Tuesday, September 13, 2011

ATÉ O FIM

ATÉ O FIM (The deep end, 2001, 20th Century Fox, 101min) Direção: Scott McGeehe, David Siegel. Roteiro: Scott McGeehe, David Siegel, romance "The blank wall", de Elisabeth Sanxay Holding. Fotografia: Giles Nutgens. Montagem: Lauren Zuckerman. Música: Peter Nashel. Figurino: Sabrina Rosen. Direção de arte/cenários: Kelly McGeehe, Christopher Tandon/Nancy Wenz. Produção executiva: Robert H.Nathan. Produção: Scott McGeehe, David Siegel. Elenco: Tilda Swinton, Goran Visjnic, Jonathan Tucker, Peter Donat, Josh Lucas, Raymond J. Barry. Estreia: 21/01/01 (Sundance Festival)

Todos sabem do que é capaz uma mãe para proteger sua cria, e o cinema é pródigo em provar essa teoria em dezenas de filmes. Mais um exemplo dessa afirmação surge em "Até o fim", produção independente dirigida pela dupla Scott McGeehe e David Siegel. Sucesso nos festivais de Sundance e Cannes, o filme dos dois cineastas aborda o tema com uma alta dose de suspense e é embalado por uma inspiradíssima atuação da sempre ótima Tilda Swinton quase uma década antes de seu Oscar de coadjuvante por "Conduta de risco". Australiana revelada ao mundo na adaptação cinematográfica de "Orlando", de Virginia Woolf, Swinton é dona de um rosto anguloso e uma voz grave, que a distancia da beleza de plástico das estrelas hollywoodianas. Por esse motivo - e por seu enorme talento - sua escolha para protagonizar "Até o fim" foi um tremendo golpe de mestre. Poucas atrizes seriam tão perfeitas no papel principal quanto ela.


Margaret Hall, sua personagem, é uma mulher comum, dona-de-casa dedicada à família, cujo marido está viajando a trabalho e que se vê, repentinamente, às voltas com um problema que é um pesadelo para qualquer mãe. Ao descobrir uma relação homossexual de seu filho Beau (o péssimo Jonathan Tucker, de "Sleepers, a vingança adormecida"), com um homem mais velho e de péssima reputação, o cafajeste Darby Reese (vivido com gosto e cinismo por Josh Lucas), ela tenta separá-los, oferecendo dinheiro para isso. Quando o gigolô aparece morto em sua propriedade - depois de um acidente - Margaret entra em pânico e tenta dar um fim ao corpo, julgando que seu filho é o responsável pelo crime. As coisas começam a dar ainda mais errado, porém, quando uma fita que mostra o rapaz e a vítima fazendo sexo cai nas mãos de uma dupla de chantagistas, que exigem 50 mil dólares para não entregá-la à polícia. Enquanto tenta arrumar o dinheiro, Margaret ainda precisa lidar com a inesperada doença do sogro e com a rotina cotidiana de uma mãe que finge levar uma vida normal. Sua atitude corajosa acaba despertando a simpatia de um dos chantagistas, Alek (o galã Goran Visnjic), o que acaba os direcionando a mais uma tragédia.

"Até o fim" é um filme de suspense atípico. Evita a violência gráfica o máximo possível, amparando-se basicamente no drama psicológico de sua protagonista, vivida com maestria e sutileza por sua intérprete. Ao utilizar recorrentemente a água - como uma marca registrada da elogiada fotografia azulada de Giles Nuttgens - os diretores imprimem uma assinatura visual que também dá ao filme uma atmosfera onírica e claustrofóbica. O final, agridoce e verossímil, encerra com maturidade um produto que merecia mais sorte do que apenas os elogios que recebeu em festivais de cinema. Para isso, no entanto, teria que apelar para os exageros necessários a um êxito comercial maior. Como está, é apenas um biscoito fino para alguns sortudos que esperam mais de um filme do que apenas sustos ocos.

Monday, September 12, 2011

TRAFFIC

TRAFFIC (Traffic, 2000, USA Films, 147min) Direção: Steven Soderbergh. Roteiro: Stephen Gaghan, minissérie escrita por Simon Moore. Fotografia: Steven Soderbergh (como Peter Andrews). Montagem: Stephen Mirrione. Música: Cliff Martinez. Figurino: Louise Frogley. Direção de arte/cenários: Philip Messina/Kristen Toscano Messina. Produção executiva: Cameron Jones, Graham King, Andreas Klein, Mike Newell, Richard Solomon. Produção: Laura Bickford, Marshall Herskovitz, Edward Zwick. Elenco: Michael Douglas, Benicio Del Toro, Catherine Zeta-Jones, Dennis Quaid, Steven Bauer, Miguel Ferrer, Albert Finney, Clifton Collins Jr., Jacob Vargas, Erika Christensen, Amy Irving, Topher Grace, Salma Hayek, Luiz Guzman, Don Cheadle, James Brolin. Estreia: 27/12/00

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Steven Soderbergh), Ator Coadjuvante (Benicio Del Toro), Roteiro Adaptado, Montagem
Vencedor de 4 Oscar:Diretor (Steven Soderbergh), Ator Coadjuvante (Benicio Del Toro), Roteiro Adaptado, Montagem
 Vencedor de 2 Golden Globes: Ator Coadjuvante (Benicio Del Toro), Roteiro 

Concorrer consigo mesmo na disputa pelo Oscar não é trabalho para qualquer cineasta, mas Steven Soderbergh não pode ser considerado um qualquer. No mesmo ano em que entregou ao público e à crítica o correto e quadradinho (mas ainda assim bom) “Erin Brockovich”, ele voltou às origens independentes de seu promissor início – vencedor da Palma de Ouro em Cannes com “sexo, mentiras e videotape” – com “Traffic”, um trabalho ousado, corajoso e ambicioso, que tinha como objetivo traçar um painel sobre o tráfico de drogas nos EUA e na sua fronteira com o México. Com base em uma minissérie de TV, adapatada com sucesso por Steve Gaghan, Soderbergh levou aos cinemas uma obra de impacto, que relembra seu inegável talento como cineasta visceral. Não à toa, venceu a si mesmo na disputa do Oscar de diretor – categoria na qual também concorria por “Erin Brockovich”.

A grande sacada do diretor foi a de contar três histórias diferentes, interligadas por pequenos detalhes mas que nunca chegam a se cruzar diretamente, como em outros filmes de sua época. Para não confundir a plateia com tantas personagens que passam pela tela, ele conta cada uma das histórias com um visual diferente, com uma fotografia em cores distintas. A trama que se passa no México, onde o policial Javier Rodriguez Rodriguez (Benicio Del Toro impecável e merecido vencedor do Oscar de ator coadjuvante) tenta resistir ao mar de corrupção que o cerca tem uma tonalidade quente, sufocante, quase em sépia. A luta de Robert Wakefield (um Michael Douglas sério e compenetrado) - juiz da Suprema Corte americana nomeado chefe do combate às drogas - em salvar sua própria filha adolescente do vício (a estreante Érika Christensen) é fotografada em tons azulados. E o drama da socialite Helena Ayala (Catherine Zeta-Jones grávida de verdade durante as filmagens), que tem seu marido – um influente traficante de drogas vivido por Steven Bauer – preso, é narrado sob uma fotografia naturalista. Com uma edição arrojada de Stephen Mirrione (também premiada com uma estatueta da Academia) e um roteiro que em nenhum momento se deixa tornar confuso e/ou redundante, o panorama traçado por Soderbergh choca, angustia e faz pensar.


“Traffic” faz parte de uma estirpe rara de produções cinematográficas. Inteligente, forte e com muito a contar, o filme de Steven Soderbergh e companhia é um entretenimento adulto, para um público sofisticado, que procura substância em meio a um cinema cada vez mais superficial e cínico. Ao expor a enorme teia de interesses escusos que move o tráfico de drogas – e por meio da família do juiz vivido por Michael Douglas aproximá-la do cotidiano da plateia – o roteiro de Gaghan foge do tradicional modelo de contrapor vilões e mocinhos. No mundo retratado pelo filme, cada atitude das personagens é movida por molas outras que não apenas um caráter estereotipado. O juiz que vira czar anti-drogas não consegue deixar que o tóxico entre em sua casa pela porta da frente. O policial incorruptível se deixa amolecer para garantir um futuro menos trágico para os seus. E a socialite fútil torna-se uma mulher forte e ferina para defender seus interesses e de sua família, mesmo que isso a obrigue a ir contra a lei.

“Traffic” é um grande filme. Perdeu o Oscar principal para “Gladiador”, um super-espetáculo grandioso e perfeito em seu objetivo de entreter pura e simplesmente, mas as personagens escritos por Steve Gaghan – dolorosamente reais e humanas – vão permanecer na mente dos espectadores por muito tempo.

Friday, September 9, 2011

O TIGRE E O DRAGÃO

O TIGRE E O DRAGÃO (Crouching tiger, hidden dragon, 2000, Sony Pictures Classic, 120min) Direção: Ang Lee. Roteiro: Hui-Ling Wang, James Schamus, Kuo Jung Tsai, romance de Du Lu Wang. Fotografia: Peter Pau. Montagem: Tim Squyres. Música: Tan Dun. Figurino: Tim Yip. Direção de arte/cenários: Tim Yip/Jian-Quo Wang. Produção executiva: David Linde, James Schamus. Produção: Ang Lee. Elenco: Chow Yun-Fat, Michelle Yeoh, Ziyi Zhang, Pei-pei Cheng, Chen Chang, Sihung Lung. Estreia: 09/10/00

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Melhor Filme Estrangeiro, Diretor (Ang Lee), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção ("A love before time"), Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Fotografia, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme Estrangeiro, Diretor (Ang Lee)

Foi preciso um diretor de Taiwan para devolver aos fãs de cinema a magia com que a sétima arte sempre brindou seu público. Depois de bem sucedidas incursões ao cinema de Hollywood - em especial os belos "Razão e sensibilidade" e "Tempestade de gelo", que captaram com inteligência as culturas inglesa e americana, respectivamente - o cineasta Ang Lee não foi feliz com o pouco visto e muito criticado "Cavalgada com o diabo" e resolveu retornar às origens. Para isso, assumiu as rédeas da adaptação do quarto volume de uma pentalogia chamada Crane/Iron, escrita por Du Lu Wang, um conhecido mestre chinês de kung-fu. Tendo seu habitual parceiro James Schamus entre os roteiristas, Lee construiu uma fábula majestosa e emocionante que recebeu o título ocidental de "Crouching tiger, hidden dragon", ou, como conhecido no Brasil, "O tigre e o dragão".

Não é difícil compreender o porquê da comoção em torno do filme de Lee desde sua estreia, no Festival de Cannes de 2000, quando foi ovacionado por uma legião de críticos deslumbrados. Sua obra simplesmente tira o espectador de sua zona de conforto, jogando-o em um universo particular, em que personagens ignoram a lei da gravidade e onde todas as excepcionalmente bem coreografadas lutas não são apenas desnecessários desvios da ação e sim parte integrante e indispensável da narrativa, repleta de poesia visual - cortesia da magnífica fotografia de Peter Pau, vencedor do Oscar da categoria. Não foi à toa que "O tigre e o dragão" tornou-se o primeiro filme de língua não-inglesa a ultrapassar a barreira dos 100 milhões de dólares de arrecadação em território americano, além de sair vitorioso em 4 categorias na festa do Oscar de 2001. O filme de Ang Lee é uma festa para os olhos e um admirável espetáculo para todos que consideram o cinema como um refúgio.




Passado em uma China antiga, "O tigre e o dragão" começa com o retorno do famoso guerreiro Li Mui Bai (Chow Yun-Fat) à terra de seus antepassados. Aposentado, ele dá de presente a um velho amigo sua poderosa espada, a Destino Verde, que logo em seguida é roubada. Enquanto tenta recuperá-la, ele não consegue deixar de lado o desejo de vingar a morte de seu mestre pelas mãos da temida Jade Fox (Pei-pei Cheng). Contando com a ajuda da mulher que ama em segredo, Shu Lien (Michelle Yeoh), ele também encontra, em seu caminho, a bela Jiao Long Yu (Ziyi Zhang), filha de uma respeitada família e que, mesmo em vias de casar-se, mantém um amor explosivo por um cigano do deserto.

Dirigido com maestria por um Ang Lee extremamente à vontade e no auge de sua criatividade como cineasta, "O tigre e o dragão" tem a seu favor, além de tudo, uma equipe que transmite paixão a cada polegada de celulóide. O elenco é impecável - com destaque para Michelle Yeoh, cujo rosto expressivo casa com naturalidade com uma força física impressionante - e é impossível não admirar a belíssima trilha sonora (composta em apenas duas semanas por Tin Dau, que acabou com uma estatueta do Oscar), a fotografia etérea e a direção de arte caprichada. No fundo uma bela história de amor emoldurada por uma trama que envolve sentimentos como honra, lealdade e amizade à toda prova - e um discreto discurso feminista - "O tigre e o dragão" é uma obra-prima incontestável e um dos melhores filmes já produzidos fora de Hollywood.

Wednesday, September 7, 2011

O DOM DA PREMONIÇÃO

O DOM DA PREMONIÇÃO (The gift, 2000, Paramount Classics, 112min) Direção: Sam Raimi. Roteiro: Billy Bob Thornton, Tom Epperson. Fotografia: Jamie Anderson. Montagem: Arthur Coburn, Bob Murawski. Música: Christopher Young. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Neil Spisak/Marthe Pineau. Produção executiva: Sean Daniel, Gregory Goodman, Ted Tannebaum, Rob Talpert. Produção: James Jacks, Gary Lucchesi, Tom Rosenberg. Elenco: Cate Blanchett, Greg Kinnear, Katie Holmes, Giovanni Ribisi, Keanu Reeves, Hilary Swank, J. K. Simmons, Rosemary Harris, Michael Jeter, Kim Dickens. Estreia: 22/12/00

Certas atrizes têm o dom de transformar o que poderia ser apenas um produto rotineiro de entretenimento em algo acima da média. Uma dessas atrizes é Cate Blanchett. Mesmo em papéis ingratos em filmes menores, a australiana consegue sobressair-se incólume e em alguns casos até mesmo salva produções que sem ela mal seriam lembradas pela maioria dos espectadores. É o caso de “O dom da premonição”, um suspense interessante e bem realizado, mas que, sem sua presença luminosa, seria apenas mais um exemplar de um gênero pouco dado a apresentar obras-primas


À frente de um elenco de astros de grandezas variadas – a oscarizada Hilary Swank em um papel inadequado, o péssimo Keanu Reeves surpreendendo positivamente, o desajeitado Giovanni Ribisi com um personagem carismático, a jovem Katie Holmes em papel ousado e diferente do que fez até então e o simpático canastrão Greg Kinnear tentando dar veracidade a um personagem ingrato – Blanchett sobressai-se sem precisar de muito esforço. No filme de Sam Raimi – às vésperas de encarar sua primeira grande super produção, o blockbuster “Homem-aranha” – ela vive Annie Wilson, uma dona-de-casa, viúva e mãe de três filhos que complementa a renda familiar dando consultas como vidente em uma pequena cidade pantanosa do interior dos EUA. Ajudando seus vizinhos e amigos, principalmente o traumatizado mecânico Buddy (Giovanni Ribisi), ela ainda sofre ameaças de Donnie Barksdeale, um violento marido de uma cliente, Valerie (vividos por Keanu Reeves e Hilary Swank). Sua vida sofre uma reviravolta quando uma jovem da alta classe da cidade, Jessica King (a sempre insossa Katie Holmes) desaparece misteriosamente. Procurada por Wayne Collins, o noivo da moça (papel de Greg Kinnear), que é o diretor da escola onde estudam seus filhos, Annie não consegue negar ajuda, mas acaba colocando sua própria vida em risco.



Co-escrito pelo ator Billy Bob Thornton, o roteiro do filme de Raimi não apresenta grandes novidades, principalmente aos aficcionados do gênero. Nem mesmo a surpresa final chega a ser impactante, apesar do final reservado à personagem de Giovanni Ribisi chegar a ser interessante e emocionante. No entanto, graças à direção criativa de Raimi, que tenta fugir sempre que possível do previsível – apesar de nem sempre conseguir -, ao trabalho superlativo de Blanchett e à trilha sonora de Christopher Young, mantém a atenção até o minuto final, o que não pode ser dito de todos seus congêneres.

Monday, September 5, 2011

CONTOS PROIBIDOS DO MARQUÊS DE SADE

CONTOS PROIBIDOS DO MARQUÊS DE SADE (Quills, 2000, Fox Searchlight Pictures, 124min) Direção: Phillip Kaufman. Roteiro: Doug Wright, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Rogier Stoffers. Montagem: Peter Boyle. Música: Stephen Warbeck. Figurino: Jacqueline West. Direção de arte/cenários: Martin Childs/Jill Quertier. Produção executiva: Des McAnuff, Sandra Schulberg, Rudolf Wiesmeier. Produção: Julia Chasman, Peter Kaufman, Nick Wechsler. Elenco: Geoffrey Rush, Kate Winslet, Joaquin Phoenix, Michael Caine, Stephen Moyer, Amelia Warner, Stephen Marcus. Estreia: 22/11/00

3 indicações ao Oscar: Ator (Geoffrey Rush), Figurino, Direção de Arte/Cenários

Para T.

Donatien Alphonse François de Sade, mais conhecido como Marquês de Sade foi um dos mais brilhantes escritores que a França conheceu. Aristocrata de nascimento,  Sade tinha no Napoleão Bonaparte um de seus inimigos mais ferrenhos, tendo sido aprisionado diversas vezes não apenas durante o regime do imperador, mas também pelos revolucionários de 1789 – que aparentemente tinham de rebeldes apenas o nome. Quem já teve a oportunidade de ler alguma de suas famigeradas obras – como “Os 120 dias de Sodoma”, “Justine” e “Contos libertinos” – comprovou, sem a menor sombra de dúvida, que mesmo nos dias devassos de hoje, o seu texto, extremamente detalhado e gráfico em suas descrições sexuais, é bastante forte e ainda chocante. Dá pra imaginar, então, o impacto que seus escritos tinham em sua época. E dá também para entender os motivos que levaram o escritor a ser internado em um sanatório e proibido de publicar seus textos. E é precisamente nesse período de sua biografia que se concentra o filme “Contos proibidos do Marquês de Sade”, dirigido com a elegância habitual de Philip Kaufman – que, a exemplo de um seus filmes mais célebres, “Henry & June”, usa o erotismo como aditivo a uma trama já explosiva o bastante.

Baseado em uma peça teatral homônima escrita pelo próprio roteirista Doug Wright, o filme de Kaufman mostra o Marquês (vivido com exuberância pelo ótimo Geoffrey Rush, indicado ao Oscar por seu magnífico trabalho) prisioneiro no asilo Chareton e impedido de publicar seus trabalhos. A proibição, porém, não surte maiores efeitos, pois o escritor consegue contrabandear suas histórias através da bela camareira Madeleine (a sempre excelente Kate Winslet), que, incentivada pela leitura do Marquês, encontra forças para declarar seu amor ao Abade Coulmier (Joaquin Phoenix), responsável pelo sanatório. A repressão ao trabalho do famoso hóspede recrudesce quando chega ao local o radical alienista Royer-Collard (Michael Caine, impecável), enviado pelo próprio Napoleão para calar de vez o escritor.


Amparados por diálogos inteligentes (herança de sua origem teatral) e por uma reconstituição de época competente, Kaufman dirige um elenco de sonhos. O trabalho sensacional de Rush encontra eco na sensível atuação de Kate Winslet, na performance irônica de Michael Caine e um elenco de coadjuvantes sem elos fracos. Até mesmo a edição de Peter Boyle consegue extrair um ritmo cinematográfico de um roteiro que tem nas palavras a base de sua qualidade. São as palavras do Marquês, em busca incessante de exercer seu direito à liberdade de expressão que envolvem as personagem em um ciclo de desejo, inveja e traição que nem mesmo a leveza de seu humor (nigérrimo, obviamente) consegue impedir de chegar a uma tragédia anunciada. São as palavras do autor – sempre verdadeiras, ainda que muitas vezes vulgares e até mesmo excitantes – que criam a atmosfera perfeita para uma desgraça em grande escala que vitima até mesmo as mais inocentes criaturas.

“Contos proibidos do Marquês de Sade” é, sem dúvida, um dos filmes mais impactantes da carreira de Philip Kaufman – e sendo ele o diretor de “A insustentável leveza do ser” isso não é pouca coisa. É um trabalho que consegue ser erótico, sedutor, engraçado e triste sem nunca deixar de ser o que promete desde suas primeiras cenas: um espetáculo ousado e inteligente.

Friday, September 2, 2011

CORPO FECHADO

CORPO FECHADO (Unbreakable, 2000, Touchstone Pictures, 106min) Direção e roteiro: M. Night Shyamalan. Fotografia: Eduardo Serra. Montagem: Dylan Tichenor. Música: James Newton Howard. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Larry Fulton/Gretchen Rau. Produção executiva: Gary Barber, Roger Birnbaum. Produção: Barry Mendel, Sam Mercer, M. Night Shyamalan. Elenco: Bruce Willis, Samuel L. Jackson, Robin Wright-Penn, Spencer Treat Clark. Estreia: 14/11/00

O pior fardo que um filme pode carregar é uma expectativa errôneas a seu respeito. E o pior que pode acontecer à carreira de um cineasta cujo primeiro real filme rendeu mais de 600 milhões de dólares mundo afora é justamente frustrar essas expectativas – ainda que o faça com as melhores intenções. Pois foi exatamente isso que aconteceu a M.Night Shyamalan Depois do impressionante êxito comercial e crítico de “O sexto sentido”, todos esperavam que o cineasta fosse dar continuidade a seu estilo e fazer uma réplica de seu sucesso maior. Para surpresa de todos, porém, ele lançou “Corpo fechado”, no qual ele se reinventou brilhantemente. Contando com o mesmo Bruce Willis no papel principal, o filme estreou com uma pesadíssima carga nas costas e o resultado decepcionou aos mais afoitos, em termos de bilheteria. Com menos de 100 milhões arrecadados em território americano, não chegou nem perto do impacto causado pela história do menino que via gente morta. No entanto, apesar dos pesares, “Corpo fechado” ganhou fãs incondicionais ao redor do planeta. E se não for jamais lembrado como o melhor filme de Shyamalan é por um simples motivo comercial: um marketing equivocado.

Vendido pelo estúdio quase como se fosse uma continuação de “O sexto sentido” – o mesmo diretor, o mesmo astro, o mesmo clima de suspense – “Corpo fechado” é, na verdade, um excelente filme de super-herói, que conta as origens do mocinho e do bandido como qualquer boa história baseada em quadrinhos. Sim, não se vê Bruce Willis voando nem em uniformes berrantes e nem tampouco o vilão tem planos megalomaníacos de dominar o mundo – ainda que seja doentio o bastante para tentar manipular o destino. Mas, ao gerar suas personagens sobre-humanas em um universo cotidiano, o cineasta criou uma das tramas mais instigantes e fascinantes do gênero (e de quebra imprimiu a ele seu estilo particular e intrigante).
Bruce Willis (em ótima fase) vive David Dunn, um homem aparente normal que realiza a façanha de ser o único sobrevivente de um desastre de trem carregado de centenas de passageiros. Mais impressionante ainda é o fato de ter saído do acidente sem um arranhão sequer. Tentando reconstruir a vida ao lado da esposa Audrey (Robin Wright Penn em papel oferecido a Julianne Moore) e do filho pequeno, ele conhece o milionário Elijah Price (mais um extraordinário desempenho de Samuel L. Jackson), um empresário fanático por histórias em quadrinhos que o procura com uma séria questão: por que somente ele sobreviveu ao acidente? Buscando a resposta em seu passado, Dunn – que trabalha como segurança em um estádio de futebol – relembra que nunca ficou doente na vida e que talvez tenha uma missão muito importante no mundo.


Apesar da premissa um tanto nerd, “Corpo fechado” é, sem dúvida, um trabalho criativo e inteligente de Shyamalan, mais uma vez utilizando seu talento para construir climas e personagens verossímeis apesar de sua natureza fora do normal. O Elijah vivido por Jackson, por exemplo, é chamado de Mr.Glass devido a uma rara doença que lhe quebra facilmente os ossos do corpo – o que dá origem a uma das cenas de abertura mais impressionantes da década e culmina com um final surpresa coerente e empolgante. A construção visual de Jackson (e do filme como um todo) reitera de forma inequívoca o cuidado do cineasta com cada detalhe do filme, o que lembra mais uma vez o refinamento e a sutileza de Alfred Hitchcock – de quem o diretor rouba inclusive a notória característica de fazer uma ponta em seus trabalhos (aqui ele aparece como um traficante de drogas).

“Corpo fechado” é um típico exemplo de filme que foi injustamente criticado por ter despertado as tais expectativas errôneas. Com o tempo fica mais fácil perceber suas inúmeras qualidades dramáticas e admirá-lo pelo que realmente é: um produto pop com uma inteligência muito acima da média.

Thursday, September 1, 2011

CONTE COMIGO

CONTE COMIGO (You can count on me, 2000, Paramount Classics, 111min) Direção e roteiro: Kenneth Lonergan. Fotografia: Stephen Kazmierski. Montagem: Anne McCabe. Música: Lesley Barber. Figurino: Melissa Toth. Direção de arte/cenários: Michael Shaw/Lydia Marks. Produção executiva: Steve Carlis, Donald C. Carter, Martin Scorsese. Produção: Barbara De Fina, Larry Meistrich, Jeffrey Sharp. Elenco: Laura Linney, Matthew Broderick, Mark Ruffalo, Josh Lucas, Rory Culkin, Jon Tenney, Gaby Hoffman, Amy Ryan. Estreia: 17/11/00

2 indicações ao Oscar: Atriz (Laura Linney), Roteiro Original

Em meio a tantos filmes barulhentos e caros que são empurrados garganta abaixo dos espectadores em busca de duas horas de entretenimento, obras como “Conte comigo”, do independente Kenneth Lonergan normalmente são ignorados pelo grande público, ficando restritos àqueles que buscam qualidade indepententemente do orçamento do projeto. Felizmente festivais de cinema, como o Sundance, criado por Robert Redford existem para isso, para chamar a atenção para pequenas pérolas. Graças aos prêmios de Melhor Filme e Roteiro em Sundance 2000 e as indicações para o Oscar de Melhor Atriz e Roteiro Original a bela história familiar criada por Lonergan obteve uma mínima repercussão, que permitiu que fosse descoberto por uma audiência um pouco maior. As poucas pessoas que assistiram a “Conte comigo”, no entanto, foram brindadas com um roteiro inteligente e de emoções reais, sem apelos melodramáticos e com personagens tão polidimensionais que parecem gente de verdade e não criações de um roteirista com preocupações comerciais e concessões absurdas. 

A história de “Conte comigo” começa quando um acidente de carro tira a vida de um casal, pai de dois filhos pequenos. Anos depois, a irmã mais velha, Sammy (Laura Linney na melhor atuação de sua carreira) vive sozinha com o filho único (Rory Culkin, outro irmão de Macaulay) e tem uma vida quase tediosa, o que a leva a se envolver sexualmente com seu novo chefe, Brian (Matthew Broderick) mesmo tendo um relacionamento com outro homem, o apaixonado Bob (John Tenney). Sua vida sofre uma mudança quando ela reencontra seu problemático irmão, o rebelde Terry (Mark Ruffalo em surpreendente trabalho), que, saindo da cadeia, precisa de dinheiro e mesmo que não saiba, do carinho de uma família. As coisas, que pareciam tranquilas começam a dar errado quando Terry faz amizade com o filho de Sammy e acaba o levando a conhecer seu pai (Josh Lucas), um mau-caráter que abandonou Sammy durante a gravidez.


Quem procura um filme repleto de reviravoltas dramáticas, cenas de impacto emocionais e finais redentores não deve experimentar “Conte comigo”. Kenneth Lonergan, inteligentemente passa longe das fórmulas e dos clichês que povoam dramas familiares, preferindo expor as emoções de suas personagens através de seus atos incoerentes e nem sempre acertados – como fazem pessoas de verdade, diga-se de passagem. As cenas entre Laura Linney e Mark Ruffalo – com uma química invejável – comprovam o fato, com uma tensão intrínseca que nem mesmo o amor difícil entre os dois consegue esconder - e que a bela trilha sonora apenas sublinha. A cena em que o próprio diretor, na pele de um pastor tenta ajudar o rebelde Terry em sua busca pela felicidade é um primor de sensibilidade com seu diálogo encantador e comovente que encontra em Mark Ruffalo o ator ideal. Sua atuação como Terry é comovente, mostrando ao público um ator em vias de tornar-se um dos coadjuvantes mais subestimados de Hollywood.

Aplausos a Laura Linney, a Mark Ruffalo e ao produtor executivo Martin Scorsese, que não permitiu interferências supérfulas no trabalho de Lonergan. E, se ao final de "Conte comigo" é possível derramar algumas lágrimas, elas são verdadeiras, vertidas por motivos reais e por pessoas que, mesmo não existindo em carne e osso, existem em alma.