Saturday, April 30, 2011

TITANIC

TITANIC (Titanic, 1997, 20th Century Fox/Paramount Pictures/Lighstorm Entertainment, 194min) Direção e roteiro: James Cameron. Fotografia: Russell Carpenter. Montagem: James Cameron, Richard A. Harris, Conrad Buff. Música: James Horner. Figurino: Deborah L. Scott. Direção de arte/cenários: Peter Lamont/Michael Ford. Produção executiva: Rae Sanchini. Produção: James Cameron, Jon Landau. Elenco: Leonardo DiCaprio, Kate Winslet, Kathy Bates, Billy Zane, Gloria Stuart, Bill Paxton, Frances Fisher, Suzy Amis, Victor Garber. Estreia: 14/12/97

14 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (James Cameron), Atriz (Kate Winslet), Atriz Coadjuvante (Gloria Stuart), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Canção Original ("My heart will go on"), Figurino, Direção de arte/cenários, Efeitos Visuais, Maquiagem, Som, Efeitos Sonoros
Vencedor de 11 Oscar: Melhor Filme, Diretor (James Cameron), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Canção Original ("My heart will go on"), Figurino, Direção de arte/cenários, Efeitos Visuais, Som, Efeitos Sonoros
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (James Cameron), Trilha Sonora Original, Canção Original ("My heart will go on")

Impossível falar em "Titanic" e não afogar-se em números, com o perdão do infame trocadilho. O mais caro filme da história (ao custo de cerca de 200 milhões de dólares), o mais rentável (quase 2 bilhões arrecadados pelo mundo), o recordista em indicações ao Oscar (14, empatado com "A malvada"), o recordista em estatuetas (11, ao lado de "Ben-hur" e "O retorno do rei")... Números e recordes à parte, no entanto, a obra-prima de James Cameron também é, necessário reconhecer, uma das provas de tudo que Hollywood pode oferecer em termos de entretenimento de qualidade. Pode-se falar mal à vontade, mas a história de amor entre o pobretão Jack Dawson e a socialite falida Rose DeWitt Butaker mexe com o coração dos mais sensíveis e o trágico naufrágio oferece adrenalina suficiente aos fãs de filmes de ação. E é justamente esse equilíbrio entre o romance e a catástrofe o ingrediente secreto que transformou o filme de Cameron em fenômeno.

À luz da distância é fácil falar mal de "Titanic". Muitos críticos torcem o nariz para o que consideram uma historinha de amor e tragédia realizada com assustadora competência técnica mas vazia de conteúdo emocional (como se a morte de centenas de pessoas não fosse dramático o bastante). É lógico que, para aqueles que procuram dramas com psicologismos complexos, "Titanic" é absurdamente frívolo, quase banal. Porém, para aqueles que, como a maioria esmagadora dos frequentadores de cinema, procura apenas uma boa história contada de maneira impecável, o romance narrado por Cameron (demonstrando-se um diretor sensível que petardos de ação como os primeiros "O exterminador do futuro" pouco deixavam à mostra) é uma obra-prima absoluta, capaz de emocionar e impressionar em medidas idênticas.



Para quem não sabe - ou seja, para quem voltou à Terra de algum outro planeta - o filme conta a história de amor entre Jack Dawson (Leonardo DiCaprio, em uma atuação carismática) e Rose De Witt Buttaker (Kate Winslet, linda e convincente). Ele é um artista que vive um dia da cada vez, ela uma socialite em vias de entrar em um casamento por conveniência. Eles se conhecem a bordo do Titanic, o maior transatlântico do mundo, em sua viagem inaugural. Enquanto vivem um romance de sonhos - ainda que ameaçado pela diferença social e pelo noivo violento de Rose - eles nem imaginam que o inafundável navio está prestes a morrer no fundo do mar. Ao esbarrar em um iceberg, o Titanic naufraga inexoravelmente, fazendo centenas de vítimas (a maior parte nas classes menos favorecidas). Mais do que proteger seu amor, portanto, Jack e Rose lutam pela própria sobrevivência, testemunhando uma das maiores catástrofes da história.

James Cameron foi de extrema inteligência ao contar sua história da maneira mais simples possível, com uma linguagem que atinge a todo tipo de plateia, independente de classe social ou cultural. A simplicidade do roteiro também dá espaço ao que realmente chama a atenção em "Titanic": a sua supremacia absoluta em termos técnicos e visuais. É difícil ficar indiferente aos efeitos especiais concebidos pelo diretor - que já os havia revolucionado com "O segredo do abismo" e "O exterminador do futuro 2" - e pela grandiosidade do projeto em si. A fotografia exuberante, a reconstituição de época detalhista e o som impecável ficam menores quando assistidos sem o clima de uma sala de cinema (problemas que Blu-ray e TVS de alta definição estão resolvendo maravilhosamente), mas é inegável que tudo no filme é feito para impressionar, para deixar de queixo caído até o mais assíduo cinéfilo. E, convenhamos, o faz com perfeição.

Também é preciso aplaudir o senso de ritmo do cineasta e roteirista. Mesmo que "Titanic" utilize mais de três horas para contar sua história, em nenhum momento torna-se monótono ou cansativo. Logicamente sua primeira parte é mais lenta, ao apresentar as personagens e estabelecer o tom romântico da narrativa - e é nessa primeira hora que DiCaprio e Kate Winslet brilham com suas inspiradas atuações. Quando o naufrágio assume a protagonização, na segunda metade da projeção, o público já está apaixonado por Jack e Rose e embarca sem medo em sua aventura rumo a uma tragédia de proporções gigantescas. E, se deixar a racionalidade de lado, provavelmente irá se emocionar às lágrimas com seu desfecho.

"Titanic" é um clássico de nascimento. Poucas vezes o cinema americano conseguiu unir com tanto talento uma narrativa clássica, uma história real, personagens carismáticos e uma técnica tão brilhante. Falar sobre seu efeito junto à cultura mundial e analisar friamente suas qualidades e defeitos (que existem, é claro) não interfere em absoluto em sua importância na história da sétima arte. É um filme de cabeceira para românticos inveterados.

Tuesday, April 26, 2011

MELHOR É IMPOSSÍVEL


MELHOR É IMPOSSÍVEL (As good as it gets, 1997, TriStar Pictures/Gracie Films, 139min) Direção: James L. Brooks. Roteiro: James L. Brooks, Mark Andrus, história de Mark Andrus. Fotografia: John Bailey. Montagem: Richard Marks. Música: Hans Zimmer. Figurino: Molly Maginnis. Direção de arte/cenários: Bill Brzeski/Clay A. Griffith. Produção executiva: Laura Ziskin, Laurence Mark, Richard Sakai. Produção: James L. Brooks, Bridget Johnson. Kristi Zea. Elenco: Jack Nicholson, Helen Hunt, Greg Kinnear, Cuba Gooding Jr., Shirley Knight, Harold Ramis, Timothy Olyphant, Jamie Kennedy. Estreia: 25/12/97

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Jack Nicholson), Atriz (Helen Hunt), Ator Coadjuvante (Greg Kinnear), Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Original/Comédia ou Musical
Vencedor de 2 Oscar: Ator (Jack Nicholson), Atriz (Helen Hunt)
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Comédia ou Musical, Ator/Comédia ou Musical (Jack Nicholson), Atriz/Comédia ou Musical (Helen Hunt)

Em 1983, o cineasta James L. Brooks fez a festa na cerimônia do Oscar com "Laços de ternura", um misto de comédia de costumes com melodrama familiar que arrancou elogios da crítica e lágrimas do público. Em 1988, ele falhou em conseguir um bicampeonato com "Nos bastidores da notícia", uma comédia romântica ácida que criticava a falta de ética nos telejornais. Levou quase uma década - período em que criou a mega bem-sucedida série de TV "Os Simpsons" - até que Brooks voltasse a ver um filho seu na disputa pela estatueta mais cobiçada de Hollywood. E quando isso aconteceu, não poderia ter sido de melhor forma. "Melhor é impossível" é um filme adorável, que mais uma vez mostra o dom de seu diretor/roteirista/produtor em equilibrar drama e comédia em histórias humanas com personagens extremamente próximas da realidade. Indicado a 6 Oscar - incluindo Melhor Filme mas não Melhor Diretor - o ... longa de Brooks bateu de frente com "Titanic", mas ainda assim seus intérpretes não podem se queixar da recepção que tiveram junto aos membros da Academia. Tanto Jack Nicholson quanto Helen Hunt, seus protagonistas, foram (merecidamente) oscarizados.

"Melhor é impossível" segue o estilo elegante e simples de Brooks, que faz rir de situações cotidianas sem forçar gargalhadas e cria personagens que falam ao público de maneira simples. Os diálogos inteligentes/engraçados/dramáticos nunca soam como diálogos de filme e sim como conversas de gente normal. As personagens parecem pessoas comuns (ainda que entre elas encontre-se um escritor famoso e um artista plástico gay). E as situações, mesmo que pareçam um tanto forçadas, funcionam perfeitamente a seus objetivos dramáticos.

 

Melvin Udall (Jack Nicholson em mais um papel antológico de sua carreira) é um escritor bem-sucedido profissionalmente mas com sérios problemas em relação à convivência com outros seres humanos. Sofrendo de transtorno obsessivo-compulsivo, ele vive recluso em seu apartamento luxuoso, vivendo em constante conflito com os vizinhos, em especial Simon (Greg Kinnear, indicado ao Oscar de ator coadjuvante), artista plástico homossexual por quem ele nutre uma antipatia gratuita. Dono de rígidas regras de comportamento, Melvin lava as mãos com água fervendo, pula as rachaduras das ruas de Nova York e tranca a porta de casa dezenas de vezes antes de dar-se por satisfeito e leva sua vida confortavelmente. Sua rotina necessária é quebrada quando, ao frequentar o mesmo restaurante de sempre e sentar-se à mesma mesa de sempre, ele descobre que sua garçonete preferida, a doce Carol (Helen Hunt) faltou ao trabalho para cuidar do filho pequeno, portador de uma doença crônica. Para não perder seu hábito adquirido, Melvin resolve pagar o tratamento da criança e se descobre apaixonado por Carol, uma mulher batalhadora que esconde sua carência e seu romantismo por trás de uma máscara de força e estoicismo. Depois que Simon é violentamente espancado por um grupo de drogados, Carol convence Melvin a viajar com ele até a casa de sua família e um real relacionamento de amizade e carinho surge entre eles, aproximando-o da mulher que ama.

Ainda que a trama acene com a possibilidade de um forte melodrama ou situações forçadas por um roteiro necessitado de emoções, "Melhor é impossível" paira acima dos clichês por uma razão muito simples: tem um diálogo direto com o espectador, não tenta falar bonito nem busca complexidades psicológicas. A doença de Melvin - que tornou-se bem mais conhecida após o filme - é apenas um elemento a mais na trama, não ocupando mais espaço do que o necessário (assim como os problemas de saúde do filho de Carol e das relações familiares de Simon). O que interessa a Brooks é a interrelação entre as personagens, como suas vidas podem ser transformadas quando em contato com outras. E nisso o roteiro é pródigo, ainda que muitos considerem um tanto "simples demais". Na verdade, essa simplicidade é que faz dele tão especial. O público se identifica com as personagens e é aí que reside seu charme maior. E ter um elenco como o escalado pelo diretor ajuda bastante.
 
Em mais uma prova de que segundas opções podem ser extremamente benéficas em termos hollywoodianos, o elenco de "Melhor é impossível" que encantou público e crítica poderia não ter feito o filme. Melvin Udall, que acabou tornando-se um dos papéis mais representativos da carreira de Jack Nicholson (que levou um terceiro e justo Oscar), foi oferecido inicialmente a John Travolta. Carol, que elevou o status de Helen Hunt (em uma atuação delicada e sutil) de atriz de TV a estrela de cinema, poderia ter ido parar nas mãos de Holly Hunter ou (Deus nos proteja!) Courtney Love. E Simon, que fez de Greg Kinnear um ator respeitado depois de bombas com a refilmagem de "Sabrina", com Julia Ormond, quase esteve nas mãos de John Cusack, que saiu do projeto devido a seus compromissos com a comédia de humor negro "Matador em conflito". Juntos, os três apresentam uma química invejável, o que reitera a teoria de que certos filmes tem a hora certa de acontecer.

"Melhor é impossível" é um filme delicioso, sofisticado e que se pode assistir com prazer diversas vezes. Seu alto-astral e sua inteligência, aliados à inconfundível música de Hans Zimmer e a seu elenco impecável fazem dele um clássico dos anos 90. Poucas vezes um título soou tão adequado.

Sunday, April 24, 2011

MERA COINCIDÊNCIA

MERA COINCIDÊNCIA (Wag the dog, 1997, New Line Cinema, 97min) Direção: Barry Levinson. Roteiro: Hilary Henkin, David Mamet, livro "American hero", de Larry Beinhart. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Stu Linder. Música: Mark Knopfler. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Robert Greenfield. Produção executiva: Michael De Luca, Claire Rudnick Polstein, Ezra Swerdlow. Produção: Robert De Niro, Barry Levinson, Jane Rosenthal. Elenco: Dustin Hoffman, Robert De Niro, Anne Heche, Denis Leary, Willie Nelson, Kirsten Dunst, Woody Harrelson, William H. Macy, James Belushi. Estreia: 25/12/97

2 indicações ao Oscar: Ator (Dustin Hoffman), Roteiro Adaptado
Prêmio Especial do Júri no Festival de Berlim

A vida imita a arte, a arte imita a vida ou o mundo da política é tão previsível que nada mais surpreende o eleitor? Essa é a dúvida que fica no ar após uma sessão de "Mera coincidência", lançado pelo premiado Barry Levinson em dezembro de 1997, no auge do escândalo envolvendo o presidente Bill Clinton e a estagiária da Casa Branca Monica Lewinsky. Porém, apesar do timing perfeito - que beneficiou o filme, m termos de badalação midiática - e da extrema semelhança entre ficção e acontecimentos reais, tudo não passou exatamente de, com o perdão do trocadilho, mera coincidência. Quando Clinton chegou às manchetes, acusado de manter um caso extra-conjugal com Lewinsky, o trabalho de Levinson já estava em fase de pós-produção. Quer se acredite ou não, "Mera coincidência" (título mais apropriado à ironia da questão em si do que ao filme propriamente dito) não é inspirado no governo do marido de Hilary. E isso faz
dele ainda mais desconcertante.

Quando o filme começa, o presidente dos EUA está em uma acirrada campanha pela reeleição. Esta campanha - amparada na velha frase Pra que trocar de cavalos no meio da corrida?, oriunda de um discurso de Abraham Lincoln - sofre um abalo considerável quando uma estudante acusa o chefe máximo da nação de tê-la assediado sexualmente. Desesperados para diminuir o estrago, os assessores de marketing da Casa Branca apelam para Conrad (Robert De Niro), especializado em resolver problemas. Conrad, raposa velha dos meios políticos sabe que somente uma coisa rivaliza em interesse com escândalos sexuais uma guerra. Porém, como o país está passando por um período de paz, essa guerra terá que ser criada. Para isso, é chamado Stanley Motss (Dustin Hoffman), um produtor hollywoodiano. Talentoso e criativo, Motss praticamente inventa uma guerra - com direito a imagens falsas, heróis viris, vítimas inocentes e até mesmo uma cançã-tema. Em poucos dias, toda a atenção dos eleitores está nas notícias sobre o conflito entre EUA e Albânia (que não tem a menor ideia do que está acontecendo).



"Mera coincidência" é uma comédia de ironias. Desperta sorrisos, nunca gargalhadas. O cérebro ri mais do que a boca, uma vez que as piadas não são sideradas ou explícitas. Tudo é muito sutil no roteiro inteligente a cargo do dramaturgo David Mamet e de Hilary Henkin - adaptando um romance de Larry Beinhart. As situações criadas por Beinhart são muito mais engraçadas do que as (poucas) piadas, que fazem todo o sentido do mundo para uma audiência acostumada ao mais ridículos absurdos providos pela televisão. A trama, repleta de reviravoltas e surpresas inacredítáveis (mas muito verossímeis) leva as personagens - e o espectador - a situações engraçadíssimas (o herói de guerra escolhido, por exemplo, é um condenado por estuprar uma freira). Até mesmo a canção criada para "embalar" a guerra não deixa de ser hilária, por lembrar nitidamente eventos como os "We are the world" da vida.

Filmado durante um intervalo nas filmagens de "Esfera" - também dirigido por Levinson e estrelado por Hoffman - "Mera coincidência" tem um resultado bastante superior à chata ficção científica do cineasta. É um humor inteligente, adulto e politicamente incorreto. Um filme para ser descoberto.

Friday, April 22, 2011

PÂNICO 2

PÂNICO 2 (Scream 2, 1997, Dimension Films, 120min) Direção: Wes Craven. Roteiro: Kevin Williamson. Fotografia: Peter Deming. Montagem: Patrick Lussier. Música: Marco Beltrami. Figurino: Kathleen Detoro. Direção de arte/cenários: Bob Ziembicki/Bob Kensiger. Produção executiva: Harvey Weinstein, Kevin Williamson, Bob Weinstein. Produção: Cathy Konrad, Marianne Maddalena. Elenco: Neve Campbell, Courteney Cox, David Arquette, Jerry O'Connell, Jada Pinket-Smith, Omar Epps, Liev Schreiber, Heather Graham, Timothy Olyphant, Sarah Michelle Gellar, Joshua Jackson, Jamie Kennedy, Tori Spelling, Portia de Rossi, Rebecca Gayhart. Estreia: 12/12/97

Em 1996, cansado de ver sua mais famosa criação - o cruel assassino Freddy Krueger - humilhado em inúmeras sequências cada vez mais absurdas de seu "A hora do pesadelo", o cineasta Wes Craven resolveu virar o jogo. De posse de um roteiro repleto de sustos e violência misturados com referências pop e brincadeiras a respeito do próprio gênero terror, "Pânico" virou sucesso imediato, especialmente entre a plateia jovem, sedenta por sair da mesmice do estilo. Entusiasmados com a bilheteria de mais de 160 milhões de dólares, Craven e o roteirista Kevin Williamson - criador da série de TV "Dawson's Creek" - fizeram o que qualquer um com um mínimo tino comercial faria: uma sequência. Sendo assim, menos de dois anos depois da estreia do primeiro capítulo, "Pânico 2" chegava às telas com o objetivo de amealhar ainda mais fãs graças a seu misterioso assassino mascarado.

Com um atraso de dois anos em relação a seu lançamento americano, "Pânico 2" chegou ao Brasil em ... Lembrando que, à época, não havia a possibilidade de baixar filmes, a expectativa dos fãs era enorme. E eles não se decepcionaram. Cientes da faixa etária e dos anseios de seu público-alvo, Craven e Williamson rechearam "Pânico 2" de ainda mais mortes, inúmeras piadas a respeito do gênero e, melhor ainda, mais suspense. Levando-se em consideração de que o "fator-surpresa" não estava mais presente (acontecimento comum em continuações), o roteirista e o diretor apostaram naquilo que se transformaria na marca registrada da série: apesar de não poupar a audiência de sangue e violência, nenhum dos filmes se leva tão a sério como poderia. E é justamente aí, nessas suas auto-crítica e auto-gozação que o filme ganha o espectador (ao menos aquele que se dispõe a dispender duas horas de seu tempo assistindo a uma bobagem descompromissada).



E bobagem descompromissada é exatamente o que "Pânico 2" é (e o primeiro e os seguintes, também o são). Quem procura elocubrações psicológicas, coerências psiquiátricas e personagens bem construídos que passe bem longe da série. "Pânico 2" é o típico filme que merece ser visto com muita pipoca e refrigerante, de preferência junto a uma plateia disposta a levar alguns sustos por 120 minutos. Deixando a credibilidade e o senso crítico em um canto quieto do cérebro é possível divertir-se bastante.

Depois dos trágicos acontecimentos do primeiro filme, a jovem Sidney Prescott (a inexpressiva Neve Campbell) está longe de sua cidade natal, Woodsboro, dedicando-se a um curso de teatro e tentando levar sua vida. No entanto, seu desejo de esquecer a violência de seu passado mostra-se em vão quando um misterioso assassino mascarado começa a imitar os crimes anteriores. Contando com a ajuda de seus amigos - o detetive Dwight (David Arquette), a jornalista Gale Wheaters (Courteney Cox) e o estudante (Jamie Kennedy) - Sidney tenta desmascarar o criminoso, que ataca cruelmente suas vítimas, todas elas bastante próximas à estudante. Quem parece estar por trás dos homicídios é (Liev Schreiber), acusado erroneamente por Sidney, no passado, de ter morto sua mãe.

"Pânico 2" já começa muito bem, ecoando o primeiro filme, em uma sequência inicial que dá o tom exato do que vem pela frente: um casal de jovens negros (vividos por Jada Pinkett e Omar Epps) são assassinados durante a pré-estreia do filme inspirado nos acontecimentos do primeiro capítulo (o uso da meta-linguagem é uma constante da série). A partir daí, o roteiro se encarrega de matar uma meia dúzia de adolescentes, sempre com muita violência e sangue, para deleite do público. Enquanto espalha pistas falsas sobre a identidade do assassino, Craven aproveita para falar mal de continuações, estabelecer clichês do gênero e até mesmo brincar com acontecimentos reais acontecidos com o elenco (como a situação de Courteney Cox ter tido fotos de seu rosto montadas sobre um falso corpo nu). Equilibrando essas piadas quase internas com cenas de muito suspense, o filme segue fluentemente até seu final que, sim, é decepcionante.

Filmado em absoluto segredo (os próprios atores só souberam o nome do assassino pouco antes das filmagens da cena), o final de "Pânico 2" não deixa de ser anti-climático, ainda que coerente com sua estética do exagero. Mesmo assim, é pouco provável que vá decepcionar àqueles que procuram assustar-se no escurinho do cinema (ou da sala de estar). Para os fãs do gênero, é um filme indispensável, como toda a série.

Wednesday, April 20, 2011

GÊNIO INDOMÁVEL

GÊNIO INDOMÁVEL (Good Will Hunting, 1997, Miramax Films, 126min) Direção: Gus Van Sant. Roteiro: Matt Damon, Ben Affleck. Fotografia: Jean Yves Escoffier. Montagem: Pietro Scalia. Música: Danny Elfman. Figurino: Beatrix Aruna Pasztor. Direção de arte/cenários: Melissa Stewart/Jaro Dick. Produção executiva: Su Armstrong, Jonathan Gordon, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Lawrence Bender. Elenco: Matt Damon, Robin Williams, Minnie Driver, Stellan Skarsgard, Ben Affleck, Casey Affleck, Cole Hauser. Estreia: 05/12/97

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Gus Van Sant), Ator (Matt Damon), Ator Coadjuvante (Robin Williams), Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Canção ("Miss Misery")
Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Robin Williams), Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Roteiro
Vencedor do SAG Awards de Ator Coadjuvante (Robin Williams)

De vez em quando, Hollywood lembra que o público, tão prestimoso em correr às salas exibidoras para testemunhar cenas de ação e violência aos borbotões, também gosta de acompanhar histórias delicadas sobre gente normal cuja maior missão - ao invés de salvar o mundo de uma ameaça terrorista - é definir os rumos que sua vida pessoal irá tomar em relação ao futuro. E é sobre  pessoas normais, comuns, quase invisíveis que trata "Gênio indomável", uma das maiores surpresas da temporada 1997. Escrito por Matt Damon e Ben Affleck, dois atores até então desconhecidos e com pouco mais de 20 anos (que o escreveram como forma de fazer acontecer suas carreiras), o drama produzido pela Miramax Films - o maior fabricante de oscarizáveis da década - é um típico produto feito para encantar os eleitores da Academia e o público adulto fã de boas histórias. Não é inesquecível, mas cumpre muito bem o que promete.

Dando início a uma carreira bem-sucedida, Matt Damon - que concorreu ao Oscar contra veteranos do porte de Dustin Hoffman e Jack Nicholson em uma atuação contida mas muito convincente - vive o protagonista, Will Hunting, um jovem desajustado que, vítima de lares adotivos desfuncionais, expressa toda sua raiva em brigas de rua com seu grupo de amigos. Figurinha fácil nas ocorrências policiais, ele é salvo de ficar na cadeia por Gerald Lambeau (Stelan Skarsgaard), um professor de matemática premiado com medalhas de honra por seu talento. Impressionado com a inteligência extraordinária de Hunting - que trabalha como faxineiro na instituição mas é capaz de resolver os mais complexos problemas matemáticos -  Lambeau se compromete diante do juiz a ajudar o rapaz a encontrar um caminho mais saudável na vida. Para isso, ele conta com a ajuda de Sean Maguire (Robin Williams), um terapeuta que conhece desde a juventude. Viúvo e recluso, Sean tenta fazer com que Will aprenda a lidar com sua fúria inerente e a direcione para uma vida menos sofrida e mais realizada, deixando de lado seus traumas de infância.  Enquanto isso, Will começa a se envolver com a doce Skylar (Minnie Driver), uma jovem estudante de Medicina que tenta romper a barreira emocional que o rodeia.



O roteiro de Damon e Affleck - vencedor de um Oscar questionável, uma vez que o disputou com "Boogie Nights" e "Melhor é Impossível" - não tenta ser espetacular. É redondo, é simples e, acima de tudo, é humano. Mesmo que esbarre em soluções um tanto fáceis e exagere na genialidade de seu protagonista, é um filme que prescinde de elementos outros além de diálogos e atores. Os diálogos são fluentes, inocentes (nas relações entre Will e seus amigos) e por vezes bastante interessantes (como nas cenas entre o protagonista e Sean). Nunca chegam a ser brilhantes, mas são muito superiores à média. E além de tudo, a trama paralela, que envolve a rivalidade entre Lambeau e Maguire é tão poderosa quanto a história principal, graças principalmente às atuações de Stelan Skarsgaard e Robin Williams, o último mais uma vez emprestando um carisma gigantesco a uma personagem - e que lhe rendeu um carinhoso Oscar de ator coadjuvante.
A Academia, aliás, rendeu-se incondicionalmente a "Gênio indomável". Indicado a 9 Oscar - inclusive filme, direção e uma inexplicável lembrança para Minnie Driver como coadjuvante feminina - e premiado com 2 estatuetas (além de Williams o roteiro também foi contemplado), o filme deu ao até então outsider Gus Van Sant a legitimização da indústria. Logicamente, a ousadia presente em filmes como "Drugstore Cowboy" e "Garotos de programa" nem passa perto desse seu filme família, o que incomodou profundamente seus fãs - que ainda teriam que aguentar seu desnecessário remake de "Psicose" e o ultra-meloso "Procurando Forrester". A direção de "Gênio indomável" é quase burocrática, nada inventiva e muito menos corajosa (em sua defesa é preciso dizer que o roteiro também não ajuda nesse quesito...), mas é elegante e dotada de um belo ritmo, além de não atrapalhar no desenvolvimento da história. É um trabalho apenas correto, que não justifica sua indicação ao Oscar (principalmente se levarmos em conta que Paul Thomas Anderson, de "Boogie nights", ficou de fora na categoria).

Enfim, não é preciso ter um cérebro privilegiado para perceber, em "Gênio indomável", uma profusão de clichês. Porém, da forma como colocados pelos roteiristas e pelo experiente Van Sant, eles soam não como lugares-comuns que incomodam e constrangem. Muito pelo contrário, os clichês de certa forma dão unidade ao filme, são como uma espécie de abrigo contra criatividades exageradas. "Gênio indomável" é caloroso, terno e honesto. É um belo conto sobre pessoas corajosas que lutam pelo direito a transformar o seu destino. E por isso emociona tanta gente.

Tuesday, April 19, 2011

AMISTAD

AMISTAD (Amistad, 1997, Dreamworks SKG, 155min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: David Franzoni. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Ruth E. Carter. Direção de arte/cenários: Rick Carter/Rosemary Brandenburg. Produção executiva: Laurie MacDonald, Walter Parkes. Produção: Debbie Allen, Steven Spielberg, Colin Wilson. Elenco: Matthew McConaughey, Morgan Freeman, Djimon Hounson, Anthony Hopkins, Nigel Hawthorne, David Paymer, Pete Postletwhaite, Stellan Skarsgard, Anna Paquin, Paul Guilfoyle, Xander Berkeley, Arliss Howard. Estreia: 04/12/97

4 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Anthony Hopkins), Fotografia, Trilha Sonora Original/Drama, Figurino

Chega a ser inacreditável que o diretor de "Amistad" seja o mesmo Steven Spielberg que assinou filmes como "Os caçadores da Arca Perdida" e "ET, o extra-terrestre", filmes que, apesar de escapistas e estritamente comerciais, tinham a noção exata de ritmo. Arrastado, monotóno e em muitos momentos simplesmente desinteressante, o longa de Spielberg é uma prova cabal de que até mesmo os aparentemente infalíveis tem seus momentos equivocados.

Feito com a intenção de abocanhar uma penca de Oscar - objetivo que Spielberg nunca deixou de lado mesmo depois do sucesso de "A lista de Schindler" - "Amistad" decepcionou tanto aqueles que esperavam mais uma obra-prima do cineasta quanto os fãs de dramas épicos históricos, uma vez que não atinge o mesmo nível emocional de seus melhores filmes. Inspirado em uma história real - retratada no livro "Echo of lions", cuja autora Barbara Chase-Riboud moveu um processo contra os produtores - é um filme que tinha um enorme potencial, mas que ficou muito aquém de suas possibilidades. Culpa da opção de Spielberg em concentrar-se nas maquinações políticas da trama ao invés de seguir seu habitual caminho de comover o público.

A sequência inicial é poderosa e impressiona pelo cuidado visual (cortesia da belíssima fotografia de Janusz Kaminski e pela forte trilha sonora de John Williams): o ano é 1839 e o navio Amistad, indo de Cuba em direção aos EUA vê sua carga (escravos negros viajando para serem vendidos) iniciar uma violenta rebelião. Liderados por Cinque (Djimon Houson) - que deixou em sua terra natal uma história de crueldade e sofrimento contra sua família - os negros matam a maior parte da tripulação e exigem dos sobreviventes que os levem de volta para casa. Enganados, eles acabam aportando nos EUA, onde são presos acusados de assassinato. Sem falar uma palavra de inglês, eles vem seu caso ser assumido pelo advogado abolicionista Roger Sherman Baldwin (Matthew McConaughey). Aos poucos o caso ganha contornos outros - com vários países alegando a propriedade dos réus - e sofre uma reviravolta com a adesão do ex-presidente John Quincy Adams (Anthony Hopkins), também um fervoroso político anti-escravagista.



Tecnicamente "Amistad" é admirável como qualquer produto com a griffe de Spielberg. Da fotografia espetacular (que vai do escuro claustrofóbico às explosivas cores libertárias) à reconstituição de época detalhista, tudo é de encher os olhos. O elenco super estelar que desfila pela tela também chama a atenção pela diversidade: estão presentes desde veteranos consagrados como Anthony Hopkins (que concorreu ao Oscar por sua pequena participação) e Morgan Freeman até jovens promessas, como é o caso de Matthew McConaughey e de Djimon Houson (modelo sul-africano que ficou com o papel recusado por Denzel Washington e Cuba Gooding Jr. e que impressiona pela expressividade corporal). A trilha sonora de John Williams mais uma vez é adequada e delicada. Mas falta o essencial ao filme: coração.

É difícil de entender como Spielberg - que tem no currículo o sensível "A cor púrpura", que também toca na ferida do racismo - errou tanto a mão em "Amistad". Nem mesmo as cenas com mais potencial dramático (o passado de Cinque e a maneira cruel com que a tripulação tratava os escravos) conseguem emocionar a plateia, sedenta por boas cenas de impacto. Mesmo quando a plateia consegue ser arrebatada, a sensação é tão efêmera que não justifica duas horas e meia de duração. Isso sem falar em longas cenas em que as personagens discutem política americana do século XIX, que, mais do que interesse, desperta somente sono.

Em resumo, "Amistad" é um filme lindamente fotografado, com uma trama socialmente importante, realizado com todos os recursos milionários de Hollywood. Mas lhe falta o essencial: alma. E em um filme que fala sobre um tema tão caro quanto liberdade, isso é um pecado mortal.

Monday, April 18, 2011

ADVOGADO DO DIABO

ADVOGADO DO DIABO (Devil's advocate, 1997, Warner Bros/Regency Enterprises, 144min) Direção: Taylor Hackford. Roteiro: Jonathan Lemkin, Tony Gilroy, romance de Andrew Neiderman. Fotografia: Andrzej Bartkowiak. Montagem: Mark Warner. Música: James Newton Howard. Figurino: Judianna Makovsky. Direção de arte/cenários: Bruno Rubeo/Roberta Holinko. Produção executiva: Barry Bernardi, Taylor Hackford, Erwin Stoff, Michael Tadross, Steve White. Produção: Anne Kopelson, Arnold Kopelson, Arnon Milchan. Elenco: Al Pacino, Keanu Reeves, Charlize Theron, Judith Ivey, Jeffrey Jones, Delroy Lindo, Connie Nielsen, Craig T. Nelson, Heather Matarazzo. Estreia: 17/10/97

Representantes de uma das classes mais respeitadas e paradoxalmente mais detestadas dos EUA, os advogados são personagens recorrentes no cinema, normalmente como exemplos de idealismo (ao menos quando retratados pelo escritor John Grisham, ele próprio formado em Direito). O lado escuso dos representantes da lei (normalmente relegados aos vilões) é o ponto de partida de "Advogado do diabo", um aterrador suspense baseado em um livro de Andrew Neiderman. No filme, dirigido por Taylor Hackford, não há heróis de caráter impoluto e sentimentos nobres. O bem é representado por um jovem advogado ambicioso vivido por Keanu Reeves e o mal... bem, o mal é representado por Satanás em pessoa, na pele de um poderoso e implacável Al Pacino.

Em desenvolvimento desde 1994, quando seria dirigido por Joel Schumacher e estrelado por Brad Pitt, "Advogado do diabo" encontrou em Taylor Hackford o diretor ideal. Discreto e elegante, ele orquestrou uma sinfonia de horrores com a delicadeza de um ourives, ainda que suas cenas (e principalmente o que acontece em consequência delas) tenham um efeito devastador sobre suas personagens. Ao fugir do óbvio (leia-se efeitos visuais exagerados e maquiagem nauseante), Hackford ganha em credibilidade e principalmente seriedade. Nadando contra a maré - que assustava a audiência sem o menor traço de sutileza - ele prefere tirar o sono do espectador colocando em sua mente questões muito mais intensas. Em um tempo onde a fama, o poder e o dinheiro são as pedras fundamentais da sociedade, até onde se pode ir em busca de atingir a tão sonhada "felicidade"? E essa busca desenfreada pelo sucesso justifica a perda daquilo que faz de todos nós seres humanos, ou seja, a alma??

O jovem Kevin Lomax (Keanu Reeves) é um ambicioso advogado que vive em uma pequena cidade do interior dos EUA. Seu talento em ganhar até mesmo os casos considerados perdidos chama a atenção de uma poderosa firma de advocacia de Nova York, comandada pelo misterioso John Milton (Al Pacino). Seduzido por todo um mundo novo de sofisticação, dinheiro, poder e luxo, ele junta-se ao conglomerado de Milton, com braços por todo o planeta. Enquanto se dedica cada vez mais a casos bastante polêmicos e complicados - incluindo um homícido cujo cliente é claramente culpado - Kevin passa a negligenciar seu relacionamento com a bela esposa, Mary Ann (Charlize Theron), que, obcecada em dar um filho ao marido, mergulha gradativamente em um grave desequilíbrio psicológico.

A quase literal descida de Kevin ao inferno - fazendo de sua esposa a maior vítima de sua ambição desmedida - é narrada com elegância por Taylor Hackford, que opta por construir uma tensão quase palpável em detrimento de um festival de violência. A forma com que ele empurra seu protagonista em direção ao lado mais negro de sua alma é sutil, marcada por sustos esparsos mas consistentes (nada de gatos pulando do vazio, por exemplo) e um visual deslumbrante. A fotografia de Andrzej Bartkowiak foge do lugar-comum ao mostrar uma Nova York luminosa e nunca sombria e opressiva como se espera em um filme do gênero. Nem mesmo a música de James Newton Howard é explicitamente agressiva, sendo percebida em toda sua opulência somente no clímax, quando as origens de Kevin finalmente são explicadas e o filme apresenta uma reviravolta de telenovela que quase enfraquece seu resultado final.

O pacto mefistofélico entre Kevin e John Milton - batizado em homenagem ao autor de Paraíso Perdido - é tratado de maneira adulta pelo roteiro, que não se furta a criticar nem a falta de ética dos advogados nem a imprensa marrom. Felizmente é tudo muito sutil, realizado com bom-gosto e principalmente com o cuidado de não ofender a inteligência da plateia. Até mesmo quando recorre ao grotesco Hackford o faz de forma a não parecer a seus congêneres menos bem-sucedidos. Tudo em "Advogado do diabo" é visualmente apurado e isso faz toda a diferença (é de encher os olhos, por exemplo, a sequência em que Milton se revela a Kevin, onde uma escultura na parede do escritório se movimenta delicadamente). O único senão do filme, no entanto, é crucial e, se não estraga tudo, ao menos enfraquece o que poderia ser ainda melhor. Seu nome: Keanu Reeves.

É de se imaginar como "Advogado do diabo" poderia ter ficado caso Edward Norton (testado para o papel) ou Brad Pitt (escolha inicial dos produtores) fossem os protagonistas. A interpretação de Reeves é de uma fragilidade que incomoda, em especial quando comparada com as de seus colegas. Se Al Pacino dispensa comentários com uma composição acertada de John Milton (assim batizado em homenagem ao autor de "Paraíso perdido"), é a quase estreante Charlize Theron quem rouba toda a atenção do espectador. Belíssima, ela não se permite confiar apenas no sorriso e no corpo e entrega uma atuação visceral, que explode em uma sensacional cena dentro de uma igreja (onde fica completamente nua mas sem nenhum viés erótico). A delicadeza com que explora o desequilíbrio de sua Mary Ann demonstra que a sul-africana já dava sinais claros de seu grande talento, que seria recompensado em poucos anos com um Oscar pelo filme "Monster, desejo assassino".

"Advogado do diabo" é um filme de suspense feito para adultos e como tal merece ser admirado. Não pretende assustar a plateia com artifícios banais, mas sim com ideias (o que é muito mais apavorante). E é pouco provável que o espectador não se sinta satisfeito quando surgem os créditos finais ao som de "Paint in black", dos Rolling Stones. Um filme de suspense que faz pensar. Raridade!