Monday, February 7, 2011

O PADRE

O PADRE (Priest, 1994, Miramax Films, 98min) Direção: Antonia Bird. Roteiro: Jimmy McGovern. Fotografia: Fred Tammes. Montagem: Susan Spivey. Música: Andy Roberts. Figurino: Jill Taylor. Direção de arte/cenários: Raymond Langhorn/Sue Pow. Produção executiva: Mark Shivas. Produção: George Faber, Josephine Ward. Elenco: Linus Roache, Tom Wilkinson, Robert Carlyle, Robert Pugh, Cathy Tyson, Lesley Sharp. Estreia EUA: 24/3/95

Dentre inúmeros países que levam muito a sério a sua origem católica, a Irlanda provavelmente é um dos mais radicais, e não gosta nem um pouco que se toque em qualquer polêmica relativa a sua religião. Um exemplo claro dessa afirmação é seu violento boicote a "O padre", realizado pela cineasta inglesa Antonia Bird. Ao centrar sua história em um sacerdote homossexual com dúvidas em relação a um dos principais dogmas da Igreja, Bird desagradou a cúpula religiosa irlandesa, que tentou banir o filme dos cinemas. Tendo estreado mundialmente no Festival de Toronto de 1994, o filme alcançou as telas inglesas e americanas em março do ano seguinte, dividindo opiniões mas dando seu recado de forma bastante contundente.

A história começa quando o jovem padre Greg Pilkington (o ótimo Linus Roache, que anos depois faria o pai de Christian Bale em "Batman begins") chega a uma paróquia de Liverpool para substituir um antigo religioso. Logo que chega ao local, porém, Greg descobre que o pároco, Padre Matthew Thomas (Tom Wilkinson) não é exatamente praticamente do celibato, tendo um relacionamento estável com uma funcionária, Maria Kerrigan (Cathy Tyson). A princípio chocado com a descoberta, aos poucos Greg inicia uma relação de amizade e admiração pelo religioso mais velho, principalmente porque também seus segredos e dúvidas. Homossexual, ele passa a se encontrar às escondidas com o operário Graham (Robert Carlyle), lutando contra suas convicções. Sua fé fica definitivamente abalada, no entanto, quando ele descobre, através da confissão, que a adolescente Lisa (Christine Temarco) é abusada sexualmente pelo próprio pai. Sem poder revelar o trágico segredo, Greg fica de mãos amarradas e inicia uma jornada de revisão de todos os seus conceitos.

"O padre" não tem medo de polemizar. Cenas de sexo ousadas, diálogos bastante inteligentes a respeito da falta de sentido de alguns dos principais pilares da igreja católica e incesto desfilam pela tela diante dos olhos da plateia, a qual só resta tomar partido: é um filme forte e de ideias liberais ou apenas uma obra com vontade de chocar a audiência mais conservadora? Talvez a resposta esteja na coluna do meio. "O padre" merece aplausos por sua coragem em tocar em temas que precisam ser discutidos sem falsos moralismos, mas o faz, em certos momentos, sem uma bem-vinda dose de sutileza. Antonia Bird consegue provocar a discussão, mas a encerra de maneira um tanto abrupta e simplista. Até lá, no entanto, boa parte de suas intenções atingiram o objetivo: "O padre" toca em feridas e só por isso já é digno de louvor.


Primeiro, o roteiro de Jimmy McGovern ousa questionar o celibato, na figura do Padre Thomas, interpretado com o talento conhecido de Tom Wilkinson. Adepto da Teologia da Libertação, o veterano sacerdote vive em constante conflito com seus superiores a respeito de todo e qualquer assunto relacionado às formalidades católicas e suas discussões com o bispo são interessantes e relevantes. Se tivesse dedicado o filme todo a essa questão complicada por si mesma, "O padre" já daria o que falar. Mas Antonia Bird e McGovern ainda querem mais. E aproveitam a mesma trama (incesto) para discutir abuso sexual e a importância dos segredos de confessionário. Em "Testemunha do silêncio", Alfred Hitchcock jogou Montgomery Clift na cova dos leões ao fazê-lo ser acusado de um crime do qual ele sabia o autor através da confissão. Aqui, Padre Greg é impedido de tomar qualquer atitude em relação ao drama da adolescente Lisa e isso aumenta sua crise de fé. Ou seja, assunto para longas discussões em mesas de bares, artigos de jornal e sermões.

Mas nenhuma trama de "O padre" causou mais comoção do que a discussão do homossexualismo. Antonia Bird não se furta a mostrar graficamente a opção sexual de Greg, em cenas bastante quentes, ainda que muito bem dirigidas e plasticamente atraentes. Mesmo que os demais assuntos discutidos no filme sejam tão fortes quanto as aventuras amorosas de Greg com seu amante Graham, são elas que causaram mais choque entre a comunidade religiosa irlandesa e mundial a respeito do filme. Discutir celibato? Tudo bem. Questionar a validade dos segredos de confissão? Perfeito. Mas falar sobre homossexualidade dentro da Igreja pareceu ser além da conta. À luz dos inúmeros escândalos envolvendo pedofilia e padres, no entanto, não deixa de ser de extrema ironia que um filme com pretensões sérias e legítimas tenha sido capaz de despertar tanto celeuma.

No final das contas, "O padre" é um filme que merece ser assistido por suas qualidades artísticas (o elenco é impecável), mas que fica no meio-termo entre o que poderia ser e o que se tornou. Discute assuntos muito sérios que precisam ser discutidos, mas o faz de maneira bastante simplória em alguns momentos, apesar de algumas cenas de extrema força dramática. É um filme que poderia ter sido genial, mas que esbarra em seus próprios exageros e vontade de chocar.

Sunday, February 6, 2011

AS PATRICINHAS DE BEVERLY HILLS

AS PATRICINHAS DE BEVERLY HILLS (Clueless, 1995, Paramount Pictures, 97min) Direção e roteiro: Amy Heckerling. Fotografia: Bill Pope. Montagem: Debra Chiate. Música: David Kitay. Figurino: Mona May. Direção de arte/cenários: Steven Jordan/Amy Wells. Produção: Robert Lawrence, Scott Rudin. Elenco: Alicia Silverstone, Paul Rudd, Brittany Murphy, Stacey Dash, Donald Faison, Breckin Meyer, Jeremy Sisto, Dan Hedaya, Wallace Shawn, Justin Walker. Estreia: 19/7/95

Cher Horowitz é uma adolescente de 16 anos que divide seu tempo entre a escola, passeios ao shopping e festas com os amigos, em especial a igualmente bem-nascida Dionne (Stacey Dash). Suas maiores preocupações na vida são cuidar da alimentação de seu pai, um advogado bem-sucedido (Dan Hedaya), escolher a roupa adequada para cada ocasião e, em último lugar, encontrar a pessoa certa para entregar sua virgindade. Enquanto isso não acontece, ela tenta resolver a vida amorosa das pessoas que a cercam, em especial Tai (Brittany Murphy), uma nova colega desajeitada e sem traquejo social, a quem ela considera sua principal missão. Preocupada em ensinar-lhe bons modos e arranjar-lhe um namorado, Cher nem desconfia que sua própria vida romântica está prestes a sofrer uma reviravolta e que o amor de sua vida está bem mais perto que ela imagina.

Se a história de "As patricinhas de Beverly Hills" parece familiar é porque sua trama não é exatamente original. É que a diretora e roteirista Amy Heckerling - da comédia "Picardias estudantis" - inspirou-se descaradamente no romance "Emma", de Jane Austen, publicado pela primeira vez em 1815. E por incrível que pareça, as aventuras e desventuras românticas de uma inglesa do século XIX soou absolutamente moderna mesmo duzentos anos depois de seu lançamento. Utilizando fielmente a estrutura e os elementos básicos do romance de Austen - que também em 1995 teve uma adaptação oficial estrelada por Gwyneth Paltrow - Hecklerling criou uma ácida e deliciosa crítica (ainda que carinhosa) à juventude um tanto fútil, consumista e vazia do final de século.

Mas a crítica velada (ou nem tanto) de Heckerling não foi a principal responsável pelo grande sucesso que o filme fez, uma vez que a maioria absoluta do público que frequentou as salas de cinema para assistir o filme provavelmente nem sabia que seu roteiro seria premiado pelo National Board of Review e indicado pelo sindicato de roteiristas. Pode ser meio bobo e não agradar a quem vai ao cinema atrás de elocubrações, mas é uma hora e meia de diversão leve e - por que não? - bastante inteligente, principalmente se comparado a outros produtos do gênero. E isso tudo embalado por uma atuação inspiradíssima de Alicia Silverstone, no auge da popularidade e do frescor juvenil.


Silverstone é quem comanda a festa. Sua Cher orquestra toda a sinfonia de festas, angústias e paixonites que aparentam ser definitivas de sua faixa etária sem nunca deixar de ser charmosa e sensível. Cher desfila por cenários deslumbrantes, usa roupas caras, dirige um carro do último tipo mas no fundo é uma adolescente assombrada pelas mesmas dúvidas de qualquer um na sua idade: ela quer ser amada por alguém que valha a pena e, nesse caminho tortuoso rumo à felicidade românticas esbarra em candidatos que foram genialmente adaptados da obra de Austen. Estão ali o don juan adolescente Elton (Jeremy Sisto), o suspeito Christian (Justin Walker) e até mesmo Josh (Paul Rudd), filho da ex-mulher de seu pai, por quem ela nutre estranhos sentimentos de repulsa. Todas são personagens do romance, devidamente ajustados por Heckerling de maneira genial. E não deixa de ser interessante ver o início da carreira de Jeremy Sisto - que faria sucesso com a série "A sete palmos" -, Paul Rudd (em franca atividade no cinema) e Brittany Murphy, precocemente morta em um bom momento da carreira.

Somados à trilha sonora pop contagiante - que inclui David Bowie, No Doubt, Radiohead, Supergrass e Jewell - e a um clima que remete fatalmente aos tempos de escola, "As patricinhas de Beverly Hills" é uma delícia, uma sessão da tarde agradável, engraçada e que é a cara de sua geração. Um clássico juvenil dos anos 90, apesar dos preconceitos dos 'cultos'.

Friday, February 4, 2011

O CARTEIRO E O POETA

O CARTEIRO E O POETA (Il postino/The postman, 1995, Miramax International, 108min) Direção: Michael Radford. Roteiro: Anna Pavignano, Michael Radford, Furio Scarpelli, Giacomo Scarpelli, Massimo Troisi, romance "Ardiente paciencia", de Antonio Skarmeta. Fotografia: Franco di Giacomo. Montagem: Roberto Perpignani. Música: Luis Enrique Bacalov. Figurino: Gianna Gissi. Direção de arte: Lorenzo Baraldi. Produção executiva: Alberto Passone. Produção: Mario Cecchi Gori, Vittorio Cecchi Gori, Gaetano Daniele. Elenco: Phillipe Noiret, Massimo Troisi, Maria Grazia Cucinotta, Linda Moretti, Anna Bonaiuto. Estreia EUA: 14/6/95

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Michael Radford), Ator (Massimo Troisi), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original/Drama
Vencedor do Oscar de Melhor Trilha Sonora Original/Drama

Para um filme estrangeiro, romper a barreira do idioma e fazer sucesso junto ao preguiçoso e mal-acostumado público médio norte-americano é uma façanha e tanto. Quando a esse sucesso junta-se generosas cinco indicações ao Oscar - inclusive as mais importantes de filme, diretor, roteiro e ator - então, a festa tem tudo para ser completa. Pois o belo italiano "O carteiro e o poeta" pode-se gabar desses dois feitos e tanto. Mesmo tendo sido dirigido pelo inglês Michael Radford, a adaptação do romance do chileno Antonio Skarmeta tem cenário, alma e sensibilidade italianas, e é capaz de emocionar qualquer espectador disposto a embarcar na jornada de um homem em direção às mais importantes conquistas de sua vida: o amor, a amizade e a consciência política.
O roteiro de "O carteiro e o poeta" mescla acontecimentos reais com uma história de ficção, equilibrando com maestria o verdadeiro com o imaginário. Mesmo tendo um final substancialmente diferente de sua versão literária - o que pode enfurecer os puristas, mas não atinge a vasta maioria da audiência - ele mantém o tom cômico/romântico/melancólico do livro e da peça teatral que este originou. Tudo se passa em uma pequena ilha da Sicília, onde o poeta chileno Pablo Neruda (Phillipe Noiret) se auto-exila depois de desentendimentos sérios com o governo de seu país. Vivendo ao lado da esposa Matilda em uma casa simples com uma bela vista para o mar, ele recebe vasta correspondência de seus fãs - a maioria mulheres encantadas com suas poesias. Encarregado de entregar todas as cartas que chegam para Neruda está o simples e semi-analfabeto Mario Ruoppolo (Massimo Troisi), que tenta desesperadamente fugir de uma vida miserável e da carreira de pescador de seu pai. Quando Mario se apaixona pela garçonete Beatrice (Maria Garzia Cuccinota), ele resolve pedir ajuda ao poeta para conquistá-la. No processo de aprender a fazer poesia, Mario passa a tomar consciência da desigualdade social que impera em seu vilarejo e inicia uma grande e profunda amizade com Neruda.



Premiado com o Oscar de melhor trilha sonora original/drama, "O carteiro e o poeta" deu a Massimo Troisi uma indicação póstuma na categoria de melhor ator. Troisi, que morreu 24 horas depois de encerrar sua participação no filme era um dos atores mais queridos e talentosos do cinema italiano da época, tendo participado de filmes importantes como "A viagem do Capitão Tornado", de Ettore Scola. Tendo feito seu último filme já seriamente doente - havia adiado a cirurgia cardíaca para após o término de filmagens - Troisi conquista a plateia com seu jeito triste e simplório, em uma atuação tão delicada quanto sua saúde no momento. Com um perfeito timing de comédia e uma riqueza de nuances em sua expressão facial, ele rouba a cena até mesmo do veterano e carismático Noiret, que pontua com discrição seu show particular.

Mas, além da presença extraordinária de Troisi, "O carteiro e o poeta" também tem outros trunfos, que o levaram a ocupar um lugar de destaque nos corações dos fãs. A fotografia deslumbrante de Franco di Giacomo não busca o tentacular e encanta justamente por limitar-se à beleza das paisagens (mesmo quando foca as tristes e desesperançadas redes dos pescadores). A música de Luis Bacalov é deslumbrante por sua pungência. E o roteiro - que poderia facilmente ter levado o Oscar se não tivesse batido de frente com o fabuloso Razão e sensibilidade, de Emma Thompson - alterna com grande inteligência momentos genuinamente engraçados com diálogos brilhantes e um final de partir o coração. O que mais se pode esperar de um filme, além disso?

Não é por qualquer motivo que "O carteiro e o poeta" fez tanto sucesso pelo mundo. Lançado na mesma época em que imbecilidades como "Independence Day" lotavam salas e mais salas, ele foi um oásis de humanismo, sinceridade e beleza para aqueles que buscam no escurinho do cinema a vida como ela é, ainda que revestida de uma dolorosa e tocante aura de poesia.

Thursday, February 3, 2011

AS PONTES DE MADISON

AS PONTES DE MADISON (The bridges of Madison County, 1995, Warner Bros/Amblin Entertainment/Malpaso Productions, 135min) Direção: Clint Eastwood. Roteiro: Richard LaGravenese, romance de Robert James Waller. Fotografia: Jack N. Green. Montagem: Joel Cox. Música: Lennie Niehaus. Figurino: Colleen Kelsall. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Jay Hart. Produção: Kathleen Kennedy, Clint Eastwood. Elenco: Clint Eastwood, Meryl Streep, Jim Haynie, Annie Corley, Victor Slezak. Estreia: 02/6/95

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Meryl Streep)


Em 1988 Clint Eastwood lançou "Bird", a cinebiografia do músico Charlie Parker e surpreendeu crítica e público com a sensibilidade e o ritmo com que tratou o tema - além de ter dado a melhor oportunidade até então a Forest Whitaker. Depois de ganhar o Oscar por "Os imperdoáveis", um faroeste contemplativo e melancólico, o velho Dirty Harry começou a convencer realmente de que, por trás de uma fachada seca e impenetrável, havia um ser humano com sentimentos profundos. A certeza dessa afirmação veio com "As pontes de Madison", em que o diretor se aventurou pela primeira vez em um gênero estranho à sua obra: o drama romântico. Adaptado de um romance água-com-açúcar de Robert James Waller, o filme é um petardo emocional capaz de comover o mais empedernido dos espectadores. Não há como, nos minutos finais de projeção, não cair em lágrimas, senão pela história - que esbarra em alguns clichês, como é natural - ao menos pelo trabalho irretocável de Meryl Streep no papel que lhe deu mais uma infrutífera indicação ao Oscar.

Uma poderosa história de amor, perda e de como certos momentos podem definir uma vida inteira, "As pontes de Madison" começa com sua protagonista, Francesca Johnson (Meryl Streep, em uma monumental atuação) morta. De herança a seu casal de filhos de meia-idade ela deixa um testamento onde pede para ser cremada e ter suas cinzas jogadas em uma ponte e três cadernos de anotações onde conta uma história mantida a sete chaves dentro de seu coração. Abismados, os dois tem contato, então, com um lado de sua mãe que jamais pensaram que tivesse existido: uma mulher passional, sonhadora e romântica que foi obrigada a deixar seus sentimentos de lado para manter a famíla e o casamento. Nos diários de Francesca, ela conta como, em 1965, durante uma viagem do marido e dos filhos a uma feira rural ela teve um tórrido e devastador romance com Robert Kincaid (Clint Eastwood), fotógrafo da revista National Geographic.

Dona-de-casa com uma frustrada vocação para o magistério - do qual abdicou na Itália para casar-se com um fazendeiro de Iowa - Francesca é uma mulher conformada, que vive para a família, não exatamente carinhosa e atenciosa como ela merece. Sozinha por quatro dias em um fim-de-semana de verão, ela conhece o fotógrafo Robert, de passagem pela região para registrar as pontes cobertas do condado. Sentindo-se imediatamente atraída por ele - e por sua liberdade - Francesca inicia um flerte delicado e sutil com o desconhecido que lhe ressuscita os sonhos de sua juventude. Apaixonados avassaladoramente um pelo outro, eles são obrigados, porém, a encarar a dura realidade que se aproxima com a volta dos Johnson.


Utilizando com esperteza o velho truque do flash-back, o roteirista Richard LaGravenese - que se aventuraria anos mais tarde na carreira de diretor com o também lacrimoso "PS, eu te amo" - manipula os sentimentos do espectador da maneira mais explícita possível, mas é tão honesto em suas intenções que isso acaba contando a seu favor. Graças a diálogos fluentes e às interpretações de seus protagonistas, fica difícil não acreditar no nascente amor entre os dois, duas pessoas aparentemente diferentes mas que mantém acesa (ainda que discretamente) a chama da vida. Talvez justamente por envolver a plateia no romance entre os dois - de forma gradual e delicada, ao som de uma caprichada trilha sonora de Lennie Niehaus - o filme consegue, em seu terço final, baixar a guarda de todo mundo e conduzir a todos a uma jornada à mais profunda tristeza e frustração.

A cena em que Francesca precisa decidir, em questão de segundos, todo o seu futuro, já é destinada a qualquer antologia dos momentos mais arrasadores do cinema romântico americano. Debaixo de uma chuva inclemente e com o marido a seu lado, ela necessita definir sua felicidade, infelicidade ou frustração antes que o sinal verde do semáforo lhe obrigue a deixar de lado o amor maior de sua vida. Na pele de Meryl Streep, a melhor atriz viva do cinema, Francesca deixa de ser apenas uma personagem para tornar-se a plateia em toda a sua extensão. São as lágrimas de Francesca que escorrem pelo rosto do público, em uma catarse coletiva que justifica-se plenamente pela competência assustadora com que Eastwood contou uma história absolutamente simples e sem firulas.

Programa obrigatório para fãs de cinema, fãs de Meryl Streep e fãs de filmes românticos, "As pontes de Madison" é um clássico instantâneo. E como diz a personagem de Eastwood, essa certeza só se tem uma vez na vida.

Wednesday, February 2, 2011

CORAÇÃO VALENTE


CORAÇÃO VALENTE (Braveheart, 1995, Icon Entertainment International, 177min) Direção: Mel Gibson. Roteiro: Randall Wallace. Fotografia: John Toll. Montagem: Steven Rosenblum. Música: James Horner. Figurino: Charles Knode. Direção de arte/cenários: Tom Sanders/Peter Howitt. Produção executiva: Stephen McEveety, Elisabeth Robinson. Produção: Bruce Davey, Mel Gibson, Alan Ladd Jr. Elenco: Mel Gibson, Sophie Marceau, Patrick McGoohan, Angus McFayden, James Cosmo, Stephen Billington. Estreia: 24/5/95

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Mel Gibson), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Figurino, Som, Efeitos Sonoros, Maquiagem
Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Mel Gibson), Fotografia, Efeitos Sonoros, Maquiagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Diretor (Mel Gibson)

Atores transformados em diretores tem uma grande simpatia dos eleitores da Academia, fazendo parte de uma quase tradição não oficial que frequentemente os premia com uma baciada de Oscar. Foi assim, por exemplo, com Robert Redford, Kevin Costner e Clint Eastwood, só pra citar alguns nomes nas últimas décadas. Quem também se beneficiou dessa boa vontade foi Mel Gibson: astro de filmes de ação como a série "Máquina mortífera" , o ator americano criado na Austrália começou a se reinventar nos anos 90, mostrando um lado sensível que seus trabalhos anterior jamais deixavam antever. Depois de dividir a crítica como a personagem-título de "Hamlet", de Franco Zefirelli e estrear atrás das câmeras com o belo "O homem sem face", Gibson pegou o mundo de surpresa com o ambicioso "Coração valente", um épico de quase três horas de duração em que conta a história de William Wallace, o maior herói da independência da Escócia. Indicado a dez Oscar e premiado em cinco categorias - inclusive as cobiçadas de melhor filme e diretor - o filme ainda arrecadou mais de 75 milhões de dólares no mercado doméstico, provando que, por trás do polêmico e rude ator de "Mad Max" escondia-se um talentoso e delicado cineasta.


Assumindo o papel central mesmo considerando-se velho demais para isso - ele queria o ator Jason Patric como protagonista - Gibson provou-se, também, bastante esperto. Para garantir a distribuição do filme nos EUA pela Paramount, ele aceitou enfeitar com seu nome os cartazes, sabendo que isso atrairia a audiência, que, do contrário, poderia passar ao largo de uma obra de longa duração cujo protagonista não era exatamente um mito mundial. Idolatrado na Escócia, o herói do filme é retratado pelo roteiro de Randall Wallace de forma mitológica, o que colabora para o envolvimento emocional da plateia. Ao equilibrar com inteligência sequências abismais de batalhas violentíssimas com uma fictícia história de amor e intrigas palacianas, Gibson e Wallace acertam em cheio: apesar de chegar perto de três horas de duração, "Coração valente" flui com uma velocidade ímpar, graças ao ritmo imposto pelo roteiro, ora contemplativo, ora alucinante.


As primeiras cenas já demonstram o cuidado do Gibson diretor, ao estabelecer, em poucos minutos, a personalidade de seu protagonista e sua relação com as demais personagens: ainda criança, o jovem William (interpretado pelo carismático James Robinson) perde o pai e vai morar com o tio, Malcolm (Sean Lawlor), que o ensina a ler, falar outras línguas e utilizar o cérebro com mais frequência do que a força física. Ao retornar ao vilarejo de sua infância (já na pele do Gibson ator), ele a encontra em crise, com a população revoltada com a lei da Primeira Noite, que dá aos nobres o direito de passar a noite de núpcias com as jovens noivas. A morte cruel de sua amada Murron (Catherine McCormack) o empurra indelevelmente à luta contra o governo inglês, na forma do déspota Edward Longshanks (Patrick McGoohan). Juntando um exército inferior em número mas superior em coragem e estratégia, Wallace torna-se uma lenda e desperta a paixão da princesa Isabelle (Sophie Marceau), nora do rei.


Para o público médio, que pouco se importa com licenças históricas, "Coração valente" é uma obra-prima. Ágil, belissimamente fotografado e dirigido com um cuidado evidente, é um filme realizado com alma e que remete aos épicos clássicos dos tempos áureos do cinema - não à toa, seu grande sucesso incentivou outras produções do estilo, quase todas sem a mesma qualidade. A maior diferença entre o filme de Gibson e seus congêneres é que o cineasta realmente sabia o que queria. Editada sem pressa mas nunca com uma lentidão exagerada, a história de William Wallace conquista a audiência justamente por jamais se permitir fugir de seu maior objetivo: contar uma bela história para um público o mais amplo possível. Sintomaticamente, algumas cenas até soam didáticas, mas sem ofender a inteligência dos espectadores.


E seria de uma injustiça imperdoável não louvar o realismo das cenas de batalha orquestradas por Mel Gibson. Realizadas em grande escala, as sequências que contrapoem ingleses e escoceses - violentas, bárbaras e sangrentas - enchem os olhos e os ouvidos, hipnotizando o público na mesma medida em que o diverte. Sim, o roteiro encontra espaço - ainda que pequeno - para um pouco de humor, mais um acerto da produção, que, assim, dá um alívio depois de alguns momentos bastante fortes.


"Coração valente" mereceu ser o vencedor do Oscar de 1995, ainda que tenha disputado a estatueta com os belos "Razão e sensibilidade" e "O carteiro e o poeta". Agradou a crítica, o público e os eleitores da Academia por seu perfeito equilíbrio entre ação, romance e história. Um épico digno da ser assim chamado!

Tuesday, February 1, 2011

O CASAMENTO DE MURIEL


O CASAMENTO DE MURIEL (Muriel's wedding, 1994, Film Victoria/House & Moorhouse Films, 106min) Direção e roteiro: P.J. Hogan. Fotografia: Martin McGrath. Montagem: Jill Bilcock. Música: Peter Best. Figurino: Terry Ryan. Direção de arte/cenários: Patrick Reardon/Glen W. Johnson, Jane Murphy. Produção: Lynda House, Jocelyn Moorhouse. Elenco: Toni Collette, Bill Hunter, Rachel Griffiths, Jeanie Drynan, Gennie Nevinson, Matt Day, Daniel Lapaine. Estreia EUA: 10/3/95

Na mesma época em que as drag-queens de "Priscilla, a rainha do deserto" conquistavam o público com seu humor sarcástico e fina ironia a respeito de intolerância e preconceito, outro filme australiano trilhava caminho semelhante, seduzindo a audiência por onde passava. Escrito e dirigido por P.J. Hogan, "O casamento de Muriel" é uma deliciosa comédia dramática que trata de forma leve e bem-humorada temas difíceis como inadequação social, solidão e depressão. No tom quase de deboche do roteiro de Hogan, há uma ácida e agridoce visão sobre sonhos e como eles servem de apoio e/ou empecilho para uma felicidade que parece impossível de alcançar. Por trás de tudo, no entanto, há o elogio rasgado à amizade e em como ela pode transformar uma vida.

Muriel Heslop, a protagonista vivida com propriedade pela ótima Toni Collette, é uma jovem que vive em uma pequena cidade da Austrália onde seu pai (Bill Hunter) é um conhecido vereador. Acima do peso, incapaz de manter-se empregada e apaixonada pelas canções do grupo ABBA - também citado com destaque em "Priscilla" - ela sonha em ter um casamento no estilo que vê nas revistas e na televisão, mesmo que não tenha sequer um pretendente. Enquanto é obrigada a conviver com uma família extremamente medíocre - os irmãos não fazem nada a não ser vegetar no sofá assistindo TV, a mãe é absolutamente apática e o pai um político corrupto e adúltero - Muriel tenta manter a amizade com um grupo de ex-colegas de escola, garotas populares que a desprezam e humilham em público. Revoltada com sua vida, Muriel dá um desfalque no pai e foge para Sydney, onde, com o nome alterado para Mariel, resolve reinventar-se. Dividindo um apartamento com uma nova melhor amiga, a liberada Rhonda (Rachel Griffiths), ela descobre os prazeres de uma vida nova, mas não consegue livrar-se completamente de seu passado. E quando finalmente tem a chance de realizar seu sonho de casar-se na igreja - com um nadador sul-africano que precisa de um green card - ela percebe que talvez as coisas não sejam exatamente como ela sempre imaginou que fossem.



Apesar da melancolia que perpassa todo o filme, "O casamento de Muriel" não deixa de ser uma experiência bastante agradável. Hogan - cujo fetiche por cerimônias matrimoniais encontraria o auge com "O casamento do meu melhor amigo", com Julia Roberts - escreveu um roteiro redondo, perfeito em sua forma irônica de criticar a sociedade australiana, afogada em sua hipocrisia e suas tradições. Até mesmo o fato de Rhonda ser de certa forma "punida" por sua liberdade sexual demonstra claramente que o cineasta conhece o universo que retrata: ao contrário do que se possa pensar, ele não castiga a personagem e sim a empurra em direção a uma real liberdade, a mesma que Muriel procura desesperadamente e julga encontrar na realização de seu casamento.

Aparentemente uma comédia boba e despretensiosa, "O casamento de Muriel" é, na verdade, um filme sobre pessoas lutando por sua felicidade, ainda que nem mesmo saibam de verdade onde procurá-la. Muriel é o retrato de uma sociedade sem maiores ambições, mas sua fuga de casa a salva da mediocridade na qual o resto de sua família vive mergulhada. Ela quer que sua vida seja tão boa quanto uma canção do ABBA e isso faz dela uma heroína pós-moderna, capaz de atos insensatos para atingir seus objetivos. Muriel é ingênua, é irresponsável e romântica, mas é verdadeira, humana e sensível. Isso faz toda a diferença, principalmente com a atuação irrepreensível de Toni Collette, que engordou para fazer o papel e depois tornou-se uma atriz de respeito em Hollywood, chegando a ser indicada ao Oscar de coadjuvante por "O sexto sentido". A seu lado, também brilha a radiante Rachel Griffiths, que apresenta todas as nuances de sua Rhonda com uma segurança ímpar - não é à toa que ela também já chegou perto de uma estatueta por "Hilary & Jackie" e tornou-se conhecida pelas ótimas séries "A sete palmos" e "Brothers and sisters".

Embalado por uma nostálgica e dançante trilha sonora e com uma protagonista encantadora, "O casamento de Muriel" é um cult-movie por excelência. Uma sessão da tarde saborosa e com muito mais consistência do que mostra à primeira vista.

Monday, January 31, 2011

SOMENTE ELAS


SOMENTE ELAS (Boys on the side, 1995, Warner Bros, 115min) Direção: Herbert Ross. Roteiro: Don Roos. Fotografia: Donald E. Thorin. Montagem: Michael R. Miller. Música: David Newman. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Ken Adam/Rick Simpson. Produção executiva: Patricia Karlan, Don Roos. Produção: Arnon Milchan, Steven Reuther, Herbert Ross. Elenco: Whoopi Goldberg, Mary-Louise Parker, Drew Barrymore, Matthew McConaughey, James Remar, Estelle Parsons. Estreia: 03/02/95

Não seria exagero afirmar que o cineasta Herbert Ross tinha um jeito todo especial de falar sobre mulheres em seus filmes. Duas de suas mais conhecidas obras, por exemplo, tem personagens femininas fortes e podem ser considerados "filmes de mulher": "Momento de decisão", que punha Shirley MacLaine e Anne Bancroft frente a frente para resolver diferenças do passado, e "Flores de aço", drama choroso com grande elenco de atrizes e que deu a primeira indicação ao Oscar de Julia Roberts. "Somente elas", seu último filme, também, como o título sugere, concentra toda sua atenção em representantes fortes do sexo frágil. No rastro do bem-sucedido "Thelma & Louise", que ressuscitou o interesse do público por mulheres em situações menos "domésticas", o filme escrito por Don Roos - que depois partiria para a carreira de diretor dos injustamente desconhecidos "O oposto do sexo" e "Finais felizes" - mistura elementos de humor, drama e road-movie em um resultado bastante agradável e competente, ainda que longe de ser brilhante.

Quando o filme começa, a cantora Jane de Luca (Whoopi Goldberg) acaba de abandonar o bar onde fazia suas apresentações - e era ignorada pela plateia - e, desejando mudar-se para a Califórnia, responde a um anúncio de jornal da jovem Robin (Mary-Louise Parker), que precisa de companhia na viagem. No meio do caminho, as duas encontram a amalucada Holly (Drew Barrymore), amiga de Jane que acaba de descobrir-se grávida - sem saber se o pai é ou não seu namorado drogado e violento. Quando o namorado de Holly é encontrado morto, as três apressam a jornada, mas resolvem estabelecer-se em uma cidade do Texas. A vida simples e tranquila das três amigas sofre uma reviravolta quando Holly cai de amores por Abe (Matthew McConaughey), um policial honesto e dedicado e Jane se descobre apaixonada por Robin, que é soropositiva e tenta fugir das lembranças da morte do irmão pequeno.


"Somente elas" não foge dos clichês do gênero, mas os apresenta de maneira leve e fluente, sem forçar a barra, ao menos até seu terço final, quando a doença de Robin avança e todas são obrigadas a lidar com as consequências da morte do namorado de Holly. Esse terceiro ato talvez seja o que mais se aproxima dos dramalhões que o cinema americano adora produzir, mas não convenceu muito a crítica, falhando no que talvez fosse seu maior objetivo: ganhar certas estatuetas. Mary-Louise Parker é uma boa atriz, como a série de TV "Weeds" viria a comprovar, mas soa repetitiva em muitos momentos, não conquistando a plateia com sua personagem, ao contrário do que acontece com Drew Barrymore, dona de uma simpatia e um carisma irresistíveis que disfarçam suas pequenas falhas como atriz dramática: sua Holly parece ter sido escrita para ela, tamanha a identificação com o papel. E Whoopi Goldberg dispensa comentários. Dona de um perfeito timing cômico e um grande talento dramático, é ela quem conduz com maestria o filme de Ross, fazendo com o que o público perdoe certos exageros da trama.

E o que falar da trilha sonora, então? Como o próprio título sugere, até mesmo as canções escolhidas para "Somente elas" são femininas. Desde a versão interpretada por Goldberg de "Piece of my heart" até sua devastadora interpretação de "You got it", de Roy Orbison (cuja gravação na voz de Bonnie Rait encerra o filme), o público é brindado com uma primorosa seleção de músicas cantadas por mulheres. Estão presentes Annie Lennox, Cranberries, Sheryl Crow, Pretenders e Indigo Girls, dentre outras menos conhecidas, o que faz com que "ouvir" o filme seja tão bom quanto assistí-lo.

"Somente elas" é um perfeito drama para quem gosta de encharcar lenços de papel. A amizade entre as três protagonistas parece real, ainda que aconteça de forma quase abrupta na primeira metade, e a química entre as atrizes é excelente. Alguns diálogos são bastante espertos - cortesia do humor corrosivo de Don Roos - e até mesmo o final quase depressivo (só não o é totalmente porque existe o eterno ciclo da vida se renovando com o bebê de Holly) funciona e atinge seus objetivos. Não é uma obra-prima, mas vale a pena ser visto, nem que seja para conferir o trabalho de equipe de Goldberg, Parker e Barrymore.