Tuesday, August 2, 2011

O MUNDO DE ANDY

O MUNDO DE ANDY (Man on the moon, 1999, Universal Pictures, 118min) Direção: Milos Forman. Roteiro: Larry Alexander, Scott Karasewski. Fotografia: Anastas Michos. Montagem: Adam Boomme, Lynzee Klingman, Christopher Tellefsen. Música: REM. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Patrizia Von Brandenstein/Maria Nay. Produção executiva: Michael Hausman, George Shapiro, Howard West. Produção: Danny DeVito, Michael Shamberg, Stacey Sher. Elenco: Jim Carrey, Danny DeVito, Courtney Love, Paul Giamatti. Estreia: 22/12/99

Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Comédia/Musical (Jim Carrey)
Vencedor do Urso de Prata de Melhor Diretor (Milos Forman) no Festival de Berlim


O americano Andy Kaufman foi talvez o mais ousado comediante surgido nos EUA nos anos 80. Longe de ser apenas um humorista, ele ambicionava ser um homem da indústria de entretenimento, provocando a audiência e buscando incessantemente realizar tudo o que ainda não havia sido feito. Morto devido a um câncer, Kaufman foi homenageado pela banda R.E.M. – cujo vocalista Michael Stipe é seu fã declarado – com a canção “Man on the moon” e pelo cineasta tcheco Milos Forman com uma cinebiografia informal e criativa, batizada com o nome da bela obra de Stipe e no Brasil lançada com o péssimo título “O mundo de Andy”, talvez para forçar a comparação com o filme anterior de seu astro Jim Carrey - “O show de Truman” – já que o protagonista é praticamente desconhecido do grande público daqui.

Fã de personagens à margem da sociedade – como o rebelde vivido por Jack Nicholson em “Um estranho no ninho” e o excêntrico milionário interpretado por Woody Harrelson no mais recente “O povo contra Larry Flynt” – Forman encontrou na personalidade complexa de Andy Kaufman o material perfeito para mais um grande filme. Graças a um inspirado roteiro da dupla Larry Alexander e Scott Karaszewski (também responsáveis pelo ótimo texto de “Larry Flynt” e da homenagem de Tim Burton ao pior cineasta da história em “Ed Wood”), Forman consegue apresentar seu protagonista e suas criações sem apressar ou retardar nada, com um invejável ritmo e com um delicioso senso de humor, reflexo das ironias ora escrachadas ora sutis de seu homenageado, que freqüentemente ultrapassava as barreiras do bom gosto e com isso conquistou tanto fãs quanto detratores, e que encontra em Jim Carrey um intérprete à altura.


Depois de provar, com “O show de Truman”, que sabia atuar a sério, Carrey, antes visto apenas como um ator de comédias físicas e descerebradas, mostra, em “O mundo de Andy”, que não só é capaz de dar dimensões variadas a suas personagens como também consegue transformar-se visualmente e dedicar-se com paixão a projetos tão pouco comerciais (sua escolha para o papel, inclusive, tem a ver com negócios, uma vez que o próprio estúdio optou por ele em detrimento de Edward Norton, planejando uma bilheteria milionária que nunca aconteceu). O trabalho irretocável de Carrey – não apenas como Kaufman mas também como suas criações, como o cantor de cassinos Tony Clifton e o mecânico estrangeiro Latka, entre outros – consegue até mesmo sobressair-se sobre a delicada atuação de Danny DeVito (também produtor do filme) como o empresário de Kaufman e sobre a presença da cantora Courtney Love, em seu segundo trabalho com o diretor Milos Forman.

Contado de forma episódica e criativa, “O mundo de Andy” é imprevisível desde sua primeira cena, com os créditos de encerramento logo no início do filme. A cinebiografia do ator que chegou a ser excluído do popular “Saturday night live” - a pedido do público que não agüentava mais suas brincadeiras de mau-gosto – usa das convenções de um filme de seu gênero para conquistar a audiência e apresentar o “maldito” a platéias que, do contrário, não teriam acesso a seu tipo especial de fazer humor. É um trabalho inteligente cujo brilhantismo a bilheteria medíocre nos EUA apenas reitera. Afinal de contas, quantos filmes realmente bons fazem sucesso sem explosões e nudez gratuita?

Monday, August 1, 2011

GAROTA, INTERROMPIDA

 GAROTA, INTERROMPIDA (Girl, interrupted, 1999, Columbia Pictures, 127min) Direção: James Mangold. Roteiro: James Mangold, Lisa Loomer, Anna Hamilton Phelan, livro de Susanna Kaysen. Fotografia: Jack N. Green. Montagem: Kevin Tent. Música: Mychael Danna. Figurino: Arianne Phillips. Direção de arte/cenários: Richard Hoover/Maggie Martin. Produção executiva: Carol Bodie, Winona Ryder. Produção: Cathy Konrad, Douglas Wick. Elenco: Winona Ryder, Angelina Jolie, Whoopi Goldberg, Brittany Murphy, Clea DuVall, Jared Leto, Vanessa Redgrave, Kurtwood Smith, Elisabeth Moss, Jeffrey Tambor. Estreia: 21/12/99

Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Angelina Jolie)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Angelina Jolie)

Some em um mesmo pacote a aura angustiada e as dúvidas a respeito do futuro de "A primeira noite de um homem" e o senso de rebeldia indomável de "Um estranho no ninho". Abstraia o fato de que o cineasta James Mangold não tem o mesmo talento visionário de Mike Nichols ou Milos Forman. Substitua Dustin Hoffman e Jack Nicholson por Winona Ryder e Angelina Jolie. Não pense que tudo soa um bocado anacrônico e você gostará de"Garota, interrompida", um filho temporão do cinema da contracultura americana dos anos 60. Mesmo que não tenha tido no final dos anos 90 o mesmo impacto que poderia ter na era da flower power, a adaptação para o cinema das memórias da jovem Susanna Kaysen tem qualidades o bastante para encantar uma geração cujos heróis morreram de overdose.

Publicado em 1993, o livro de Kaysen tornou-se best-seller imediato nos EUA e chamou a atenção da atriz Winona Ryder, que imediatamente decidiu levá-lo para o cinema, tornando-se sua produtora executiva. Reservando para si o papel central, Winona escalou para a direção o competente mas relativamente desconhecido James Mangold, cujo maior mérito até então tinha sido o de arrancar uma atuação decente de Sylvester Stallone em "Copland". No comando do filme, Mangold demonstrou que é um diretor sério e eficiente, mas carece nesse seu segundo grande filme de mais ousadia. "Garota, interrompida" é um filme quadrado, o que, se for levado em consideração dos assuntos que trata, é um paradoxo quase imperdoável. Tivesse sido um pouco mais corajoso certamente teria feito de seu filme um belo drama a respeito da inconformidade juvenil. Como está, é um filme bom e bem realizado - além de muito bem interpretado - mas bem aquém do que poderia ter sido.


Kaysen (vivida por uma Winona Ryder cuja delicadeza mais atrapalha do que ajuda) é uma jovem internada pelos pais em uma instituição mental, depois de aparentemente ter tentado suicídio (ela alega ter sido um acidente, mas um caso amoroso com um professor casado também não a ajuda em sua defesa). Os EUA estão passando por uma fase complicada, com a guerra do Vietnã em seu auge e os hippies buscando seu lugar ao sol. Logo que chega ao hospital, Susanna toma contato com a rotina rígida da instituição e com algumas de suas pacientes, como a mentirosa patológica Georgina (Clea DuVall), a sofrida Polly (Elisabeth Moss), que tem o rosto marcado por queimaduras e a esquisita Daisy (Brittany Murphy), que não come na presença de outras pessoas e esconde um segredo a respeito de sua família. Tratada pela enfermeira Valerie (Whoopi Goldberg), Susanna sente imediata conexão com a sociopata Lisa (Angelina Jolie), com quem passa a dividir a maior parte de seu tempo.

Quando trata sobre as interrelações entre as pacientes (em especial a estranha amizade surgida entre Susanna e Lisa) "Garota, interrompida" se sai bastante bem. O elenco é excelente. Brittany Murphy brilha em suas cenas mais intensas (em especial em seu desfecho trágico que leva o filme a seu clímax). Whoopi Goldberg como a enfermeira Valerie e Vanessa Redgrave como a psiquiatra Sonia Wick ensinam em cada cena como ser grandes atrizes sem levantar a voz ou apelar para exageros. E, se Winona Ryder não faz mais do que normalmente mostra em seus trabalhos, é sua colega de cena quem chama a atenção de forma escancarada. Na pele da maluquete Lisa Rowe, a bela Angelina Jolie está visivelmente à vontade, deitando e rolando com uma personagem aparentemente feita sob medida para seu talento visceral.

Premiada com o Golden Globe e o Oscar de atriz coadjuvante, Jolie nem parece fazer muita força para impressionar com sua atuação. Macérrima, loura e linda como sempre, ela interpreta uma jovem carismática, agressiva e sincera ao ponto da crueldade que faz o contraponto perfeito à timidez e a inconformidade disfarçada de Susanna. Felizmente o roteiro não tenta inventar um subtexto homoerótico que desviaria a trama de seu foco - o máximo que rola é um selinho inofensivo - e também não dá atenção exagerada aos romances da protagonista (com o jovem soldado vivido por Jared Leto ou com o enfermeiro noturno). Uma pena, porém, que, pelos mesmos motivos, não se detém em examinar a situação sociopolítica do país.

Contando com uma trilha sonora espetacular - em que canções da época se misturam com belas músicas contemporâneas, em especial da banda Wilco - "Garota, interrompida" é um filme que, a despeito de estar deslocado no tempo e no espaço, cumpre seus objetivos e merece ser lembrado por, no mínimo, ter colocado Angelina Jolie em seu merecido lugar de destaque em Hollywood.

Thursday, July 28, 2011

MAGNÓLIA

MAGNÓLIA (Magnolia, 1999, New Line Cinema, 188min) Direção e roteiro: Paul Thomas Anderson. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Dylan Tichenor. Música: Jon Brion. Figurino: Mark Bridges. Direção de arte/cenários: William Arnold, Mark Bridges/Chris Spellman. Produção executiva: Michael De Luca, Lynn Harris. Produção: Paul Thomas Anderson, JoAnne Sellar. Elenco: Jason Robards, Julianne Moore, Philip Seymour Hoffman, Tom Cruise, John C. Reilly, Melora Walters, William H. Macy, Philip Baker Hall, Melinda Dillon, Alfred Molina, Luiz Guszman, Jeremy Blackman. Estreia: 17/12/99

3 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Tom Cruise), Roteiro Original, Canção Original ("Save me")
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Tom Cruise)

Quando trata-se de cinema normalmente a palavra “épico” vem acompanhada de cenários grandiosos, uma fotografia esplendorosa cobrindo vastas paisagens, uma trilha sonora grandiloquente e personagens heróicos lutando por causas nobres e altruístas em espetáculos longos e empolgantes. Por isso não deixa de ser um choque assistir a “Magnólia”, de Paul Thomas Anderson, descrito por seu criador como um “épico sobre pessoas comuns”. Épico? Os cenários são apartamentos à meia-luz, auditórios de programas de TV, bares freqüentados por perdedores. A fotografia é sutil, discreta, tenuamente iluminada. A trilha sonora é composta por canções que falam de dor, rejeição, insegurança interpretadas por uma cantora folk de voz delicada. E os personagens podem ser considerados tudo menos nobres e altruístas, porque lutam pela própria felicidade e contra a solidão e o arrependimento. Excetuando-se a longa duração (quase três horas), nada em “Magnólia” corresponde ao conceito de “filme épico”. E talvez por isso, por essa distorção, o trabalho de Anderson seja um dos melhores filmes da década de 90.
Anderson, também diretor do ótimo “Boogie nights, prazer sem limites” não tem medo de ousar em sua nova obra. Nada em “Magnólia” acontece da maneira que acontece em outros filmes e sim da maneira como ocorre na vida real. A história de amor contada no decorrer de sua duração - entre o policial  Jim (John C. Reilly) e a viciada em cocaína Claudia (Melora Walters, a grande revelação do filme) -  não ocorre entre dois exemplos de beleza em busca de uma felicidade de comercial de margarina e sim entre duas pessoas adultas e inseguras, com um belo histórico de problemas e personalidades conflitantes de verdade. Donnie Smith, o gênio mirim do passado (o ótimo William H. Macy) não quer ganhar dinheiro para viajar para Aspen e sim para colocar um aparelho nos dentes e assim conquistar a atenção e quem sabe o amor de um garçom mais jovem e atraente. Stanley Spector (Jeremy Blackman), o gênio mirim do presente, quer conquistar o amor do ambicioso pai e ter o direito de ir ao banheiro no momento em que precisar. O empresário moribundo Earl Partridge (o veterano Jason Robards em seu último e grande trabalho) não quer morrer em paz e sim obter o perdão do filho que abandonou, o guru de autoajuda sexual Frank T. Mackey(Tom Cruise em seu melhor trabalho, indicado ao Oscar de ator coadjuvante) e sua mulher, Linda (Julianne Moore nunca aquém de espetacular), que casou-se com ele por dinheiro, descobre, na iminência de sua morte, que o ama de verdade.



Cada cena em “Magnólia” surpreende por sua capacidade de emocionar sem apelar para o trivial e em buscar sempre a solução menos convencional, fato que fica evidente em seu clímax – uma chuva de sapos aparentemente sem qualquer explicação racional – e em uma das cenas mais comentadas de seu tempo – uma bela seqüência onde todos os personagens entoam a bela “Wise up”, da cantora Aimée Mann. A edição ágil de Dylan Tichenor colabora com a intenção do diretor em demonstrar o estado de excitação e angústia de seu grande número de personagens, todos envolvidos em momentos de total e dolorida verdade, seja ela o reencontro com um pai cuja imagem nunca foi positiva ou a revelação de um passado pouco agradável.

Contando com um elenco impecável (onde até mesmo Tom Cruise se sai bem, apesar da personagem irritante) e com uma trilha sonora que dificilmente pode ser excluída do rol de personagens devido à sua importância capital no desenrolar das cenas - mais do que simplesmente comentá-las, a trilha surge quase como uma espécie de consciência - "Magnólia" talvez seja o melhor exemplo de como um filme pode ser denso sem ser petulante e triste sem ser piegas. Envolvente desde sua fascinante sequência de abertura, é também a prova viva de quem nem sempre a palavra "épico" precisa estar necessariamente ligada a vastas paisagens (ainda que a alma humana muitas vezes seja tão seca e árida quanto o maior deserto).

Wednesday, July 27, 2011

ANNA E O REI

ANNA E O REI (Anna and the king, 1999, Fox 2000 Pictures, 148min) Direção: Andy Tennant. Roteiro: Steve Meerson, Peter Krikes, diários de Anna Leonowens. Fotografia: Caleb Deschanel. Montagem: Roger Bondelli. Música: George Fenton, Robert Kraft. Figurino: Jenny Beavan. Direção de arte/cenários: Luciana Arrighi/Ian Whittaker. Produção executiva: Terence Chang. Produção: Lawrence Bender, Ed Elbert. Elenco: Jodie Foster, Chow Yun-Fat, Ling Bai, Tom Felton. Elenco: 15/12/99

2 indicações ao Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários

Essa história já foi contada antes pelo cinema - e deu o Oscar de melhor ator a Yull Brinner. No entanto, com a proximidade da virada do milênio, a fantasia dos musicais parecia não mais caber e Hollywood achou por bem optar por um viés mais político na refilmagem de "O rei e eu". Talvez por isso, quando se assiste a "Anna e o rei" pouca coisa faz lembrar a colorida extravagância estrelada por Deborah Kerr em 1956. Não que o filme de Andy Tennant seja político no sentido chato do termo, longe disso, mas o roteiro, baseado nos diários da protagonista, não tem medo de utilizar os conflitos sociais do país onde se passa a ação e, se para isso se faz necessário que o romance seja deixado de lado em alguns momentos, não há a menor hesitação. E isso conta muitos pontos no resultado final.

Recentemente viúva de um oficial britânico, a jovem Anna Leonowens (Jodie Foster), que morava na Índia,  aceita a proposta de ser professora dos filhos de Mongkut (Chow Yun-Fat), o rei do Sião, que está interessado em educar sua vasta prole (de cerca de 60 crianças) de acordo com as regras do mundo ocidental. De mala, cuia e filho pequeno à tiracolo, ela chega ao país onde a aguarda o monarca e dá de cara com uma cultura não apenas diferente da qual está acostumada, mas extremamente machista e, a seu ver, retrógrada. Utilizando seus poderes de educadora, ela passa a tentar modificar, ainda que lentamente, o quadro social do país, encantando o rei a ponto de envolvê-lo em um nível maior do que o apenas profissional.



"Anna e o rei" tem inúmeros méritos que fazem dele um belo programa. A reconstituição de época é primorosa (a direção de arte chegou a ser indicada ao Oscar), a fotografia é deslumbrante (em tons agressivos de vermelho que combinam com a profusão de pores-do-sol), a trilha sonora de George Fenton é marcante e o roteiro - apesar de estender-se desnecessariamente em especial em seu terço final - foge dos clichês com maestria, além de incluir elementos sócio-políticos muito bem-vindos. Mas é a dupla central de atores que merece boa parte dos créditos pelo sucesso da empreitada.

Chow Yun-Fat deixa para trás seus truculentos trabalhos com John Woo e cria um rei ao mesmo tempo rígido e sensível (é exemplar a cena em que sofre uma irreparável perda familiar) e Jodie Foster mostra mais uma vez porque é uma das melhores atrizes de sua geração. Inteligente, ela sempre busca a solução menos fácil em suas cenas, o que dá ao ato de assistir ao filme uma sensação de prazer absoluto. Os embates entre Foster e Yun-Fat são o que há de melhor na obra de Tennant, um diretor cujo mais conhecido título até então era o singelo "Para sempre Cinderela", com Drew Barrymore. Juntos em cena, os dois atores deliciam a plateia com um jogo de cena maduro e sensível - e mais ainda, extremamente crível.

Para quem reclama que os romances cinematográficos são cada vez mais rasos e ligeiros não deixa de ser refrescante saber que Hollywood ainda sabe criar grandes espetáculos com conteúdo. E, ao final da sessão de "Anna e o rei" poucos se lembrarão da versão musicada de Walter Lang. E uma simples valsa substituirá tranquilamente uma agitada polca...

Tuesday, July 26, 2011

UM DOMINGO QUALQUER

UM DOMINGO QUALQUER (Any given sunday, 1999, Warner Bros, 150min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, John Logan, história de John Logan e Daniel Pyne. Fotografia: Salvatore Totino. Montagem: Stuart Levy, Tom Nordberg, Keith Salmon, Stuart Waks. Música: Richard Horowitz, Paul Kelly. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Victor Kempster/Ron Reiss, Ford Wheeler. Produção executiva: Richard Donner, Oliver Stone. Produção: Dan Halstead, Lauren Shuler Donner, Clayton Towsend. Elenco: Al Pacino, Cameron Diaz, Dennis Quaid, Jamie Foxx, Anne-Margret, Charlton Heston, James Woods, LL Cool J, Matthew Modine, Lauren Holly, Aaron Eckhart. Estreia: 22/12/99

Oliver Stone pode ser considerado o mais americano dos cineastas. Basta dar uma olhada para trás em sua filmografia para constatar sua obsessão com temas intimamente ligados ao interesse de seu país natal. Filmes como “Platoon” e “Nascido em 4 de julho” versavam sobre a guerra do Vietnã. “JFK” contava a conspiração que culminou na morte do presidente John Kennedy e “Assassinos por natureza” brincava com a fascinação pela violência – talvez seu filme com maior alcance universal. Em “Um domingo qualquer” mais uma vez Stone utiliza um tema tipicamente ianque – o futebol americano – para exibir sua técnica invejável, mesmo que para contar uma história sem maiores novidades.

Al Pacino (em mais uma de suas atuações nervosas) vive Tony D’Amato, o técnico do Miami Sharks, um time que anda em uma maré de derrotas consecutivas. Não bastasse os problemas em campo, como o acidente com o capitão do time (um surpreendente Dennis Quaid), ele ainda tem que enfrentar a pressão da dona do time, a ganaciosa Christina Pagliacci (Cameron Diaz canastra ao extremo), que precisa de uma vitória para acalmar seus investidores e a arrogância do novo astro do time, o talentoso mas arredio Will Beamean (Jamie Foxx, espetacular).



Ao situar sua trama em um terreno praticamente desconhecido do público não-americano, Stone acaba perdendo muito da identificação que talvez pudesse ambicionar com os demais espectadores. Apesar de muitas situações serem plenamente similares com outros esportes – e os personagens-clichês abundam, desde o médico mau-caráter vivido por James Woods à esposa ambiciosa do jogador afastado, interpretada por Lauren Holly – o filme ainda tem uma personalidade extremamente nacionalista que incomoda mais do que agrada. O inegável talento de Stone, no entanto, deixa tudo mais atraente ao consumidor normal. Tudo que o diretor se acostumou a entregar à platéia está em doses quase exageradas.

A fotografia realista de Salvatore Totino, a edição alucinada e o desenho de som acachapante fazem com que se tenha a impressão de estar no meio do gramado, junto com os jogadores. O ritmo, alucinante em alguns momentos e quase contemplativo em outros, pode deixar os mais sensíveis tontos - e Stone nem se importa em mostrar um jogador perdendo um olho durante um jogo ou esportistas cheirando cocaína e fazendo sexo com prostitutas em festas regadas à álcool e drogas. As metáforas estão por toda parte – a citação ao clássico “Ben-hur” chega ao requinte de contar com o próprio astro do filme, Charlton Heston, em participação especial – e o trabalho de Pacino, Foxx e Quaid equilibram como podem os exageros histriônicos de Cameron Diaz. O final chega perto do clichê, mas espertamente consegue fugir dele com classe e ironia.

“Um domingo qualquer” não é nem de longe o melhor trabalho de Oliver Stone mas tem qualidades suficientes para garantir o interesse por suas longas duas horas e meia. Basta ter um pouco de paciência.

Monday, July 25, 2011

O TALENTOSO RIPLEY

O TALENTOSO RIPLEY (The talented Mr. Ripley, 1999, Miramax Films/Paramount Pictures, 139min) Direção: Anthony Minghella. Roteiro: Anthony Minghella, romance de Patricia Highsmith. Fotografia: John Seale. Montagem: Walter Murch. Música: Gabriel Yared. Figurino: Gary Jones, Ann Roth. Direção de arte/cenários: Roy Walker/Bruno Cesari. Produção executiva: Sydney Pollack. Produção: William Horberg, Tom Sternberg. Elenco: Matt Damon, Gwyneth Paltrow, Jude Law, Cate Blanchett, Philip Seymour Hoffman, Philip Baker Hall, James Rebhorn, Jack Davenport, Celia Weston. Estreia: 25/12/99

5 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Jude Law), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Uma das características dos filmes noir, que fizeram a glória do cinema de suspense dos anos 30 e 40 era a fotografia envolta em brumas, sombras e uma escuridão construída milimetricamente para criar o efeito pretendido. Com o clima montado a história, repleta de reviravoltas e personagens amorais era contada quase como um apêndice ao visual - e em alguns casos a trama era o que menos importava. Subvertendo as regras tanto visuais quanto temáticas do gênero, o diretor Anthony Minghella faz de “O talentoso Ripley” um noir às avessas, com a luz do sol brilhando majestosa em grande parte de sua metragem e uma trama consistente e intrigante cujo desenvolvimento prende o espectador do início ao fim.

Adaptado do livro de Patrícia Highsmith que já havia gerado o clássico francês “O sol por testemunha”, estrelado por Alain Delon, o roteiro de Minghella, em seu primeiro projeto após o multi-oscarizado “O paciente inglês” criou uma personagem inexistente no romance, a milionária Meredith Logue (interpretada com brilhantismo por Cate Blanchett) mas manteve o suspense da história intacto. O protagonista, Tom Ripley (Matt Damon, talvez uma escolha equivocada para o papel central, mas que se sai relativamente bem) é um pobre-coitado que vive de vários empregos e cujo maior talento, como ele mesmo diz, é falsificar documentos, imitar vozes e dar golpes. Confundido com um ex-aluno de Harvard, ele é enviado pelo milionário Greenleaf (James Rehborn) a uma pequena cidade da Itália com o objetivo de convencer seu filho único a voltar para a América. Chegando na Europa, Ripley se apaixona não só pela boa vida dos milionários como também pelo próprio Dickie Greenleaf (Jude Law), um bom-vivant mimado e mulherengo que engana a namorada Marge (Gwyneth Paltrow) descaradamente. Os dois tornam-se amigos, mas a personalidade extrovertida de Dickie e os segredos de Tom acabam por separando-os. Após uma tragédia que vitima Dickie, Tom Ripley assume sua identidade e passa a levar a vida que sempre sonhou. No entanto, o pai de Dickie manda um detetive à procura do filho, que está sendo acusado de um assassinato cometido pelo próprio Ripley.



A trama intrincada montada por Highsmith em seu romance encontra eco no roteiro inteligente de Minghella, que tranqüilamente consegue escapar do previsível, entregando a seu público um produto superior a seu filme mais famoso e premiado. A fotografia ensolarada de John Seale contrasta com a escuridão da vida de Ripley, cuja alma fragmentada não consegue encontrar uma luz. A trilha sonora, que respira jazz de categoria e a reconstituição de época competente completam um dos filmes mais elegantes do ano, que além de tudo revela o talento de Jude Law, com meros 28 anos e roubando descaradamente as cenas em que aparece.

Na pele de Dickie Greenleaf, o britânico Law consegue eclipsar todos à sua volta, com uma atuação sedutora que envolve não apenas as personagens do filme mas também a audiência. Sua presença luminosa é tão forte que quando ele sai de cena, depois da primeira hora de projeção, a impressão que se tem é que o filme perde sua energia. Felizmente o roteiro rocambolesco de Minghella e o elenco não permitem que "O talentoso Ripley" caia na vala comum dos filmes de suspense que privilegiam o sangue em detrimento da inteligência. Além do mais, é um raro caso de adaptação cinematográfica que não ofende os fãs do livro e nem tampouco decepcionam àqueles que buscam um filme realizado com talento e classe.

Os fãs de "O sol por testemunha" estrilaram, mas "O talentoso Ripley" é um filmaço, feito por quem entende do riscado. Infelizmente não foi tão bem recebido quanto "O paciente inglês" - preconceito ao gênero ou à coragem de Minghella em não ocultar o teor homoerótico da história?? - mas merecia melhor sorte no Oscar (ao menos Jude Law poderia tranquilamente ter levado sua estatueta...)

Friday, July 22, 2011

REGRAS DA VIDA

REGRAS DA VIDA (The cider house rules, 1999, Miramax Films, 126min) Direção: Lasse Halstrom. Roteiro: John Irving, romance de sua autoria. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Lisa Zeno Churgin. Música: Rachel Portman. Figurino: Renée Ehrilch Kalfus. Direção de arte/cenários: David Gropman/Beth Rubino. Produção executiva: Bobby Cohen, Meryl Poster, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Richard N. Gladstein. Elenco: Tobey Maguire, Michael Caine, Charlize Theron, Paul Rudd, Delroy Lindo, Erikah Badu, Kate Nelligan, Kathy Baker, Jane Alexander, Kieran Culkin. Estreia: 21/10/99

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Lasse Halstrom),  Ator Coadjuvante (Michael Caine), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Michael Caine), Roteiro Adaptado

Só Deus sabe porque Michael Caine aceita fazer parte da maioria dos filmes dos quais participa. Entre dezenas de obras senão totalmente execráveis ao menos descartáveis, o ator inglês acerta majestosamente vez ou outra. Quando isso acontece ele faz coisas como “Hannah e suas irmãs”, que lhe deu um Oscar de coadjuvante e este “Regras da vida”, que lhe rendeu uma segunda estatueta na mesma categoria exatos 13 anos depois.

Dessa vez, ao contrário da primeira, ele não vive um homem de meia-idade canalha e apaixonado pela cunhada mais nova. Agora ele vive Wilbur Larch, um médico obstetra que, em uma cidade pequena do Maine, nos anos 40, comanda um orfanato e ajuda jovens a interromper gestações indesejadas, o que causa algumas discussões com seu braço-direito, o jovem Homer Wells (Tobey Maguire), um órfão que aprendeu o ofício de seu mentor, mas que hesita tenazmente em seguir sua carreira. A desculpa que Homer precisava para sair do orfanato em busca de uma vida própria surge quando um jovem casal pede ajuda ao dr. Larch. Encantado com a bela Candy (Charlize Theron) e empolgado com a idéia de trabalhar na colheita de maçãs da fazenda do jovem soldado  Willy (Paul Rudd), o rapaz abandona seu passado e inicia uma nova fase de sua existência. Tomando contato com outros trabalhadores – e testemunhando histórias bastante tristes, como a do veterano Sr. Rose (Delroy Lindo) e de sua filha Rose Rose (a cantora Erykha Badu estreando como atriz) – Wells acaba se envolvendo romanticamente com Candy, mas uma tragédia envolvendo o namorado da moça os separa.

O escritor John Irving adaptou seu próprio romance de maneira singular (e levou um merecido Oscar pelo feito). Repleto de uma delicadeza e de uma melancolia únicas, o filme, dirigido pelo sueco Lasse Halstrom, comove justamente por tratar de temas polêmicos - aborto, incesto - de maneira discreta, sem maiores arroubos de criatividade ou buscando a lágrima fácil. O elenco infantil rouba todas as cenas das quais participa (e depois de 40 minutos, quando o orfanato deixa de ser o centro da história dá uma saudade dos pequenos...) e demonstra uma naturalidade que muitos astros adultos dariam um braço para ter. Charlize Theron faz pouco mais do que desfilar sua beleza deslumbrante pela tela. Tobey Maguire segura bem seu primeiro protagonista antes de encarar a série "Homem-aranha", mas é Michael Caine quem emerge brilhante com sua feliz interpretação de um homem vitorioso sentimentalmente e cuja felicidade consiste em dar paz aos outros. É um trabalho sensacional que cobre "Regras da vida" de qualidade e emoção verdadeiras.

Belo e comovente, "Regras da vida" é o perfeito exemplo de um drama honesto e adulto que não precisa apelar para golpes baixos para conquistar o público.