas pessoas de carne e osso, suas histórias mais realistas comovem (e assustam, em alguns casos) muito mais do que tiros n'água como "O apanhador de sonhos". E "O aprendiz" é uma pequena pérola do suspense, ainda que em nenhum momento apele para o grotesco.

Aluno exemplar e filho dedicado, o adolescente Todd Bowden (Brad Renfro) descobre, quase sem querer, que seu idoso vizinho Arthur Denker (Ian McKellen), que vive isolado em uma casa afastada, é, na verdade Kurt Dussander, um criminoso de guerra procurado pelo governo de Israel para ser julgado por seus abomináveis crimes contra os judeus. Fascinado pela II Guerra Mundial, o jovem procura o nazista e, sob ameaça de denunciá-lo, o obriga a relembrar e descrever-lhe seus atos de violência durante o conflito. Em um misto de repugnância e fascinação, Bowden começa a sentir os efeitos da amizade com o velho quando a crueldade passa a se revelar em seu dia-a-dia. Consequentemente, o pacato Arthur Denker volta a sentir o prazer perverso de tirar vidas e torturar seres vivos.


Quando assumiu a cadeira de direção de "O aprendiz", o jovem cineasta Bryan Singer estava vindo do inesperado (e merecido) sucesso de "Os suspeitos", cultuado e elogiado pela crítica e pelo público. Contando com a aprovação do próprio Stephen King - que vendeu os direitos da história por apenas um dólar em sinal de confiança - Singer cercou-se de profissionais de sua confiança (o editor e músico John Ottman e o diretor de fotografia Newton Thomas Siegel entre eles) para construir um drama de suspense que abre mão de truques sujos que tanto infestam o gênero para abraçar um clima de tensão crescente e imprevisibilidade (até mesmo quem leu o texto do escritor pode se surpreender, uma vez que o final foi ligeiramente alterado pelo roteirista Brandon Boyce). Sem pressa, Singer vai inserindo os dados da trama aos poucos, dando tempo ao espectador de envolver-se delicadamente na doentia relação entre Todd e seu idoso vizinho.

Provando que seu talento não era fogo de palha, o cineasta demonstrou uma segurança invejável e um grande domínio sobre a arte da narrativa, apresentando um thriller sufocante, adulto e poderoso, sem espaço para gracinhas desnecessárias e julgamentos morais. Não há heróis em "O aprendiz" e, ao contrário do que se poderia esperar, eles não fazem a mínima falta. Tanto Arthur Denker com sua alma viciada em crueldade quanto Todd Bowden com seu fascínio pela maldade são personagens de grande complexidade, defendidos por atores de imenso talento. O veterano Ian McKellen (aos 57 anos vivendo um homem de 75) presenteou o público com uma atuação exemplar no mesmo ano em que concorreu ao Oscar por sua interpretação como cineasta gay James Whale em "Deuses e monstros". Com uma competência assustadora, ele mostrou todas as nuances de sua quase imperdoável personagem, manipulando com maestria os sentimentos da plateia. E o jovem Brad Renfro - elogiado por sua performance em "O cliente" e "Sleepers, a vingança adormecida" - confirmou que era uma das maiores promessas de sua geração (promessa essa que encerrou-se com sua morte prematura aos 25 anos, em 2008). Assumindo o difícil e complicado papel de um protagonista tão longe dos ideais comerciais, Renfro atuou como gente grande, não se deixando intimidar pelo gigantismo do talento de McKellen.

Mesmo sem ser um filme de terror, "O aprendiz" é um dos filmes mais arrepiantes do final da década de 90. Inteligente, claustrofóbico e perigosamente realista, é também um dos mais sensacionais trabalhos do grande Ian McKellen.

Wednesday, June 8, 2011

FELICIDADE

FELICIDADE (Happiness, 1998, Good Machine, 134min) Direção e roteiro: Todd Solondz. Fotografia: Maryse Alberti. Montagem: Alan Oxman. Música: Robbie Kondor. Figurino: Kathryn Nixon. Direção de arte/cenários: Thérèse DePrez/Nick Evans. Produção executiva: David Linde, James Schamus. Produção: Ted Hope, Christine Vachon. Elenco: Philip Seymour Hoffman, Lara Flynn Boyle, Jane Adams, Dylan Baker, Ben Gazzarra, Cynthia Stevenson, Camryn Manheim, Jon Lovitz, Molly Shannon. Estreia: 16/10/98

Um ano antes que Sam Mendes conquistasse o Oscar pelo excepcional "Beleza americana", um cineasta americano independente e corajoso havia ousado retratar os podres da tradicional família ianque em uma comédia de humor negro que abismou a crítica e chocou sua (pequena) audiência. Ao se enfronhar por debaixo da aparente normalidade dos subúrbios e da instituição familiar em "Felicidade", Todd Solondz foi ainda mais longe do que Mendes e o roteiro premiado de Alan Ball, narrando sem nenhuma espécie de julgamento um grupo de personagens cuja "amoralidade" tem apenas um objetivo: a luta pela felicidade do título. Mais do que um inventário de desvios sexuais, o filme de Solondz é um poderoso estudo sobre a solidão humana.

Solondz utiliza a estrutura em voga no final dos anos 90 (narrar várias histórias aparentemente independentes que se entrecruzam) para analisar a maneira com que pessoas de diferentes estilos de vida lidam com a falta de sentido e amor em suas existências. De certa forma, se existe uma protagonista, ela é a frágil e sensível Joy (nome cuja tradução é "alegria", em uma das várias ironias do roteiro). Vivida com delicadeza quase patética por Jane Adams, Joy é uma música frustrada, solteira e infeliz que é o principal centro de preocupações de sua família. Tímida, ela tenta encontrar um sentido para sua vida começando a trabalhar como professora de inglês para estrangeiros e se apaixona por um aluno russo não exatamente honesto. Sua irmã do meio, Helen (Lara Flynn Boyle) é uma escritora bem-sucedida que reclama do fato de não ter problemas sérios o bastante para inspirá-la em seus novos livros e, sem saber, desperta o intenso desejo do vizinho Allen (Phillip Seymour Hoffman), que vive de passar trotes de enfoque sexual para mulheres desconhecidas e se envolve em uma amizade triste com Kristina (Camryn Manheim), que mora em seu prédio e tem um segredo a respeito da morte do porteiro. E seus pais, Mona (Louise Lasser) e Lenny (Ben Gazzarra) estão passando por uma grave crise no casamento, o que acarreta um início de depressão em sua mãe, que não sabe como ter uma vida sem o marido e as filhas.


E a irmã mais velha de Joy é Trish (Cynthia Stevenson), bem-casada com o terapeuta Bill Maplewood (Dylan Baker) e mãe de uma família de comercial de margarina. No entanto, é na casa de Trish (em meio a uma decoração típica de classe média) que a trama de "Felicidade" enconde seu maior trunfo polêmico. Pai de família exemplar, Bill é um pedófilo que não hesita em violentar os amigos do filho mais velho, envolvendo a audiência em seu drama sem jamais parecer um tarado psicopata. É o trabalho excepcional de Baker, aliado ao roteiro cru mas nunca apelativo do diretor que afasta essa subtrama tão controversa de ser apenas mais uma tentativa de Hollywood em discutir o de maneira paternal ou permissiva. Logicamente Solondz não quer justificar as atitudes da personagem, mas tampouco o crucifica ou o trata de forma maniqueísta. Perigosamente, inclusive, a audiência chega a simpatizar com ele (mas sem, porém, torcer para que seus intentos sejam atingidos).

"Felicidade" é, também, um retrato delicado sobre as relações interpessoais tão frias e distantes em uma época tão afoita a tecnologias e tão indiferente aos problemas da casa ao lado. Suas personagens são tão bem construídas e soam tão verdadeiras que é difícil não simpatizar e/ou torcer pela resolução de seus problemas (com a possível exceção de Helen, cujos dramas não parecem tão interessantes em comparação com os demais). Jane Adams está perfeita como Joy, transmitindo com exatidão todas as nuances de sua personagem, assim como o fazem Philip Seymour Hoffman e Camryn Manheim, donos de uma das cenas mais tocantes do filme, quando dançam em um bar de quinta categoria e depois dormem ao lado um do outro sem nenhuma intenção sexual. Retrato mais acurado da solidão no fim do milênio é impossível.

Longe de tentar ser um filme edificante ou comovente - nem muito menos uma comédia rasgada ou histérica - "Felicidade" é um dos mais consistentes dramas humanos dos anos 90. Pode ser desagradável e chocante em alguns momentos, mas jamais apela para o mau-gosto (sua direção de arte propositalmente plástica é outro destaque) para atingir sua audiência. É um programa obrigatório para todos aqueles que se encantam com dramas psicológicos que desmascaram as alegrias de aparência. E ainda acaba com Michael Stipe (da banda REM) entoando a inédita canção "Happiness".... Excelente!

Tuesday, June 7, 2011

ELIZABETH

ELIZABETH (Elizabeth, the Virgin Queen, 1998, Polygram Filmed Entertainment/Working Title Productions, 124min) Direção: Shekar Kapur. Roteiro: Michael Hirst. Fotografia: Remi Adefarasian. Montagem: Jill Bilcock. Música: David Hirschfelder. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: John Myhre/Peter Howitt. Produção: Tim Beavan, Eric Fellner, Alison Owen. Elenco: Cate Blanchett, Geoffrey Rush, Joseph Fiennes, Christopher Eccleston, Richard Attenborough, Fanny Ardant, Vincent Cassell, Daniel Craig, Kelly MacDonald, Emily Mortimer, Eric Cantona, Kathy Burke. Estreia: 13/10/98

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Cate Blanchett), Fotografia, Trilha Sonora Original/Drama, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Maquiagem
Vencedor do Oscar de Maquiagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Cate Blanchett)

É impressionante a capacidade que Hollywood tem de surpreender os fãs de cinema e apresentar astros e estrelas (ou ainda melhor, atores e atrizes de verdade) que surgem aparentemente do nada e se revelam a partir de então indispensáveis. Em 1999 isso aconteceu com uma irlandesa de nome Cate Blanchett. Protagonista de filmes pouco vistos pelo grande público - como "Oscar & Lucinda", com Ralph Fiennes - ela assombrou as plateias com sua impecável atuação em "Elizabeth", dirigido pelo indiano Shekhar Kapur. Na pele de uma das mais conhecidas monarcas do mundo, ela arrebatou um Golden Globe de melhor atriz dramática e deve estar até hoje se perguntando como é que foi perder o Oscar para Gwyneth Paltrow em "Shakespeare apaixonado". Dona de uma beleza não particularmente óbvia, Blanchett é o corpo e a alma do trabalho de Kapur, que, com um roteiro ágil de Michael Hirst, injeta adrenalina e sensualidade em um gênero que sofre grande preconceito da plateia mais jovem: os filmes de época.

Em 1558, a Inglaterra está em um período de grave crise econômica e religiosa, com a divisão violenta entre católicos e protestante. Quando a rainha Mary (Kathy Burke), católica, morre, ela deixa o trono nas mãos de sua irmã bastarda, Elizabeth (Cate Blanchett), filha de Henrique VIII e Ana Bolena. Protestante e portanto considerada herege, a jovem monarca passa a sofrer pressões para casar-se e ter filhos, para afirmar-se como líder de país em vias de entrar em conflito armado. Contando com o apoio do misterioso Sir Francis Walsingham (Geoffrey Rush) e a inimizade declarada do cruel Duque de Norfolk (Christopher Eccleston), ela desdenha da ideia de tornar-se esposa de qualquer homem que não seja aquele por quem é apaixonada, Robert Dudley (Joseph Fiennes).


O roteiro de Hirst acerta em concentrar seu foco nas intrigas palacianas mais do que nos problemas políticos da Inglaterra do período, o que poderia tornar tudo muito enfadonho para quem não tem domínio do assunto. Enquanto Norfolk trama sangrentas campanhas para destituir Elizabeth do trono, ela se deixa fragilizar pelo amor que sente por Dudley, um amor que será fundamental para que ela consiga perceber a importância da lealdade e da fidelidade. A transformação de Elizabeth - de jovem quase ingênua a uma das mulheres mais poderosas do mundo - é o grande trunfo do filme, e essa transição é interpretada com uma segurança ímpar por Blanchett, que lidera um elenco espetacular com desenvoltura e paixão. Ao lado de um discreto Geoffrey Rush (cuja personagem se mantém interessantemente dúbia por boa parte da projeção), de um sedutor Joseph Fiennes e de um assustador Christopher Eccleston, ela comanda um show de história e boa dramaturgia.

A caprichada reconstituição de época de "Elizabeth" é outro destaque do filme. O figurino impecável de Alexandra Byrne e a direção de arte de John Myhre (ambos indicados ao Oscar) não chamam a atenção para si mesmos, o que sempre é bastante elogiável, uma vez que filmes de época em muitas ocasiões dão mais atenção ao visual do que à trama. O castelo da rainha, os calabouços e todos os demais cenários são brilhantes exatamente porque parecem reais e não apenas construções artificiais. E a força da música original de David Hirschfelder dá o tom perfeito para a força da história desde as cenas iniciais que mostram os efeitos da Inquisição até seu desenlace, quando acontece definitivamente o nascimento da Rainha Elizabeth que liderou a Inglaterra até seu áureo período, chamado de "A era de ouro" - e que deu origem a uma sequência, realizada em 2007 sem a mesma qualidade do primeiro capítulo.

"Elizabeth" é um filme adulto, que trata a plateia com respeito e inteligência, sem romancear excessivamente o lado romântico da história e, ao mesmo tempo, buscando a aprovação de um público mais exigente. E é também um dos mais interessantes retratos de uma época fascinante em termos históricos e sociais. Contando ainda com uma avassaladora atuação da grandiosa Cate Blanchett, é programa obrigatório para os fãs do bom cinema histórico.

Monday, June 6, 2011

AMOR ALÉM DA VIDA

AMOR ALÉM DA VIDA (What dreams may come, 1998, Polygram Filmed Entertainment, 113min) Direção: Vincent Ward. Roteiro: Ron Bass, romance de Richard Matheson. Fotografia: Eduardo Serra. Montagem: David Brenner, Maysie Hay. Música: Michael Kamen. Figurino: Yvonne Blake. Direção de arte/cenários: Eugenio Zanetti/Cindy Carr, Josh Fifarek. Produção executiva: Ted Field, Erica Huggins, Scott Kroopf. Produção: Barnet Bain, Stephen Simon. Elenco: Robin Williams, Annabella Sciorra, Cuba Gooding Jr., Max Von Sydow. Estreia: 28/9/98

2 indicações ao Oscar: Direção de Arte/Cenários, Efeitos Visuais
Vencedor do Oscar de Efeitos Visuais

 Normalmente, quando um filme leva o Oscar de efeitos visuais logo se imagina que seja uma obra de ação recheada de explosões, alienígenas ou monstros assustadores. No entanto, felizmente os recursos com que o cinema brinda seus espectadores também podem servir a histórias com alto teor humano. É o que acontece com "Amor além da vida", belíssima história de amor, com toques espirituais dirigida com extrema sensibilidade pelo neozelandês Vincent Ward. Baseado em um romance de Richard Matheson - mesmo autor de "Em algum lugar do passado" - o filme é uma viagem pictória e emocional valorizado pela atuação delicada de Robin Williams, pelo visual arrebatador e pelo teor espiritualista capaz de emocionar qualquer espectador.

Williams, contido e carismático, vive o médico Chris Nelson, que vive uma felicidade de cartão postal com a esposa Annie (Annabella Sciorra), uma dedicada marchand. A harmonia da família é brutalmente interrompida quando eles perdem o casal de filhos pequenos em um acidente de carro. Depois de anos tentando fazer com que a esposa pare de se culpar pelo acidente, ele mesmo acaba se tornando vítima de um desastre automobilístico. Assim que chega no paraíso, que ele descobre ser particular (ou seja, criado por sua própria mente), ele reconhece um antigo mentor na pele de um jovem negro (Cuba Gooding Jr.), que lhe serve como cicerone. Enquanto encanta-se com a vida após a morte apresentada a ele, Chris fica sabendo de uma tragédia: não conseguindo sobreviver à falta que sente da família, Annie cometeu suicídio e, como consequência, não pode sair do inferno. Contando com a ajuda de um velho bibliotecário (Max Von Sydow), ele resolve buscar a mulher que ama, desafiando as regras estabelecidas. Em seu caminho à procura de Annie, novas e dramáticas revelações serão feitas e mais reencontros acontecerão.



O roteiro, escrito pelo mesmo Ronald Bass que levou o Oscar por "Rain Man" pode até ser descrita como piegas e um tanto exagerada. As tragédias que rondam a família Nelson soam um tanto forçadas, mas não há como negar que a maneira com que o roteirista desenvolve a odisséia do protagonista encontra um respaldo mais do que suficiente nos espetaculares efeitos criados para o filme. Poucas vezes se viu no cinema um visual tão deslumbrante e criativo (ainda que um pouco brega em determinados momentos). No filme de Ward, cada pessoa escolhe seu próprio paraíso, e Chris, ligado à arte e à pintura, tem um Éden majestoso, delicado e colorido. O destino de Annie, porém, bem mais trágico e pesado, dá lugar a um assustador inferno, que remete diretamente à "Divina Comédia", de Dante. O paraíso de sua filha, por sua vez, repete uma maquete que ela adorava quando criança, e assim por diante.

Tudo bem que o dramalhão corre solto em boa parte do filme, mas o esforço de Robin Williams em fugir de seu estereótipo de palhaço de plantão, os efeitos visuais inesquecíveis, o belíssimo desfecho e a atuação sensível de Annabella Sciorra (que ficou com um papel cobiçado por Annette Bening) compensam os escorregões e levam às lágrimas. Sem dúvida "Amor além da vida" é uma alternativa bem mais consistente ao xaroposo "Ghost, do outro lado da vida", que também trata do tema de vida após a morte mas sem o mesmo grau de sofisticação e inteligência.

Friday, June 3, 2011

QUEM VAI FICAR COM MARY?

QUEM VAI FICAR COM MARY? (There's something about Mary, 1998, 20th Century Fox, 119min) Direção: Peter Farrelly, Bob Farrelly. Roteiro: Peter Farrelly, Bob Farrelly, Ed Decter, John J. Strauss, história de Ed Decter, John J. Strauss. Fotografia: Mark Irwin. Montagem: Christopher Greenbury. Música: Jonathan Richman. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Arlan Jay Vetter/Scott Jacobson. Produção executiva: Peter Farrelly, Bob Farrelly. Produção: Frank Beddor, Michael Steinberg, Bradley Thomas, Charles B. Wessler. Elenco: Cameron Diaz, Matt Dillon, Ben Stiller, Richard Jenkins. Estreia: 15/7/98
 
Às vezes, para se divertir no escurinho do cinema, é preciso abdicar de um senso crítico mais severo e de qualquer resquício de pudores. É o caso de "Quem vai ficar com Mary?", uma comédia tão despudorada e politicamente incorreta que chega a ser difícil de acreditar que tenha rendido mais de 170 milhões de verdinhas nos EUA, um país merecidamente famoso por seus hipócritas pruridos morais. Ao fazer piada com qualquer ser humano que não seja branco, anglo-saxão, protestante, heterossexual ou com uma saúde perfeita, o filme dos irmãos Farrelly não deixa pedra sobre pedra. E é um dos mais divertidos da década de 90.

O filme começa nos anos 80, quando o tímido estudante Ted (Ben Stiller) finalmente consegue realizar seu maior sonho: levar a bela Mary (Cameron Diaz) ao baile de formatura. Porém, depois de um constrangedor acidente no banheiro da casa da garota, ele perde notícias da beldade. Anos depois, ainda sofrendo de saudade e paixão recolhida, ele tem a ideia de contratar um detetive particular para encontrá-la. O escolhido é o mau-caráter Healy (Matt Dillon), que também se apaixona pela moça, um doce de pessoa que não tem sorte no amor. Aos poucos Ted tenta reconquistá-la, lutando contra o atrapalhado detetive e inúmeros outros apaixonados por ela.

Na verdade, a pífia história de "Quem vai ficar com Mary?" serve apenas de pano de fundo para uma sucessão de piadas engraçadíssimas, que variam do sofisticado humor irônico ao mais deslavado pastelão. Ao apelar para praticamente todo tipo de piada, o roteiro dos irmãos Farrelly não deixa absolutamente nada escapar, com tiradas visuais hilárias e diálogos espirituosos e sem o menor temor em ofender as minorias - que, a julgar pelo enorme sucesso do filme, também lotaram as salas de cinema. No entanto, é preciso afirmar que, mesmo que tivesse um roteiro genial, o filme não teria sido tão bem-sucedido se não contasse com o ótimo elenco escolhido pelos cineastas.

Enquanto Ben Stiller exercita seu humor já demonstrado em outras ocasiões, são Cameron Diaz e Matt Dillon (então um casal fora das telas) que surpreendem, exibindo um senso de humor insuspeitos. Dillon, brincando com sua imagem de galã, é quem mais se destaca, utilizando um charme canastrão que conquista o público logo em sua primeira cena. Suas cenas com o cãozinho de Mary são de chorar de rir, assim como seus diálogos absurdos. E que atire a primeira pedra quem nunca riu com a infame sequência do "gel de cabelo" de Mary, destinada a antológica desde sempre. Recomendado para curar qualquer mau-humor, "Quem vai ficar com Mary?" é o antídoto perfeito para a insuportável onda do politicamente correto que tomou conta do planeta nos anos 90.

Thursday, June 2, 2011

CARTAS NA MESA

CARTAS NA MESA (Rounders, 1998, Miramax Films, 121min) Direção: John Dahl. Roteiro: David Levien, Brian Koppelman. Fotografia: Jean-Yves Escoffier. Montagem: Scott Chestnut. Música: Christopher Young. Figurino: Terry Dresbach. Direção de arte/cenários: Rob Pearson/Beth Kushnick. Produção executiva: Bobby Cohen, Harvey Weinstein, Bob Weinstein. Produção: Ted Demme, Joel Sttilerman. Elenco: Matt Damon, Edward Norton, Gretchen Mol, John Turturro, John Malkovich, Martin Landau, Famke Janssen. Estreia: 11/9/98

Em 1994, o cineasta americano John Dahl recebeu os maiores elogios de sua carreira graças a um filme cuja estreia na televisão o impediu de percorrer as cerimônias de premiação. "O poder da sedução", além de dar um impulso à carreira da atriz Linda Fiorentino (carreira essa que não correspondeu às expectativas), mostrou que Dahl tinha um grande potencial para conduzir tramas rocambolescas com estilo noir. Depois de assinar o suspense "Inesquecível" - estrelado pela mesma Linda Fiorentino e Ray Liotta - ele assumiu a direção de "Cartas na mesa", um drama de suspense passado no mundo do pôquer que teve a sorte suprema de contar com dois atores em franca ascensão: Matt Damon e Edward Norton. São os dois, em atuações inspiradas, que transformaram um filme de interesse limitado em um relativo sucesso.

Mike McDermott (vivido por um Matt Damon dando seguimento a  uma carreira consistente) é um jovem estudante de Direito que, após perder fortunas em mesas de pôquer, deixou o jogo de lado e leva uma vida regrada ao lado da namorada Jo (Gretchen Moll), que sabe de seu passado e o incentiva a manter-se na linha. Tudo corre bem em sua vida tranquila até que ele reencontra seu amigo Lester "Worm" Murphy (Edward Norton), que sai da cadeia já completamente endividado e enrascado com o assustador Teddy KGB (John Malkovich), integrante da máfia russa. Para ajudar o amigo, Mike volta às rodas de jogo, redescobrindo seu prazer e sua tensão.


Belamente fotografado por Jean-Yves Escoffier, "Cartas na mesa" sofre do mesmo problema de todos os filmes cujo tema é algo muito específico - a falta de interesse do resto do público - mas tem a seu favor o talento de Dahl e de sua dupla central de atores (além de um elenco coadjuvante que por pouco não rouba a cena). Mesmo que em vários momentos seja atrapalhado por sua lentidão, é um filme que foge das tradicionais reviravoltas do gênero, preferindo contar sua história aos poucos. Se ganha em consistência dramática, perde em ritmo. No entanto, apresenta atuações tão inteligentes que fica difícil desgrudar os olhos da tela.

Se Matt Damon segura muito bem seu papel principal, ele é amparado por um elenco notável. Martin Landau e John Turturro estão irretocáveis em suas participações, mas são as interpretações de Edward Norton e John Malkovich que fascinam a audiência. Aparentemente dono de um talento inesgotável, o jovem Norton cria um Lester Murphy que mescla a arrogância da juventude com o desespero de um ex-presidiário e Malkovich utiliza de detalhes cênicos para construir um vilão apavorante, ainda que bastante verossímil. Seu sotaque russo e seus olhares são o que há de mais marcante no filme, a despeito da qualidade de seus colegas de cena.

"Cartas na mesa" não é um filme genial (e mesmo que não seja crucial o conhecimento das regras de pôquer ele ocupa um lugar de muito destaque no roteiro), mas é entretenimento de qualidade, em especial devido a seu elenco bem dirigido e ao cuidado em não afastar o público para quem jogos de carta não significam absolutamente nada. Ainda que seja razoavelmente previsível em seu terço final, é um belo exemplo de como um cineasta eficiente e atores inspirados podem fazer toda a diferença.

Wednesday, June 1, 2011

STUDIO 54

STUDIO 54 (54, 1998, Miramax Films, 100min) Direção e roteiro: Mark Cristopher. Fotografia: Alexander Gruszynski. Montagem: Lee Percy. Música: Marco Beltrami. Figurino: Ellen Lutter. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/Karen Wiesel. Produção executiva: Don Carmody, Bobby Cohen, Harvey Weinstein, Bob Weinstein. Produção: Ira Deutchman, Richard N. Gladstein, Dolly Hall. Elenco: Ryan Phillipe, Salma Hayek, Mike Myers, Neve Campbell, Breckin Meyer, Mark Ruffalo, Heather Matarazzo, Sela Ward. Estreia: 20/8/98

Entre 1977 e o início dos anos 80, nenhum lugar era mais quente e badalado em Nova York do que o Studio 54. Criada por Steve Rubell, ex-dono de restaurantes, era a discoteca mais cobiçada por todo mundo que sonhava com glamour, fama e diversão sem fim. Frequentada pelos grandes nomes do entretenimento, das artes e do esporte, misturava a "realeza" americana com a plebe, formada por todos aqueles desconhecidos que tinham a sorte de ser belos e/ou interessantes e passar pelo crivo de Rubell, que ficava em pessoa na porta do local, escolhendo quem merecia dançar até o amanhecer. Um dos mais interessantes e lendários locais da era disco, o Studio 54 deu origem também a um filme que, perto do que poderia ter sido, decepcionou crítica e público. Mas será que o diabo é tão ruim como pintam?

Em termos dramáticos, não se pode dizer que "Studio 54" - o filme - seja bom. O roteiro do também diretor Mark Cristopher é superficial ao extremo, não dando espaço para que suas personagens se desenvolvam a contento. Tudo é muito maniqueísta e quase tosco no desenho dos protagonistas, e suas atitudes nunca soam como verdadeiras e sim como estratégias dramáticas para que a história vá pra frente. Não dá para acreditar, por exemplo, no romance entre Shane (Ryan Philippe, bonito mas péssimo ator) e a atriz Julie Black (a sempre artificial Neve Campbell) nem tampouco na amizade entre ele e o casal Anita (Salma Hayek, linda mas limitada a uma personagem quase caricata) e Greg (Breckin Meyer, que faz o possível com o que tem em mãos). Apenas o Steve Rubell de Mike Myers convence, provando que o humorista é bem melhor ator dramático do que suspeitavam os fãs de "Austin Powers", sua criação mais conhecida.

Mas, se não dá pra acreditar muito na trama proposta por Cristopher, ao menos dá pra se divertir com o clima com que o diretor envolve seu projeto. Tudo, desde a trilha sonora dançante e repleta de clássicos da disco até o figurino caprichado de Ellen Lutter, convida a plateia a uma viagem no tempo, até uma época em que a permissividade sexual e comportamental estava em seu auge. É difícil não se ter uma nostalgia de um período em que, sim, a AIDS começava a pairar sobre a sociedade e as drogas iniciavam seu avassalador domínio sobre qualquer desavisado, mas que, ao mesmo tempo, concedia à população momentos de extrema alegria e diversão (ainda que depois tenha cobrado seu preço). O diretor é feliz em conseguir transmitir o clima de eterna festa da época (em especial quando recria as noitadas regadas a álcool e tóxicos da boate) na mesma medida em que falha em construir uma história mais consistente.


Mas, afinal, qual é a história de "Studio 54"? O protagonista é Shane O'Shea, um jovem morador de Nova Jersey que tem o sonho de tornar-se "alguém" em Nova York, assim como sua conterrânea, a atriz Julie Black (que, apesar de aparentar sucesso, também tenta se dar bem na carreira, nem que tenha que dormir com quem passar pelo seu caminho). Em seu caminho para o topo, ele chega até a famosa boate e, protegido pelo proprietário Steve Rubell e dono de um belo corpo e um belo rosto, torna-se conhecido dentro das altas rodas sociais e artísticas da cidade. Ambicioso, ele acaba entrando em rota de colisão com seus melhores amigos, o bartender Greg e sua mulher Anita (que sonha em ser uma cantora disco) e descobre, quase tarde demais, que existem coisas mais importantes do que fama e prestígio.

Sim, "Studio 54" também tem uma lição de moral, o que dá um certo gostinho de desmancha-prazeres. Cristopher não tem a coragem necessária de ir fundo em alguns temas que poderiam ter transformado o filme em uma experiência mais bem-sucedida (a sexualidade dúbia de Rubell, por exemplo, ou até mesmo a decadência moral e psicológica de seu protagonista). Também não explora a contento todo o sex-appeal de Ryan Philippe no auge de sua beleza ou o talento histriônico de Mike Myers - que mesmo assim, esquiva-se gloriosamente de todos os problemas do roteiro.

Em resumo, "Studio 54" é um daqueles filmes ruins que conquistam mais pelo que pretendia ser do que pelo que realmente é. Sem maiores expectativas dá pra assistir inúmeras vezes (principalmente para quem é fã do período retratado). Mas não é tão bom quanto poderia.