Wednesday, June 1, 2011

STUDIO 54

STUDIO 54 (54, 1998, Miramax Films, 100min) Direção e roteiro: Mark Cristopher. Fotografia: Alexander Gruszynski. Montagem: Lee Percy. Música: Marco Beltrami. Figurino: Ellen Lutter. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/Karen Wiesel. Produção executiva: Don Carmody, Bobby Cohen, Harvey Weinstein, Bob Weinstein. Produção: Ira Deutchman, Richard N. Gladstein, Dolly Hall. Elenco: Ryan Phillipe, Salma Hayek, Mike Myers, Neve Campbell, Breckin Meyer, Mark Ruffalo, Heather Matarazzo, Sela Ward. Estreia: 20/8/98

Entre 1977 e o início dos anos 80, nenhum lugar era mais quente e badalado em Nova York do que o Studio 54. Criada por Steve Rubell, ex-dono de restaurantes, era a discoteca mais cobiçada por todo mundo que sonhava com glamour, fama e diversão sem fim. Frequentada pelos grandes nomes do entretenimento, das artes e do esporte, misturava a "realeza" americana com a plebe, formada por todos aqueles desconhecidos que tinham a sorte de ser belos e/ou interessantes e passar pelo crivo de Rubell, que ficava em pessoa na porta do local, escolhendo quem merecia dançar até o amanhecer. Um dos mais interessantes e lendários locais da era disco, o Studio 54 deu origem também a um filme que, perto do que poderia ter sido, decepcionou crítica e público. Mas será que o diabo é tão ruim como pintam?

Em termos dramáticos, não se pode dizer que "Studio 54" - o filme - seja bom. O roteiro do também diretor Mark Cristopher é superficial ao extremo, não dando espaço para que suas personagens se desenvolvam a contento. Tudo é muito maniqueísta e quase tosco no desenho dos protagonistas, e suas atitudes nunca soam como verdadeiras e sim como estratégias dramáticas para que a história vá pra frente. Não dá para acreditar, por exemplo, no romance entre Shane (Ryan Philippe, bonito mas péssimo ator) e a atriz Julie Black (a sempre artificial Neve Campbell) nem tampouco na amizade entre ele e o casal Anita (Salma Hayek, linda mas limitada a uma personagem quase caricata) e Greg (Breckin Meyer, que faz o possível com o que tem em mãos). Apenas o Steve Rubell de Mike Myers convence, provando que o humorista é bem melhor ator dramático do que suspeitavam os fãs de "Austin Powers", sua criação mais conhecida.

Mas, se não dá pra acreditar muito na trama proposta por Cristopher, ao menos dá pra se divertir com o clima com que o diretor envolve seu projeto. Tudo, desde a trilha sonora dançante e repleta de clássicos da disco até o figurino caprichado de Ellen Lutter, convida a plateia a uma viagem no tempo, até uma época em que a permissividade sexual e comportamental estava em seu auge. É difícil não se ter uma nostalgia de um período em que, sim, a AIDS começava a pairar sobre a sociedade e as drogas iniciavam seu avassalador domínio sobre qualquer desavisado, mas que, ao mesmo tempo, concedia à população momentos de extrema alegria e diversão (ainda que depois tenha cobrado seu preço). O diretor é feliz em conseguir transmitir o clima de eterna festa da época (em especial quando recria as noitadas regadas a álcool e tóxicos da boate) na mesma medida em que falha em construir uma história mais consistente.


Mas, afinal, qual é a história de "Studio 54"? O protagonista é Shane O'Shea, um jovem morador de Nova Jersey que tem o sonho de tornar-se "alguém" em Nova York, assim como sua conterrânea, a atriz Julie Black (que, apesar de aparentar sucesso, também tenta se dar bem na carreira, nem que tenha que dormir com quem passar pelo seu caminho). Em seu caminho para o topo, ele chega até a famosa boate e, protegido pelo proprietário Steve Rubell e dono de um belo corpo e um belo rosto, torna-se conhecido dentro das altas rodas sociais e artísticas da cidade. Ambicioso, ele acaba entrando em rota de colisão com seus melhores amigos, o bartender Greg e sua mulher Anita (que sonha em ser uma cantora disco) e descobre, quase tarde demais, que existem coisas mais importantes do que fama e prestígio.

Sim, "Studio 54" também tem uma lição de moral, o que dá um certo gostinho de desmancha-prazeres. Cristopher não tem a coragem necessária de ir fundo em alguns temas que poderiam ter transformado o filme em uma experiência mais bem-sucedida (a sexualidade dúbia de Rubell, por exemplo, ou até mesmo a decadência moral e psicológica de seu protagonista). Também não explora a contento todo o sex-appeal de Ryan Philippe no auge de sua beleza ou o talento histriônico de Mike Myers - que mesmo assim, esquiva-se gloriosamente de todos os problemas do roteiro.

Em resumo, "Studio 54" é um daqueles filmes ruins que conquistam mais pelo que pretendia ser do que pelo que realmente é. Sem maiores expectativas dá pra assistir inúmeras vezes (principalmente para quem é fã do período retratado). Mas não é tão bom quanto poderia.

Tuesday, May 31, 2011

CORRA LOLA, CORRA

CORRA LOLA, CORRA (Lola Rennt, 1998, 81min) Direção e roteiro: Tom Tykwer. Fotografia: Frank Griebe. Montagem: Mathilde Bonnefoy. Figurino: Monika Jacobs. Direção de arte/cenários: Alexander Manasse/Irene Otterpoh. Produção: Stefan Arndt. Elenco: Franka Potente, Moritz Bleibetreu, Nina Petri, Herbert Knaup. Estreia (Alemanha): 20/8/98

Ainda bem que não só de Wim Wenders vive o cinema alemão! Deixando de lado a imagem soporífera e intelectualóide das produções alemãs que alcançaram o grande público mundial, o divertido "Corra Lola, corra" rompe radicalmente com seus antepassados. Ágil, moderno e criativo, o filme de Tom Tykwer conquista a audiência justamente por ser absolutamente desligado de qualquer obrigação sócio-filosófica que o cinema europeu "engajado" empurra garganta abaixo do público. É entretenimento puro e simples, conectado absurdamente com a audiência jovem que fez dele um grande sucesso.

Apresentando o que convencionou-se chamar de "estética de videoclipe" (sem o sentido pejorativo do termo), "Corra Lola, corra" é praticamente isso, mesmo: um videoclipe estiloso e divertido que utiliza um fiapo de enredo para seduzir uma audiência sedenta por novidades na sétima arte. Pode ser quase fútil e até mesmo raso em termos de conteúdo, mas é tão fascinante que a falta de uma trama consistente quase nem é sentida. O truque é entrar na viagem de Tykwer e, ao lado da bela Franka Potente (que logo foi importada por Hollywood nos dois primeiros filmes da série Bourne), correr adoidado pelas ruas de uma Berlim bem diferente daquela mostrada pelos cineastas "sérios".


Lola, a protagonista vivida com garra e carisma por Potente, é uma jovem alemã que, na primeira cena do filme, recebe um angustiado telefonema do namorado Mannie (Moritz Bleibetreau), que acaba de perder uma sacola contendo 100 mil marcos que pertencem a seu chefe, um marginal perigoso e truculento. Para impedir que o rapaz assalte um supermercado, ela precisa arrumar a grana dentro de vinte minutos. A partir daí, a correria começa e o roteiro conta a mesma história três vezes, sempre com desdobramentos diferentes, tanto para Lola e Mannie quanto para as pessoas com as quais eles tem contato - entre elas, o pai de Lola (envolvido em uma relação extraconjugal) e o mendigo que encontrou a sacola com o dinheiro de Mannie.

Ao ritmo de música techno de qualidade (composta pelo próprio diretor e com vocais de Potente), "Corra Lola, corra" é dinâmico e imprevisível, utilizando-se de vários formatos para contar sua história, como animação e flashes fotográficos (que mostram o futuro das pessoas que cruzam o caminho da personagem central). Mesmo que os protagonistas não tenham exatamente um teor psicológico mais aprofundado - uma vez que a trama concentra-se basicamente nos vinte minutos cruciais de suas vidas - não é justo apedrejar o roteiro do cineasta, que brinca com todas as possibilidades do destino sem tentar ser filosófico ou sério demais. Isso o cinema alemão encontra em Wim Wenders, afinal...

"Corra Lola, corra" é um filme delicioso, com um visual atraente (é um achado a cabeleira vermelha de Lola esvoaçando enquanto ela percorre a passos largos as ruas de sua cidade) e um senso de timing extraordinário. Curto e enxuto (dura menos de hora e meia), é um filme com a cara de seu tempo, e é também um belo cartão de visitas para seu diretor, que, em Hollywood, assinaria o belo mas pouco visto "Paraíso", estrelado por Cate Blanchett e Giovanni Ribisi, com roteiro do polonês Krzystof Kieslowski.

Monday, May 30, 2011

A QUALQUER PREÇO

A QUALQUER PREÇO (A civil action, 1998, Touchstone Pictures/Paramount Pictures/Wildwood Enterprises, 115min) Direção: Steven Zaillian. Roteiro: Steven Zaillian, romance de Jonathan Harr. Fotografia: Conrad L. Hall. Montagem: Wayne Wahrman. Música: Danny Elfman. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: David Gropman/Tracey A. Doyle. Produção executiva: David Wisnievitz, Steven Zaillian. Produção: Rachel Pfeffer, Robert Redford, Scott Rudin. Elenco: John Travolta, Robert Duvall, Tony Shalhoub, William H. Macy, Zeljko Ivanek, John Lithgow, Kathleen Quinlan, James Gandolfini, Dan Hedaya, Stephen Fry, Sydney Pollack. Estreia: 25/12/98

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Robert Duvall), Fotografia
Vencedor do Screen Actors Guild: Ator Coadjuvante (Robert Duvall)

Cerca de dois anos antes que Julia Roberts ganhasse o Oscar por seu trabalho em "Erin Brokovich, uma mulher de talento", uma história semelhante já havia sido levada às telas, sob a competente direção de Steven Zaillian, premiado pela Academia pelo roteiro de "A lista de Schindler". Baseado em um livro de Jonathan Harr - por sua vez inspirado em um fato real - "A qualquer preço" é um eficiente drama de tribunal, que compensa sua falta de maiores emoções por uma narrativa enxuta e sóbria, valorizada pela bela fotografia do veterano Conrad L. Hall e pelo trabalho sutil de John Travolta.

Tentando manter a boa fase da carreira - fase essa que começou com a indicação ao Oscar por "Pulp fiction" - Travolta tem uma atuação discreta como Jan Schlichtmann, um advogado bem-sucedido de Boston que vê cair em suas mãos um caso que pode lhe dar fama e dinheiro: oito famílias o procuram com o objetivo de processar um curtume responsável por poluir um rio que lhes proporciona a água potável que consomem. Dessas famílias, crianças morreram de leucemia e, através de uma das mães, Anne Anderson (Kathleen Quinlan), ele toma contato com todos os problemas causados pela empresa (na figura de seu dono, vivido por um perfeito Dan Hedaya). Indo para os tribunais, Jan enfrenta o advogado Jerome Facher (Robert Duvall) e fica meses a fio em um julgamento complicado que acaba com todo o dinheiro de sua firma. Mesmo falido, ele transforma o caso em uma espécie de obsessão.


O roteiro, escrito pelo próprio Zaillian, foge como o diabo da cruz das armadilhas de transformar o filme em um drama lacrimoso - assim como o fez Francis Ford Coppola em "O homem que fazia chover" - e prefere centrar seu foco nos problemas financeiros de seu protagonista, mais um exemplar de personagem que sofre uma transformação ética no decorrer do processo. John Travolta segura bem a gradual mudança na personalidade de Schlichtmann, nunca ultrapassando os limites da discrição. Seu trabalho encontra eco em William H. Macy (como seu contador) e Kathleen Quinlan, que também se destaca pelo minimalismo, apesar do fato de apenas Robert Duvall ter sido lembrado pelas cerimônias de premiação (o veterano ator chegou a ser indicado ao Oscar). Em um filme que dá mais importância a seus atores do que a qualquer outro quesito, "A qualquer preço" encontra em seu elenco o maior trunfo.

Pecando por evitar maiores reviravoltas ou grandes cenas dramáticas que fazem a glória dos filmes de tribunal, "A qualquer preço" é um programa que agrada aos fãs do gênero justamente por evitar seus maiores clichês. É um tanto longo demais, mas vale uma conferida.

O RESGATE DO SOLDADO RYAN

O RESGATE DO SOLDADO RYAN (Saving Private Ryan, 1998, Amblin Entertainment/DreamWorks Pictures, 169min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Robert Rodat. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Tom Sanders/Lisa Dean Kavanaugh. Produção: Ian Bryce, Mark Gordon, Gary Levinsohn, Steven Spielberg. Elenco: Tom Hanks, Edward Burns, Tom Sizemore, Matt Damon, Jeremy Davies, Vin Diesel, Giovanni Ribisi, Dennis Farina, Paul Giamatti, Ted Danson, Adam Goldberg. Estreia: 24/7/98

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Steven Spielberg), Ator (Tom Hanks), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Direção de arte/cenários, Som, Efeitos Sonoros, Maquiagem
Vencedor de 5 Oscar: Diretor (Steven Spielberg), Fotografia, Montagem, Som, Efeitos Sonoros
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Steven Spielberg)

Depois de ter ganho seus esperados (e merecidíssimos!) Oscar por "A lista de Schindler", era esperado que Steven Spielberg entrasse naquele limbo que muitas vezes aprisiona os escolhidos da Academia. A desnecessária continuação de "Jurassic Park" e o sonolento "Amistad" também acenavam em direção a essa possibilidade. Mas eis que, surpreendendo a todos, o homem que foi chamado de "o Peter Pan do cinema" mostrou que sua maturidade artística ainda estava por vir. Novamente visitando a II Guerra Mundial, mas sob uma nova ótica,  Spielberg lançou "O resgate do soldado Ryan", um dos mais espetaculares filmes de guerra da história. Indicado a 11 Oscar e favorito ao prêmio máximo, o assustador retrato do conflito que matou milhares de pessoas pelo mundo bateu de frente com o bonitinho "Shakespeare apaixonado" e foi relegado apenas a quatro prêmios técnicos e a estatueta de melhor diretor. Ainda que o vencedor do ano seja simpático e inteligente, são as imagens fortes e dolorosas de "Ryan" que vão ficar marcadas na história do cinema.

E essas imagens fortes e dolorosas já atingem a plateia em seus primeiros momentos, contrariando a regra de deixar-se o clímax para o final. São vinte minutos de extrema violência mostrada sem poesia e retoques: um pelotão de soldados americanos desembarca na Normandia em de junho de 1945, no famigerado Dia D, e a câmera nervosa de Spielberg e do diretor de fotografia Janusz Kaminski jogam o público em um confronto onde sangue, suor, mar e areia se confundem. E é nessa sequência impecável que é apresentando o protagonista, o Capitão John Miller, vivido por um intenso e discreto Tom Hanks, merecidamente indicado ao Oscar de melhor ator. É a Miller que caberá a missão que dará origem à verdadeira trama do filme, escrita com precisão por Robert Rodat (também concorrente à estatueta): como uma espécie de jogada de relações públicas, o exército norte-americano resolve tirar do conflito o único sobrevivente de uma família cujos filhos foram todos vitimados na mesma campanha. Para isso, ordena a Miller que, juntamente com um grupo de soldados escolhidos a dedo, saia à procura do jovem James Francis Ryan (Matt Damon). Mesmo questionando a lógica da missão (arriscar a vida de oito homens para salvar apenas um), Miller tem integridade o bastante para cumprí-la. Sendo assim, une-se a o Sargento Mike Horrath (Tom Sizemore) e a outros recrutas em busca do rapaz.



Como normalmente acontece em filmes de guerra, o destino não é tão importante quanto o percurso. Buscando o paradeiro de Ryan, o Capitão Miller e seus subordinados testemunham os horrores da guerra (como se já não o tivessem sofrido na pele, anteriormente), experimentando toda a sua glória e suas mesquinharias, sua grandiosidade e sua covardia. É sintomático que os próprios soldados tenham personalidades paradoxais, o que incentiva o conflito entre eles mesmo que eles precisem desesperadamente de uma união, por mais frágil que ela possa parecer. Sendo assim estão reunidos o fervoroso católico Daniel Jackson (Barry Pepper) e o furioso judeu Stanley Mellish (Adam Goldberg), o beligerante Adrian Caparzo (Vin Diesel em seu primeiro papel de destaque) e o inexperiente Timothy Upham (Jeremy Davies), o médico Irwin Wade (Giovanni Ribisi) e o implicante nova-iorquino Richard Reiben (o diretor e roteirista Edward Burns, muito bem em cena). Unidos como pelotão e sozinhos em suas individualidades, eles apresentam à audiência um retrato fiel e assustador da guerra, deixando pouco espaço para o sentimentalismo típico do cineasta.

A fúria com que "O resgate do soldado Ryan" atinge o espectador é comparável com o enorme sucesso de bilheteria do filme de Spielberg. Apesar de sua violência explícita, o filme arrecadou mais de 200 milhões de dólares somente no mercado americano, tendo mais do que dobrado sua renda ao redor do mundo. Dirigido com um domínio invejável da técnica cinematográfica - sem que a preocupação com as personagens fosse deixada de lado - e dotado de uma força dramática arrebatadora, é um dos filmes indispensáveis dos anos 90 e quiçá o melhor de seu gênero na história do cinema. É, também, o último grande filme de seu diretor até a data. Seu Oscar de direção foi mais do que merecido: foi obrigatório.

Thursday, May 26, 2011

IRRESISTÍVEL PAIXÃO

IRRESISTÍVEL PAIXÃO (Out of sight, 1998, Universal Pictures, 123min) Direção: Steven Soderbergh. Roteiro: Scott Frank, romance de Elmore Leonard. Fotografia: Elliot Davis. Montagem: Anne V. Coates. Música: David Holmes. Figurino: Betsy Heinman. Direção de arte/cenários: Gary Frutkoff/Maggie Martin. Produção executiva: Barry Sonnenfeld, John Hardy. Produção: Danny DeVito, Michael Shamberg, Stacey Sher. Elenco: George Clooney, Jennifer Lopez, Ving Rhames, Don Cheadle, Catherine Keener, Steve Zahn, Dennis Farina, Albert Brooks, Luis Guzman, Viola Davis. Estreia: 26/6/98

Em 1998, o escritor norte-americano Elmore Leonard estava na crista da onda. Barry Levinson havia dirigido "O nome do jogo", elogiado pela crítica e premiado com um Golden Globe. O cultuado Quentin Tarantino tinha realizado "Jackie Brown" baseado em seu romance "Run Punch" e feito um trabalho excepcional. Para completar o quadro só faltava mesmo um diretor cult: Steven Soderbergh, premiado em Cannes com seu "sexo, mentiras e videotape" em 1988 deu às tramas de Leonard a sofisticação que faltava ao humor negro de Levinson e à violência de Tarantino. "Irresistível paixão" é um policial romântico com alto grau de sensualidade, tudo graças à química impecável entre Jennifer Lopez e George Clooney.

Jack Foley (vivido com o charme habitual de Clooney, exercitando seu lado Cary Grant anos 90) é um assaltante de bancos profissional. Durante uma fuga de uma de suas condenações, ao lado de seu parceiro de todas as horas, Buddy Bragg (Ving Rhames), ele acaba ficando preso no porta-malas de um carro junto com Karen Sisco (a belíssima Lopez, melhor atriz do que se poderia esperar), uma agente do FBI que estava na penitenciária por acaso. Surge uma atração irresistível entre eles, mas logicamente eles se afastam sem consumar o desejo nascido de maneira tão absurda. Sem conseguir esquecer um do outro, eles vêem seus caminhos novamente cruzados quando, no processo de dar um de seus grandes golpes, Foley esbarra novamente em Karen, que, fascinada, se divide entre os novos sentimentos e os deveres profissionais.


Não é preciso ser um expert em cinema para perceber que "Irresistível paixão" foge dos padrões habituais do cinema policial. Primeiro, não há um herói típico, de moral ilibada e incorruptível. Depois, o mocinho é um criminoso, apesar de esbanjar charme e não abusar da violência. E por fim, em muitos momentos a plateia se vê torcendo por ele e por seu romance complicado com a policial. Além disso, o filme de Soderbergh deita e rola em uma edição inteligente, que privilegia as idas e voltas do roteiro, deixando o público sempre à espera dos próximos acontecimentos (que além de tudo são bastante imprevisíveis). E além da trama divertida e envolvente, o cineasta mostra-se, mais uma vez, um exímio diretor de atores, todos eles fantásticos (com a exceção, novamente, de Michael Keaton, que repete sua atuação pifia de "Jackie Brown" na pele do mesmo policial Ray Nicolette).

O elenco coadjuvante de "Irresistível paixão" é um de seus maiores trunfos. Um irreconhecível Albert Brooks vive um milionário que, depois de passar uma temporada na prisão, torna-se uma vítima em potencial das armações de Foley; Don Cheadle brilha como o marginal Maurice Miller e Steve Zahn volta a divertir a audiência como o atrapalhado Glenn Michaels. Mas não há como falar do filme sem que venha imediatamente à mente o excelente trabalho de sua dupla central. Linda, sensual e convincente mesmo como uma policial, Jennifer Lopez tem aqui um dos maiores destaques de sua carreira. E Clooney aproveita a desenvoltura da parceira para construir um Jack Foley que ele mesmo considera uma de suas melhores atuações.

"Irresistível paixão" é um divertido entretenimento de classe e categoria. Inteligente, sarcasticamente engraçado e absolutamente sexy, é um filme que, apesar da bilheteria decepcionante, merece ser descoberto e aplaudido por sua criatividade e por seu elenco impecável.

ARQUIVO X, O FILME

ARQUIVO X, O FILME (The X Files - Fight the future, 1998, 20th Century Fox, 121min) Direção: Rob Bowman. Roteiro: Chris Carter, história de Chris Carter e Frank Spotnitz. Fotografia: Ward Russell. Montagem: Stephen Mark. Música: Mark Snow. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Christopher Nowak/Jackie Carr. Produção executiva: Lata Ryan. Produção: Chris Carter, Daniel Sackheim. Elenco: David Duchovny, Gillian Andersen, John Neville, Martin Landau, William B. Davis, Armin Mueller-Stahl, Mitch Pilleggi, Blythe Danner, Terry O'Quinn, Lucas Black, Glenne Headly. Estreia: 19/6/98

Em 1993, antes que os seriados televisivos alcançassem o status de entretenimento de qualidade, um programa a respeito de conspirações governamentais, abduções alienígenas, monstros misteriosos e fenômenos inexplicáveis virou febre entre os espectadores. Criado por Chris Carter, "Arquivo X" não demorou muito a cair no gosto do público e da crítica, amealhando prêmios, prestígio e muito sucesso de audiência. Uma versão para o cinema, então, tornou-se questão de tempo e, depois do final da quinta temporada, na metade de 1998, finalmente "Arquivo X, o filme" chegou às telas americanas, cercado de grande expectativa. Contando com um roteiro escrito pelo próprio criador da série, a aventura dos agentes do FBI Fox Mulder (David Duchovny) e Dana Scully (Gillian Andersen) não decepcionou nem o estúdio - mais de 80 milhões de dólares arrecadados somente nos EUA - nem tampouco os devotos fãs: é um filme que respeita a audiência do programa e não confunde nem aborrece os espectadores ocasionais.

Para quem não sabe,  o Arquivo X da série (e do filme, consequentemente) é uma divisão dentro do FBI responsável pela investigação de acontecimentos inexplicáveis (leia-se sobrenaturais). No início da série, a médica patologista Dan Scully é escalada por seus superiores da agência a unir-se ao detetive Fox Mulder, não muito benquisto, para, com sua racionalidade científica, desacreditar suas conclusões tidas como absurdas. Depois dos cinco primeiros anos do programa, após ter testemunhado inúmeras situações bizarras e ter sido ela mesma vítima de uma estranha, Scully aproximou-se de Mulder a ponto de quase compactuar com suas teorias. No final da quinta temporada, a divisão é fechada (por motivos que não vem ao caso contar para não estragar o prazer de quem ainda nunca assistiu às aventuras da dupla) e os dois detetives são relegados a um nível inferior de investigação. E é aí que começa a versão para o cinema.

Como normalmente acontece na televisão, a primeira cena não conta com os protagonistas. O público é levado para o período pré-histórico, onde um homem, ainda em seu caminho para a evolução, é violentamente atacado por um ser alienígena. O roteiro dá um salto para o Texas de 1998, onde um pré-adolescente é atacado pela mesma substância que vitimou seu antepassado. Logo em seguida, Mulder e Scully testemunham a explosão de uma bomba que destrói um prédio do governo, em Dallas. Aparentemente sem conexão alguma, esses dois fatos passam a se ligar quando o detetive é procurado pelo misterioso cientista Alvin Kurtzweil (Martin Landau), que tem informações a respeito de uma conspiração governamental que utilizou a explosão para encobrir o que realmente aconteceu com o jovem morto. A partir daí, a dupla de policiais inicia uma procura incessante pela verdade, que os leva até a Antártida.

Para quem não é assíduo espectador, "Arquivo X" é um filme de ficção científica acima da média, com uma trama bem armada e intrigante, além de efeitos de maquiagem eficientes. Mas é impossível negar que existe um gostinho extra para aqueles que passavam uma hora por semana acompanhando as aventuras de Mulder e Scully na televisão. A tensão sexual entre as personagens (que chega ao ápice em uma cena de quase beijo mais aterrorizante, para os fãs, do que qualquer extraterrestre) soa como um romance descartável para o público em geral e eles também ficarão sem saber a importância, dentro da história, de personagens cruciais para a mitologia da série, como o misterioso Homem das Unhas Bem Feitas (vivido por John Neville). Porém, Chris Carter sabe muitíssimo bem como envolver a plateia com um roteiro cuidadoso e detalhista que não decepcionará ninguém.

Faz sentido dizer que "Arquivo X, o filme" é um episódio estendido da série. Assim acontece com todos os programas de TV que passaram à tela grande posterioremente e não chega a ser um demérito, mesmo porque, dos anos 90 em diante, a televisão americana apresentou produtos de extrema qualidade. Mas é preciso também que se reconheça que poucos filmes de ficção científica são tão sérios e interessantes quanto a obra de Chris Carter e companhia.

Wednesday, May 25, 2011

O SHOW DE TRUMAN, O SHOW DA VIDA

O SHOW DE TRUMAN, O SHOW DA VIDA (The Truman Show, 1998, Paramount Pictures, 103min) Direção: Peter Weir. Roteiro: Andrew Niccol. Fotografia: Peter Biziou. Montagem: William Anderson, Lee Smith. Música: Burkhard Dallwitz. Figurino: Marilyn Matthews. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Nancy Haigh. Produção executiva: Lynn Pleshette. Produção: Edward S. Feldman, Andrew Niccol, Scott Rudin, Adam Schroeder. Elenco: Jim Carrey, Ed Harris, Laura Linney, Noah Emmerich, Natasha McLeone, Peter Krause. Estreia: 05/6/98

3 indicações ao Oscar: Diretor (Peter Weir), Ator Coadjuvante (Ed Harris), Roteiro Original
Vencedor de 3 Golden Globes: Ator/Drama (Jim Carrey), Ator Coadjuvante (Ed Harris), Trilha Sonora Original

Um dos mais populares astros de Hollywood da década de 90, o canadense Jim Carrey lotou salas de exibição com "Ace Ventura", "Débi & Lóide" e "O Máskara" - filmes divertidos, mas um tanto vulgares e bastante longe do que se convém chamar de bom cinema. Adorado pelo público e execrado pela crítica, ele logo fez o que faz todo ator disposto a transformar sua imagem: mudou de gênero. Seu primeiro passo nessa direção, a comédia de humor negro "O pentelho", foi impiedosamente ignorado nas bilheterias. Sua segunda tentativa, porém, acertou em cheio. "O show de Truman, o show da vida" não só demonstrou que Carrey poderia atingir níveis dramáticos mais altos do que demonstrava como também é um dos filmes essenciais dos anos 90, graças à sua oportuna crítica à mídia.

Dirigido pelo sempre competente australiano Peter Weir, "O show de Truman" estreou na hora certa, em que plateias do mundo inteiro se rendiam aos infames reality shows, elevando o nível de voyeurismo da população a níveis jamais imaginados - talvez apenas por George Orwell no clássico "1984". Escrito por Andrew Niccol, que depois assumiria a direção da distópica ficção científica "Gattaca", o filme de Weir se encaixa em diversas classificações. Tanto pode ser uma comédia sarcástica, ou um drama existencial ou até mesmo um suspense dramático, dependendo do ponto de vista do espectador e da maneira com que ele percebe o mundo ao seu redor. Essa inteligência é que justifica sua indicação ao Oscar de roteiro original: poucas vezes o cinema americano foi tão original e irônico a respeito do modo de vida do país e de sua cultura média.



No filme de Weir (que merecidamente recebeu sua indicação ao Oscar de direção), "O show de Truman" é um programa de TV extremamente popular, no ar há mais de 30 anos, que acompanha, desde o nascimento, a vida de seu protagonista, Truman Burbanks (Jim Carrey em uma atuação surpreendente, que equilibra seu costumeiro humor físico com uma melancolia nunca antes vista). Truman vive uma rotina sem sobressaltos, em um emprego burocrático e com uma vida familiar discreta e tranquila ao lado da esposa Meryl, na verdade, uma atriz contratada para o papel (Laura Linney, ótima). Apesar de julgar-se um felizardo, porém, ele nunca esquece seu primeiro amor (Natasha McLeone), que lhe foi abruptamente afastada do caminho em sua juventude. Um belo dia, chegando ao trabalho, Truman escapa por pouco de ser atingido por um holofote e, a partir daí, acontecimentos bizarros o levam a desconfiar que algo muito estranho está lhe acontecendo. Nem mesmo os conselhos de seu melhor amigo, Marlon  (Noah Emmerich) o impedem de tentar, então, sair de sua pacata Seaheaven. Quando as coisas ameaçam sair do controle, o criador do programa, o misterioso Christof (Ed Harris) resolve interferir diretamente no desenvolvimento do show.

O roteiro de Niccol é um primor de ritmo e bom-humor, sem nunca apelar para risadas fáceis. Ele critica tudo aquilo que faz da TV americana - e mundial - algo viciante. Merchandisings explícitos, interferências financeiras dos produtores e manipulação da opinião pública são massacradas impiedosamente, sem que, no entanto, transmita uma imagem agressiva. De certa forma, tudo é tratado com carinho pelo autor e pelo diretor, que envolvem a plateia (do show e do filme) em uma trama tão absurda que chega a soar verdadeira. E para isso, é claro, contam com trabalhos acima da média de todos os envolvidos. Laura Linney quase rouba a cena como a esposa de Truman (em especial quando ele começa a ter a certeza absoluta de que sua paranoia não é assim tão paranoia...) Ed Harris concorreu ao Oscar de coadjuvante depois de ficar com o papel que era de Dennis Hopper (e era o favorito da noite até que James Coburn lhe roubasse a estatueta) por seu poderoso trabalho como o silencioso Christof. E Jim Carrey finalmente conquistou a crítica em um trabalho complicado que tirou de letra (não foi à toa que abocanhou um Golden Globe e desapontou os fãs sendo deixado de lado nas indicações da Academia).

"O show de Truman" é um filme com a cara de sua época, com preocupações éticas e estéticas absolutamente pertinentes. Somado a isso suas qualidades extraordinárias em termos de entretenimento (é divertido e emocionante), é uma obra obrigatória de um dos diretores mais íntegros da indústria de Hollywood.