Wednesday, April 13, 2011

POR UMA VIDA MENOS ORDINÁRIA

POR UMA VIDA MENOS ORDINÁRIA (A life less ordinary, 1997, Channel Four Films/Polygram Filmed Entertainment, 103min) Direção: Danny Boyle. Roteiro: John Hodge. Fotografia: Brian Tufano. Montagem: Masahiro Irakubo. Música: David Arnold. Figurino: Rachael Fleming. Direção de arte/cenários: Kave Quinn/Marcia Calosio. Produção: Andrew Macdonald. Elenco: Cameron Diaz, Ewan McGregor, Ian Holm, Holly Hunter, Delroy Lindo, Dan Hedaya, Stanley Tucci, Tony Shalhoub, Timothy Olyphant. Estreia: 24/10/97

Robert Lewis (Ewan McGregor) é um sujeito de pouca sorte. Desacreditado em suas tentativas de tornar-se escritor de um romance trash, ele, no mesmo dia, é abandonado pela namorada (que o deixa pelo professor de aeróbica) e demitido do emprego de faxineiro de uma empresa (sendo substituído por um robô). Indignado com sua situação desesperadora, ele invade o escritório de seu chefe e, ao perceber que nada fará o frio empresário mudar de ideia a respeito de sua dispensa, faz a única coisa que lhe passa na cabeça: sequestra sua filha, a dondoca Celine Naville (Cameron Diaz). A moça, revoltada com o fato de ser obrigada a trabalhar para pagar por seus luxos, une-se então a Robert para arrancar dinheiro de seu pai. O que os dois jovens nem de longe sonham, porém, é que dois anjos bastante atrapalhados - O'Reilly (Holly Hunter) e Jackson (Delroy Lindo) - tem a difícil missão de fazê-los se apaixonarem um pelo outro, para que não sejam obrigados a viver na Terra pra sempre.
Com essa premissa de novela das sete, a dupla Danny Boyle (diretor) e John Hodge (roteirista) voltou às telas depois do estrondoso sucesso crítico de "Trainspotting", que colocaram seus nomes no mapa da indústria hollywoodiana. Contando ainda com o ator Ewan McGregor (com quem haviam trabalhado ainda em "Cova rasa"), Boyle e Hodge experimentaram, para seu desgosto, o amargo sabor do fracasso. Ignorado pelo público e malhado pela crítica, "Por uma vida menos ordinária" nem de longe causou o mesmo impacto de seus trabalhos anteriores e, pior ainda, foi rechaçado até mesmo pelos fãs mais fiéis do time até então vencedor. Mas afinal de contas, a comédia romântica de Boyle mereceu todo essa vaia generalizada?



É preciso saber se o público - e até mesmo a imprensa - entendeu a proposta do cineasta e seus fiéis asseclas. O que se pode esperar de uma comédia romântica cujos autores deram ao mundo um suspense recheado de humor negro e um drama sobre drogas que foi acusado de glamourizá-las? Obviamente não há, em "Por uma vida menos ordinári"a, cenas daqueles romances melosos que Hollywood costuma empurrar a plateias sedentas por escapismo sentimental. Quando acontece de falarem de amor, logo somos lembrados - pela trilha sonora propositalmente piegas ou pelos absurdos do roteiro - de que estamos diante de um filme que fala de amor, sim, mas da maneira menos convencional possível. Robert e Celine não formam um típico par romântico ele é quase um banana, capaz de desmaiar ao ver sangue, e ela é uma riquinha mimada cujo hobby é brincar de Guilherme Tell (mesmo que corra o risco de ferir o próprio ex-namorado). E o fato de estarem à mercê de dois anjos nada dados a sentimentalismos e capazes de violência física para atingir seus objetivos apenas reitera o tom de brincadeira absoluta. É preciso que se compre a proposta de Por uma vida menos ordinária. E o público, infelizmente, dessa vez não comprou.

Logicamente nem tudo são flores... É necessário admitir que há muitos erros em "Por uma vida menos ordinária", a começar pelo roteiro que, apesar de alguns bons momentos, não chega nem aos pés do brilhantismo de "Trainspotting" e "Cova rasa". As personagens são mal delineadas (talvez de propósito, mas isso não fica exatamente claro) e certas situações não se desenvolvem a contento, dando a impressão de uma colagem de desventuras sem muita conexão. Mas Danny Boyle é visivelmente um diretor muito criativo e isso fica nítido em soluções visuais bastante interessantes, como o céu de um branco absoluto e na sequência musical em que Ewan McGregor e Cameron Diaz parecem se divertir a valer (McGregor inclusive voltaria a demonstrar seus dotes vocais nos filmes "Velvet Goldmine" e "Moulin Rouge"). Somados à atuação delirante de Holly Hunter (de longe a melhor coisa do filme) e à trilha sonora impecável (característica das obras do diretor), esses momentos de criatividade fazem do filme uma agradável experiência. Pode não ser um Danny Boyle dos melhores, mas está longe de ser um dos piores. E tem a simpatia contagiante de Ewan McGregor.

Tuesday, April 12, 2011

O HOMEM QUE FAZIA CHOVER

O HOMEM QUE FAZIA CHOVER (The rainmaker, 1997, American Zoetrope/Constellation Entertainment/Douglas/Reuther Productions, 135min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Francis Ford Coppola, Michael Herr, romance de John Grisham. Fotografia: John Toll. Montagem: Barry Malkin. Música: Elmer Bernstein. Figurino: Aggie Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: Howard Cummings/Barbara Munch. Produção: Michael Douglas, Fred Fuchs, Steven Reuther. Elenco: Matt Damon, Claire Danes, Danny DeVito, Mickey Rourke, Roy Scheider, Virginia Madsen, Mary Kay Place, Jon Voight, Dean Stockwell, Teresa Wright. Estreia: 18/11/97

Francis Ford Coppola é um cineasta de extremos. Ou tem lapsos da mais absoluta genialidade e produz filmes definitivos como "O poderoso chefão" e "Apocalypse now" ou assina fracassos estrondosos como "O fundo do coração" e "Tucker, um homem e seu sonho" (que, a despeito de sua qualidade fazem parte de uma nada lisonjeira lista de prejuízos absolutos). Por isso, não deixa de ser estranho ver seu nome estampado nos créditos de "O homem que fazia chover", mais uma adaptação para o cinema de um livro de John Grisham. Não que o filme tenha sido um erro total ou um furo comercial - mas porque em nenhum momento dos seus longos 135 minutos se percebe o talento visionário e a paixão que imprimiu em seus melhores trabalhos. "O homem que fazia chover" é um ótimo drama de tribunal - que felizmente não se resume somente às cenas do julgamento em si - mas, se é uma das melhores recriações da obra de Grisham para as telas, é apenas um filme correto dentro da filmografia genial de seu diretor.

Como sempre acontece nas histórias de Grisham, o protagonista é um advogado o jovem Rudy Baylor (Matt Damon) acaba de formar-se em Direito e, antes mesmo de passar no exame da Ordem, é contratado pela firma do misterioso Bruiser Stone (Mickey Rourke), para onde leva dois casos dos quais já cuidava; o testamento da velha senhora Birdie (Teresa Wright) - em cujo apartamento dos fundos ele mora, e um importante caso contra uma empresa de planos de saúde, que se recusa a pagar o tratamento de leucemia do jovem Donny Ray Black (Johnny Whitworth). Enquanto tenta levar o poderoso à julgamento - contando com a ajuda do colega Deck Shifflet (Danny DeVito),cujo maior talento é aliciar possíveis clientes em hospitais e delegacias - Baylor se apaixona por Kelly Riker (Claire Danes), uma jovem vítima de um marido abusivo.


O que há de melhor em "O homem que fazia chover" é a sua narrativa clássica e linear. Diferentemente do que fez em "Drácula de Bram Stoker", quando abusou de sua veia criativa em sequência de poesia ímpar que expandiam a trama criada pelo autor irlandês, aqui o cineasta se atém a contar a história imaginada por Grisham, sem apelar para efeitos de luz e sombra ou subterfúgios outros. O público que se dispor a assistir ao filme é presenteado com uma história simples de bem contra o mal - um tanto maniqueísta, sim, mas interessante o suficiente para manter a atenção até o final. E é fundamental para que a audiência torça por seu protagonista que ele seja vivido por um ator como Matt Damon. Em vias de tornar-se queridinho de Hollywood por "Gênio indomável" - que lhe deu um Oscar de roteiro original - Damon é a perfeita encarnação do rapaz boa-pinta, de bom coração e sensível com que a plateia pode (e deve) identificar-se. Sua escalação, um golpe de mestre de Coppola, dá o tom exato do que é "O homem que fazia chover": um filme simples, sem maiores sofisticações.

Mas por simples que não se entenda simplório. Apesar de não buscar soluções inéditas ou enquadramentos mirabolantes de câmera, Coppola não se descuida do roteiro - que ele mesmo adaptou. Ainda que as personagens não sejam exatamente multidimensionais, elas proporcionam a seus atores boas oportunidades de demonstrar seu talento. Mary Kay Place dá o tom exato a sua Dot Black, a mãe do jovem Donny Ray, uma mulher determinada a não deixar que o sofrimento de seu filho passe em branco. Danny DeVito brilha como o divertido Deck Shifflet e até mesmo coadjuvantes rápidos - como Dean Stockwell e Virginia Madsen - estão em momentos bastante inspirados. Talvez nesse cuidado com a direção de atores esteja mais claro o envolvimento do cineasta com o projeto, cujo resultado final recebeu a total aprovação de seu criador. De todas as adaptações de livros seus feitos por Hollywood, "O homem que fazia chover" é a preferida de John Grisham.

"O homem que fazia chover" é competente, é extremamente bem feito e tem um elenco exemplar. Não é nem de longe o melhor Francis Ford Coppola da história, mas é entretenimento de primeira linha e é bem capaz de empolgar os fãs do gênero.

Friday, April 8, 2011

TEMPESTADE DE GELO

TEMPESTADE DE GELO (The ice storm, 1997, Fox Searchlights Pictures, 112min) Direção: Ang Lee. Roteiro: James Schamus, romance de Rick Moody. Fotografia: Frederick Elmes. Montagem: Tim Squyres. Música: Mychael Danna. Figurino: Carol Oditz. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Stephanie Carroll. Produção: Ted Hope, Ang Lee, James Schamus. Elenco: Kevin Kline, Joan Allen, Sigourney Weaver, Tobey Maguire, Christina Ricci, Elijah Wood, Adam Hann-Byrd, Jamey Sheridan, Henry Czerny, Allison Janey, Katie Holmes. Estreia: 27/9/97

Vencedor de Melhor Roteiro no Festival de Cannes

Em 1995, o taiwanês Ang Lee surpreendeu a crítica ao fazer de "Razão e sensibilidade" a melhor adaptação para o cinema de um livro da escritora absolutamente inglesa Jane Austen. Em "Tempestade de gelo", seu projeto seguinte, ele continua a missão de penetrar em culturas diferentes da sua: é difícil acreditar em um filme tão tipicamente americano quanto sua brilhante visão do romance de Rick Moody. Mergulhando sem medo no âmago de duas famílias do interior do país em plena efervescência cultural e sexual dos anos 70, Lee entrega ao público um estudo delicado e cortante sobre as relações familiares. É triste e melancólico, mas é também mais uma obra-prima com sua assinatura.

É véspera do dia de Ação de Graças de 1973. O escândalo Watergate está no auge e os costumes sexuais e comportamentais estão em ebulição, mesmo em uma pequena cidade do interior de Connecticut chama Nova Canaan. É para lá que Paul Hood (Tobey Maguire) está retornando, para passar o feriado com a família. Seus pais, Ben (Kevin Kline) e Elena (Joan Allen) estão passando por uma crise no casamento, agravada pelo tédio e pelo caso secreto dele com Janey Carver (Sigourney Weaver), uma amiga do casal. A irmã de Paul, Wendy (Christina Ricci), por sua vez, experimenta o início de sua sexualidade brincando com os dois filhos de Janey, o tímido Mikey (Elijah Wood) e o desajeitado Sandy (Adam Hann-Byrd). Apesar da proximidade física, porém, existe um enorme distanciamento emocional entre todos eles.

A frieza nas relações interpessoais que Rick Moody criou em seu livro - e que foi retratada com perfeição pelo roteiro de James Schamus - encontra na inteligência e na sutileza de Ang Lee seu diretor ideal. Pródigo em dar tintas leves e discretas a dramas particulares, Lee conta a história das famílias Hood e Carver sem pressa, dando atenção a pequenos detalhes, como olhares tristes, suspiros disfarçados e atos desesperados. Os silêncios entre Elena e Ben dizem muito mais sobre os escombros de seu casamento do que as escapadas sexuais que ele dá com Jayne, uma mulher insatisfeita com a própria vida e que vê no seu caso extra-conjugal uma forma de escapar da monotonia. Jayne mal presta atenção nos filhos, que por sua vez não são capazes nem ao menos de perceber que seu pai saiu em viagem. Wendy é uma jovem um tanto desajustada, com forte visão política mas que é incapaz de lidar saudavelmente com seus instintos. E Paul, como alguém à parte de seu núcleo familiar, busca seu lugar no mundo sem sequer desconfiar do caos que reina em sua casa.


O gelo é uma imagem recorrente no filme de Lee. Volta e meia cubos de gelo invadem a tela, seja nas cozinhas suburbanas das personagens, no formato da casa de Jayne e principalmente na tempestade que dá nome ao filme e que origina uma tragédia que transforma definitivamente a vida de todos. A falta de calor humano entre maridos e mulheres e entre pais e filhos é o ponto central de "Tempestade de gelo", mas sua maior qualidade é justamente evitar cenas lacrimosas ou diálogos clichês. Como já dito, os silêncios na mesa dos Hood ou no relacionamento entre os Carver são mais eloquentes do que catarses emocionais repletas de choro e gritos. E é brilhante, dentro desse universo de coisas não ditas, a cena em que Ben carrega a filha Wendy nos braços, depois de flagrá-la em uma situação comprometedora com Mikey. Mesmo sem muitas falas, Kevin Kline e Christina Ricci transmitem toda a vastidão de sentimentos que a cena exige. Emocionar-se é mandatório!

Aliás, o elenco de "Tempestade de gelo" é dos melhores que Hollywood pode oferecer. Kevin Kline e Joan Allen estão fabulosos como um casal cuja falta de emoção os empurra em direção ao afastamento gradual. Sigourney Weaver, linda e sexy, tem sua melhor atuação como uma enfastiada esposa de classe média que busca em aventuras sexuais um motivo para passar seus dias iguais. E Christina Ricci demonstra que seu talento não ficou restrito às comédias que fez na infância, construindo uma Wendy que lida com sua sexualidade nascente de forma quieta mas agressiva. Somadas à fotografia - também gélida, de Frederick Elmes - e à trilha sonora poderosa de Mychael Danna, as interpretações do elenco elevam "Tempestade de gelo" a um patamar muito acima do corriqueiro. É um filme americano, que atinge a essência das famílias americanas e dos problemas americanos... mas tem cara e qualidade de cinema europeu. Simplesmente ignorado pelo Oscar e outras premiações menos conhecidas, é um filme extraordinariamente forte e emocionante, que merece ser descoberto e louvado.

Wednesday, April 6, 2011

O PACIFICADOR

O PACIFICADOR (The Peacemaker, 1997, Dreamworks SKG, 124min) Direção: Mimi Leder. Roteiro: Michael Schiffer, artigo de Leslie Cockburn, Andrew Cockburn. Fotografia: Dietrich Lohmann. Montagem: David Rosenbloom. Música: Hans Zimmer. Figurino: Shelley Komarov. Direção de arte/cenários: Leslie Dilley/Rosemary Brandenburg. Produção executiva: Michael Grillo, Laurie Macdonald. Produção: Branko Lustig, Walter Parkes. Elenco: Nicole Kidman, George Clooney, Armin Mueller-Stahl, Marcel Iures, Aleksandr Baluev, Goran Visnjic. Estreia: 26/9/97

Uma mulher dirigir um filme de ação é algo tão raro que, quando acontece, é visto com olhos atentos por todo mundo. No entanto, isso não aconteceu como deveria com "O pacificador", filme de estreia do estúdio DreamWorks SKG - de propriedade de Steven Spielberg, Jeffrey Katzenberg e David Geffen. Dirigido por Mimi Leder, que comandou vários episódios da série de TV "Plantão médico" - produzido por Spielberg - o filme estrelado por George Clooney e Nicole Kidman não fez o barulho esperado nas bilheterias americanas, apesar de suas qualidades. Diferentemente de outros filmes do gênero, que dão mais valor às cenas de explosões e tiroteios, o trabalho de Leder se concentra também na história e nas personagens, o que desacelera seu ritmo. Quem prefere um pouco de inteligência em vez de pura correria, no entanto, não tem do que reclamar. "O pacificador" é um filme de ação com cérebro.

Dois acontecimentos aparentemente sem conexão alguma dão partida à história: o assassinato de um diplomata iraniano e a trágica batida de dois trens em algum lugar da Rússia. O acidente causa a explosão de uma ogiva nuclear e logo a especialista Julia Kelly (Nicole Kidman) fica com a certeza de que tudo não passa de uma ação terrorista. Sua certeza é questionada pelo Tenente Coronel Thomas Devoe (George Clooney), que acredita que tudo é uma armação para esconder algo maior. Juntos, eles começam a investigar os rastros que o roubo de dez ogivas deixou para trás e descobrem que é tudo obra do iugoslavo Duan Gavri (Marcel Iure), que perdeu mulher e filha vítimas de um atirador de elite, em Sarajevo. Kelly e Devoe passam a dedicar-se, então, a impedir que ele detone uma bomba em uma conferência da ONU em Nova York.


Logicamente o público que prefere tiroteios sem sentido vai sentir falta de mais ação em "O pacificador", ainda que Mimi Leder dirija com segurança ímpar todas as sequências que exigem o máximo de adrenalina que o cinema americano pode oferecer. Ao contrário de produtos menos elaborados, porém, tudo aqui tem um motivo para acontecer, nenhuma cena é dispensável e os diálogos são tão importantes quanto os tiros. Ainda que não desenvolva as personagens psicologicamente - mesmo porque tal luxo não caberia na situação extrema pela qual todas estão passando - o roteiro se preocupa em não deixar que aconteça um romance entre os protagonistas (o que seria ridiculamente falso) e, melhor ainda, não forja nenhum tipo de heroísmo individual. Tudo que acontece em "O pacificador" soa real devido ao cuidado da diretora em jamais extrapolar na fantasia. E a escolha do elenco também foi acertada. Nicole Kidman, substituindo Annette Bening, tem o tipo ideal para a personagem, clássica e séria. E George Clooney - conhecido pela diretora através de "Plantão médico" - é o herói típico de filmes de ação, charmoso e dono de uma coragem à toda prova, em mais um papel que o elevou ao primeiro time de Hollywood.

Realizado de forma extremamente correta e competente, "O pacificador" pode até não empolgar a quem está mal-acostumado com a dieta de filmes sem conteúdo com que a indústria americana alimenta seu público. Mas é bastante superior - até mesmo em sua coragem em tocar em assuntos que ainda não eram tabu em Hollywood, como terrorismo - a qualquer subproduto que dispensa história e personagens em função de uma bilheteria mais gorda.

Tuesday, April 5, 2011

LOS ANGELES, CIDADE PROIBIDA

LOS ANGELES, CIDADE PROIBIDA (L.A. Confidential, 1997, Regency Enterprises/Warner Bros, 138min) Direção: Curtis Hanson. Roteiro: Curtis Hanson, Brian Helgeland, romance de James Ellroy. Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Peter Honess. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Jay R. Hart. Produção executiva: Dan Kolsrud, David L. Wolper. Produção: Curtis Hanson, Arnon Milchan. Elenco: Russell Crowe, Guy Pearce, Kevin Spacey, James Cromwell, Kim Basinger, Danny DeVito, David Strathairn, Ron Rifkin, Simon Baker, Matt McCoy, Paul Guilfoyle. Estreia: 19/9/97

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Curtis Hanson), Atriz Coadjuvante (Kim Basinger), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Direção de arte/cenários, Som
Vencedor de 2 Oscar: Atriz Coadjuvante (Kim Basinger), Roteiro Adaptado
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Kim Basinger)

Até 1997 Curtis Hanson não parecia ser mais do que um cineasta-padrão de Hollywood, entregando filmes bastante competentes mas nunca geniais, como "Uma janela suspeita", "A mão que balança o berço" e "O rio selvagem". Por isso, quando "Los Angeles, cidade proibida" foi lançado todo mundo na capital do cinema - e mais os críticos e os fãs de bom cinema - ficou de queixo caído. Emulando com propriedade o estilo noir dos filmes policiais dos anos 40, Hanson assinou um filme extraordinariamente bom, capaz de competir de igual pra igual com os maiores clássicos do gênero. Premiado como melhor filme por praticamente todas as associações de críticos americanos, "Los Angeles" só não levou o Oscar e o Golden Globe por ter esbarrado em um iceberg gigantesco chamado "Titanic". Mas até mesmo os admiradores da mega-produção de James Cameron são obrigados a concordar que, em termos de narrativa e inteligência "Los Angeles" ganha de goleada.

Baseado em um extenso romance de James Ellroy publicado em 1990, o impecável roteiro de Hanson e Brian Helgeland consegue o feito raro de melhorar a história do escritor, tornando-a mais concisa e com menos tramas paralelas que não acrescentavam muito ao enredo central. Enquanto no livro a ação acontecia dentro de um espaço de tempo bastante vasto - quase uma década - o filme concentra tudo em cerca de um ano e opera algumas mudanças cruciais em alguns protagonistas, o que de forma alguma macula a escrita de Ellroy, um escritor cujo estilo seco tem fãs ardorosos - e cujo "Dália negra" foi posteriormente adaptado por Brian DePalma sem nem um terço do charme e do sucesso de "Los Angeles". Especializado em tramas policiais passadas na terra do cinema, Ellroy usa histórias reais como material de inspiração e pano de fundo para tramas que falam sobre corrupção, assassinatos e sexo. Fez isso com maestria em "Los Angeles, cidade proibida", cuja profusão de personagens e acontecimentos é resumida brilhantemente em forma de roteiro.

Tudo começa no dezembro de 1953. Considerados como a melhor força policial do país, os homens liderados pelo Capitão Dudley Smith (James Cromwell) passam por uma paradoxal situação, uma vez que o crime organizado cujo líder Mickey Cohen (Paul Guilfoley) manda e desmanda na região. Na mesma época em que o gângster é violentamente assassinado, uma chacina movimenta a cidade e mobiliza a imprensa e os detetives. Chamado de "O massacre de Nite Owl", a chacina que vitimou os clientes de uma lanchonete - inclusive um ex-detetive dispensado pouco antes - acaba sendo o primeiro caso importante de Ed Exley (Guy Pearce), um jovem e ambicioso tenente-detetive que vive à sombra do talento do pai. Comandando a investigação do crime - mesmo sendo desprezado por todos os colegas por ter sido o delator em um incidente no Natal - ele torna-se herói ao salvar uma jovem mexicana vítima de abuso sexual. No entanto, logo ele descobre que as coisas não são exatamente como parecem e que policiais corruptos podem estar envolvidos em uma grande rede de mentiras e violência. Para isso, ele precisa unir-se a outros dois detetives bastante diferentes de si mesmo: Bud White (Russell Crowe), um brucutu agressivo que se dedica a proteger mulheres vítimas de agressão doméstica e Jack Vincennes (Kevin Spacey), um vaidoso investigador que complementa seus ganhos como consultor de um programa de TV e ajuda o repórter sensacionalista Sid Hudgens (Danny De Vito) com suas reportagens na revista "Hush Hush", especializada em escândalos dentro da comunidade hollywoodiana. Juntos, Exley, Vincennes e White vão desbaratar uma complicada teia de intrigas que inclui uma rede de prostituição comandada por Pierce Patchett (David Strathairn), da qual faz parte a bela Lynn Bracken (Kim Basinger), que se envolve romanticamente com Bud White.


É difícil resumir a complexa trama de "Los Angeles, cidade proibida", tamanha é sua profusão de detalhes, personagens e situações. Organizar tudo de forma palatável a uma plateia tão mal-acostumada a historinhas mal costuradas é um mérito inquestionável do roteiro, que não deixa nenhum furo em seu caminho. Tudo que é dito e mostrado por Hanson é de extrema importância para o desenrolar da história, mesmo que a princípio pareça apenas uma forma de apresentar as personagens, todas elas construídas exemplarmente, diga-se de passagem (ainda que tenham passado por pequenas alterações do livro para a tela). O cuidado que Hanson tem com a reconstituição de época também tem com suas personagens e isso fica claro quando, na reta final, todas as cartas são embaralhadas e o público se deixa surpreender com revelações totalmente críveis ainda que inesperadas. A complexidade de personagens como Bud White - que repudia a violência contra a mulher e acaba sendo forçado a ela - e Ed Exley - que se vê obrigado a tomar atitudes que jamais tomaria nos primeiros minutos - encontra intérpretes ideais em um elenco que não poderia ser melhor.

Se foi Kim Basinger quem levou o Oscar de coadjuvante - por uma atuação correta mas nada mais do que isso - são seus colegas de elenco quem deveriam ter sido premiados. Kevin Spacey mais uma vez mostra seu imenso talento para a sutileza construindo um Jack Vincennes que equilibra cinismo com amargura na medida certa - a cena em que ele e Exley encontram Lana Turner em um bar é hilária. James Cromwell como o Capitão Dudley Smith, figura crucial na trama, mostra-se perfeitamente à vontade com as viradas de sua personagem. Guy Pearce - que ficou com o papel mesmo contra a vontade dos produtores, que não queriam um australiano no papel do americaníssimo Ed Exley - apaga a imagem de sua drag-queen de "Priscilla, a rainha do deserto", entregando um desempenho ideal. Mas é Russell Crowe quem rouba todas as cenas das quais participa. O ator neozelandês tornou-se queridinho de Hollywood depois de seu trabalho irretocável como Bud White, um policial truculento com um lado doce raramente revelado. Os olhos cheios de fúria de Crowe e sua interpretação avassaladora são o início de uma carreira meteórica que o levaria a concorrer a 3 Oscar consecutivos - e levar um por seu trabalho menos brilhante como ator, em "Gladiador".

Quaisquer elogios que se faça a "Los Angeles, cidade proibida" são poucos, tamanha sua força e brilhantismo em todos os quesitos. Impecável em qualquer nível - e encharcado de uma violência e uma sensualidade ímpares mas nunca vulgares - a obra-prima de Curtis Hanson é um daqueles filmes que só surgem uma vez a cada década. E que, como acontece com os clássicos, melhora a cada revisão. E quem precisa de uma chuva de Oscar quando se é tão perfeito?

Monday, April 4, 2011

VIDAS EM JOGO

VIDAS EM JOGO (The game, 1997, Polygram Filmed Entertainment, 129min) Direção: David Fincher. Roteiro: John Brancato, Michael Ferris. Fotografia: Harris Savides. Montagem: James Haygood. Música: Howard Shore. Figurino: Michael Kaplan. Direção de arte/cenários: Jeffrey Beecroft/Jackie Carr. Produção executiva: Jonathan Mostow. Produção: Ceán Chaffin, Steve Golin. Elenco: Michael Douglas, Sean Penn, Deborah Kara Unger, James Rebhorn, Peter Donat, Carroll Baker, Armin Mueller-Stahl. Estreia: 12/9/97

Cheio de moral depois do merecido sucesso de "Seven", o cineasta David Fincher poderia ficar em casa guardado por Deus contando vil metal e manter-se no caminho mais fácil para o êxito, se repetindo exaustivamente - e ao público, por conseguinte. Demonstrando que tem mais personalidade e inteligência do que seus colegas de ofício, porém, o criador de videoclipes antológicos, como "Vogue", de Madonna e "Freedom '90", de George Michael, escolheu como seu projeto seguinte um roteiro intrigante mas absolutamente fora dos padrões comerciais. "Vidas em jogo" transtornou tanto a crítica e o público americano que só foi chegar no Brasil um ano e meio depois de sua estreia nos EUA, e mesmo assim passou quase em brancas nuvens apesar dos nomes de Michael Douglas e Sean Penn enfeitando o cartaz. Quando se assiste ao filme, no entanto, fica claro o porquê de tanta frieza. "Vidas em jogo" é, mais do que um filme de suspense feito para render fortunas, um exercício de estilo e uma voraz crítica ao conformismo material - mesmo objeto de fúria do projeto seguinte de Fincher, o inacreditável "Clube da luta" (não por acaso, outro fracasso de bilheteria).

Em "Vidas em jogo" Michael Douglas interpreta Nicholas Van Orton, um multimilionário cujo sucesso financeiro não se reflete em suas relações pessoais. Separado da esposa, ele vive sozinho na mansão de sua família, na companhia apenas da governanta Ilsa (a ex-sex symbol Carroll Baker), que trabalha para ele desde sua infância. No dia em que completa 48 anos - idade em que seu pai cometeu suicídio jogando-se do telhado da casa - Nicholas recebe um presente inesperado de Conrad (Sean Penn), seu rebelde irmão caçula: o convite para ingressar em um misterioso jogo cujas regras não são exatamente claras. A partir do momento em que Nicholas se inscreve na tal empresa que criou o jogo, sua vida tediosa transforma-se imediatamente em um turbilhão de acidentes bizarros, coincidências estranhas e, pior do que tudo, uma insistência em lembrar-lhe da morte do pai. A única pessoa que o ajuda é a garçonete Christine (Deborah Kara Unger), mas nem mesmo ela parece assim tão confiável.


O roteiro de John Brancato e Michael Ferris é o tipo de roteiro que Hollywood raramente apresenta, principalmente porque se recusa a seguir os padrões pré-estabelecidos. Mesmo que o final do filme descambe para um certo moralismo - o que talvez frustre os mais radicais - seu desenvolvimento é exemplar. O público é arrastado, assim como o protagonista, a um mundo absolutamente imprevisível, onde é virtualmente impossível adivinhar o que vem pela frente. Conforme Nicholas Van Orton vai sendo surpreendido pelos desdobramentos absurdos do jogo proposto, a audiência vai sendo envolvida por uma trama em que nada é o que parece ser. É proposital a falta de informações que Fincher apresenta ao público, assim como é essencial ir revelando tudo aos poucos. E é claro, Fincher cercou-se de colaboradores que entenderam perfeitamente bem suas intenções estéticas.

Harris Savides providenciou a fotografia amarelada, claustrofóbica e em tom de pesadelo. O editor Hames Haygood não apressa o ritmo da história, acentuando a opressão sobre o protagonista. A trilha sonora de Howard Shore é forte, mas nunca chama a atenção para si, apenas pontuando com precisão os momentos mais tensos da narrativa. E o elenco, certamente, é o que faz com que o conto onírico proposto pelo cineasta convença o p´blico. Michael Douglas, que tem o dom de escolher bem seus projetos tem em sua atuação como Nicholas Van Orton mais um ponto alto de sua carreira. O veterano ator transmite todas as nuances de sua personagem com sua característica segurança e sua credibilidade junto à plateia é fundamental para que a história jamais escorregue para o absurdo. E Sean Penn - ficando com um papel que seria de Jodie Foster, que brigou com os produtores antes do início das filmagens - acumula mais um coadjuvante sensacional à sua galeria de tipos marginais, ainda que desta vez revestido de uma certa elegância.

Logicamente "Vidas em jogo" não pode ser recomendado à qualquer plateia, uma vez que foge dos padrões do gênero, desde sua ideia central até o final que, apesar de feliz, é bastante irônico. Mas, apesar de ser um filme considerado menor na carreira de David Fincher, merece ser louvado por sua inteligência, pelo clima sombrio e pela técnica impecável.

Friday, April 1, 2011

ATÉ O LIMITE DA HONRA

ATÉ O LIMITE DA HONRA (G.I. Jane, 1997, Hollywood Pictures/Caravan Pictures/First Independent Films, 125min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: David Twohy, Danielle Alexandra, história de Danielle Alexandra. Fotografia: Hugh Johnson. Montagem: Pietro Scalia. Música: Trevor Jones. Figurino: Marilyn Vance. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Cindy Carr. Produção executiva: Danielle Alexandra, Julie Bergman Sender, Chris Zarpas. Produção: Roger Birnbaum, Demi Moore, Ridley Scott, Suzanne Todd. Elenco: Demi Moore, Anne Bancroft, Viggo Mortensen, Jason Beghe, Daniel Von Bargen, Jim Caviezel. Estreia: 22/8/97

Vencedor do Framboesa de Ouro de Pior Atriz (Demi Moore)

Mais do que as críticas à sua qualidade ou ao salário milionário de sua protagonista, "Até o limite da honra" ficou conhecido como "o filme em que Demi Moore raspou a cabeça". Vinda do fracasso absoluto de "Stritpease", uma pretensa comédia pela qual recebeu o estratosférico cachê de 12 milhões de dólares - o mais alto pago a uma atriz até então - Moore precisava urgentemente de um sucesso de bilheteria que a fizesse merecer o status de estrela que lhe escapava rapidamente das mãos. O projeto escolhido - e no qual ela assumiu também o papel de produtora - foi um filme onde ela poderia testar seu poder de atração junto ao público sem precisar tirar a roupa. Com um diretor de categoria como Ridley Scott no comando da brincadeira, era de se esperar que tudo desse muito certo. Mas não deu. Apesar de não ser o fiasco que muitos previam, "Até o limite da honra" ficou longe de ser o êxito que Demi necessitava e de certa forma abalou a carreira de Scott, cujo filme anterior, "Tormenta", também havia fracassado comercialmente.

Honestamente, não se pode dizer que "Até o limite da honra" seja um grande filme, assim como é injusto apedrejá-lo como muitos fizeram - e o Framboesa de Ouro de Pior Atriz para Demi Moore é mais implicância do que exatamente justiça. Seu problema maior é o excesso de clichês no qual ele se atola, sem que tenha o distanciamento crítico para ao menos não levar-se a sério. Não há nenhum senso de humor no roteiro feminista e seu ritmo sofre um sério abalo na segunda metade, precisamente quando tinha tudo para conquistar a plateia com cenas de ação que Scott sabe dirigir muito bem - como comprovou em filmes posteriores como "Gladiador" e "Falcão negro em perigo". Tudo é feito com grande competência, desde a fotografia inspirada de Hugh Johnson até a bela música de Trevor Jones, mas falta coração a "Até o limite da honra". Coração e paixão.


Demi Moore - bela como sempre e evitando o uso de dublês - vive Jordan O'Neil, uma especialista em topologia que é escolhida para ser a primeira mulher a enfrentar o treinamento mais radical dos fuzileiros americanos, do qual 60% dos inscritos desiste antes do final. Sua escolha é menos altruísta do que interesseira: quem está por trás de tudo é a senadora Lilian DeHaven (Anne Bancroft), uma raposa velha política que vê na mudança das atitudes da Marinha americana em relação às mulheres um benefício para sua própria carreira. Hostilizada pelos colegas de treinamento - que não sabem nem ao menos como lidar com sua presença entre eles - O'Neil aos poucos passa a ganhar o respeito e a admiração de todos, ao mostrar-se tão forte, corajosa e persistente quanto qualquer um. Sua trajetória, porém, fica ameaçada quando a própria senadora tenta puxar-lhe o tapete, lançando boatos sobre sua sexualidade.

A primeira parte de "Até o limite da honra" é a melhor. Apesar de usar e abusar de todos os clichês do gênero, o treinamento de Jordan e seus colegas consegue ser interessante, principalmente por contar com a atuação vigorosa de Viggo Mortensen como o comandante John Urgayle - que, honrando a tradição máxima do lugar-comum é um brucutu que recita T.E. Lawrence e se desmancha de admiração pela heroína nas cenas finais. Antes de sua consagração com a trilogia "O Senhor dos anéis", Mortensen já mostrava que tinha um talento incomum, conseguindo fazer o possível e o impossível com uma personagem unidimensional. Sua participação engrandece o filme, assim como o trabalho mais uma vez irrepreensível de Anne Bancroft, que rouba todas as (infelizmente poucas) cenas em que aparece. São eles que dão sustentação à Demi Moore, cuja protagonista, apesar de forte e determinada não é desenvolvida a contento pelo roteiro. Ainda assim, a então esposa de Bruce Willis merece elogios por sua dedicação e pela coragem de arriscar-se em um terreno dominado quase exclusivamente pelos homens.

Sem maiores expectativas pode-se gostar bastante de "Até o limite da honra" - que apresenta inclusive uma bela canção original interpretada pela banda The Pretenders em seus créditos finais. É um exemplar muito digno de seu gênero, ainda que fique muito aquém de tudo já realizado por Ridley Scott. E tem Demi Moore botando muito homem no chinelo, o que sempre é muito interessante...